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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Trinta e cinco livros traduzidos e jogados no lixo!

Programas de memória de tradução servem para tradução literária? Embora muita gente traduza livros, em geral, e literatura, em particular, com memória de tradução (e, pasmem!, se saem bem), há ainda muitos que relutam em usar esses programas, por achar que para eles, para o serviço que fazem, de nada servem .

O medo não se restringe ao pessoal que traduz livros, entretanto.

Tenho uma amiga, boa amiga, excelente amiga, mulher extremamente inteligente que, durante dois anos e meio, me explicou, ao menos uma vez por semana, porque esses programas não serviam para ela. Explicava com todos os pormenores e muita verve, porque inteligência não lhe falta. Demonstrava, por "a" mais "b", que o investimento não compensava. Eu sempre alegando que ela falava do que não sabia. Um dia, para me dar prova cabal da minha estultice, instalou WordFast (em demo, que é grátis) e começou a trabalhar, convicta de que se estivesse fazendo as coisas lá do jeito dela, à unha, no MSWord, tudo sairia melhor e mais rápido.

Hoje, anos depois, rimos da situação, porque hoje ela virou wordfasteira emérita.

Na verdade, a tradução literária exige menos dos programas de memória de tradução do que a técnica, porque tradutores técnicos muitas vezes lidam com problemas graves de diagramação, a que os tradutores de livros (não só os literários) estão normalmente imunes. Então, os tradutores de livros podem, em geral, se sair 100% bem sem nem saber o que é a praga do Trados TagEditor, uma maldição de satanás que aflige a muita gente que faz tradução técnica.

Um fato geralmente ignorado por quem NÃO usa memórias de tradução é que elas não obrigam o tradutor a nada. Ou calam, ou fazem sugestões baseadas no que o tradutor já agregou à memória. Neste caso, marcam as sugestões como tal e NÃO continuam a tarefa automaticamente, sem que o tradutor emende, revise e aprove a proposta. Quer dizer, a memória de tradução JAMAIS prejudica o trabalho, embora, em certas circunstâncias, possa não ajudar muito.

Outro fato pouco conhecido é que memórias de tradução trabalham com períodos, não com palavras, embora usem, também, glossários. Isto significa que o fato de que uma palavra estrangeira possa ter 12 possíveis traduções em português não prejudica em nada, porque o programa sempre trabalha com os contextos. Então, se você traduziu "the book is brown", como "o livro é marrom", ao aparecer "we will book into the hotel before lunch", o programa NÃO vai oferecer "livro" como tradução, porque o contexto é diferente. Mas vai sugerir "livro" se a frase for "the book is red", porque o contexto é semelhante.

(Observação da Kelli, compartilhada por outras pessoas: a primeira vez em que um período aparece já traduzido, quando vemos que a necessidade de modificar a tradução sugerida é pouca ou nenhuma, é emocionante e inesquecível. Só isso já compensa o valor pago pelo programa. — Comentário do Danilo à observação da Kelli: melhor ainda quado você fica com aquela lembrança de que um dia já traduziu uma certa expressãozinha de um jeito maneiro, mas não se lembra, consulta a sua memória de tradução e ela sai inteirinha de lá.)

Agora, posso dar um exemplo bem literário?

Imagine um tradutor de literatura, que traduza, digamos, duas mil palavras por dia, 22 dias por mês, onze meses por ano, o que não chega a ser um exagero. No fim de um ano de trabalho, terá traduzido 528.000 palavras, certo? Imagine que esse tradutor tenha usado memória de tradução. No fim de um ano, terá um corpus paralelo, nas duas línguas que traduz, de mais de um milhão de palavras (528.000 × 2 = 1.056.000), que pode consultar à vontade e que, evidentemente, vai aumentando dia a dia, à medida que o tradutor trabalha. Agora, pergunto eu, quem acha um corpus desse inútil? É certo que se você processar um novo livro contra a sua memória, vai aparecer muito pouco: dificilmente vão aparecer períodos iguais ou semelhantes. Mas a possibilidade de consulta a traduções antigas, a soluções dadas em momentos anteriores, é preciosa.

Uma vez, dei um curso de WF para um professor de tradução que também traduzia literatura para algumas editoras. Depois de uma hora, ele exclamou "35 livros traduzidos e jogados no lixo", porque se deu conta do valor desse corpus.

Para terminar esta lengalenga entusiasmada, cabe lembrar que os programas de memória de tradução também sofrem muito pela confusão com os de tradução automática, que são coisa bem diferente, e com a impressão de que a única coisa que fazem é criar e processar memórias de tradução. No princípio, de fato era. Mas, agora, todos eles fazem muito mais que isso.

Ah, sim, se você receber o livro em papel, vai ter que digitalizar – e tem muita gente que acha que o trabalho compensa. Mas, aos poucos, muito aos poucos, as editoras estão começando a mandar os textos em MSWord. No devido tempo, vão mandar os arquivos de Quark, InDesign e PageMaker. Aí, quero ver.

Um conselho final: eu, particularmente, acho Wordfast a melhor porta de entrada no mundo dessas ferramentas, mas tem gente que detesta. Por exemplo, temos um colega, tradutor literário de primeiríssima linha, que acha WF péssimo, mas adora MemoQ (um excelente programa de que eu também gosto muito). Outros se ajeitam melhor com DVX ou até Trados, de que não gosto. Cabe a cada um de nós fazer uma pesquisa, testar um programa e depois o outro, antes de escolher. Mas não vá dizendo assim, logo de cara, que não serve para nada. Era isso o que diziam os cocheiros quando viram o caro sem cavalos.

Esta nota se baseia em uma resposta do Danilo a uma pergunta postada em uma lista de discussão. Passou, depois, pelo crivo de Kelli Semolini.

Um comentário:

Tom Fernandes disse...

Quem dera um dia exista programa semelhante para editores de texto, hehe. Mesmo assim, excelente texto, excelente dica.