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domingo, 27 de julho de 2008

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Ontem, na Reunião na Sala 7, prometi que ia postar aqui no blog uns endereços para cadastramento de tradutores. Lamentavelmente, meu computador titular deu problema e estou trabalhando no regra 3, em cujo HD não estão todas as informações que quero. Então, vai ter de esperar um pouco. Mas não impede que eu escreva sobre outro assunto que vem me preocupando muito, a história do amo a língua inglesa (ou francesa, ou turca, ou o que diabo seja). A turma estuda tanto, mas tanto, a língua estrangeira, que acaba descuidando do português. Ama tanto a língua estrangeira, que despreza a sua própria. E traduzir é, principalmente, escrever português.

O problema menor, a meu ver, são os erros de português encontrados nas traduções. É muito mais grave o problema dos tradutores que começam a escrever tradutorês nos seus textos originais em português. Vou dar dois exemplos, ambos do inglês e ambos mascaradinhos, para não criar caso demais da conta. Mas o essencial está preservado.

Uma colega escreve eu fui oferecida um trabalho de revisão. Santo Deus! Misericórdia! Eu fui oferecida um trabalho é tradução literal de I was offered a job e é coisa que, em boca de gringo tem lá sua graça. Mas brasileiro nascido e crescido aqui, que estudou aqui toda sua vida e que se considera profissional da língua (e revisora!), escrevendo uma barbaridade dessas – e, tenha certeza – não foi brincadeira.

Outro me escreve falhei em lembrar. Ora, pipocas, falhei em lembrar, em língua de quem come arroz e feijão, significa lembrei e isso foi uma falha da minha parte. O que o colega quis dizer é não lembrei, mas achou chique copiar o inglês I failed to remember.

Que essas coisas se escrevam numa tradução já é mau, já revela um grave problema de contaminação. Que se escrevam em mensagens e recados e cartas e coisas escritas originalmente em português, é alarmante. Daqui a pouco, vão dizer faz você gostar para comer panquecas?

Mas, se a gente corrige, ficam zangados, somos acusados de falta de coleguismo, arrogância, o diabo – e lá vem aquele sarcasmo internético irritante do tipo peço humildes desculpas pelo meu terrível erro… Instalou-se, lamentavelmente, a cultura da crítica construtiva, que muitos interpretam como só dizer coisas boas e nunca apontar os erros.

Então, vou começar esta nova fase do blog sendo destrutivo, arrogante, antipático e espírito de porco: gente, é o seguinte: quer ser tradutor? Estude português. Leia menos inglês e mais português. Ame menos o inglês e mais o português. Compre o Lições de português pela análise sintática do Evanildo Bechara e leia de ponta a ponta. Consulte um dicionário antes de escrever subtotal para não bota hífen onde não deve. Aprenda a usar maiúsculas direito, em vez de acompanhar o hábito americano de salpicar o texto de maiúsculas como se fosse ketchup. Em outras palavras, não escreva português como gringo. Português é português, inglês é inglês. Ou, na expressão da moda, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Até amanhã.

5 comentários:

Isabel disse...

Esse português tão perto da letra faz lembrar as traduções que se obtêm com os tradutores automáticos tipo o Babelfish.

Anônimo disse...

Quando faço revisões ou traduções, eu sempre pesquiso qualquer dúvida de português que aparece (diga-se de passagem que tenho graves problemas com hífen). Algumas pessoas acham que tradutor ou revisor tem que saber tudo.
Tudo não...mas que corra atrás, pelo menos.

Mica disse...

Duvido que vá ler o comentário praticamente um ano depois, mas...
Gostei muitíssimo do texto e cheguei a conclusão que preciso comprar dicionários. Dicionários em português (ainda mais com essa nova regra gramatical que me deixou ainda mais perdida do que já era), dicionário em inglês, dicionários inglês-português. Haja dinheiro! Mas vou me programar, tudo para não cometer esse tipo de erro (não que eu seja tradutora ainda, mas o futuro nem eu conheço).

Danilo Nogueira disse...

Mica, todos os comentários são lidos. Eu recebo todos eles e tenho de aceitar ou rejeitar, para evitar spammers, espíritos de porco etc. E muita gente passeia pelo blogue, ou entra nele via pesquisas que conduzem a páginas antigas. Significando que vale a pena comentar os artigos antigos. E não se esqueça de dar uma olhada em http://www.textoecontexto.aulavox.com/, onde a Kelli e eu estamos comaçando a comentar ferramentas e recursos para tradutres.

Obrigado pelo comentário e volte sempre.

Vanessa disse...

Realmente...Nunca pensei que eu estava traduzindo meus texto no estilo "tupienglish".
Agora ficarei mais atenta e tentarei estudar mais o portugûes,para traduzir ao estilo brasileiro. Apesar de eu não trabalhar AINDA nesse ramo (estou estudando para entrar em uma faculdade de letras!), tenho um site onde traduzo fanfics!
Obrigada pela dica!