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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Por que sou tradutor?


Outro dia, a Kelli e eu estávamos discutindo uma série de mensagens em diversos fóruns cujos autores pareciam ansiosos por fazer qualquer outra coisa que não fosse traduzir. Então, resolvemos escrever dois artigos, um ela e o outro eu, falando um pouco da relação entre nós e a profissão de traduzir. O primeiro, o meu, vai aqui. Espero que gostem e comentem. O da Kelli já está escrito e aparece amanhã.

Não gosto de falar de mim próprio. Tive uma vida difícil e complicada, cheia de episódios amargos, muitos dos quais prefiro esquecer e outros tantos de que prefiro não lembrar. Mas hoje, vou abrir uma exceção.

Em meados de 1970, estava na miséria. Um conjunto muito complexo de fatores me tinha levado a montar uma franquia Fisk em Porto Alegre, empreendimento para o qual eu não estava preparado nem financeira nem profissionalmente. Na Fisk São Paulo (onde trabalhei depois de trabalhar no Yázigi), tinha feito uma carreira meteórica, passando em menos de um ano de professor dos iniciantes a algo que, talvez, hoje, chamássemos coordenador pedagógico ou o que seja. Como ia casar e estava, por motivos particulares, ansioso por sair de São Paulo, cismei de abrir a franquia em Porto Alegre.

Foi um fracasso medonho. Nada de errado com Porto Alegre nem com a Fisk: o problema era que sou um péssimo administrador e a Vera não era muito melhor. Passamos fome, até. Voltei, arrasado física, financeira e moralmente, em julho de 1970, para morar de favor na casa do sogro, a última das humilhações. Verdade se diga que meu sogro me recebeu com uma generosidade de que até hoje me lembro com gratidão, mas o que eu queria era morar com a minha mulher no meu canto, não na casa dele.

Voltei a ensinar, na própria FISK. Dei um duro danado. Ainda hoje sou meio elétrico, imagine o que eu era com menos de trinta anos de idade. Lá para novembro de 1970, a Fisk me ofereceu "fazer umas traduções" na Arthur Andersen, que, na época, era uma respeitadíssima firma de auditoria. Vinte horas por semana, sem janela, com 50% de bonificação porque eram "aulas externas". Um dinheirão, como pode confirmar qualquer um que pene ensinando inglês em cursos livres.

Não sabia o que era auditoria. Mal sabia o que era contabilidade. Tinha feito uma que outra tradução, mas a experiência era mínima, embora em minha Carteira Profissional conste um registro como tradutor datado de 9 de janeiro de 1963.

Aprendi pelo velho método de cair na piscina e ficar me esbatendo como um doido, até descobrir como se faz para nadar. Mas estava me divertindo aos montes. Era (e é) uma festa ser tradutor e, a cada dia que passava, eu me divertia mais.

Depois de uns dias, passou o chefão da firma na minha sala e me perguntou se eu aceitaria um emprego lá. Pedi demissão da Fisk, nunca mais dei aula de inglês na vida. Tinha sido mordido pelo bichinho da tradução: não tinha volta.

Dia 1º de dezembro de 1970, fui admitido como empregado. Como o emprego era de meio período, fui procurar uma editora, para trabalhar o resto do dia. Usando meu emprego como trampolim, comecei a traduzir para a Editora Atlas. Detestei a Arthur Andersen. Por mil motivos, não me ajustei à firma e, em 17 de dezembro do ano seguinte, saí, por vontade própria. Nunca mais tive um emprego na vida.

Desde aquele tempo, jamais houve um dia em que eu quisesse mudar de profissão. Tive bons e maus momentos, tive um momento de dar curso de Word para um cliente; duas vezes, imbecilmente, me prendi demais a um cliente só e me danei quando ele arranjou outro tradutor; tive outros problemas, como um contrato sem cláusula de correção monetária em tempos de alta inflação. Mas nunca pensei em abandonar a profissão.

Lutei muito, estudei muito, investi muito: o que eu tenho e o que eu sei, pouco ou muito, ganhei na base do sangue, suor e lágrimas. Mas este é o meu lugar. Agora, beirando os 67 anos e já recebendo aposentadoria, acho que fiz bem. Sou feliz como tradutor.

Tenho pena, muita pena, dos que traduzem porque não têm alternativa; dos que estão rezando para aparecer alguma coisa por aí que os libere do traduzir; dos que vivem das lembranças de um passado dourado, em que tinham outra profissão, que consideravam mais nobre, e que não perdem uma oportunidade para lembrar; dos que não investem na profissão, porque não têm fé nem nela nem muito menos em si próprios.
Deve ser muito ruim viver desse jeito.