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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O tradutor, o escritor e o ator

Para traduzir bem, é necessário saber escrever bem.

Verdade, mas dessa afirmação, costuma-se tirar a idéia errônea de que os melhores tradutores hão de ser os bons escritores: fulano escreve muito bem, logo, tem de ser um excelente tradutor. Peço vênia para discordar. Escritores e tradutores têm perfis diferentes, da mesma forma que tradutores e professores. O bem-escrever do tradutor difere do bem-escrever do escritor. O escritor escreve o que lhe vai pela alma, o tradutor escreve o que vai pela alma alheia - são coisas diferentes.

Temos um colega que passa por bom tradutor e que, a meu ver, tem muito que aprender e talvez nem tenha cura: tudo o que sai da mão dele tem o mesmo estilo (a saber, o dele próprio), independentemente de quem o tenha escrito.

Tradutor tem que ser como ator: numa peça é um feirante gritão, na outra um aristocrata fanfarrão, na terceira é um bandido ameaçador e nas três parece autêntico, por mais que, ele próprio, seja quieto e retraído.

Lembra aquela história do dia em que convidaram Jânio Quadros para fazer uma ponta numa novela. Fez, claro, papel de Jânio Quadros, porque outro não sabia fazer. Quer dizer, não era ator, só sabia ser ele próprio e nada mais.

Agora, por favor, dê uma olhada aqui:

Um comentário:

Thiago disse...

Assino em baixo, Danilo; mas com ressalvas, claro. Vale lembrar que o ofício do escritor é, muitas vezes, dramático, e que ele não é meramente um redator daquilo "que lhe vai pela alma". Estou pensando em Fernando Pessoa, sobretudo. Com ele aprende-se a lição de que a criação é muito maior que uma alma individual - mera ficcionalização de sentidos, para ele.
Lembro ainda que Fernando Pessoa foi, por sua vida toda, tradutor profissional e literário. Um excelente tradutor, por sinal, e não é o caso aqui de duas atividades completamente distintas; aproveita-se muito da escrita para a tradução e vice versa. A sensibilidade no uso da língua, no escritor, é o recurso mais precioso para o tradutor. É claro que são coisas diferentes e um bom tradutor não será, por conseqüência direta, bom escritor; o inverso talvez seja mais recorrente – digo isso com alguma base histórica e estatística –, mas também não é uma implicação imediata do fato de ser escritor. Há em ambos recursos próprios e movimentos de alma específicos a cada um. Penso que seja algo como o jogador de xadrez aprender damas: ambos foram, no mínimo, apresentados ao tabuleiro.