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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Você foi bem-sucedida na tentativa?


"Você tem sido bem-sucedida em sua tentativa de aprender inglês? O marido de uma amiga minha falhou e consequentemente não foi promovido na corporação em que trabalhava."

Se eu encontrar uma bobagem dessas numa tradução que estiver revisando, troco logo para "Você está conseguindo aprender inglês? O marido de uma amiga minha não conseguiu e, por isso, não foi promovido no serviço" e aviso o cliente para procurar um tradutor melhorzinho ou, ao menos, para avisar o vivente que é para traduzir para o português, não para o anglunhês.

Essas coisas num texto traduzido são indesculpáveis: a isso se chama contaminação. Num texto escrito originalmente em português, são piores ainda e devem ter outro nome. No entanto, não há dia em que não se encontrem os famosos "falhou em" e "foi bem-sucedido em" na nossa imprensa e em mil outros lugares.

Outra é o "fortemente". Gente que tem horror a advérbios e diz, metodicamente "de forma metódica" para evitar o sufixo -mente, este pária da língua, diz "fortemente" só porque, no mesmo lugar, o inglês diria "strongly". "Sistemas fortemente correlacionados" são "sistemas com grande correlação", "recuou fortemente" é "sofreu/teve um grande recuo"

O mais curioso é que essa gente escreve português como se fosse inglês, mas escreve inglês como se fosse português: o mais puro tupiniquinglish. Quer dizer, esqueceram uma língua sem terem aprendido a outra. É um feito, convenhamos.

Obrigado pela visita, deixe seu comentário, dê um pulo aqui, se é que ainda não conhece — e volte amanhã.

PS: Já tinha publicado isto quando topei com um "poderão não atender". Em português, se diz "talvez não atendam". Eita ferro!

15 comentários:

Anônimo disse...

Talvez você tenha razão, sim. Mas talvez também esteja prejudicando alguém (ao "avisar o cliente", coisa que foge da tua alçada), por exemplo, em começo de carreira; sim, é bem provável que não seja isso, mas pode ser, não pode?

Podendo, penso que é compreensível e desculpável e que é de bom tom você ficar calado, fazer o seu trabalho e receber o pagamento, sem chiliquinho, mimimi, similares e genéricos.

Bonito pode não ser, mas errado também não está, e segundo me parece, antes certo e compreensível (porque os seus exemplos a despeito de feios são absolutaMENTE inteligíveis) que errado.

Pense nisso, Sr. Paladino das Traduções Bem-sucedidas (!).

Danilo Nogueira disse...

Aí é que você se engana, colega.

Uma das minhas obrigações, quando atuo como revisor, é informar o cliente sobre a qualidade do texto que me enviam. Quando por outra razão não fosse, para justificar o valor cobrado.

Quando termino meu trabalho, o texto tem que estar não só correto e inteligível, como também parecendo português de gente, não coisa do Babelfish. É isso o que o cliente espera de mim e para isso que me paga.

Cobro serviço de revisão por hora e, por isso, preciso justificar o tempo que gasto no meu trabalho. Se o tradutor "tiver falhado na tentiva" de escrever direito e o texto precisar de muito trabalho para ficar decente, cobro mais e o cliente me pergunta a razão.

Se o cliente quiser manter o tradutor, que o mantenha, mas sabendo que vai ter de me pagar mais pela revisão. Essa é uma das nossas salvaguardas contra os clientes que metodicamente procuram o tradutor mais barato e esperam que o revisor, por uns poucos tostões, torne perfeito um serviço que nasceu mal feito.

Quanto ao “prejudicar”, colega anônimo, é uma observação tão interessante que vai virar artigo do blogue amanhã. Independentemente de sua intenção, você me deu uma excelente ideia, pela qual sou grato.

Anônimo disse...

Ah sim, mas eu pensei que não fosse preciso dizer: há maneiras várias de se dizer ao cliente que o tradutor "original" derrapou na curva. E tendo a presumir que você não é adepto das mais "soft".

Não lhe conheço, mas posso imaginar o que vem pela frente. Esperemos.

De todo modo, admiro tudo isso aqui.

Danilo Nogueira disse...

Volte amanhã, então, e depois me diga se sua bola de cristal está funcionando bem.

Esperemos, então. Lamento muito, mas não posso me estender na discussão agora. Por mim, ficaria aqui o dia todo tagarelando com os colegas, mas não posso.

Anônimo disse...

No meu tempo, a acepção acima de conhecer era transitiva direta. E o "lhe" equivocado é outra praga que vem assolando a língua!
Raquel

Roberto Bechtlufft disse...

Post impagável, comentários ainda mais, rs...

Não comento faz tempo porque sou um canalha, Danilo, mas estou sempre acompanhando o blog e leio todos os posts.

Um abraço e tudo bom!

Meg disse...

O melhor é postar como Anônima e assinar com seu nome depois.

Moral do dia: revise seus comentários antes de enviar.

Danilo Nogueira disse...

Meg, não sei exatamente ao que você se refere, mas tenho certeza de que a maioria dos que postam como "anônimos" faz mesmo por puro descuido.

Poucos, muito poucos, são os que se "escondem" no anonimato. Mas eu não me zango. Morro de curioso por saber quem está escrevendo, mas não me zango com o anonimato.

Meia dúzia de vezes, rejeitei comentários porque eram mero spam. O resto, é o que você tem visto.

Fico contente por ver que o número de comentários está aumentando. Às vezes, dá um medo de estar escrevendo para ninguém ler, uma sensação de vazio, uma coisa ruim.


Já disse isso aqui, mas vale a pena repetir: quando comecei, não sabia, mas agor percebi que o que dá força ao blogue são os comentários.

d.

Arte e Prosa disse...

Danilo,

Fosse eu, não postaria um comentário de um anônimo. Principalmente porque este blog não precisa!

Emilio Pacheco disse...

Eu não tinha percebido, mas incorro em diversas dessas "contaminações" em minhas traduções. Talvez porque trabalho muito com contratos e petições, então fico receoso de "adaptar" o original por serem documentos oficiais. E também porque cresci lendo gibis traduzidos, onde "ser bem sucedido" era uma expressão frequente, bem como outras que depois vim a conhecer no original ("tudo está bem quando acaba bem", "se não se pode com eles, junte-se a eles", etc.).

Danilo Nogueira disse...

"Arte e Prosa",

Já pensei nisso, mas sucede que obter uma identidade falsa na Internet é tão fácil, que é muito difícil saber se o signatário do exto é realmente que se pensa que é. Houve um caso divertido, até, em que um espírito de porco criou um endereço hotmail com o meu nome, para fazer crer que eu tinha feito certas coisas que nunca me passou pela cabeça fazer.

Rejeito spam, rejeito pedidos de tradução grátis e o que poderia constiuir crime contra a honra, de acordo com o Código Penal. O resto, deixo passar.

Danilo Nogueira disse...

Emilio,

Não há nada de errado com "ser bem sucedido": "ele é um tradutor bem sucedido, não lhe falta serviço" é perfeito. Mas dizer "ele foi bem sucedido em sua tentativa de fuga" em vez de "ele conseguiu fugir" é anglicismo.

Anônimo disse...

A minha revisora ao ver que eu tinha traduzido de "importantly" como "de forma importante", alegremente apagou e colocou importantemente... Que não sei nem se existe em português!

Danilo Nogueira disse...

A formação de advérbios em -mente a partir do feminino dos adjetivos (quando estes têm duas formas, claro) é livre em português. Há tantos e tantos, que nenhum dicionário tem todos. Quer dizer, nem você, nem sua revisora nem ninguém tem muito como dizer se "importantemente" existe.

Sem ver a frase toda, também, é difícil opinar. Entretanto, me parece que a revisora fez a alteração só para mostrar serviço.

Lenita disse...

Gostei muito dessas suas observações, Danilo.
É terrível revisar algumas traduções. Às vezes dá vontade de traduzir o livro todo de novo, não é?

"Num texto escrito originalmente em português, são piores ainda e devem ter outro nome." Também acho. É muito feia essa prática atual de se escrever em anglunhês.
Abraço,
Lenita