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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sobre revisões

Um dia, o Danilo me pediu para escrever sobre revisão. Ele deve ter achado que eu esqueci, mas naquele momento, eu não tinha muita idéia sobre o que escrever. Aí resolvi, hoje, escrever sobre a minha relação de amor e ódio com a tal da revisão.

Quando comecei a trabalhar com o Danilo, eu não traduzia nada, apenas revisava. Era uma forma de treinar, aprender e ganhar vocabulário, tudo ao mesmo tempo. Hoje, posso dizer que funcionou (bem, ainda funciona): aprendi vários truquezinhos de tradução e já sou capaz de identificar diversos erros de terminologia na área de finanças. Para um período de menos de um ano, acho que foi um grande avanço.

Antes disso, não é segredo, eu era professora. Já nessa época eu tinha muito prazer em corrigir/revisar textos de alunos. A-d-o-r-o ficar caçando errinhos em textos alheios. É como um quebra-cabeça que eu vou ajustando ate que as peças se encaixem melhor. Mas eu não posso mudar o desenho do quebra-cabeça, assim como não posso mudar o estilo do texto que estou revisando. Por isso, acabo assimilando aquele estilo. Já até tenho uma certa facilidade para imitar o estilo danilesco de escrever. É a parte da revisão que me atrai, que eu gosto – quando eu estou no comando, digamos assim.

Mas eu disse que tenho uma relação de amor e ódio, e tenho mesmo. Eu odeio que meus textos sejam revisados. Sim, eu sei que é necessário; sim, eu sei que eu posso aprender muito com a revisão; sim, eu também sei que meus textos melhoram muito depois de passar por uma revisão rigorosa. Mas o fato é que eu me sinto muito exposta quando alguém revisa um texto meu, seja de trabalho ou não. E, quando vejo os zilhões de erros corrigidos, as trocentas alterações marcadas, eu me sinto mal e me cobro muito por isso. Eu confesso que não sei lidar muito bem com meus erros e que leva um tempo para eu me recuperar de uma revisão.

Apesar disso tudo, acredito que minha postura esta começando a mudar, parte por comentários que tenho lido, principalmente no Orkut, sobre revisões competentes, e parte porque resolvi (tentar) não me cobrar mais tanto assim. Da próxima vez que um texto meu for revisado, conto como foi.

13 comentários:

Anônimo disse...

Oi Kelli,

Dei uma revisada no teu texto e percebi que faltou acento no "até" de "É como um quebra-cabeça que eu vou ajustando ate que as peças se encaixem melhor."
Pronto, agora você já pode escrever a continuação dizendo como se sentiu depois desta revisão. Espero que se recupere logo do horrível trauma! Ah, mas convenhamos, esta foi quase indolor, não? :-)

Raquel (incapaz de revisar receita de bolo competentemente!)

Roberto Bechtlufft disse...

Sacanagem, hein, Raquel? :)

É duro mesmo ser revisado. Mas faz parte, né? E errar é humano, quem está revisando também erra. Acho que só com o tempo a gente aprende a lidar com essas coisas.

Kelli Semolini disse...

Raquel, tá aí: faço um bolo que é delícia!

Eu mesmo disse...

Kelli, essa sensação que tu apontaste ao ver um texto teu revisado é a coisa mais normal do mundo. Mesmo assim, é importante ter a consciência que tu estás demonstrando de tentar não te cobrar mais tanto assim. O melhor a fazer ao ver um texto teu traduzido é aquele velho chavão: tentar aprender com os erros.

Manu disse...

Realmente quando vemos nossas revisões, tem hora que dá vontade de chutar a canela quando percebemos alguns erros!

Mas recentemente eu tive uma tradução muito bem revisada, que me lembrou o quanto esse processo é útil não só como reforço de aprendizado, mas até mesmo uma economia de tempo! Para mim o dinheiro gasto com revisão é um investimento super válido!

Anônimo disse...

Oi Kelli,

Gostei muito de ler o seu texto.

Entendo perfeitamente o que você diz sobre a relação de amor e ódio com a revisão. Só que comigo acontece de uma maneira um pouco diferente.

Sob o prisma do amor: eu adoraria ter alguém que revisasse minhas traduções e meus textos. Creio que me sentiria muito mais segura podendo contar com este tipo de apoio.

Sob o prisma do ódio: tenho de reconhecer que quando faço traduções "em parceria" muitas vezes tenho a tendência de acreditar que a minha idéia é melhor e de não querer aceitar a opinião "do outro".

Coisas da vida, né? ;-)

Parabéns por seu artigo!

Martha Gouveia da Cruz

Anônimo disse...

Falando mais a sério, um conselho na vida que me serviu para abandonar idéias suicidas cada vez que eu mesma ou (pior, muito pior) outrém detectava um erro em uma tradução minha foi do mestre Francis Aubert há muitos anos. Resumindo, a idéia é: quem tem mais chance de quebrar um copo ao lavar? A empregada que está na cozinha ou você que está computador? Ela, claro. E quem vai cometer erros em uma tradução? Ora, surpresa, o tradutor! É inevitável, por mais que seja nossa obrigação evitar. Então, melhor adotar uma postura zen, aceitar as correções, aprender com aquele erro (até mesmo para abrir espaço para cometer um novo, diferente, mais original e inusitado) e tocar prá frente.
Raquel

Marco Aurélio Antunes Gondim disse...

Kelli,

Sou tradutor e minha esposa é revisora. Ela costuma dizer que o escritor tem uma relação de paternidade/maternidade com o texto que o impede de aceitar críticas ao seu rebento.
Tenho dificuldade até em aceitar a revisão dela, mas estou aprendendo. Paciência... afinal, só tenho 40 anos. :)

Renato Beninatto disse...

The strongest drive is not love or hate. It is one person's need to change another's copy.

Renato Beninatto

Petê Rissatti disse...

Adorei o artigo, Kelli. E salve o mestre Francis Aubert!

Sandra Navarro disse...

Sabe aquele texto que você traduz e entrega como seu fosse um filho? Pra mim, estava perfeito, redondo, melhor que o original! Pois quando a tradução volta da revisão... cheia de marcas... não é que ficou bem melhor?

O trabalho foi para o cliente, que no contato seguinte, pediu para que mantivessem o mesmo tradutor. Nenhuma menção à revisora... Está aí um ponto ingrato da revisão: se o texto sai ruim, o revisão errou, se está bom, o tradutor era ótimo.

João Vicente disse...

Kelli:

Pouquíssimas coisas são mais úteis para formar um bom tradutor do que revisar e ser revisado. Revisão deveria receber um enfoque bem maior nos cursos de tradução. É um baita exercício, em que muitas vezes vemos erros que não cometemos e, ainda melhor, vemos erros que cometemos sem nem nos darmos conta deles. Aprendi muito revisando e sendo revisado nos meus sete anos e meio de FMI. Aprendi também a ser grato aos meus revisores. Você trabalha um pouco mais tranqüilo sabendo que, se passar alguma coisa -- e vão passar algumas coisas --, um outro par de olhos vai detectá-las (por vezes nem todas, infelizmente). Mas não devemos confundir essa tranquilidade com relaxo: "Ah! Faço de qualquer jeito mesmo que depois o revisor conserta." Não é por aí.

Um abraço,

João Vicente

Bete disse...

Kelli:

Ótimo artigo. Revisor merece um enorme respeito. Se o tradutor reclama de prazos curtos e de trabalhar sob pressão, o pobre do revisor sofre ainda mais: é o último da linha, frequentemente ganha menos e arca com uma grande responsabilidade, pois se alguma coisa errada passar, foi ele quem não viu.

Quanto a aprender a lidar com os próprios erros, acho que isso é um processo interminável. A gente se esforça pra melhorar cada vez mais, mas ao mesmo tempo tem aceitar que nunca vai ser perfeito. Você faz aquele serviço com capricho, acha que fez tudo direitinho, aí vem o resivor e percebe uma besteira antológica, daquelas que vira historinha no orkut. Pra mim, isso dá, no mínimo, três dias de doses suicidas de chocolate e dúvidas existenciais. Mas ensina a ser humilde também, o que pode ser muito útil.

Abraço
Bete