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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Você decide – O Repasse


Semana complicada, discussão interrompida. Aqui, terminei dizendo que tradutor detesta recusar serviço. Muitos tradutores sofrem de insegurança crônica. Acham que, se recusarem um serviço ou se recomendarem um colega, vão perder o cliente. Então, pegam tudo o que oferecerem, mesmo que não possam fazer. Não podendo fazer, repassam.

Mas o repasse é muito mal visto e, portanto, quem repassa, muitas vezes faz cabriolas intelectuais para se justificar. Está "ajudando um cliente", é "para não cair na mão de agência", essas coisas. O fato é que se o tradutor disser, "não posso fazer, fala com fulano", ou "vou pedir que um colega meu entre em contato com vocês" resolve o problema da mesma forma — mas é raro o tradutor que tem peito para fazer isso: o medo de perder o cliente — quando não o desejo de fazer uns trocados — impede.
Aqui chegamos, agora, a uma questão fundamental: é ético repassar serviço? Beta estava certa ao pegar o serviço e oferecer a Alfa?

O combinado está sempre certo. Filosofia de boteco, sem dúvida. Se você quer em termos mais bonitos, diga assim "Vale a convenção entre as partes", que é como os advogados dizem. Se Beta se apresentou ao cliente final como uma agência, nada vejo de errado no repasse. Porém, se, para pegar o serviço, ela se apresentou como a tradutora que ia se encarregar do trabalho, mostrando seu CV e sua experiência profissionais como meios de conseguir a encomenda, é errado repassar a outra pessoa, por competente que essa pessoa seja. Transparência, honestidade, são características essenciais de qualquer negócio.

Está certo pagar ao tradutor só um terço do que vai receber do cliente? É esta a pergunta que vou responder durante o fim de semana. Espero que você goste da resposta.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

E a transparência?

Logo que o Danilo lançou a enquete, eu fiquei com vontade de comentar, mas resolvi esperar e ler o que as outras pessoas tinham a dizer antes. Foi uma boa decisão. Mas uma coisa estava me martelando e continua, porque não vi ninguém tocar no assunto. Tradutor A pegou um serviço da empresa B e repassou para o tradutor C, era isso, não?

A mim, pouco importa o preço do repasse. Creio que cada um aceita aquilo que acha que merece ou consegue e, uma vez aceitos o serviço e o valor, essa é uma reclamação estéril e até, conforme o caso, antiética. Acho a questão da transparência com a empresa que solicitou o serviço muito mais importante.

Se ela foi avisada e concordou, não vejo problemas. Mas e se não foi avisada? Como fica a confidencialidade do documento? Eu já peguei uma meia dúzia de textos para traduzir que só vieram ao conhecimento público bem depois da tradução. Imagina se eu repasso e isso cai na boca de quem não deve, como eu fico perante o meu cliente?

Sei não, acho que arrumar cliente hoje é tão difícil, manter também, com tanta oferta de mão de obra... que eu é que não vou me arriscar a perder um numa bobeada dessas.

sábado, 4 de abril de 2009

Irmão Angelino, intérprete ad hoc

Irmão Angelino conteve um grito de susto ao ver José Pequeno rolar escada abaixo depois de levar um encontrão proposital de João Grandão. Ainda bem que Irmão Marcelo, encarregado da enfermaria do colégio, estava passando e assumiu o comando da situação.

Minutos depois, irmão Patrick, recém-chegado da Irlanda para dirigir o colégio e ainda com um português meio capenga, chamou João Grande ao seu gabinete e pediu a Irmão Angelino que servisse de intérprete.

Aqui vai o diálogo entre os três, com as falas em inglês traduzias ao português por mim, porque nem todos os leitores do blogue sabem inglês, mas em negrito itálico, para deixar claro o que é o quê.

I. Patrick: O que aconteceu, João Grandão?

I. Angelino: O que aconteceu, João Grandão?

J. Grandão: O José Pequeno rolou a escada e, como de costume, estão pondo a culpa em mim, dizendo que fui eu quem empurrou. Sou grande mas não abuso dos pequenos.

I. Angelino: O José Pequeno rolou a escada e, como de costume, estão pondo a culpa em mim, dizendo que fui eu quem empurrou. Sou grande mas não abuso dos pequenos.

Essa é uma história que dá voltas na minha cabeça há tempos, sob várias formas. Note que João Grandão estava mentindo, porque tinha sido ele a derrubar o José Pequeno. Irmão Angelino tinha presenciado o acontecido e sabia que era mentira. Mas Irmão Patrick perguntou o que João Grandão dizia e João Grandão dizia que era inocente. Sendo assim, para dizer a verdade, Irmão Angelino teve de repetir uma mentira.

Dada a situação, Irmão Angelino podia agregar uma "nota do intérprete", contando ao Irmão Patrick que tinha testemunhado o incidente e que João Grandão estava mentindo. Mas nem sempre as coisas são assim.

terça-feira, 17 de março de 2009

Desaforo!

Nosso colega Aurélio (nome completo, Antônio Aurélio Fernandes) engenheiro com excelente reputação como tradutor, postou na listatrad-prt a mensagem resumida abaixo, com permissão dele.

O tradutor tem uma grande oferta de tradução técnica mas tem medo de apresentar o teste e ser reprovado. Entra em contato … dizendo que precisa de minha ajuda para trabalhar em dupla, porém exige um teste para apresentar ao cliente. … dias depois volta a entrar em contato dizendo que perdeu a concorrência ou inventa outra desculpa qualquer. … Fica com o trabalho sozinho e …começa apresentar suas dúvidas na lista esperando minha bondosa ajuda ou de outros.

O problema do Aurélio não é ter ficado sem o serviço nem o tempo que gastou na revisão, mas sim o desaforo, o ter sido lesado, a falta de ética.


O cliente também foi lesado, porque recebeu um teste que não refletia a qualidade do serviço que lhe vai ser prestado. É bom atentar agora um instante para essa história de revisar testes. Atualmente, todas as minhas traduções são revistas pela Kelli, que é remunerada por mim. Para mim, é mais econômico pagar a revisora do meu bolso do que eu próprio fazer a revisão, mas isso é outro problema, sobre que falamos em outra hora. O fato é que, se ela revisa as traduções, é correto que revise os testes. Porém seria contrário à ética pedir que ela revisasse os testes, para depois enviar as traduções ao cliente com casca e tudo. Sendo assim, vejo como totalmente ética a postura do Aurélio: revisou o teste, porque esperava revisar a tradução também.


Porém, o colega Fulano de Tal (o nome não foi divulgado) deu um passa-moleque no Aurélio e no cliente.


Agora o Fulano que pediu ao Aurélio o teste achou que pagar os serviços de revisão ia ser bobagem, quando é tão fácil botar as dúvidas nas listas de tradutores, que alguém sempre ajuda. Esperto ele, muito esperto. Por que pagar por algo que se pode obter de graça, mesmo que por meios um pouco menos éticos do que a gente gostaria que empregassem conosco, não é?


Mas não é bem assim. Primeiro que o Aurélio não vai ajudar — e está ele muito certo nisso. Segundo que, mesmo que movido por uma crise de bobeira aguda ele se pusesse a responder às dúvidas do Fulano, sempre há uma diferença enorme entre a solução de meia dúzia de dúvidas via lista e uma revisão cuidadosa, ainda que pela mesma pessoa que resolveu as dúvidas.


Na melhor das hipóteses, o Fulano vai postar mensagens sobre as coisas que ele sabe que não sabe. E as coisas que ele pensa que sabe mas não sabe, como é que ficam?


O Aurélio não divulgou o nome do Fulano. Direito dele e ele acha que, com a mensagem resumida acima, já está de bom tamanho a bronca. Não sei. Quando se dá uma bronca genérica dessas, sem mencionar nome, sempre se lança uma nuvem de dúvidas sobre a reputação de outros colegas. Fica todo mundo se perguntando "terá sido Alfa, terá sido Beta". Não gosto muito disso. Mas é direito dele.


Nunca me aconteceu coisa parecida com revisão, mas já me aconteceu de perder uma concorrência, porque meu preço era alto, para depois encontrar nas listas pedidos de socorro que me pareciam vir do sujeito que ganhou a concorrência por ter cotado menos que eu.


[A Kelli ainda sem Internet. A história é boa e vou deixar para que ela conte. Estamos fazendo uma boa ginástica para manter a comunicação e tocar o blogue sozinho, depois de me acostumar com a participação dela é complicado.]

domingo, 31 de agosto de 2008

Você traduziria um filme pornô?

Meu primeiro encontro com cinematografia pornográfica se deu lá pelos 13 anos. No meu tempo, para a minha idade, o maior escritor do Brasil era Carlos Zéfiro e fiquei todo satisfeito quando um colega mais velho me convidou para uma sessão particular de filminhos. Foi num domingo de manhã, numa sala discreta do então Ginásio Estadual "Professor Ascendino Reis", que, na época, ainda funcionava de favor nas dependências do Grupo Escolar "Visconde de Congonhas do Campo", que ainda está no mesmo prédio, na rua Tuiuti, esquina Padre Estêvão Pernet, que se chamava Rua do Ouro, na época. A projeção estava a cargo do zelador do colégio, que tinha chaves de todas as portas e salas e nos abriu o colégio no domingo. Fui, digamos, uma experiência estética e tanto.


A sessão saudade aí acima foi motivada pela pergunta de um colega no Orkut, que queria saber se nós traduziríamos filmes eróticos, que trafegou por vários campos inclusive pela diferença entre erótico e pornográfico.


Antes de discutir o problema ético, gostaria de abordar o problema técnico: nunca traduzi filme algum, muito menos eróticos ou pornográficos, mas não creio que seja tecnicamente fácil. Todo tipo de tradução tem sua dificuldade específica e, para os filmes eróticos/pornográficos, como para todos os outros, deve haver bons e maus tradutores e más traduções. É claro que a audiência não está muito interessada na tradução, mas isso não isenta o tradutor da obrigação de caprichar.


Depois vem a história da oposição entre erótico e pornográfico, que me parece importantíssima, porque conduz a uma reflexão mais ampla. Não existe uma linha divisória clara entre erótico e pornográfico. Os extremos de cada gênero são facilmente identificáveis. O filminho que eu vi no colégio era decididamente pornográfico, mas existe muita coisa que fica, assim, com um pé de cada lado da divisa. É uma gradação contínua, que vai do mais vil pornográfico até a mais aguada comediazinha de família, passando pelos filmes meramente picantes, o que quer que isso signifique. E isso sem pensar nos documentários e filmes de treinamento, por exemplo.


Do ponto de vista ético, temos um quadro ainda mais interessante. O jovem colega que fez a pergunta diz que estuda em uma Universidade Cristã e que esse tipo de indagação é normal por lá. Sem dúvida, digo eu, que sou agnóstico. O que é anormal é alguém pensar que preocupações éticas são peculiares a estabelecimentos religiosos. Agnósticos e ateus têm tremendas preocupações éticas, talvez mais pesadas ainda que as enfrentadas pelos religiosos, porque entre agnósticos e ateus, não recorremos a fonte nenhuma que não a nossa consciência para resolver esses problemas. Quer dizer, não transferimos a responsabilidade para o pastor que conduz a grei ou para um livro sagrado. Ser agnóstico é muito complicado. Ser ateu também deve ser.


Mas a pergunta é, eu, Danilo Nogueira, traduziria? Acho que sim, sem maiores problemas. Provavelmente, ia enjoar no segundo e recusar o terceiro, mas isso não teria nada que ver com ética. Digo mais, acho que há filmes muito piores que os do cinema erótico/pornográfico, filmes de uma violência ímpar, que banalizam o mal e me parecem muito mais danosos que qualquer cena de sexo explícito.


Entretanto, cada caso é um caso e há certas coisas que eu recusaria. Ouvi dizer que há filmes com estupros e isso, para mim, não é erotismo nem pornografia: é violência e crime. Também é crime a pedofilia e, mesmo que não fosse, meu estômago não iria aceitar. Não se pode generalizar.

Agora, uma pergunta final às pessoas religiosas e que levam sua religião a sério. Imagine a seguinte situação: você recebe um filme para legendar, começa a rodar o filme e fica revoltado: a primeira cena é uma criança sendo estuprada. Contendo o ódio, nojo e revolta, você telefona para a polícia e denuncia. Certo? Meia hora depois, liga um membro da sua igreja e diz estamos montando um comitê de ação sobre pedofilia e precisamos legendar um filme para uso do comitê. Vou avisando que é brabo. Você topa? Ao examinar o filme, você vê que é exatamente o mesmo que você tinha recebido pouco tempo antes. E aí, o que você faz?


quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Traduzindo Bush

Um colega levantou a questão de como traduzir o que, temporariamente, vou chamar as cincadas de George W. Bush. Traduzir as falas de George W. Bush é uma tarefa que, para o profissional, traz pelo menos três problemas.

O mais simples são os erros de gramática, dificuldade que não deve assustar qualquer tradutor, já que encontramos erros de gramática por todo o canto e mesmo nós próprios dizemos e escrevemos muita bobagem.

Depois, vem o fato de que o que ele diz nem sempre é muito claro. Problema maior, sem dúvida, mas, mesmo assim, não dos piores, já que traduzir textos obscuros é tarefa de todo dia.

O pior dos problemas, a meu ver, é o que chamo a questão ideológica. A maioria de nós – incluindo eu – discorda profundamente do ideário político de Bush e tem por ele uma antipatia fundamental, basilar, hepática, até, por assim dizer. É muito difícil traduzir um texto (falado ou escrito, se me permitem essa ampliação do sentido) de autoria de alguém que não nos é grato.

Há muita gente que advoga uma tradução ideológica: aproveitar a chance oferecida pela tradução para, na medida do que conseguir, pintar o diabo ainda mais feio do que ele na verdade é. Sou contra essa abordagem. Para mim, essas abordagens “ideológicas” são a antitradução. Fiquei todo contente de ler, no Quase a mesma coisa, do Umberto Eco, as cutucadas que ele dá nas “tradutoras feministas”, com o agradecimento a duas tradutoras de seus textos que preferiram fazer traduções sem qualificativos, não traduções feministas.

Então, a melhor maneira, para mim, de enfrentar as coisas que o Bush diz é simplesmente esquecer quem ele é. Democraticamente, afirmar que todos são iguais perante o tradutor/intérprete e dar ao discurso dele o mesmo tratamento que daríamos ao discurso de um político igualmente mal-falante, mas cujas idéias aprovássemos, ou, melhor ainda, de um sujeito que nem soubéssemos quem era e estivesse ensinando alguém onde era o banheiro mais próximo.

Não sou especialista, mas acho que o problema maior da forma da fala do Bush (embora não do conteúdo) seja causado por uma dislexia. Conheço uma senhora disléxica, muitíssimo querida minha, que diz coisas extraordinárias, não por burrice, mas pela dislexia. Se eu fosse traduzir o que ela diz, botaria tudo "em língua".

Nem de longe estou dizendo que, curada a dislexia, o Bush fosse virar intelectual e um homem do bem. Estou dizendo que as distorções produzidas em sua fala pela dislexia devem ser desperezadas pelo tradutor, assim como caberia desprezar o sotaque de um estrangeio, ou algum distúrbio da fala, como gagueira.