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quinta-feira, 5 de junho de 2008

Agradecimento pelas mensagens

Mais de 300 colegas me escreveram após a morte da Vera. Muitos com mensagens públicas, outros em particular. A maioria se desculpando por não saber o que dizer, como se houvesse algo a dizer numa hora dessas e como se não saber o que dizer fosse culpa ou falha deles. Muitas dessas mensagens vieram de gente que eu mal ou nem conhecia, mas que de um modo ou de outro, se sentia minha amiga e quis me confortar.

Nenhuma dessas mensagens me trouxe a Vera de volta, mas cada uma delas trouxe um pouco de alento e, somadas, foram uma grande ajuda. Emocionante ver a caixa postal inundada por mensagens afetuosas. Mesmo com elas, é um momento difícil; sem elas, a dificuldade seria ainda maior.

Boa parte das mensagens contava a experiência de cada um com suas perdas dolorosas. Falava do vácuo que fica quando alguém importante se vai para sempre. Da sensação esquisita que é passar em algum lugar, ver algo e dizer-se preciso contar isso ao fulano, ele vai achar divertido e, em seguida, dar-se conta de que fulano não existe mais.

Tive essa sensação no domingo. Para desemperrar os ossos, enferrujados pelos últimos seis meses de prisão domiciliar, ambulatorial e hospitalar, aproveitei a tarde de domingo para fazer um programa que a Vera e eu adorávamos fazer aos sábados: caminhar pela Avenida Paulista até a Livraria Cultura, ficar um tempo lá, e regressar pelo mesmo caminho.

Cheguei à Livraria Cultura e notei que a antiga loja geral tinha voltado à vida, agora como a loja de música e arte. Sorri e disse para mim próprio: a Vera vai gostar dessa nova expansão da Cultura. Mas logo me dei conta de quando voltasse para casa, encontraria só o silêncio, não mais a Vera.

Muita gente me perguntou como estou me arranjando, onde faço minhas refeições, quem cuida da minha roupa e coisas do mesmo jaez. Do ponto de vista material, arranjo-me muito bem, obrigado, com ou sem Vera. Faz pouca diferença.

A diferença, a grande diferença, é a falta do braço na minha cintura, do ombro para eu pousar a mão direita, do beijo roubado quando o carro parava num sinal vermelho (para espanto hilário dos que acham cômico e absurdo sexagenários se beijando em público), das pequenas brincadeiras particulares, das alusões que só nós entendíamos, das trocas de olhares cúmplices, dos jogos de palavras que só para nós tinham significado. Da garrafa de vinho lentamente compartilhada. Do dormir de conchinha.

Por outro lado, sou um felizardo: quantos terão tido 40 anos de vida rica em amor como eu? Reclamar do quê, se muitos nunca tiveram um momento sequer dessa felicidade?

A revista Época tem uma seção de entrevistas que sempre termina com a mesma pergunta: Se o céu existir, o que você gostaria de ouvir de Deus ao chegar lá? O que eu gostaria de ouvir é a Vera está esperando por você.

Não tenho como responder a todas as mensagens individualmente, agradeço a todas, de público, aqui. Peço agora, um favor: se você soube do falecimento da Vera e repassou a notícia a alguém conhecido, por favor, avise também sobre este artigo do blog. Gostaria que todos soubessem da minha gratidão aos que me ofereceram conforto.

Durante o fim de semana, este blog volta à vida como publicação profissional.

8 comentários:

Heloisa disse...

Força aí, Danilo!
Não pare de pedalar nunca!
Um abraço e good vibes!
Helo Velloso

Anônimo disse...

Danilo:
Meu casamento com a Márcia já dura mais de 35 anos.
Sua descrição dos momentos compartilhados me fez lembrar de tudo o que compartilhamos, mas me fez dar ainda mais valor aos beijos trocados, preparar uma refeição para a Márcia e principalmente, como é gostoso dormir de conchinha.
Flávio Steffen

Dayse disse...

Danilo, querido.
Sou uma das que se preocuparam com o lado material da ausência física da Vera. Bom saber que estás comendo direitinho (por mais banal que isso possa parecer).
Quanto à outra falta, muito mais profunda (abissal), não há mesmo o que dizer.
Chorei com o teu texto.
Realmente, 40 anos de amor... uma bênção muito, muito grande.
Tu não estás sozinho (sei que sabes disso). Nunca estarás.
Qualquer coisa, dá um berro (para me alcançar, nessa distância).
Um abraço muito afetuoso

Dayse

Daniela do Carmo disse...

Muito emocionante sua mensagem e era exatamente a imagem que eu tinha do que poderia estar acontecendo na sua vida. Chorei aqui pelo seu relato. Fique bem. Um abraço.

minhalingua disse...

Danilo, acho que nunca comentei em seu blogue, sou da teoria que não se interrompe um mestre. Meu nome é Tom Fernandes e sou editor e revisor e sempre venho ao seu blogue para aprender sobre a profissão e, de tabela, sobre a vida. Ontem, quando vim ler seus textos, soube da sua perda. Pensei em escrever, mas seria mais um a tentar dizer o que não se diz. Só o ombro dos amigos e da família diz algo num momento desses. Hoje, lendo este seu novo texto, me vieram lágrimas e aperto ao coração. Você fala dos quarenta anos, em quarenta dias, faço dois singelos anos de casado. Você é, como diz Jesus, um bem-aventurado, que soube ser grato pela doçura e verdade da sua Vera em sua vida. Quanto a mim, enviei seu texto ao meu pequeno rubi e adicionei: "já sei o que direi no dia em que nossos netos sentirem sua falta".

Camilinha disse...

Danilo, fiquei fora por uma semana e não vi seu post.

Sinto muito! É difícil dizer algo, mas bonito mesmo é conhecer um pouco dessa história de amor. Poder olhar pro lado e valorizar cada segundo ao lado da pessoa amada, como entendi que vocês fizeram.

Com certeza, ela estará esperando por você!

Força!
Abraço,
Camila

Re disse...

Danilo, impossível não se emocionar com esse Post...

Andrea disse...

Danilo,

"tropecei" em seu blog por acaso. Quis me ingressar na vida de tradutora (em especial para fugir dos escritórios - essa vida seg à sex, 8h às 18h, trânsito, etc) e pesquisei no google (à princípio sobre transcrição), acabei achando o seu blog.

Mas isso começou há poucos dias, e somente hoje 10/07 que eu li a página principal ao invés de ficar pesquisando artigos de meu interesse.

Já passei por suas outras postagens, pelo seu site que mantinha com a Vera, mas ainda não sabia desta notícia.

Sinto muito pela perda, mas como diz o Padre Marcelo "Saudades sim, tristeza não".

Eu não consigo me imaginar numa situação dessas, até agora só tive perdas de parentes ou amigos não muito próximos.

Sou nova, tenho 22 anos, e estou na época do "namoro" ainda, mas nós já temos nossos momentos, nossos olhares, nossas piadinhas internas. Imagino a dor que o Sr. deve estar sentindo.

Mas vejo que estás bem, pelo menos "se virando". A melhor maneira de superar uma perda dessas é justamente isso. Seguir em frente, um passo de cada vez.

Pode ter perdido uma companhia física, mas com certeza ganhou um anjinho para cuidar e zelar por você todos os dias.

Beijos de uma das suas mais novas fãs.

Andrea Melo