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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Você foi bem-sucedida na tentativa?


"Você tem sido bem-sucedida em sua tentativa de aprender inglês? O marido de uma amiga minha falhou e consequentemente não foi promovido na corporação em que trabalhava."

Se eu encontrar uma bobagem dessas numa tradução que estiver revisando, troco logo para "Você está conseguindo aprender inglês? O marido de uma amiga minha não conseguiu e, por isso, não foi promovido no serviço" e aviso o cliente para procurar um tradutor melhorzinho ou, ao menos, para avisar o vivente que é para traduzir para o português, não para o anglunhês.

Essas coisas num texto traduzido são indesculpáveis: a isso se chama contaminação. Num texto escrito originalmente em português, são piores ainda e devem ter outro nome. No entanto, não há dia em que não se encontrem os famosos "falhou em" e "foi bem-sucedido em" na nossa imprensa e em mil outros lugares.

Outra é o "fortemente". Gente que tem horror a advérbios e diz, metodicamente "de forma metódica" para evitar o sufixo -mente, este pária da língua, diz "fortemente" só porque, no mesmo lugar, o inglês diria "strongly". "Sistemas fortemente correlacionados" são "sistemas com grande correlação", "recuou fortemente" é "sofreu/teve um grande recuo"

O mais curioso é que essa gente escreve português como se fosse inglês, mas escreve inglês como se fosse português: o mais puro tupiniquinglish. Quer dizer, esqueceram uma língua sem terem aprendido a outra. É um feito, convenhamos.

Obrigado pela visita, deixe seu comentário, dê um pulo aqui, se é que ainda não conhece — e volte amanhã.

PS: Já tinha publicado isto quando topei com um "poderão não atender". Em português, se diz "talvez não atendam". Eita ferro!

domingo, 27 de julho de 2008

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Ontem, na Reunião na Sala 7, prometi que ia postar aqui no blog uns endereços para cadastramento de tradutores. Lamentavelmente, meu computador titular deu problema e estou trabalhando no regra 3, em cujo HD não estão todas as informações que quero. Então, vai ter de esperar um pouco. Mas não impede que eu escreva sobre outro assunto que vem me preocupando muito, a história do amo a língua inglesa (ou francesa, ou turca, ou o que diabo seja). A turma estuda tanto, mas tanto, a língua estrangeira, que acaba descuidando do português. Ama tanto a língua estrangeira, que despreza a sua própria. E traduzir é, principalmente, escrever português.

O problema menor, a meu ver, são os erros de português encontrados nas traduções. É muito mais grave o problema dos tradutores que começam a escrever tradutorês nos seus textos originais em português. Vou dar dois exemplos, ambos do inglês e ambos mascaradinhos, para não criar caso demais da conta. Mas o essencial está preservado.

Uma colega escreve eu fui oferecida um trabalho de revisão. Santo Deus! Misericórdia! Eu fui oferecida um trabalho é tradução literal de I was offered a job e é coisa que, em boca de gringo tem lá sua graça. Mas brasileiro nascido e crescido aqui, que estudou aqui toda sua vida e que se considera profissional da língua (e revisora!), escrevendo uma barbaridade dessas – e, tenha certeza – não foi brincadeira.

Outro me escreve falhei em lembrar. Ora, pipocas, falhei em lembrar, em língua de quem come arroz e feijão, significa lembrei e isso foi uma falha da minha parte. O que o colega quis dizer é não lembrei, mas achou chique copiar o inglês I failed to remember.

Que essas coisas se escrevam numa tradução já é mau, já revela um grave problema de contaminação. Que se escrevam em mensagens e recados e cartas e coisas escritas originalmente em português, é alarmante. Daqui a pouco, vão dizer faz você gostar para comer panquecas?

Mas, se a gente corrige, ficam zangados, somos acusados de falta de coleguismo, arrogância, o diabo – e lá vem aquele sarcasmo internético irritante do tipo peço humildes desculpas pelo meu terrível erro… Instalou-se, lamentavelmente, a cultura da crítica construtiva, que muitos interpretam como só dizer coisas boas e nunca apontar os erros.

Então, vou começar esta nova fase do blog sendo destrutivo, arrogante, antipático e espírito de porco: gente, é o seguinte: quer ser tradutor? Estude português. Leia menos inglês e mais português. Ame menos o inglês e mais o português. Compre o Lições de português pela análise sintática do Evanildo Bechara e leia de ponta a ponta. Consulte um dicionário antes de escrever subtotal para não bota hífen onde não deve. Aprenda a usar maiúsculas direito, em vez de acompanhar o hábito americano de salpicar o texto de maiúsculas como se fosse ketchup. Em outras palavras, não escreva português como gringo. Português é português, inglês é inglês. Ou, na expressão da moda, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Até amanhã.