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domingo, 4 de maio de 2008

Que línguas aprender par ser tradutor?

Oi, Danilo. Tudo bem?

Meu nome é Julieta, tenho 18 anos e interesso-me pela área de tradução também. Atualmente faço jornalismo, mas irei mudar de curso. Visitei seu blog esses dias e achei-o ótimo. Tirou algumas dúvidas que eu tinha.

Pretendo começar o curso de Tradutor e Intérprete aqui em Bauru na Universidade do Sagrado Coração (não sei se conhece a universidade, esse é o site www.usc.br), porém o curso aqui oferece tradução apenas português/inglês. Seria muito pouco? Porque, na verdade, eu me interesso por outras línguas também, além do inglês.

Gostaria de ter uma resposta, se possível. Obrigada.

Para começar, Julieta, parabéns pelo seu português impecável. Escrever bem não garante nada, mas quem não sabe escrever tem um futuro triste na tradução. Quer dizer, está começando com o pé direito.

Já estive duas vezes na USC como palestrante. O ambiente é agradável e amigável, mas a visita foi curta demais para que eu pudesse formar uma opinião sobre o curso em si. De qualquer forma, o curso, por bom que seja, só pode ensinar: só você pode aprender – e esta é uma lição que todo estudante deveria saber.

A maioria dos cursos de tradução só cuida de inglês, o que é lamentável, mas uma necessidade, porque a busca pelos cursos de tradução em outras línguas é muito pequena. E a predominância do inglês só faz aumentar desde que estou no mercado. Muitos excelentes tradutores de alemão hoje vivem mais de traduzir inglês.

Mas vamos tentar colocar as coisas nas devidas proporções.

Traduzir exige um conhecimento muito profundo do par de línguas envolvido e mesmo você, que escreve português muito bem, vai ter de aprender uma meia dúzia de coisinhas sobre nossa língua, para se tornar uma tradutora de primeira água. De inglês, então, nem se fala – mesmo que você tenha feito um curso pesado, tipo cultura inglesa. Se seu inglês for meio cru, então, vai ter de dar um duro danado. Não que você não vá conseguir, é claro.

Poucas pessoas conseguem atingir esse nível em LM+2, quer dizer sua própria língua materna e mais duas. Raras conseguem LM+3. Muito raras conseguem mais que isso. A quase totalidade das pessoas que acha que é capaz de traduzir de e para quatro línguas (LM+3), simplesmente carece de autocrítica.

Nada impede que você faça como tantos tradutores apaixonados por línguas, que são capazes de ler com razoável facilidade oito ou mais línguas, mas as línguas de trabalho são realmente LM+1 ou LM+2, raramente LM+3. O resto é diversão.

E o seu rendimento não depende do número de línguas que traduz. Se você traduzir inglês, depende muito mais de sua especialização. Eu, por exemplo, sou um especialista em contabilidade, finanças, direito societário e tributário. Por isso, tenho serviço em quantidade e posso exigir um pagamento relativamente alto. Se agregasse francês e alemão ao meu inglês, não iria ganhar um tostão a mais, porque, para cada tradução do francês aceita, teria de recusar uma de inglês.

Na verdade, se você trabalhar com inglês, não precisa de mais nada. Se trabalhar com francês, italiano, alemão ou espanhol (grupo que se chama figs em inglês – French, Italian, German, Spanish) vai ter mais dificuldade em montar uma carteira e pode ser útil trabalhar com duas línguas, digamos, francês e italiano, ou alemão e inglês. Se optar por algo que não seja Inglês+FIGS, aí sim, provavelmente vai ter de trabalhar com várias línguas. Mas aí, estamos entrando em um campo muito complexo, que fica para outro dia, porque este artigo já vai longo demais.

Espero que a resposta tenha sido útil a você e a mais alguém. Acho que amanhã volto ao tema.

9 comentários:

Anônimo disse...

Danilo,

Detonou. Eu já ia fazer uma sugestão pra um post desse tipo. Eu fiz uma pesquisa (muito) intensa nessa área, não com professores mas com estudantes poliglotas, a maioria do fórum do ótimo site www.how-to-learn-any-language.com . Eu desenvolvi o que é pelo meu julgamento o melhor método, e para minha sorte também o mais barato e rápido.

* O que eu faço

Leitura, mas de uma forma especial: scriptorium e shadowing. Só dá pra entender o que é vendo, então dê uma olhada nesse [ http://www.youtube.com/watch?v=VdheWK7u11w ] e nesse [ http://www.youtube.com/watch?v=z7FztiCcvl0 ] vídeo e nas explicações deles que é breve e vale a pena.

No começo eu pego os livros bilíngues. Prefiro sempre aqueles livros que um nativo educado leria, entenderia e diria que aquilo é a norma culta, sem viagem na maionese nem encheção de lingüiça.

O audiolivro do livro eu geralmente corto em pedaços de 90 segundos, que também tem que ser uma narração decente. Enfim, qualidade é algo que raramente se acha de graça, por isso prefiro ir direto pro Amazon ao invés de perder meu tempo garimpando no eMule.

Gradualmente eu vou abandonando os livros bilíngues e os audiolivros; até chegar num ponto em que eu só faço leitura em voz alta dos livros.

* Tempo

6h por dia durante 1 ano. Não precisa ser direto, dividir ao longo do dia tá ótimo. Dependendo da língua ( chinês, coreano, etc ) é mais que um ano, ou menos ( espanhol ). Você vai saber se for o caso.

Após esse período 15 minutos de scriptorium na língua servem como manutenção; mas o ideal seria no mínimo 1h de estudo.

Dá pra aliviar, mas não dá pra parar. Aprender uma língua é trabalho pra vida toda.

* Professor

O professor tem duas funções:

-> Servir como modelo. Ou seja, te corrigir se você errar quando estiver conversando com ele. O melhor é que vocês conversem sobre um objeto de estudo dos dois, pra não faltar assunto e vocês ficarem falando sobre o tempo.

-> Quando você perceber que não precisa de ler com a tradução, pode começar a fazer traduções. É claro que no começo vai sair uma porcaria, e aí o professor entra como revisor, te mostrando onde você errou.

Esse professor não existe na maioria dos cursinhos, e se existe na maioria das vezes ele trabalha pra um franqueado que fala pra ele ensinar de outro jeito. A menos que você tenha sorte, contrate um particular ou procure alguém que concorde em ensinar a dele se você ensinar a sua.

* Línguas

Geralmente, quanto mais dinheiro o país ou pessoa tem, mais ela usa a internet.
35.2% do conteúdo da internet é escrito em inglês. 13% é chinês e 12% espanhol, seguido de japonês e pelo alemão. Abaixo de 5% estão, em ordem decrescente: francês, coreano, italiano, português, russo. Daí pra frente a parcela é menor que 2% e aparecem línguas mais obscuras, como Malay.

Aprender as línguas de origem também ajuda. ( Latim e inglês médio e antigo pra inglês-português, por exemplo )

Ruan
ruan930@gmail.com

Fabio disse...

Muito esquisito esse método descrito pelo Ruan. Por curiosidade, fui ver os dois vídeos e os achei ainda mais esquisitos. Para quem quer aprender idiomas por diversão (tendo muuuuito tempo livre), talvez o método seja bom. Mas para quem quer ser tradutor, desconfio que ele seja nada menos que precário. Além do mais, 6 horas por dia durante 1 ano - isso é para quem ainda não começou a trabalhar para valer, nem precisa sustentar família, nem pagar a assistência médica etc.

Confesso que comecei a aprender o alemão por conta própria, mas apenas 15 minutos por dia, com o método "antigo" do livro-didático-mais-fita-cassete, já se vão 16 anos. Depois de concluir o curso autodidata em 4 meses, decidi entrar no Goethe-Institut para testar e ampliar meus conhecimentos do idioma. Fiz o teste de nivelamento inicial e descobriram que eu já tinha adquirido nível de segundo semestre do curso básico (8 semestres no total). Entrei como aluno do terceiro semestre, estudei bastante durante mais 4 anos, fiz tudo direitinho, bem formal, e posso dizer que aprendi pra valer esse idioma que mais tarde se tornou instrumento de trabalho. Sem o curso formal daria para me comunicar mais ou menos e escrever um pouco. Mas com o curso formal, complementado por uma temporada na Alemanha na etapa final e os respectivos diplomas, me tornei capaz de dominar plenamente o idioma e de comprovar isso com documentos reconhecidos (que adianta saber uma língua estrangeira se você não pode obter um diploma de proficiência? para a vida pessoal, tudo bem, mas para a vida profissional, o currículo fica desmoralizado se você não comprova ter feito um curso formal reconhecido). Enfim, para quem quer ser *tradutor* de determinada língua, é importante estudar essa língua formalmente, com curso reconhecido, com diploma de proficiência e de preferência com uma temporada no país onde se fala essa língua.

Anônimo disse...

Fábio,

Cada um o que quer aprova. Pão ou pães, é questão de opiniães. Mas o teste do pudim é provar um pedaço, o que não deve lhe convir no momento; e por isso a autoridade com que você fala sobre o assunto que eu acho esquisito.

Diploma não vale nada, disso nós já sabemos bem. Se eu sei como ficar pronto para trabalhar em um ano, pra que fazer um cursinho de quatro? Intercâmbio é legal, mas e pra quem "precisa sustentar família, pagar assistência médica", como fica?

Eu não sei de muita coisa, e mesmo do que eu sei eu duvido. Mas é há coisa da qual não se pode duvidar, então não é coisa pra se saber.

Ruan
ruan930@gmail.com

Danilo Nogueira disse...

Bom, Ruan, aprovei seu segundo comentário porque tenho por norma só recusar spam e recados ofensivos. Mas peço ao Fábio que não retruque, para não transformarmos isto em uma flame war.

Particularmente, tenho muito pouca confiança nesse tipo de abordagem. Pode até funcionar e eu estar errado, claro e você tem que seguir seu caminho, não o meu. Aliás, o meu pareceu, para muita gente, absurdo também.

Fernanda disse...

Danilo, simplesmente d+, e o que eu posso dizer sobre esse post. Aprendi varias coisas que nao sabia, como por exemplo, LM+2 e FIGS, nossa foi do tipo que qndo acaba agente fica querendo ler mais. Parabéns!
Fernanda

Fernanda disse...

ah! esqueci de dizer que sou estudante de letras(5º semestre)e estou com muita vontade de fazer uma pós em tradução ou ate mesmo um curso específico(como o Daniel Brilhante de Brito, conhece?). Seus comentarios tem sido bem proveitosos pra mim. Obrigado

Sukey disse...

Danilo, não sei se dará tempo de vc me ajudar... Amanhã presto concurso para tradutor juramentado pela JUCEMG, em BH. Bem, realmente não tive tempo de me preparar(na verdade nem sei por onde começar). Gostaria de saber se vc tem algum link, blog ou etc. para me indicar que se refira ao idioma espanhol. Gostaria também de saber em que, exatamente, se diferencia uma "tradução" de uma "versão", pois na prova cairá uma versão (português para espanhol) e uma tradução (espanhol para português). Grande abraço! (ps. Para email, utilize, por favor, o endereço suzanalfonseca@hotmail.com)

jhosi disse...

Fábio, concordo com seu desafio de ver o intercambio e o teste de proficiencia como partes essenciais de uma boa formação. Sem esses degrais mais elevados, não temos como ter certeza daquilo o que realmente guardamos e aprendemos no que toca ao que nos foi ensinado. Ruan, discordo da sua opinião na qual afirma que o teste não é necessário e que não é possível sustentar uma família e fazer um intercâmbio. Muitos até me acharam uma sonhadora quando falei o que havia decidido sobre meu intercâmbio para os EUA no ano passado, porém, nunca limitei meus sonhos às minhas condições financeiras. Ganhava em torno de R$400 e meo esposo, mil. Tenho uma fílha de 3 anos, casa, faculdade e muitas contas mensais para pagar, porém, meu esposo havia guardado o total de 5 mil reais sobre sua recisão de contrato de seu emprego anterior. Com esse valor, mais o mesmo valor em empréstimo que fizemos, fiz um intercâmbio chamado work and travel e morei no estado do Colorado, EUA, durante 3 meses, onde vivi desde dezembro até o mês passado. A crise me afetou sim, pois não consegui arrumar um segundo emprego para cubrir todos meus gastos (só assim seria possível). Bem, resumindo, conforme nossas condições financeiras seria impossível realizar essa viagem, porém, quando se tem determinação e um ideal, condições financeiras não são o maior impecílio. Claro que todo esse esforço depende do tipo de objetivo final que você possui. Quer aprender por Hobby ou Profissão? Todos os exemplos de aprendizagem que deram são viáveis, desde que resultem satisfatoriamente aquilo o que é o objetivo final para o aluno.

Jhosi - professora de inglês

Anônimo disse...

Fábio, concordo com seu desafio de ver o intercambio e o teste de proficiencia como partes essenciais de uma boa formação. Sem esses degrais mais elevados, não temos como ter certeza daquilo o que realmente guardamos e aprendemos no que toca ao que nos foi ensinado. Ruan, discordo da sua opinião na qual afirma que o teste não é necessário e que não é possível sustentar uma família e fazer um intercâmbio. Muitos até me acharam uma sonhadora quando falei o que havia decidido sobre meu intercâmbio para os EUA no ano passado, porém, nunca limitei meus sonhos às minhas condições financeiras. Ganhava em torno de R$400 e meo esposo, mil. Tenho uma fílha de 3 anos, casa, faculdade e muitas contas mensais para pagar, porém, meu esposo havia guardado o total de 5 mil reais sobre sua recisão de contrato de seu emprego anterior. Com esse valor, mais o mesmo valor em empréstimo que fizemos, fiz um intercâmbio chamado work and travel e morei no estado do Colorado, EUA, durante 3 meses, onde vivi desde dezembro até o mês passado. A crise me afetou sim, pois não consegui arrumar um segundo emprego para cubrir todos meus gastos (só assim seria possível). Bem, resumindo, conforme nossas condições financeiras seria impossível realizar essa viagem, porém, quando se tem determinação e um ideal, condições financeiras não são o maior impecílio. Claro que todo esse esforço depende do tipo de objetivo final que você possui. Quer aprender por Hobby ou Profissão? Todos os exemplos de aprendizagem que deram são viáveis, desde que resultem satisfatoriamente aquilo o que é o objetivo final para o aluno.

Jhosi - professora de inglês