domingo, 19 de abril de 2009
Você foi bem sucedida na tentativa (2)
Esta é a segunda parte da resposta a um comentário deixado aqui e, certamente, a mais importante.
Como disse na primeira parte deste artigo, acho deselegante e de pouca ética o hábito de desfiar coleções de erros alheios em público. Mas quando faço uma revisão, me considero na obrigação de manter o cliente informado sobre a qualidade do trabalho. Já elogiei muita gente, já fiz outros tantos perderem o cliente.
Quando a tradução é ruim, preciso de mais tempo para revisar. Ou cobro mais – e preciso justificar a cobrança – ou tomo prejuízo – o que não é minha obrigação, porque a burrada não foi minha. Já devolvi textos por inservíveis, já tive de refazer do zero, num fim de semana, porque tinha prazo para entregar e não havia tempo para grandes discussões, visto que a agência estava fechada.
Você não acredita quanta sem-vergonhice tem por aí. Tem gente que faz testes lindos, mas repassa tradução para pessoas absolutamente incompetentes; tem gente que simplesmente entrega material sem dar nem uma olhada por cima, para tirar o grosso dos erros. Chegou no fim, manda e o revisor que se vire. Por outro lado, tem gente que faz serviço bonito, inclusive se dando ao luxo de destacar os pontos mais complexos para atenção especial do revisor. Um ganha estrelinha dourada, o outro toma pito. É assim que funciona. O cliente e, mais do que ele, o leitor, merecem o nosso respeito.
Não importa se o cliente paga pouco ou muito: aceitou, tem que caprichar, que eu não estou aqui para limpar caca feita por gente incompetente ou descuidada. Caiu na minha mão, tem que sair bonitinho (não como estes artigos batuscritos assim meio a la porca em meio a mil outras coisas).
Mas a safadeza não é só dos tradutores: o que tem de cliente que manda para o editor o lixo dos lixos, esperando que a gente devolva uma tradução impecável é uma barbaridade. Tem uma turma que manda tradução automática para a gente revisar e quer pagar preço de revisão normal. E – acredite se quiser – temos um par de colegas espertinhos que fornecem traduções automáticas a clientes como se tivessem sido feitas por eles. Pau neles!
Com meu comentário, posso estar prejudicando alguém? Desculpe, mas dizer a verdade não prejudica a ninguém; calar perante o erro prejudica a muitos, incluindo uma turminha boa que está aí doida atrás de servço.
Não somos nós os primeiros a reclamar do que nos parece excesso de corporativismo em outras profissões? Quantas vezes você não ouviu alguém revoltado dizendo que os membros desta ou daquela profissão encobrem os erros uns dos outros? Então, como é que fica?
Um outro ponto do comentário que merece análise é o "dá para entender" e o "errado, não está". Que é isso, companheiro? Quando você está do outro lado do muro, como comprador, aceita um "dá para usar" ou um "quebrado, não está"? Acha que isso é aceitável? Pois é. O que não é aceitável para o comprador, não deve ser aceitável para o vendedor. Revisão serve para transformar uma boa tradução em uma tradução excelente. Tradução ruim não se revisa: joga fora e faz de novo.
Finalmente, no fecho você se refere a mim como "paladino das traduções bem sucedidas", não sem uma pontinha de escárnio. Não sou paladino de nada, mas defendo a qualidade. Aliás, meu nome é Danilo e prefiro não ser tratado por "senhor" - especialmente quando o "senhor" é forma de escárnio, não de respeito.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Críticas ao trabalho de tradutores
Um colega deixou um comentário a este artigo e me deu vontade de contar um caso já muitíssimo antigo. Vai tomar acho que dois dias, mas faz parte.
Fui a um congresso de tradutores, antes de 1980, na Alumni, em São Paulo. Na plateia, eu, boquiaberto, perante as grandes vacas sagradas que estavam na mesa diretora. Na primeira fila da plateia, esperando para ser chamado a falar, Paulo Rónai, como sempre tendo ao lado sua esposa. Quer dizer, era pesada, a barra.
Estava falando um crítico literário qualquer, desfiando uma daquelas longas listas de erros de tradução hilários. O homem rebolava alegre em sua vasta erudição, citando erros de tradução de espanhol, francês, inglês, italiano e alemão. Cada grupo da plateia ria dos exemplos em uma língua, claro, que poliglotas de tal quilate não há muitos. Quando o homem resolveu calar a boca, a casa veio abaixo com aplausos.
No lado direito da mesa (tenho a imagem na mente até hoje) ou seja, do lado esquerdo para quem, como eu, estava na plateia, Regina Alfarano, naquela época a alma da Faculdade Ibero-Americana, aplaudiu protocolarmente, de cara amarrada. Quem conhece a Regina Alfarano, sabe que ninguém amarra a cara como ela. Amenizada a tempestade de palmas, começou a Regina a falar. Falou pouco, menos de cinco minutos. Nesses poucos minutos, nos deu uma lição que deveria ter sido gravada, degravada, impressa, publicada e distribuída urbi et orbi e constituir matéria obrigatória em todo curso de tradução.
Lamento não poder reproduzir aqui exatamente o que ela disse. As palavras dela cortavam em cortes profundos e precisos, movidas pela força de sua revolta. Quando – dizia ela – num congresso de advogados, médicos, engenheiros ou o que quer que fosse, veríamos um orador humilhar de tal modo a profissão da plateia e ainda ser aplaudido por todos? Claro que erramos, claro que muitos de nossos erros são hilários, mas em todas as profissões há bons e maus profissionais e mesmo os melhores profissionais erram. Mas nossos intensos aplausos denotavam uma falta de auto estima que somente se igualava à deselegância do orador e de sua fala escarninha. Como poderíamos nós almejar o respeito da sociedade, se nem nós mesmos nos respeitávamos? Não se trata de acobertar os erros dos outros, de corporativismo. Trata-se do uso que se faz desses erros.
O constrangimento era grande, mas os aplausos foram maiores ainda. Tomamos todos um grande sabão da Regina – eu, incluso, porque era um dos que mais riu entre os que mais riram – pelo qual até hoje estou grato.
Fiz inúmeras palestras, desde então, mas sempre me recusei a fazer essas listas de erros cômicos. Acho mais importante e digno compartilhar o conhecimento que ridicularizar o erro.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Professor pode fazer tradução? E grátis, ainda por cima?
Desde 1970, me dedico inteiramente à tradução e é como profissional da tradução que venho meter meu bedelho aqui na conversa.
Existem bons e maus tradutores, como há bons e maus professores, cozinheiros, advogados, encanadores e solistas de sacabuxa. Quer dizer, entregar uma tradução a um tradutor, em vez de a um professor, não é assim, garantia de que o serviço vá sair com qualidade total e perfeita. E, principalmente tratando-se de um trecho pequeno, é até bem possível que um professor possa se sair bem. Como também pode se sair bem como tradutor bissexto de poesia.
Por outro lado, haverá mais que um excelente professor que dê com os burros n'água para traduzir um texto qualquer. Ensinar e traduzir são atividades diferentes e gente muito bem-sucedida numa pode ser um fracasso na outra. O mesmo se estende a profissionais como secretárias e recepcionistas bilíngües.
Muitos tradutores foram professores antes de serem tradutores e, quando empreenderam sua primeira tradução, ainda não eram tradutores, se me faço claro. Por alguma porta temos que entrar e os únicos que podem reclamar de fato são os bacharéis em tradução. Mesmo eu dei as minhas aulinhas lá pelos tempos do Castello Branco e, quando "peguei" minha primeira tradução, não tinha uma noção muito boa do que ia fazer. Quer dizer, não me acode o direito de reclamar se algum dos professores aqui se decidir a aceitar o serviço.
Nem vou me sentir prejudicado. O que prejudica a profissão não são os professores que traduzem uma dúzia de linhas para um colega, seja cobrando ou não. São os figurões do magistério e das letras que traduzem livros inteiros grátis ou a preço vil para as editoras e ainda passam por benfeitores da comunidade.
O que me distingue — enquanto tradutor profissional — dos tradutores eventuais e bissextos é a minha dedicação preferencial à tradução.
Enquanto que mais de um dos professores aqui da casa poderia traduzir vinte linhas numa tarde de domingo, para ajudar um colega, é necessário um profissional para encarar certas tipos de trabalho e prazos. Por exemplo, recentemente passei meses traduzindo documentos em xml usando Trados TagEditor em uma memória de tradução residente em um servidor que estava em Zurique. É possível que a maioria dos leitores da lista CVL nem entenda o que eu disse no período anterior.
Mas não é só isso: traduzir vinte linhas num dia é uma coisa, traduzir vinte mil palavras em uma semana é outra, bem diferente — e coisa para profissional. Traduzir aquilo de que se gosta pode ser até divertido; traduzir o que é necessário é coisa para profissional. Traduzir um artigo científico pode ser uma aventura intelectual de primeira linha. Ter prazer em traduzir 100.000 palavras de um relatório anual de um banco, porque toda tradução é um desafio e um prazer, é coisa para profissional. Traduzir uma grande obra literária pode ser uma festa, traduzir livros de auto-ajuda, porque é preciso, porque tem muita gente que lê essas coisas e se escora nelas para agüentar a vida, é coisa para profissional.
Quer dizer, eu traduzo porque, para mim, traduzir em si, qualquer coisa que seja, é uma festa. Hoje em dia, só traduzo finanças, mas isso foi o que me aconteceu, não a minha escolha. Se as voltas do mercado tivessem me encaminhado para outra área, trabalharia com o mesmo prazer.
Quanto ao trabalhar de graça, desculpe, mas eu não traduzo de graça e também não aceito que trabalhem de graça para mim. Quando quero um serviço, primeiro trato preço, depois autorizo. Ajudo muito os colegas, com artigos, palestras e mesmo com o meu blogue, mas tradução só faço a pagamento. É o que dizia a Cacilda Becker: não me peça para fazer de graça a única coisa que tenho para vender. Havia um Código de Ética do Tradutor que proibia trabalhar grátis para quem pode pagar.
Não acho nada de errado um professor traduzir vinte linhas grátis para um colega: o que ele tem par vender são aulas, não tradução. Mas eu, que sou profissional da tradução, não traduzo grátis. Posso até explicar o uso de um tempo verbal em inglês, assim, na base do passei, cinco minutos, dei a explicação. Mas se um professor começar a dar aulinhas grátis, vai formar fila porta da casa dele.
Nunca entendi, por outro lado, porque estudantes e acadêmicos querem descontos ou trabalho grátis. Quem vai fazer intercâmbio não pode pagar tradução? Ué, tem dinheiro para a passagem de avião mas não para pagar tradutor? Tese não tem objetivos econômicos? Claro que tem! Defende tese, vira Dr., ganha mais na faculdade. Está investindo no seu futuro! Então, invista o seu dinheiro, não o meu. Porque, quando trabalho grátis, estou deixando de ganhar dinheiro fazendo serviço remunerado, que não me falta. Por que raios o dinheiro sempre acaba cinco minutos antes de chegar a hora de pagar o tradutor?
Outro dia, veio aqui um vizinho com um texto de medicina, de, creio, umas boas 50.000 palavras, de que ele precisava com urgência. Ajuntou que "era para a faculdade" algo que, traduzido assim, no popular, significava "não quero pagar". Quando respondi que aquilo significava 15 dias de trabalho e que, durante esses quinze dias, ele iria ter que pagar todas as despesas da minha casa, inclusive os custos tremendos de um tratamento de saúde que minha mulher fazia na época, virou as costas e foi embora, zangado comigo. Paciência, assim é a vida.
Alguém aqui comentou "que custa fazer grátis?" Aqui, há que fazer à moda jesuíta e responder com outra pergunta: "que custa pagar?" Porque fazer grátis custa tanto para mim quanto pagar custa para o outro.
A bem dizer, quando se faz grátis a alguém algo por que se poderia cobrar (no caso, o tempo que o tradutor gastaria na tradução), estamos reduzindo nossos próprios rendimentos. Quer dizer, se eu faço uma grátis uma tradução pela qual normalmente cobraria cem reais, estou reduzindo minha renda em cem reais, dando a essa pessoa, tirando da minha família, o valor de cem reais. Por que eu devo fazer essa doação? Essa pessoa realmente precisa do meu sacrifício?
Não é tanto sacrifício assim? Bom, se é pouco dinheiro, uma miséria, um nada, que não vai fazer diferença no bolso de ninguém, porque, então, não me podem pagar?
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Já estou cansado!
Isso dito, faço aqui a solene promessa de nunca mais criticar clientes finais, donos de agência e gerentes de projeto. Mas certamente vou criticar a mim próprio e aos membros da minha tribo, a tribo dos tradutores e revisores. Um pouco de autocrítica, um pouco de mea culpa, não faz mal a ninguém, desde que seja uma crítica honesta e inclua um certo esforço para abandonar os caminhos do pecado. Não, acho que vou fazer uma coisa melhor: em vez de autocrítica, vou escrever uma lista de decisões. Ainda é meio cedo para decisões de ano novo, mas não faz mal.
Prometo que vou sempre passar o revisor ortográfico mais uma vez antes de entregar o serviço. Uma vez, decidi fazer uma mudança de última hora em uma tradução para uma agência americana, onde ninguém entendia uma palavra de português. Fiz um “substituir todos” e, em conseqüência, mudei não só a palavra que queria mudar, como também as tripas de uma outra palavra mais comprida. Não me perguntem qual: prefiro esquecer essas coisas. Depois, o pessoal de DTP formatou o texto e mandou para o cliente final, que sabia português e quase teve um infarto. Se eu tivesse passado o revisor ortográfico mais uma vez, antes da entrega, teria poupado ao cliente um grande constrangimento e eu próprio não iria sofrer o prejuízo financeiro que sofri. E, já que estamos falando nisso, também prometo nunca mais usar o comando “substituir todos”.
Quando estiver revisando o serviço de um colega, prometo que nunca vou fazer uma alteração sem uma justificativa melhor do que “porque fica melhor assim”. Uma das coisas mais irritantes para um profissional é ver seu trabalho cheio de alterações aparentemente sem proveito nem finalidade. O gerente de projeto, que muitas vezes não sabe português, quando o cliente é estrangeiro, fica sem entender o que está acontecendo nem o que fazer. O tradutor fica zangado e tudo o que o revisor tem a dizer é “bom, fica melhor assim”. Nem sempre a gente pode justificar todas as alterações com gramática e dicionário, mas, pelo menos tente dizer coisas do tipo para manter a uniformidade, ou para melhorar a coerência. Comecei a agir assim e, aos poucos, estou desenvolvendo um conjunto de regras claras e precisas para melhorar a qualidade das traduções que reviso, isso para não falar das minhas próprias.
Não vou ficar furioso por causa de alterações de revisores. Se o revisor fizer uma alteração aceitável em minha tradução, eu vou aceitar. Se a alteração for inaceitável, entretanto, vou conversar com o gerente de projeto e tentar explicar claramente por que eu não concordo com ela. Não há motivo para começar cada um de meus comentários com alguma coisa do tipo “esse cricri imbecil…”. Simplesmente, vou tentar citar alguma prova de que estou certo. Por exemplo, a ortografia brasileira é governada por lei (2623/55, com suas emendas) e o regulamento pode ser encontrado em qualquer dicionário. Veja a regra 53 e note que ela dá pleno apoio à minha pontuação. Se você não leu a regra 53, abra o dicionário e leia agora. Talvez você tenha uma surpresa.
Vou conferir a formatação de minhas traduções. Faz muito tempo que decidi aprender a formatar um documento direito com o MSWord. Nada de muito especial: O Word não é o QuarkExpress e eu não presto serviços de editoração eletrônica. Mas certas coisas como usar tabelas e tabulações corretamente, formatar parágrafos deslocados como se deve, em vez de usar marcas de parágrafo e espaços, coisas desse tipo. Se você não está entendendo, então precisa passar uma tarde com uma boa introdução ao Word for Windows. Quando terminar a tradução, veja se em algum lugar há dois espaços consecutivos. Salvo se o texto for em inglês e os dois espaços consecutivos forem usados no fim de uma sentença (e de todas as sentenças), não deve haver nenhum caso no texto todo. Muitas vezes, batemos a barra de espaço duas vezes ou mais entre uma palavra e outra e muitos de nós esquecem de apagar os espaços que sobram antes de entregar o serviço e, assim, o texto fica parecendo queijo suíço. Os espaços no início da linha ou antes de marcas de parágrafo ou tabulação também são um mau costume. Não deixe aprender a usar o tabulador. E nunca use um hífen quando deveria usar um travessão, por favor. E nunca use dois hífens quando deveria usar um travessão. Aquele pessoalzinho bom que edita seu trabalho ou faz editoração eletrônica vai ficar grato e, quem sabe, lembrar de você nas suas orações. E é mais provável que o cliente lembre de você para um outro serviço.
Vou respeitar as convenções tipográficas da língua de chegada. Os números em inglês seguem a regra do xxx,xxx.xx e em português a do xxx.xxx,xx, não faz diferença se a gente está contando dólares, reais ou camelos. Também vou respeitar todas as convenções sobre uso de maiúsculas e pontuação.
Não vou aceitar serviços que não possa fazer. O cliente (ou o gerente de projeto) pode bater a cabaça na parede, se quiser, mas não vou aceitar um prazo apertado demais. Não vou dar ouvidos àquela história de que é um serviço fácil, porque sei que isso não existe. Não vou dar ouvidos àquela história de que uma “minuta” serve, porque sei que o mesmo sujeito que diz que quer o texto “só para informação” é exatamente o mesmo que depois vai dizer que eu fiz um serviço porco e cobrei um dinheirão. Evidentemente, isso significa que vou aprender a fazer estimativas realistas do tempo necessário para fazer um serviço. Nunca mais vou dar uma olhadinha e dizer “tá bom, acho que vai dar.”
Vou fazer questão de ter tudo por escrito. Não estou dizendo que os clientes sejam desonestos. Mas a melhor maneira de evitar mal-entendidos é escrever tudo antes de começar a trabalhar: taxas, datas de entrega e quantificação. Se a contagem se basear no original, peça ao cliente a contagem e aceite antes de começar. Se o cliente insistir em uma contagem um pouco menor que a sua, não reclame: cada versão do Word for Windows dá uma contagem diferente. Simplesmente aceite as pequenas diferenças como coisa da vida. Se a diferença for grande, investigue o assunto. Se a taxa for boa, às vezes até uma contagem baixa demais pode ser aceitável. Nesse caso, não reclame. Se a paga final for baixa demais, não aceite o serviço. O que importa é que tudo deve estar por escrito e bem explicado. Quando receber as informações do cliente, leia tudo direitinho. Monstros terríveis muitas vezes se ocultam por detrás de um palavreado aparentemente inofensivo. E, finalmente, nunca aceite nada que o cliente diga que é somente “para constar”. É justamente esse trecho que o cliente vai pedir para você ler muito cuidadosamente, quando chegar a hora. E, se o acerto vier em forma de e-mail, imprima e pendure onde você veja. Combinar tudo por escrito, conferir o combinado direitinho e deixar tudo sempre à vista são um dos meios mais importantes para assegurar a satisfação do cliente. E,
Vou sempre cobrar o máximo e fazer um serviço tão bom quanto possível. Vou sempre procurar conseguir o maior pagamento possível por qualquer serviço que aparecer. Mas, depois de aceitar o serviço, vou esquecer quanto estou recebendo e fazer a melhor tradução que puder. Jamais vou fazer uma tradução de segunda e dizer que está até que boa demais para o que estão pagando. É uma estratégia é contraproducente, porque, quando alguém precisar de um bom tradutor, vai provavelmente oferecer ao sujeito que fez a tradução melhor, não a quem fez uma tradução “compatível com o preço”.
Não mentirei. Se não puder terminar o serviço em tempo, vu dizer “Desculpe, subestimei o tempo que precisava para essa tradução”. Ninguém mais acredita naquela história do HD novinho em folha que deu pau mais uma vez ontem.
Vou sempre conferir minha tradução, para ver se tem tradutorês. Tradutorês, caso você não saiba, é aquela língua esquisita que só se encontra em traduções. Não existe razão alguma para uma tradução parecer esquisita. Se você está traduzindo para o inglês, por exemplo, procure coisas como “The legislator of our fatherland found it to be a good thing to allow such action, being that under the previous legislation it was held to be illegal”. Se estiver traduzindo para o português, procure coisas do tipo Suficientes dados não estão disponíveis para que pudéssemos tornar nossas ações consistentes com… Não há justificativa para uma coisas dessas. Também procure coisas que não fazem muito sentido para você, porque, se não faz muito sentido para, você, provavelmente não vai fazer sentido algum para o leitor.
Não vou tentar “melhorar” o original. Tenho grande orgulho de meu trabalho
Não vou discutir com o cliente por causa de preferências de vocabulário e sintaxe. Se o cliente quiser mudar o texto, pode mudar à vontade. Vendi o texto para ele, e ele agora é o dono do texto. Essa é uma das razões pelas quais não gosto de assinar traduções. Finalmente, reservo-me o direito de jamais trabalhar para o cliente de novo – quer dizer, se eu encontrar outro melhor.
Não vou contradizer meu cliente. Se o cliente disser que a irmã dele poderia fazer a tradução, não vou abrir a boca. Se o cliente disser que o primo dele tem um programa que pode fazer a tradução, não vou discordar. Se o cliente alegar que, se eu insistir nesses preços abusivos, ele vai pedir para a filha dele fazer a tradução, vou, muito educadamente, dizer – desculpe, esse é o mínimo absoluto que eu posso cobrar –, sem uma sombra de ironia, desligar, e deixar que ele se dane.
Não vou falar mal de colegas, mas, se encontrar erros de tradução, vou apontar. Jamais vou dizer – não dê essa tradução para a Fulana, a mulher é quase analfabeta – , mesmo se souber com certeza que ela é mais burra que a mãe da burrice. Entretanto, vou dizer ao cliente que não acho mandate of security uma tradução decente para mandado de segurança e não quero saber quem disse que era.
Não vou brincar com taxas e condições de pagamento. Só vou aceitar o serviço quando o cliente e eu estivermos de acordo quanto a taxas e condições de pagamento e o cliente entender exatamente o que está pagando. As agências sabem exatamente o que estão fazendo, mas muitos clientes finais não têm idéia. Por exemplo, quando o cliente é brasileiro, provavelmente vai pensar que a lauda equivale a uma página de seu texto, o que não é verdade. Algumas agências pagam de acordo com o original, outras, pela tradução, e essas coisas precisam ser combinadas antecipadamente. E, feito o acordo, vou cumprir tudo cuidadosa e estritamente. Por exemplo, se o pagamento não estiver na minha conta na data combinada, o cliente vai ficar sabendo no dia seguinte, logo cedo.
Jamais vou me apresentar
E, finalmente, não vou resmungar. Estou cansado de ouvir tradutores, revisores, donos de agência e gerentes de projeto que vivem reclamando de tudo, do tanto que trabalham, do pouco que ganham, dos clientes e fornecedores incompreensivos e desonestos, de tudo. Considero reclamar um desperdício de tempo e energia. Vamos investir nosso tempo e energia em melhorar nossa sorte.
terça-feira, 29 de julho de 2008
O que engorda o gado
Foi enquanto pensava nesta segunda interpretação que me veio à mente a história do serviço fácil. O cliente liga e oferece um serviço. Já vai dizendo, logo de cara, que é fácil, pouca coisa, meia dúzia de pagininhas, nada de muito técnico, você faz num instante. Claro, em clientês isto significa que ele está cavando um desconto.
Mas você vai ver é uma meleca dos demônios, um daqueles textos enfezados, escritos por algum disléxico com mania de grandeza e que a meia dúzia de pagininhas é um pdf borrado em Arial Narrow 4 e que, de fato, não é técnico. Antes fosse, porque, se fosse técnico, era até capaz de fazer algum sentido.
Podem chorar o que quiserem, podem fazer o discurso que quiserem, não dou desconto. Não dou desconto por texto fácil porque nenhum cliente jamais vai aceitar adicional de texto difícil. Então, os extremos se cancelam e pronto. Aliás, não acredito na existência de textos fáceis de traduzir, mas isso é outra conversa.
A maior prova de que tem carne debaixo do angu é que normalmente esse cliente quer um desconto sem que você veja o texto. Não quer, porque está escondendo alguma coisa.
Eu não dou descontos por facilidade nem cobro acréscimos por dificuldade. Se for difícil, azar meu; se for fácil, sorte minha. Quando o cliente insiste no desconto de facilidade eu digo isso e acrescento que o risco de dificuldade é meu e que se, em um serviço dele, der algum pepino, eu não vou cobrar a mais. E encerro a conversa. Ponto final. Não cedo. Não cedo um centímetro. Principalmente, tenha em mente que, se você disser se o texto for fácil mesmo, dou um desconto, até o fim dos tempos o cliente vai dizer que você prometeu um desconto e vai esquecer a primeira parte da frase.
Uma vez, uma colega me disse que eu não cedo porque já conquistei meu lugar ao sol. Errado! Eu conquistei meu lugar ao sol por saber dizer não, por saber quando dizer não e por saber como dizer não.
Para terminar, uma história divertida: a secretária me diz que tinha um serviço de uma meia dúzia de páginas e pergunta quanto ficava. Dei o preço por palavra, explicando que poderia haver páginas muito cheias ou muito vazias e, por isso, o número de páginas, em si, não fazia diferença. Depois de resmungar um pouco, mandou o serviço. Era, de fato, uma meia dúzia de páginas cheias de texto e mais uma boa vintena de páginas com uma meia dúzia de linhas em cada uma. Eu, sempre muito espírito de porco, fiz o serviço e mandei anexo em um e-mail onde dizia: prezada fulana, aqui vai sua meia dúzia de pagininhas, numeradas consecutivamente de um a vinte e cinco.
E, por hoje, é só. Espero eu continuar a escrever todos os dias. E dê uma olhada aqui do lado, onde está escrito Texto e Contexto, para ver os cursos a distância via Aulavox.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Uma traduçãozinha, pelo amor de Deus!
Comovente, sem dúvida, principalmente para mim, porque me lembra das minhas próprias agruras financeiras, embora nunca tenha sido abandonado pelo meu marido nem tenha feito faculdade. Comovente, sim, mas a abordagem errada.
O sucesso profissional depende, em grande parte, da adoção de uma postura profissional e a postura de quem escreve desse jeito não é a de profissional, mas sim a de mendigo. E quem se apresenta como mendigo dificilmente vai ser tratado como profissional.
Tradução é serviço profissional, que se confia a quem tem condições de prestar. E quem posta pedidos de esmola, que apela à piedade e caridade alheias, está começando por omitir a primeira e mais importante informação sobre o profissional: suas qualificações.
Se um de meus clientes me pedir um serviço que eu não possa prestar, vou indicar a ele um colega que me pareça capaz de prestar o serviço, não quem estiver de mão estendida à minha porta. E que sei eu a respeito do ou dá colega lá em cima salvo que está precisando de dinheiro? Nem com que línguas lida a pessoa diz! Não sei se tem experiência, se não tem, se conhece memórias de tradução, que idade tem, o que já fez na vida, não sei nada. Só sei que está precisando.
Além de tudo, a pessoa se coloca em uma posição passiva: alguém, por favor, mande a ela uma lista de empresas. Alguns têm o desplante de pedir que se lhes mande a lista de clientes para seu e-mail particular, em vez de divulgar para o grupo como um todo. Se tivesse lido as mensagens do grupo durante três ou quatro dias, teria visto que não é assim que as coisas se fazem, teria aprendido alguma coisa. Mas está precisando, então, posta um pedido e, por favor, alguém que lhe resolva a situação. Como se nós outros tivéssemos excesso de clientes e pudéssemos dispor de meia dúzia em favor de pessoa que nem sequer conhecemos.
Finalmente, se alguém pensa que é só se cadastrar em algum lugar e esperar que o serviço venha chegando, desista. Não é assim que as coisas acontecem.
Aqui neste blog e onde quer que esteja, sempre lutei pela profissionalização do tradutor. Tradução não é esporte, brinquedo, diversão, quebra-galho, ajeito na hora do sufoco. É, cada vez mais, uma profissão. E profissão que faz são os profissionais, não uma lei qualquer.
É por causa de escritos como este acima que criei fama de rabugento, implicante, antipático e desumano. Desculpe, mas alguém tem de ter a coragem de dizer certas verdades.
sábado, 20 de outubro de 2007
O que fazer com excesso de serviço?
Quando um tradutor se vê sem serviço, o que faz? Começa a aceitar serviço a preço menor. Reclama, resmunga, mas é a vida. E quando está com excesso de serviço, o que faz?
Há três soluções para o problema.
Primeiro, você pode começar a recusar serviço, por falta de tempo. Acho uma pena, um desperdício, mesmo. Vale numa emergência, se, num determinado dia, aparecerem dois serviços com execução incompatível. Quer dizer, aparecem dois serviços para o dia seguinte e ambos exigem um dia inteiro de trabalho. A gente pode dar uma esticada no dia, eu já dei muitas. Mas para tudo há um limite. Então, rejeite. Paciência.
Mas se o serviço começa a crescer constantemente e você começar ter de trabalhar todos os fins de semana, doze horas por dia, está na hora de tomar uma providência.
Sempre se pode repassar parte do serviço a um colega. Estamos todos rodeados por colegas com pouco serviço, alguns em dificuldades financeiras. Vejo aí, ao menos, dois problemas. O primeiro é achar alguém de confiança para fazer o trabalho. Já vi mais de um caso colega que repartiu trabalho e tiver de refazer tudo, porque não ficou satisfeito com o que recebeu. Também há casos em que o trabalho não está de todo ruim, mas, mesmo assim, exige uma revisão. Quando o trabalho é dividido, em vez de meramente repassado, a revisão é necessária para uniformizar o texto, no mínimo.
Some o tempo da revisão ao tempo necessário par administrar os ires e vires e aos impostos e você vai ver como é difícil, com o que você recebeu do cliente, pagar uma taxa decente ao colega e ainda não ficar no prejuízo. Se seu cliente já for um intermediário, então, fica tudo muito complicado. Já vi muita gente reclamando que recebe traduções de outro tradutor, mas ele paga uma miséria. Mas o fato é que se o "outro tradutor" recebe pouco, não vai poder pagar muito.
Além disso, a maioria dos independentes não tem capital e, quando o cliente atrasa, não tem como pagar o terceirizado. Às vezes, nem quando o cliente paga na hora dá, porque a margem que ele reteve era exígua demais para cobrir os custos, a despeito do fato de que o terceirizado reclama que o terceirizador ficou com a parte do leão.
Claro, o tradutor com excesso de serviço, se tiver talento para isso, pode ser organizar como terceirizador, cobrar mais de seus clientes, montar a estrutura apropriada e ganhar um bom dinheiro. Mas isso se tiver talento e capital. Muita gente não tem. Inclusive eu. Lamentavelmente, terceirizar serviço é uma opção atraente ("para não cair nas mãos de uma agência" é o eufemismo predileto) e muita gente sem competência se estabelece, com resultados catastróficos.
Então, o que fazer?
Bom, primeiro, livrar-se dos clientes chatos, dos que ranhetam com tudo, dos que enviam serviço maluco, dos que demoram a pagar. Segundo, aumentar preços. Quando você aumenta preços, todos os clientes reclamam, cada um apresentando uma razão diferente, que vai desde a "crise atual do mercado" até a situação do time do Corinthians, passando por falta de verba, atenção ao cliente antigo, manutenção de relacionamento e mais o diabo que os carregue a todos eles para perto de suas respectivas sogras. Muitos vão dizer que não vão mais poder trabalhar com você. Alguns podem até trocar de tradutor. Mas, a final de contas, você estava com excesso de serviço, pode se dar ao luxo de perder um cliente.
A mesma lei da oferta e da procura, que te faz baixar preços quando falta serviço, tem de conduzir a um aumento de preços quando o serviço sobra.
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
O tradutor e seu status
Por exemplo, tratando os clientes com cortesia, mas também com firmeza profissional. Se o cliente liga e pergunta quanto você cobra para fazer uma tradução e a resposta é um cambaleante, bom, sabe, a gente aqui procura cobrar o justo, mas, sabe como é, teve aí um reajuste... em vez de um firme tanto por palavra do original, para os textos enviados em arquivo eletrônico formato Word. Outros formatos ou material em papel têm acréscimo ou coisa semelhante, já deu um passo atrás na conquista do respeito.
Além disso, é importante ter a coragem de dizer não. Um não educado, mas, mesmo assim, um não, firme, redondo, indiscutível. Não trabalho por esse preço. Não trabalho nessas condições.
É importante, também cumprir a palavra empenhada: se você promteu entregar o serviço na quarta-feira às doze horas, que o serviço esteja pronto na quarta-feira, às doze horas, chova ou faça sol.
E, para não ter que ouvir que a filha da amiga da cunhada do cliente podia fazer o serviço, procure aprender a fazer as coisas que os amadores não são capazes de fazer. Quero ver a filha da amiga da cunhada dar conta de um ttx ou de um ppt endiabrado.
Lembre, também que essa lei de direitos autorais só se aplica, a rigor, a tradução de livros, que é coisa muito importante, aparece no jornal e tal, mas representa muito pouco para nós, provavelmente menos de 5% de todo o volume de serviço.
Finalmente, JAMAIS TRABALHE DE GRAÇA PARA QUEM PODE PAGAR. Essa é a primeira regra do profissionalismo, a primeira característica que distingue o profissional do amador e a que nos conquista o respeito da sociedade. Na sua porta, talvez forme fila de gente querendo abatimentos e descontos e gratuidades, porque é para uma boa causa, para a escola, para o raio que os parta. Quem tem dinheiro para comprar roupa, para tomar chope, para a balada, tem que ter dinheiro para pagar tradutor. Num evento onde todos ganham, também o tradutor tem de ganhar.
Todos amam um voluntário, mas vuluntário é voluntário, profissional é profissional.
Uma vez, dizem, pediram a Cacilda Becker, ilustre artista de teatro, para fazer um espetáculo grátis. Ele respondeu não me peçam para fazer de graça a única coisa que tenho para vender.
Ah, não, ainda tem uma coisinha: não faço a menor questão de ser igualado ao autor. Não sou autor nem me considero igual ao autor, como também não faço a mais remota questão de ser considerado igual a advogados, pilotos de jato ou tocadores de marimba. Sou tradutor e isso me basta. Quer dizer, não vejo razão para me comparar a outros, sejam o autor ou seja lá quem for. A minha tarefa é a minha, a deles é a deles.
sexta-feira, 10 de novembro de 2006
Atrasos e calotes
Por que a gente não recebe no dia combinado?
Alguns clientes são desonestos: devem, sabem que devem, podem pagar, mas não têm intenção de pagar ou acham que primeiro você tem que esperar até o momento em que eles acharem conveniente fazer o pagamento. Como tiveram toda pressa do mundo para receber a tradução, ficaram sem pressa nenhuma para pagar o tradutor.
Outros são desorganizados: sabem que devem, podem pagar, têm intenção de pagar, mas perderam o número da tua conta bancária, não se lembram quando foi combinado pagar, não acham a nota fiscal.
Um terceiro grupo simplesmente deu o passo maior que a perna: pegou um serviço grande, cotou baixo, para pegar, repassou uma parte a outros tradutores, ofereceu pagamento maior do que podia, o cliente final atrasou – e está feita a confusão.Muitas vezes, o que deu o passo maior que a perna é também desorganizado e/ou desonesto e aí, então, a situação fica realmente muito complicada.
É melhor prevenir que remediar e há três medidas que reduzem muito a probabilidade de um calote:
Limite seus riscos
Sabe por que você tem limite no cartão de crédito? Porque, se você não pagar, a operadora não perde muito. Aprenda com eles e nunca dê muito crédito a nenhum cliente nem muito menos aos "colegas" ou os que se apresentam como tal. Alguns dos mais espetaculares calotes que conheço foram dados por tradutores: acredite se quiser, as agências e os clientes diretos podem atrasar, o que é mau, mas geralmente acabam pagando. Os "não pago, não pago e não pago" costumam ser os "colegas". De um modo ou de outro: limite o crédito — e, conseqüentemente, o risco.
Se for um serviço para vários meses, peça pagamentos quinzenais, a partir do primeiro mês, pelo menos. Não aceite serviços que ocupem 100% do seu tempo: o risco é grande demais e você fica sem poder atender outros clientes. Mesmo que receba, quando acabar o serviço fica sem saber o que fazer da vida.
Se o pagamento estiver atrasado, só continue a trabalhar se não tiver absolutamente nada que fazer. Um dos melhores meios de receber é dizer, "desculpe, se não receber, não posso trabalhar e o fluxo do prazo fica suspenso". E não se constranja com argumentos do tipo mas você desconfia de mim? Simplesmente, pare e avise que parou.
Explique tudo direitinho
O cliente quer uma cotação e você tem obrigação de dar. Faça a cotação por escrito e explique tudo com o máximo de clareza. Se você cobrar por lauda, explique exatamente o que você define como lauda. Muitos clientes crêem que lauda é uma página do trabalho deles e se recusam a pagar, porque mandaram um texto de dez páginas e receberam uma fatura de cinqüenta laudas. Não adianta depois você dizer que a Junta Comercial, o SINTRA, ou quem quer que seja, definiu a lauda como X. A lauda que vale é aquela que você combinou com o cliente por escrito e isso quando você tem prova de que o cliente entendeu e aceitou a definição.
Esse é um dos motivos pelos quais eu prefiro cobrar por palavra do original: o cliente já sabe quanto vai pagar quando envia o serviço e assim não há problemas posteriores. A tradução costuma sair mais comprida que o original? Tudo bem. Então, se você cobra 10 por palavra contada na tradução, deve cobrar 12 por palavra contada no original. Só isso. Se possível, faça uma cotação fechada, do tipo "honorários para a tradução do documento xpto.doc: R$ X". Assim, não tem discussão.
Faça uma cotação escrita, indicando não só o preço, mas também prazo e forma de pagamento. Você não pode reclamar que o cliente está atrasado se não tiver combinado um prazo antes. E finalmente, explique como vai ser cobrado o serviço. Para o cliente, RPA é uma coisa, nota fiscal de autônomo é outra e nota fiscal de pessoa jurídica é ainda outra. Se o cliente espera NF de pessoa jurídica mas você aparece com RPA ou com nota fiscal de autônomo comprada na prefeitura, as coisas podem se complicar. Não caia na história da nota fiscal comprada da prefeitura: essa nota é de pessoa física e não exime o cliente do pagamento de uma barbaridade de INSS.
Exija confirmação escrita
Não inicie o serviço sem o cliente confirmar, por escrito, que aceita suas condições. Pode ser num fax, pode ser num e-mail. Mas tem que ser por escrito e na aprovação é necessário constarem as condições. Sua proposta foi aprovada, não resolve nada. Mas um "de acordo" e uma assinatura numa cópia do seu fax, ou um e-mail onde conste toda a sua proposta resolvem muito. Um fax desses já me tirou de uma boa encrenca, com um cliente que simplesmente se recusou a quitar minha fatura, sob a alegação de que não podia pagar uma barbaridade dessas por uma tradução. Confrontado com um fax de sua aprovação, pagou em 24 horas.
Se o cliente não pagar na data…
Não entre em pânico. Dois dias depois telefone e, educadamente, sem ironias, sem indiretas, diga que o pagamento ainda não apareceu na sua conta. Peça para ele investigar. Não assuma você o compromisso de falar com o Departamento de Contas a Pagar: peça a seu contato no cliente que faça isso. Se não receber em uma semana após o vencimento combinado, escreva um e-mail educado, informando que não consta pagamento e pedindo recibo do depósito. Não telefone: escreva. Solicite recibo de entrega. Se não receber resposta, escreva depois de dois dias, sempre educadamente, sem insultos nem acusações. Se não receber pagamento ou resposta satisfatória em quinze dias, converse com seu contador, que pode orientar sobre o saque de uma fatura e aponte para protesto. Antes de apontar para protesto ou executar a dívida, avise o cliente. Muitos clientes pagam imediatamente só de ouvir a palavra "protesto".
Na pior das hipóteses, você vai ter de ingressar em juízo. Temos diversos colegas que ingressaram e ganharam. Não tenha medo: o dinheiro é seu.
Jamais…
Por falar em "o dinheiro é seu", ao cobrar o cliente jamais chore as mágoas, dizendo que está precisando do dinheiro porque isto ou aquilo. Você prestou o serviço e tem de ser pago no prazo, mesmo que não esteja necessitando do dinheiro. Se disser que está precisando, o cliente ainda é capaz de te oferecer um pagamento parcial e dizer "resolve o teu caso?", como se estivesse te prestando um favor.
Ainda não recebi do cliente…
Uma das desculpas mais comuns para atrasos no pagamento é a famosa ainda não recebi do cliente. Geralmente, quem dá essa desculpa, são os colegas, não as agências. Mas você não tem nada, nada mesmo, que ver com isso. Quem te passou a tradução é quem te passou a tradução é o responsável pelo pagamento. Além disso, você não tem como saber com certeza se o cliente final pagou ou não.
Jamais…
Divulgue o nome do cliente na Internet. Jamais chame o cliente de ladrão. Deixar de pagar uma dívida é inadimplência, não roubo, e chamar alguém de ladrão porque atrasou um pagamento é crime contra a honra, previsto no código penal. Se chamar o cliente de ladrão porque não pagou a sua fatura ou disser alguma coisa do tipo "fui roubada", ainda pode ser processada e perder a ação, o que é pior.
“Atendimento informal”
Atendimento sem nota fiscal nem RPA, nem pensar. Nota Fiscal de terceiros, então, pior ainda.
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quinta-feira, 9 de novembro de 2006
Está na hora de "reajustar"?
Um dos eufemismos mais divertidos do português é reajustar. Os outros aumentam os preços; eu reajusto. Mas, que seja, tanto faz. Quando é hora de passar do meu preço atual para um preço maior? Os preços, em qualquer lugar do mundo, são determinados pela lei da oferta e da procura. Quando a procura pelos meus serviços é tão grande que já não posso mais dar conta das encomendas, está na hora de cobrar mais, só isso. Não tem nada que ver com os custos, o preço do colégio das crianças, o ter passado no exame disto ou daquilo, o que o mecânico cobrou para trocar o cabo da embreagem. Tem que ver com a relação entre o serviço que me oferecem e a produção que eu posso dar, só isso.
Quer dizer, se você está com pouco serviço, nem pense em preços maiores, por mais justo que possa parecer o tal do reajuste. Por outro lado, trabalhar adoidado para dar conta do excesso de serviço é bobagem: a qualidade cai e, cada vez mais, só vão procurar você para os apaga-fogo. Tipo a tradução dela não é boa, mas é a única pessoa que aceitaria fazer duzentas laudas no fim de semana. Quer dizer, você cava a sua própria sepultura.
Na maioria das vezes, não vale a pena dividir o trabalho com colegas, salvo quando o preço for suficientemente alto para pagar um extra satisfatório para quem fica com o encargo de coordenar o serviço, cobrar do cliente, pagar os impostos, receber o pagamento e repassar a cada um a sua parte. São atividades que tomam tempo e, por isso, exigem remuneração. E você pode ter certeza que, se for coordenar, qualquer taxa de gerenciamento que valha a pena para você vai ser considerada exagerada pelos colegas que fizeram a tradução propriamente dita.
Também não se esqueça de que o que você ganha não depende exclusivamente do preço cobrado. Por exemplo, imagine duas editoras que pagam exatamente o mesmo valor por lauda e definam a lauda exatamente do mesmo modo. Mas a Editora A paga quase que em seguida a entrega e não cria caso com nada. A Editora B demora um tempão para pagar e telefona duzentas vezes para fazer perguntas idiotas ou implicar com picuinhas. Embora o valor por lauda seja o mesmo e a lauda seja a mesma, podemos dizer tranqüilamente que a Editora A paga bem mais que a Editora B. Essa consideração se torna mais importante quando você atinge o teto que um determinado segmento paga. Por exemplo, trabalho muito com agências americanas e meu preço está mais ou menos no máximo que elas pagam. Procurar aumentar o preço agora, seria perder o cliente e não ter como repor. Como estou com bastante serviço, estou simplesmente recusando atendimento aos chatos, para me concentrar nos bons.
Moral da história: a alma do negócio é insistir na busca de clientes. O aumento nos preços e a possibilidade de dispensar os chatos é conseqüência natural do aumento na demanda pelos seus serviços. Espero que você tenha gostado deste artigo. Deixe sua opinião nos comentários e volte amanhã, que tem mais
segunda-feira, 6 de novembro de 2006
Nós e a imprensa
Cada vez que leio um artigo sobre tradução na imprensa, diminui minha fé nela, na imprensa, quero dizer – não na tradução.
O que vende jornal é a reclamação, a esculhambação, evidentemente. Imprensa é oposição, como já disse o Millôr, há muitos anos. Por isso, a maioria dos artigos sobre tradução na imprensa se resume a divulgar erros, principalmente os cômicos. Isso não me preocupa, desde que o que apontem como errado esteja errado mesmo. Não façam como a Veja, que, há anos, meteu o pau de rijo no colega que tinha traduzido "The Physician" por "O Físico", sem saber que os médicos antigamente eram chamados "físicos" em português e que quem fez a tradução usou o termo antigo propositadamente. Acho que quem escreveu a diatribe jamais tinha lido o "Auto dos físicos" de Gil Vicente. Mas mesmo isso é de relevar.
O que me preocupa e irrita, de fato, é a confusão geral que a imprensa faz, entrevistando somente as pessoas que fazem tradução literária ou de filmes e dando as opiniões delas como se referindo à tradução como um todo.
Na verdade, o mercado de tradução literária e de filmes, embora apareça muito nos cadernos de cultura dos nossos jornais de domingo e tenha uma grande importância para nossa vida intelectual, responde por uma pequena parcela do mercado como um todo. Por exemplo, eu, que vivo de tradução desde 1970, jamais traduzi um filme e não traduzo um livro há mais de 30 anos. E, aliás, jamais traduzi literatura.
Além disso, geralmente a imprensa entrevista quem é tradutor amador, gente que não quis ou não conseguiu transformar tradução no seu ganha-pão. Muitos são extremamente competentes como tradutores, mas não são profissionais. Se você pretende ser profissional, decididamente não é a sua turma. Você pode até admirar as traduções deles, muitas vezes excelentes, mas não os utilize como modelos enquanto profissionais, porque, a rigor, profissionais é que não são.
Por isso, quando ler alguma daquelas jeremiadas lamuriosas sobre a impossibilidade de se viver de tradução, sobre gente que trabalha com máquina de escrever porque não tem dinheiro para computador, gente que traduz de noite e trabalha de dia em alguma outra coisa para não morrer de fome, saiba que muito provavelmente não vai ser essa a sua vida.
Aliás, há vários tradutores de editora vivendo decentemente. Ganham menos do que os outros, mas conseguem viver de sua tradução, estão felizes com o que fazem e não trocariam de profissão por nada deste mundo.