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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Desaforo!

A história é antiga, mas acho que não contei aqui, ainda. Liga um possível cliente, pede cotação. Dei a cotação e, claro, ele já foi pedindo um desconto: já tinham feito a tradução uma vez, tinha ficado ruim e eles estavam refazendo e, evidentemente, não podiam pagar duas vezes pelo mesmo serviço.

Houve um tempo em que eu era bem mais irridatidiço do que ainda sou hoje e tive uma vontade quase irresistível de dizer ao cliente exatamente o que eu achava que ele devia fazer com a tradução. Mas "quase", significa que a tentação não era irresistível e eu resisti.

Hoje em dia, simplesmente diria que meu preço era aquele e acabou a história. Naquela época, ainda argumentava com cliente, era fã das "respostas merecidas". Não me lembro exatamente das palavras que usei no momento, mas foi algo mais ou menos assim: alguém na sua organização contratou um tradutor incompetente, o que, em si, é prova de incompetência. O tradutor incompetente foi pago pela tradução inútil, o incompetente que contratou o incompetente recebeu o seu salário e você ainda quer que eu pague o pato?

Meu interlocutor não gostou muito da resposta, entre outras coisas porque provavelmente tinha sido ele o incompetente que escolheu o tradutor incompetente, mas acabou me encarregando do serviço.

Uma variante dessa mesma história é a solicitação de "uma olhadinha" numa tradução que já está feita, mas alguém achou umas "coisinhas". Não existe "uma olhadinha". Existem traduções e revisões.

"Olhadinha" é mais uma daquelas tentativas desaforadas de minimizar o valor do nosso serviço para justificar uma redução no pagamento. Já me aconteceu uma vez, também, e cotei um preço para a revisão e outro, vinte por cento mais baixo, para retraduzir tudo.

Nada disso importa, entretanto. Mesmo que não tivesse dado aquelas respostas, mesmo que eu não tivesse ficado com o serviço, mesmo que as histórias tivessem sido inventadas, não faria diferença para o objetivo deste artigo. O objetivo aqui é conscientizar você de que não tem obrigação de pagar pelos erros dos outros. Pague pelos seus, e já basta.

Desaforo, isso de quererem que a gente pague pelos erros dos outros — até mesmo se a gente ganhasse muito. Você não acha?

8 comentários:

Arina disse...

Nossa, voce me abriu os olhos para esta verdade. Reduzir o preco da nossa mao-de-obra eh realmente pagar pelos erros dos outros. Quanto as respostas merecidas, ainda nao me livrei delas. Um dia veio um aluno do curso de Filosofia, com um capitulo inteiro de um livro para eu traduzir. Quando dei o orcamento, o figura respondeu como se estivesse sendo agredido. Eu simplesmente respondi: Quanto voce acha que estudei para conseguir traduzir? Quanto investi em tempo, livros, viagens e tudo mais para fazer esse trabalho? Ele ainda retrucou e eu terminei perdendo a paciencia e dizendo: Ta, voce sabe frances? Ele respondeu que nao, claro. Entao respondi , voce precisa pagar quem sabe a lingua e sabe traduzir. Ele nunca mais apareceu, obviamente. Nao achei ruim, porque trabalhar por preco injusto, sim, eh um desaforo.

Fatima Romani disse...

Danilo,
Se quiser, depois delete este comentário, já que ele não se refere ao assunto abordado por você mas a um fato occorido recentemente: sua saída do Orkut. Estamos todos sentindo sua falta e mais: excluindo seu perfil todos os tópicos e todos os posts, todos os ensinamentos, tudo que você escreveu também sumiu. Sentimos falta até das repreensões. Eu mesma levei algumas, mas aprendi com elas. Sabe, Danilo, você é uma pessoa que eu respeito muito, até comento suas opiniões aqui em casa. Fiquei triste mesmo.
Abraços
Fatima Romani

Danilo Nogueira disse...

Fátima, de fato, não tem nada a ver, mas, como ainda não temos um formulário do tipo "fale conosco" (estou escrevendo em 18/02/09 — isso vai mudar), você não tinha muita saída. Estou respondendo aqui:

http://tradutor-profissional.blogspot.com/2009/02/eu-e-o-orkut.html

Um abraço e obrigado pela mensagem.

Anônimo disse...

Danilo, a Peggy, nossa colega que você bem conhece, leva a famosa Mila a uma veterinária que pos a seguinte placa na parede: Consulta = R$ 100,00. Olhadinha = R$ 200,00. (Estou chutando os valores.) Sem stress nenhum a "resposta merecida" está sempre lá, bem visível! Bom final de semana. Raquel

Danilo Nogueira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Danilo Nogueira disse...

Pois é, Raquel. Não gosto de que me peçam descontos, mas gosto ainda menos que me venham com conversa mole para boi dormir.

Thaís disse...

Adorei sua tática de cotar um preço para revisão e um mais baixo para retraduzir tudo. É uma excelente maneira de mostrar que o trabalho de revisão será maior que o de tradução sem ser indelicado dizendo que a tradução está mal feita.
Parece que você tem uma boa resposta para tudo, Danilo, então estou curiosa para saber o que você diria para um cliente que te ligasse dizendo "Eu mesmo poderia fazer a tradução, sabe, mas é que estou sem tempo, e só por isso estou mandando para você". Aconteceu comigo e eu respirei fundo 88 vezes, peguei o trabalho e ponto. Mas que me deu vontade de dar uma resposta, isso deu!

Danilo Nogueira disse...

Ué, Thais, talvez até pudesse mesmo. Já tive mais de um cliente que era capaz de traduzir e não traduzia porque tinha outras coisas a fazer, ou porque sabia que era mais barato me pagar do que ele próprio fazer.

Mas talvez não pudesse e pensasse que podia. Talvez não pudesse, soubesse que não podia e simplesmente estivesse contando vantagem ou tentando te intimidar e conseguir um preço menor.

O importante nem é o que você responde: é não se intimidar e não dar descontos por causa de uma ameaça velada dessas.