A maioria dos tradutores de texto-para-texto tem uma profunda admiração pelo pessoal que faz simultânea. A admiração é merecida, mas eles não são supertradutores, simplesmente têm um treinamento especial, para lidar com uma situação diferente do texto-para-texto.
Porque, na interpretação simultânea, privilegiamos a simultaneidade, ao passo que na texto-para-texto privilegiamos a precisão. Quem faz simultânea tem que ter uma solução na ponta da língua, quem faz texto-para-texto tem que ter uma solução precisa. Aí é que entra a história do fox paulistinha da Raquel Schaitza, amiga de muitos anos, que costuma vir comentar estes escritos e que faz tanto simultânea como texto-para-texto.
Contou ela há anos, nos tempos em que ambos vivíamos na trad-prt, que um dia, numa simultânea, um sujeito disse eu tenho um fox paulistinha. Agora, ainda que mal pergunte, como raio se diz fox paulistinha em inglês? E bem curtinho, por favor, porque em simultânea não cabem longas interpolações do tradutor, explicando a gênese e características da nobre estirpe dos fox paulistinha: o orador fala, não para de falar e, se o intérprete bobear, a vaca vai para o brejo.
A Raquel nunca contou para a gente exatamente o que ela disse — talvez nem lembrasse mais. Mas deve ter sido alguma brevíssima paráfrase do original, porque ela própria confessou que não fazia ideia de se existe uma boa tradução para fox paulistinha em inglês. Saiu-se bem, com sua solução ao que eu saiba.
Mas ela nunca usaria a mesma solução para uma texto-para-texto. Meticulosa como é, numa texto-para-texto ela iria pesquisar se havia alguma raça conhecida internacionalmente que fosse equivalente ao nosso fox paulistinha, ou interpolar alguma explicação, enfim, fazer alguma coisa que tornasse a tradução mais precisa e específica. Na simultânea, é pá-pum.