quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Mais revisão, ainda!
O Renato Beninatto deixou um em inglês, que depois tuitou (@renatobeninatto), onde diz que o mais forte não é nem o amor nem o ódio, mas a necessidade de alterar o texto alheio. Certo está ele. É uma compulsão à qual o revisor tem de resistir, a compulsão mesquinha de encher o texto de mudanças, em parte para mostrar serviço ao cliente, em parte para provar a si próprio que é mais competente que o tradutor, que muitas vezes, recebe remuneração maior.
Muda-se quando está errado, muda-se quando a emenda realmente melhora o texto. Não se muda quando "tanto faz, mas eu prefiro assim". Impor as preferências do revisor à tradução é tão antiético quanto impor as preferências pessoais do tradutor ao original.
Explico-me: conheço um tradutor, conhecido por traduzir bem e escrever bem, mas não gosto do trabalho dele: tudo o que ele traduz tem exatamente o mesmo estilo: o dele. Acomoda tudo ao seu leito de Procusto particular. Ler as traduções dele, é como ir a um baile onde se toque de tudo: desde bolerão velho de guerra, até a mais recente ramificação da World Music; desde samba-enredo até hard metal - mas sempre com o mesmo jeitão.
Da mesma forma, há revisores (e editoras) que também impõem um "estilo da casa" ao que passa por suas mãos. É certo que os textos que pasteurizam ficam muito claros e sempre muito corretos, mas não têm gosto de nada.
A Sandra Navarro deixou uma outra impressão interessante, sobre a invisibilidade do revisor, maior ainda que a do tradutor. Quando há revisão (o que nem sempre é verdade, lamentavelmente) os acertos são creditados ao tradutor, os erros são debitados ao revisor. Notei isso quando fiz parte do júri de um prêmio de tradução e um texto foi recusado pelos "erros de revisão" - mas ninguém falou em "boa revisão" nem em criar um "prêmio de revisão".
Uma pena, porque não há boa tradução sem uma excelente revisão.
Acho que ainda vamos voltar ao assunto. A conversa está boa.
Obrigado pela visita e volte sempre.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Mais sobre revisão
O artigo da Kelli ontem chama atenção para o problema da dificuldade de aceitar emendas ao próprio trabalho.
Deixa contar umas coisinhas, assim, meio que em ritmo de fofoca. A Kelli e eu trabalhamos juntos há quase um ano (lembra, Kelli?). Além de cooperar comigo em mil tarefas, como preparação de cursos, ela revisa minhas traduções. Periodicamente, trocamos de lugar e ela traduz para que eu revise.
Quando ela atua como revisora, deita e rola com meu texto, sugerindo mil alterações, na maioria das vezes muito bem embasadas, que eu aceito com prazer. Por outro lado, quando sou eu quem revisa, embora ela não reclame, sente-se que a troca de uma vírgula lhe azeda o dia.
Nisso, a norma é ela, a exceção sou eu. Tradutor tem ódio de ver seu texto modificado. Somos uma raça de prima-donas. Cada emenda, cada sugestão do revisor é vista como uma ofensa, a ser lavada com sangue. Tradutor defende a correção de seu texto com unhas e dentes, a golpes de gramática e dicionário, muitas vezes se esquecendo de que mesmo o que está certo pode ser melhorado e que essa é uma das funções mais importantes do revisor: melhorar o que já está bom.
A Kelli também fala do "estilo danilesco". Isso se aplica mais aos meus originais que às traduções, porque, nas traduções procuro respeitar o estilo do autor — não usando "porca vacca!", por exemplo. Entretanto, não resta dúvida de que o mesmo original, trabalhado por outra mão, resultaria em tradução diferente. Isso obriga o revisor a ser um camaleão, porque, ao remendar um texto meu, não pode aplicar um remendo que destoe do tecido do texto em geral — uma boa revisão é mais um cerzido invisível do que um a aplicação de remendos, por bonitos que sejam.
Aliás, o dicionário me diz que texto tem a mesma etimologia que tecido e já aparecia em Quintiliano, o que não é de surpreender. Esses romanos, certamente, sabiam das coisas.
domingo, 19 de abril de 2009
Você foi bem sucedida na tentativa (2)
Esta é a segunda parte da resposta a um comentário deixado aqui e, certamente, a mais importante.
Como disse na primeira parte deste artigo, acho deselegante e de pouca ética o hábito de desfiar coleções de erros alheios em público. Mas quando faço uma revisão, me considero na obrigação de manter o cliente informado sobre a qualidade do trabalho. Já elogiei muita gente, já fiz outros tantos perderem o cliente.
Quando a tradução é ruim, preciso de mais tempo para revisar. Ou cobro mais – e preciso justificar a cobrança – ou tomo prejuízo – o que não é minha obrigação, porque a burrada não foi minha. Já devolvi textos por inservíveis, já tive de refazer do zero, num fim de semana, porque tinha prazo para entregar e não havia tempo para grandes discussões, visto que a agência estava fechada.
Você não acredita quanta sem-vergonhice tem por aí. Tem gente que faz testes lindos, mas repassa tradução para pessoas absolutamente incompetentes; tem gente que simplesmente entrega material sem dar nem uma olhada por cima, para tirar o grosso dos erros. Chegou no fim, manda e o revisor que se vire. Por outro lado, tem gente que faz serviço bonito, inclusive se dando ao luxo de destacar os pontos mais complexos para atenção especial do revisor. Um ganha estrelinha dourada, o outro toma pito. É assim que funciona. O cliente e, mais do que ele, o leitor, merecem o nosso respeito.
Não importa se o cliente paga pouco ou muito: aceitou, tem que caprichar, que eu não estou aqui para limpar caca feita por gente incompetente ou descuidada. Caiu na minha mão, tem que sair bonitinho (não como estes artigos batuscritos assim meio a la porca em meio a mil outras coisas).
Mas a safadeza não é só dos tradutores: o que tem de cliente que manda para o editor o lixo dos lixos, esperando que a gente devolva uma tradução impecável é uma barbaridade. Tem uma turma que manda tradução automática para a gente revisar e quer pagar preço de revisão normal. E – acredite se quiser – temos um par de colegas espertinhos que fornecem traduções automáticas a clientes como se tivessem sido feitas por eles. Pau neles!
Com meu comentário, posso estar prejudicando alguém? Desculpe, mas dizer a verdade não prejudica a ninguém; calar perante o erro prejudica a muitos, incluindo uma turminha boa que está aí doida atrás de servço.
Não somos nós os primeiros a reclamar do que nos parece excesso de corporativismo em outras profissões? Quantas vezes você não ouviu alguém revoltado dizendo que os membros desta ou daquela profissão encobrem os erros uns dos outros? Então, como é que fica?
Um outro ponto do comentário que merece análise é o "dá para entender" e o "errado, não está". Que é isso, companheiro? Quando você está do outro lado do muro, como comprador, aceita um "dá para usar" ou um "quebrado, não está"? Acha que isso é aceitável? Pois é. O que não é aceitável para o comprador, não deve ser aceitável para o vendedor. Revisão serve para transformar uma boa tradução em uma tradução excelente. Tradução ruim não se revisa: joga fora e faz de novo.
Finalmente, no fecho você se refere a mim como "paladino das traduções bem sucedidas", não sem uma pontinha de escárnio. Não sou paladino de nada, mas defendo a qualidade. Aliás, meu nome é Danilo e prefiro não ser tratado por "senhor" - especialmente quando o "senhor" é forma de escárnio, não de respeito.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Precisamos de uma revisãozinha
A Agência Alfa oferece um serviço à tradutora Beta, mas não chegam a um acordo quanto a preço. A Agência Alfa, então, encarrega do serviço a tradutora Gama, que aceita tarifas "mais competitivas". Até aí, faz parte da normalidade. Nós também procuramos preços "mais em conta", quando estamos procurando comprar alguma coisa. A Tradutora Beta não gosta, mas faz parte da vida. Quem ganha, celebra; quem perde, é melhor não chorar, porque chorar dá pé de galinha e porque também torna difícil notar que há outros clientes neste mundo, além da Agência Alfa.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Já estou cansado!
Isso dito, faço aqui a solene promessa de nunca mais criticar clientes finais, donos de agência e gerentes de projeto. Mas certamente vou criticar a mim próprio e aos membros da minha tribo, a tribo dos tradutores e revisores. Um pouco de autocrítica, um pouco de mea culpa, não faz mal a ninguém, desde que seja uma crítica honesta e inclua um certo esforço para abandonar os caminhos do pecado. Não, acho que vou fazer uma coisa melhor: em vez de autocrítica, vou escrever uma lista de decisões. Ainda é meio cedo para decisões de ano novo, mas não faz mal.
Prometo que vou sempre passar o revisor ortográfico mais uma vez antes de entregar o serviço. Uma vez, decidi fazer uma mudança de última hora em uma tradução para uma agência americana, onde ninguém entendia uma palavra de português. Fiz um “substituir todos” e, em conseqüência, mudei não só a palavra que queria mudar, como também as tripas de uma outra palavra mais comprida. Não me perguntem qual: prefiro esquecer essas coisas. Depois, o pessoal de DTP formatou o texto e mandou para o cliente final, que sabia português e quase teve um infarto. Se eu tivesse passado o revisor ortográfico mais uma vez, antes da entrega, teria poupado ao cliente um grande constrangimento e eu próprio não iria sofrer o prejuízo financeiro que sofri. E, já que estamos falando nisso, também prometo nunca mais usar o comando “substituir todos”.
Quando estiver revisando o serviço de um colega, prometo que nunca vou fazer uma alteração sem uma justificativa melhor do que “porque fica melhor assim”. Uma das coisas mais irritantes para um profissional é ver seu trabalho cheio de alterações aparentemente sem proveito nem finalidade. O gerente de projeto, que muitas vezes não sabe português, quando o cliente é estrangeiro, fica sem entender o que está acontecendo nem o que fazer. O tradutor fica zangado e tudo o que o revisor tem a dizer é “bom, fica melhor assim”. Nem sempre a gente pode justificar todas as alterações com gramática e dicionário, mas, pelo menos tente dizer coisas do tipo para manter a uniformidade, ou para melhorar a coerência. Comecei a agir assim e, aos poucos, estou desenvolvendo um conjunto de regras claras e precisas para melhorar a qualidade das traduções que reviso, isso para não falar das minhas próprias.
Não vou ficar furioso por causa de alterações de revisores. Se o revisor fizer uma alteração aceitável em minha tradução, eu vou aceitar. Se a alteração for inaceitável, entretanto, vou conversar com o gerente de projeto e tentar explicar claramente por que eu não concordo com ela. Não há motivo para começar cada um de meus comentários com alguma coisa do tipo “esse cricri imbecil…”. Simplesmente, vou tentar citar alguma prova de que estou certo. Por exemplo, a ortografia brasileira é governada por lei (2623/55, com suas emendas) e o regulamento pode ser encontrado em qualquer dicionário. Veja a regra 53 e note que ela dá pleno apoio à minha pontuação. Se você não leu a regra 53, abra o dicionário e leia agora. Talvez você tenha uma surpresa.
Vou conferir a formatação de minhas traduções. Faz muito tempo que decidi aprender a formatar um documento direito com o MSWord. Nada de muito especial: O Word não é o QuarkExpress e eu não presto serviços de editoração eletrônica. Mas certas coisas como usar tabelas e tabulações corretamente, formatar parágrafos deslocados como se deve, em vez de usar marcas de parágrafo e espaços, coisas desse tipo. Se você não está entendendo, então precisa passar uma tarde com uma boa introdução ao Word for Windows. Quando terminar a tradução, veja se em algum lugar há dois espaços consecutivos. Salvo se o texto for em inglês e os dois espaços consecutivos forem usados no fim de uma sentença (e de todas as sentenças), não deve haver nenhum caso no texto todo. Muitas vezes, batemos a barra de espaço duas vezes ou mais entre uma palavra e outra e muitos de nós esquecem de apagar os espaços que sobram antes de entregar o serviço e, assim, o texto fica parecendo queijo suíço. Os espaços no início da linha ou antes de marcas de parágrafo ou tabulação também são um mau costume. Não deixe aprender a usar o tabulador. E nunca use um hífen quando deveria usar um travessão, por favor. E nunca use dois hífens quando deveria usar um travessão. Aquele pessoalzinho bom que edita seu trabalho ou faz editoração eletrônica vai ficar grato e, quem sabe, lembrar de você nas suas orações. E é mais provável que o cliente lembre de você para um outro serviço.
Vou respeitar as convenções tipográficas da língua de chegada. Os números em inglês seguem a regra do xxx,xxx.xx e em português a do xxx.xxx,xx, não faz diferença se a gente está contando dólares, reais ou camelos. Também vou respeitar todas as convenções sobre uso de maiúsculas e pontuação.
Não vou aceitar serviços que não possa fazer. O cliente (ou o gerente de projeto) pode bater a cabaça na parede, se quiser, mas não vou aceitar um prazo apertado demais. Não vou dar ouvidos àquela história de que é um serviço fácil, porque sei que isso não existe. Não vou dar ouvidos àquela história de que uma “minuta” serve, porque sei que o mesmo sujeito que diz que quer o texto “só para informação” é exatamente o mesmo que depois vai dizer que eu fiz um serviço porco e cobrei um dinheirão. Evidentemente, isso significa que vou aprender a fazer estimativas realistas do tempo necessário para fazer um serviço. Nunca mais vou dar uma olhadinha e dizer “tá bom, acho que vai dar.”
Vou fazer questão de ter tudo por escrito. Não estou dizendo que os clientes sejam desonestos. Mas a melhor maneira de evitar mal-entendidos é escrever tudo antes de começar a trabalhar: taxas, datas de entrega e quantificação. Se a contagem se basear no original, peça ao cliente a contagem e aceite antes de começar. Se o cliente insistir em uma contagem um pouco menor que a sua, não reclame: cada versão do Word for Windows dá uma contagem diferente. Simplesmente aceite as pequenas diferenças como coisa da vida. Se a diferença for grande, investigue o assunto. Se a taxa for boa, às vezes até uma contagem baixa demais pode ser aceitável. Nesse caso, não reclame. Se a paga final for baixa demais, não aceite o serviço. O que importa é que tudo deve estar por escrito e bem explicado. Quando receber as informações do cliente, leia tudo direitinho. Monstros terríveis muitas vezes se ocultam por detrás de um palavreado aparentemente inofensivo. E, finalmente, nunca aceite nada que o cliente diga que é somente “para constar”. É justamente esse trecho que o cliente vai pedir para você ler muito cuidadosamente, quando chegar a hora. E, se o acerto vier em forma de e-mail, imprima e pendure onde você veja. Combinar tudo por escrito, conferir o combinado direitinho e deixar tudo sempre à vista são um dos meios mais importantes para assegurar a satisfação do cliente. E,
Vou sempre cobrar o máximo e fazer um serviço tão bom quanto possível. Vou sempre procurar conseguir o maior pagamento possível por qualquer serviço que aparecer. Mas, depois de aceitar o serviço, vou esquecer quanto estou recebendo e fazer a melhor tradução que puder. Jamais vou fazer uma tradução de segunda e dizer que está até que boa demais para o que estão pagando. É uma estratégia é contraproducente, porque, quando alguém precisar de um bom tradutor, vai provavelmente oferecer ao sujeito que fez a tradução melhor, não a quem fez uma tradução “compatível com o preço”.
Não mentirei. Se não puder terminar o serviço em tempo, vu dizer “Desculpe, subestimei o tempo que precisava para essa tradução”. Ninguém mais acredita naquela história do HD novinho em folha que deu pau mais uma vez ontem.
Vou sempre conferir minha tradução, para ver se tem tradutorês. Tradutorês, caso você não saiba, é aquela língua esquisita que só se encontra em traduções. Não existe razão alguma para uma tradução parecer esquisita. Se você está traduzindo para o inglês, por exemplo, procure coisas como “The legislator of our fatherland found it to be a good thing to allow such action, being that under the previous legislation it was held to be illegal”. Se estiver traduzindo para o português, procure coisas do tipo Suficientes dados não estão disponíveis para que pudéssemos tornar nossas ações consistentes com… Não há justificativa para uma coisas dessas. Também procure coisas que não fazem muito sentido para você, porque, se não faz muito sentido para, você, provavelmente não vai fazer sentido algum para o leitor.
Não vou tentar “melhorar” o original. Tenho grande orgulho de meu trabalho
Não vou discutir com o cliente por causa de preferências de vocabulário e sintaxe. Se o cliente quiser mudar o texto, pode mudar à vontade. Vendi o texto para ele, e ele agora é o dono do texto. Essa é uma das razões pelas quais não gosto de assinar traduções. Finalmente, reservo-me o direito de jamais trabalhar para o cliente de novo – quer dizer, se eu encontrar outro melhor.
Não vou contradizer meu cliente. Se o cliente disser que a irmã dele poderia fazer a tradução, não vou abrir a boca. Se o cliente disser que o primo dele tem um programa que pode fazer a tradução, não vou discordar. Se o cliente alegar que, se eu insistir nesses preços abusivos, ele vai pedir para a filha dele fazer a tradução, vou, muito educadamente, dizer – desculpe, esse é o mínimo absoluto que eu posso cobrar –, sem uma sombra de ironia, desligar, e deixar que ele se dane.
Não vou falar mal de colegas, mas, se encontrar erros de tradução, vou apontar. Jamais vou dizer – não dê essa tradução para a Fulana, a mulher é quase analfabeta – , mesmo se souber com certeza que ela é mais burra que a mãe da burrice. Entretanto, vou dizer ao cliente que não acho mandate of security uma tradução decente para mandado de segurança e não quero saber quem disse que era.
Não vou brincar com taxas e condições de pagamento. Só vou aceitar o serviço quando o cliente e eu estivermos de acordo quanto a taxas e condições de pagamento e o cliente entender exatamente o que está pagando. As agências sabem exatamente o que estão fazendo, mas muitos clientes finais não têm idéia. Por exemplo, quando o cliente é brasileiro, provavelmente vai pensar que a lauda equivale a uma página de seu texto, o que não é verdade. Algumas agências pagam de acordo com o original, outras, pela tradução, e essas coisas precisam ser combinadas antecipadamente. E, feito o acordo, vou cumprir tudo cuidadosa e estritamente. Por exemplo, se o pagamento não estiver na minha conta na data combinada, o cliente vai ficar sabendo no dia seguinte, logo cedo.
Jamais vou me apresentar
E, finalmente, não vou resmungar. Estou cansado de ouvir tradutores, revisores, donos de agência e gerentes de projeto que vivem reclamando de tudo, do tanto que trabalham, do pouco que ganham, dos clientes e fornecedores incompreensivos e desonestos, de tudo. Considero reclamar um desperdício de tempo e energia. Vamos investir nosso tempo e energia em melhorar nossa sorte.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Revisar “versões”?
Eu já acho fazer “versão”, quer dizer, traduzir da minha língua para uma língua estrangeira, uma temeridade. A maioria das “versões” para o inglês feitas por brasileiros que tenho visto é de péssima qualidade – e olhe que inglês não é minha língua materna. Se fosse, provavelmente acharia ainda mais besteiras.
Já fiz muita “versão”, entretanto e, ao que tudo indica, não me dei de todo mal. Porém, de tempos para cá, só tenho feito “versões” para clientes cuja língua nativa é o inglês. Quer dizer, se ele aprova, não tenho o que temer do meu tupiniquinglish. As outras, tenho recusado. Fico mais tranqüilo, assim.
Uma vez, uma colega me pediu a revisão de uma “versão”. Fiz e me arrependi. Não acredito que eu tenha competência para revisar o inglês alheio e garantir que o resultado tenha nível profissional. Não aceito mais esse tipo de serviço.
No tempo em que eu ainda fazia muita “versão”, tinha um funcionário de um cliente que insistia em escrever “direto em inglês”, para minha revisão, para se ganhar tempo e ele ir “treinando”. Aqui, temos um problema inicial: eu presto serviços de tradução, não de ensino
O segundo problema deixaria alguns teóricos da tradução irritadíssimos. Para mim, toda tradução (ou “versão”) pressupõe um original, dele depende e a ele tem de ser fiel. Não é possível revisar uma tradução (ou “versão”) sem ter ao lado o original, que nos esclareça se o texto que o cliente nos enviou é fiel. Então, tive um pega com o sujeito. Fiz pé firme. Ele disse que eu era teimoso e eu dei a famosa resposta de Mário Covas: teimoso é você, que teima comigo! Cravei os cascos na lama e não aceitei. Não aceitei e não aceitei. E quando eu digo que não aceito, é porque não aceito e pronto.
Como revisor, eu sou o goleiro e, quando a bola entra no gol, o culpado sou eu. Não adianta dizer que o texto do cliente estava confuso e tal. Se der meleca, sou eu o acusado de incompetente. Por isso, não aceito. Prefiro perder o cliente. Mas não perdi. Havia muito serviço de “versão” na casa e era eu quem fazia. Só havia um cara que queria escrever direto em inglês.
Um dia, o cara saiu da firma e foi trabalhar em outro lugar. Tempos depois, me ligou e perguntou se eu estava disposto a aceitar um novo cliente. Eu já previ o que era, mas deixei que ele se enforcasse na própria corda. Aceitei. Ele mandou o texto via e-mail. Com todo jeito de inocente, pedi o original. Ele disse que não tinha. Então eu disse que não podia revisar e, de novo, cravei os cascos na lama. Ele desistiu e nunca mais tentou fazer contato. Não fez falta.
segunda-feira, 31 de março de 2008
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
Na história que contei sobre transcrição de fitas do Jaques Cousteau,
O cliente, meio que sem saber sabendo, como diria o Chaves, faz de conta que é um serviço só, e é bem capaz de até tentar convencer a gente que é até mais fácil ir ouvindo e "já" ir traduzindo do que traduzir de um texto. Para conseguir um desconto, qualquer argumento é válido. Mas o fato é que transcrever, mesmo para o transcritor competente, toma muito tempo, principalmente quando a gravação foi feita por gente incompetente usando equipamento inadequado – o que é mais comum do que se teme.
Também é comum o cliente mencionar que a palestra foi de improviso e que precisa de uma revisãozinha. "Revisãozinha" já é outro serviço e precisa ser cobrado separadamente.
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
O tradutor e os impostos
Em traços largos, a história é a seguinte: clientes que são pessoas jurídicas precisam informar ao Leão para onde foi o dinheiro deles: tanto para isto, tanto para aquilo, tanto para aquele outro. Para tanto, precisam documentar a transação e o documento exigido pela lei tem de ser fornecido por um trabalhador autônomo (Nota Fiscal de Autônomo ou RPA, o que dá no mesmo) ou uma outra pessoa jurídica (Nota Fiscal de Pessoa Jurídica). Não é ranhetice do cliente. É a lei. Sem isso, encrespa.
Há umas soluções heterodoxas por aí, mas nada disso funciona direito. É possível pagar por fora, mas dá um problema danado: ou se faz pelo caixa dois, o que é ilegal, ou o valor pago tem de ser contabilizado como lucro da empresa cliente e, portanto, está sujeito à tributação. Também o tradutor pode comprar uma Nota Fiscal de alguém, mas isso é crime contra a ordem tributária. Mesmo que não fosse, tem mil conseqüências negativas. Tem mais umas tais de associações etc., mas é bom tomar cuidado com tudo isso. O Leão pode ser manso, mas não é bobo. E adora carneirinhos.
Quanto custa isso? Caro, lamentavelmente caro. Tem que pagar imposto de renda sobre o que recebe. O IR sobre RPA é progressivo, quer dizer, a alíquota (porcentagem) aumenta com o valor do pagamento. Quanto maior o ganho no mês, maior a alíquota. Se for Nota Fiscal de Pessoa Jurídica, o imposto de renda cai, mas tem que pagar uma cacetada de outras coisas – e o contador, ainda por cima. De um modo ou de outro, tem ISS, que é municipal e, portanto, varia de uma cidade para outra, e INSS, que tem um valor máximo mensal. É uma confusão dos diabos e que, além de tudo, muda a toda hora. Varia barbaramente conforme seu faturamento mensal, principalmente se você for autônomo e estiver submetido à tal tabela progressiva.