segunda-feira, 13 de julho de 2009
Você Conhece o Professor Horrendo?
Muitas vezes, Professor Horrendo tem razão: de fato, o tradutor fez uma escolha infeliz. Outras vezes, entretanto, está totalmente errado, porque tradução, por natureza, por definição, inclui um tanto de distorção e, para minimizar o efeito negativo dessa distorção, o tradutor faz certas escolhas, privilegiando o que acha importante em detrimento do que acha irrelevante. Vem lá o Professor Horrendo e aponta que em tal parágrafo, se o tradutor tivesse escolhido "X" em vez de "Y", teria preservado melhor um determinado elemento do original.
Teria mesmo. Por outro lado, teria prejudicado a transmissão de outro elemento, que o tradutor considerou mais importante: ou um ou outro.
Aí está um das características mais essências do bom tradutor: aprender a distinguir o essencial do acessório, privilegiando, no seu trabalho, o que é mais importante, porque tudo, tudo, tudo, não se pode traduzir. O Professor Horrendo não entende isso, ou talvez entenda e faça que não entende, sei lá.
Dizem que quem sabe faz, quem não sabe ensina, uma frase que me parece injusta para com os professores. Mas tenho por certo que quem não tem competência nem para traduzir nem para ensinar a traduzir, dedica-se a achar erro na tradução dos outros.
A existência do Professor Horrendo é uma descoberta de Sara Blackburn, divulgada por Gregory Rabassa e Clifford Landers, entre outros tradutores.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Críticas ao trabalho de tradutores
Um colega deixou um comentário a este artigo e me deu vontade de contar um caso já muitíssimo antigo. Vai tomar acho que dois dias, mas faz parte.
Fui a um congresso de tradutores, antes de 1980, na Alumni, em São Paulo. Na plateia, eu, boquiaberto, perante as grandes vacas sagradas que estavam na mesa diretora. Na primeira fila da plateia, esperando para ser chamado a falar, Paulo Rónai, como sempre tendo ao lado sua esposa. Quer dizer, era pesada, a barra.
Estava falando um crítico literário qualquer, desfiando uma daquelas longas listas de erros de tradução hilários. O homem rebolava alegre em sua vasta erudição, citando erros de tradução de espanhol, francês, inglês, italiano e alemão. Cada grupo da plateia ria dos exemplos em uma língua, claro, que poliglotas de tal quilate não há muitos. Quando o homem resolveu calar a boca, a casa veio abaixo com aplausos.
No lado direito da mesa (tenho a imagem na mente até hoje) ou seja, do lado esquerdo para quem, como eu, estava na plateia, Regina Alfarano, naquela época a alma da Faculdade Ibero-Americana, aplaudiu protocolarmente, de cara amarrada. Quem conhece a Regina Alfarano, sabe que ninguém amarra a cara como ela. Amenizada a tempestade de palmas, começou a Regina a falar. Falou pouco, menos de cinco minutos. Nesses poucos minutos, nos deu uma lição que deveria ter sido gravada, degravada, impressa, publicada e distribuída urbi et orbi e constituir matéria obrigatória em todo curso de tradução.
Lamento não poder reproduzir aqui exatamente o que ela disse. As palavras dela cortavam em cortes profundos e precisos, movidas pela força de sua revolta. Quando – dizia ela – num congresso de advogados, médicos, engenheiros ou o que quer que fosse, veríamos um orador humilhar de tal modo a profissão da plateia e ainda ser aplaudido por todos? Claro que erramos, claro que muitos de nossos erros são hilários, mas em todas as profissões há bons e maus profissionais e mesmo os melhores profissionais erram. Mas nossos intensos aplausos denotavam uma falta de auto estima que somente se igualava à deselegância do orador e de sua fala escarninha. Como poderíamos nós almejar o respeito da sociedade, se nem nós mesmos nos respeitávamos? Não se trata de acobertar os erros dos outros, de corporativismo. Trata-se do uso que se faz desses erros.
O constrangimento era grande, mas os aplausos foram maiores ainda. Tomamos todos um grande sabão da Regina – eu, incluso, porque era um dos que mais riu entre os que mais riram – pelo qual até hoje estou grato.
Fiz inúmeras palestras, desde então, mas sempre me recusei a fazer essas listas de erros cômicos. Acho mais importante e digno compartilhar o conhecimento que ridicularizar o erro.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Frango!
A Meg encontrou um erro de tradução divertido no Windows. Não há de ser o único, nem mesmo o mais curioso deles e eu tenho seguido a praxe de não apontar erros alheios, mas o que ela encontrou dá margem a uma conversa interessante. Clique aqui pará dar um pulo lá para ver e volte para ler o meu comentário.
É um erro de tradução, certamente, mas nem todo erro de tradução é um erro de quem traduziu. Pode ter sido, mas nesse tipo de serviço, interfere muita gente e sabe-se lá quem deu a rata.
Pode ter sido o tradutor e esta é uma hipótese com boas probabilidades de estar certa e eu não vou ficar aqui dizendo que todo tradutor é bom, porque você e eu sabemos que não é verdade.
Entretanto, pode não ter sido falha do tradutor. Tradutor, nesses casos, trabalha com um glossário e, muitas vezes, é obrigado a aplicar o glossário a bem da "consistência" (que, em português, neste caso, se diz "uniformidade", mas alguns tradutores não conseguem falar português, ou acham indigno de suas altas prosopopéias). Nesses casos, quando a palavra tem duas traduções, a coisa encrespa. E, vamos falar a verdade counter, entre outras coisas, é contador e contador deve ser a tradução mais frequente para counter, num texto de informática. O glossário deveria ter as duas traduções, mas talvez não tenha. Ou talvez tivesse e o tradutor pertencesse à escola do "a primeira opção é a que vale".
Provavelmente, falta contexto. O tradutor recebe um longo arquivo com cadeias de caracteres ("strings", na língua da matriz) sem muita conexão uma com a outra e vai traduzindo, provavelmente com Trados - que a Microsoft parece ainda adorar - até terminar sua cota do dia.
Mesmo que o tradutor possa violar o glossário e tenha violado, sempre há uma boa chance de o revisor ou o pessoal encarregado de garantia de qualidade ter "corrigido o erro" e até dado um puxão de orelhas no tradutor. Quem nunca passou por essas coisas, que se dê por feliz.
Finalmente, acho que faltou o teste da tradução. Nesses casos, depois de as cadeias de caracteres serem incluídas na interface de usuário, tem que ter ao menos uma pessoa a clicar, metodicamente, em tudo o que for clicável, para ver se abre tudo direitinho, se acontece o que deveria acontecer e se não está escrita nenhuma bobagem. E esse cara é o goleiro: pode falhar todo o resto do time, que tem jeito, mas se falhar ele, não tem solução, é gol mesmo. E esse foi um frango dos bons.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
O Cenossão
Era uma vez uma empresa que achava que pagar tradutor para o inglês ainda vá lá – mas que traduzir do inglês qualquer funcionário podia e devia. Um dia, receberam a visita de um inspetor de segurança, vindo da matriz, que ficou horrorizado de ver, na fábrica, o pessoal fumando em baixo das placas de é proibido fumar e, por isso, incluiu no seu relatório um item enforce the smoking prohibition, querendo dizer, obviamente, que quando alguém se pusesse a fumar nas áreas onde era proibido fumar, deveria ser abordado por um dos seguranças e ser obrigado a apagar o cigarro.
Mas a regra da empresa era não pagar profissionais para traduzir do inglês, como eu disse, então, pegaram algum funcionário mais jovem, distraído e indefeso e disseram: aproveita o fim de semana para traduzir este relatório. O infeliz levou o papel para casa e traduziu, a duras penas e de muito má vontade. Entregou na segunda-feira de manhã e foi cuidar dos seus afazeres. Esse funcionário nem era, nem queria ser, tradutor. Sua profissão era talvez advogado ou engenheiro e, para ele (ou ela), tradução não era coisa nem séria nem importante. Então, esqueceu do incidente e foi se preocupar com coisas sérias.
A tradução era neessária porque o encarregado de segurança na fábrica era um funcionário mais antigo, do tempo em que a empresa ainda não fazia questão de que todos os funcionários "soubessem" inglês. Então, o encarregado da segurança pegou a tradução e começou a responder os quesitos. Primeiro: reforçar a proibição de fumar. Não sabendo inglês, não lhe poderia ter ocorrido que o reforçar era uma falsa tradução para enforce e aceitou a recomendação ao pé da letra – embora se sentisse algo ofendido: a fábrica tinha já uma quantidade enorme de placas de é proibido fumar. Por isso, sua resposta começou assim: embora a fábrica já conte com mais de 50 placas "e proibido fumar" grandes e visíveis, vamos mandar afixar mais outras tantas.
Pronta a resposta, e aprovada por quem de direito, me pediram para traduzir para o inglês. Foi só abrir o papel e senti, na hora, como você também teria sentido, o cheiro de enxofre. Alertei a secretária, que me olhou bem no fundo de meus olhos vesgos e disse Danilo, traduz o que te mandam. Traduzi, foi para os EUA, cobrei, recebi.
Não sei que fim teve a história. Aquela era uma empresa de rápidas mudanças de pessoal e rumo e nem sei se alguém leu a resposta que eu traduzi. Mas, se leu, deve ter achado o pessoal de São Paulo um bando de cenossões*.
*Uma explicação sobre cenossão. Há tempos circula a história de um aluno que escreveu cerumano em vez de ser humano. Pode ser mentira, mas é ótima. Baseado nessa história, lá na comunidade dos tradutores do Orkut, criei o termo cenossão, que é o sujeito tão sem noção que não sabe escrever sem noção. A mensagem original está aqui .
Obrigado pela visita e volte amanhã, a ver se tenho algo de bom para dizer.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Listas de erros de tradução hilários
Já falei aqui de listas de erros de tradução, listas de traduções hilárias, daquelas que a gente vê ou ouve, morre de dar risada e, depois, compartilha com os amigos, posta nas listas do Yahoogroups ou no Orkut? Nunca, não é? Pois é. Aqui, nos meus artigos ou palestras, você jamais vai topar com uma delas. Acho o cúmulo da parvoíce ficar fazendo coleções de erros no serviço dos outros. Principalmente quando quem faz a lista é profissional da tradução.
Será que as pessoas que ficam catando esses erros no serviço alheio não ganhariam mais procurando erros no que elas escrevem? Será que são perfeitas? Será que nunca escreveram uma cretinice na vida? Como diziam para a gente, antigamente, não sabem que macaco deve primeiro olhar para o próprio rabo? Será que o compilador da lista gostaria que seus erros fossem tratados assim, com ridículo e escárnio?
Não nego que haja maus tradutores. Há, sim, montes deles. Tradutores horríveis. E, também, erros horríveis cometidos por tradutores que não são tão maus assim e até por bons tradutores, que ninguém é perfeito. Mas – que diabo! – que coisa mais constrangedora isso de ficar ridicularizando os outros.
Antes de fazer ou passar para frente uma lista, ou de se matar de rir com uma delas, lembre que a próxima delas pode incluir um dos teus próprios erros. Lembre, também, que achar erros no serviço dos outros é bem mais fácil que fazer serviço perfeito.
Por hoje é só.
Se você está começando na profissão ou pretende começar, clique aqui.
Antes de encerrar, informo que a semana que vem volta a programação de cursos via Aulavox. Tive de cancelar diversos eventos por um momento mau que aparentemente passou. Hora de voltar à ativa. Aos que, mesmo sem entender, compreenderam, meus agradecimentos.
segunda-feira, 6 de novembro de 2006
Nós e a imprensa
Cada vez que leio um artigo sobre tradução na imprensa, diminui minha fé nela, na imprensa, quero dizer – não na tradução.
O que vende jornal é a reclamação, a esculhambação, evidentemente. Imprensa é oposição, como já disse o Millôr, há muitos anos. Por isso, a maioria dos artigos sobre tradução na imprensa se resume a divulgar erros, principalmente os cômicos. Isso não me preocupa, desde que o que apontem como errado esteja errado mesmo. Não façam como a Veja, que, há anos, meteu o pau de rijo no colega que tinha traduzido "The Physician" por "O Físico", sem saber que os médicos antigamente eram chamados "físicos" em português e que quem fez a tradução usou o termo antigo propositadamente. Acho que quem escreveu a diatribe jamais tinha lido o "Auto dos físicos" de Gil Vicente. Mas mesmo isso é de relevar.
O que me preocupa e irrita, de fato, é a confusão geral que a imprensa faz, entrevistando somente as pessoas que fazem tradução literária ou de filmes e dando as opiniões delas como se referindo à tradução como um todo.
Na verdade, o mercado de tradução literária e de filmes, embora apareça muito nos cadernos de cultura dos nossos jornais de domingo e tenha uma grande importância para nossa vida intelectual, responde por uma pequena parcela do mercado como um todo. Por exemplo, eu, que vivo de tradução desde 1970, jamais traduzi um filme e não traduzo um livro há mais de 30 anos. E, aliás, jamais traduzi literatura.
Além disso, geralmente a imprensa entrevista quem é tradutor amador, gente que não quis ou não conseguiu transformar tradução no seu ganha-pão. Muitos são extremamente competentes como tradutores, mas não são profissionais. Se você pretende ser profissional, decididamente não é a sua turma. Você pode até admirar as traduções deles, muitas vezes excelentes, mas não os utilize como modelos enquanto profissionais, porque, a rigor, profissionais é que não são.
Por isso, quando ler alguma daquelas jeremiadas lamuriosas sobre a impossibilidade de se viver de tradução, sobre gente que trabalha com máquina de escrever porque não tem dinheiro para computador, gente que traduz de noite e trabalha de dia em alguma outra coisa para não morrer de fome, saiba que muito provavelmente não vai ser essa a sua vida.
Aliás, há vários tradutores de editora vivendo decentemente. Ganham menos do que os outros, mas conseguem viver de sua tradução, estão felizes com o que fazem e não trocariam de profissão por nada deste mundo.