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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Posta-restante: Perguntas que exigem respostas breves



 Aproveito para responder algumas perguntas que me fizeram.

Anônima pergunta: Faço faculdade de Letras e minha área é a tradução. Entretanto estou confusa sobre como me tornar de fato uma profissional de tradução. Explico: gostaria de saber se depois de formar, ou até mesmo durante o curso, é necessário fazer algum curso extra e como faço para ter uma carteira profissional de tradutor, se é que existe. 

A profissão não é regulamentada e, portanto, qualquer um pode ser tradutor ("qualquer um" inclui até a mim próprio, que não tenho curso de nada e, de título, só tenho o de eleitor). Faça a faculdade para aprender, não para ganhar diploma e, com o tempo, você vai ver que uma faculdade bem feita é uma grande vantagem — ao passo que um diploma bonito pode servir como decoração para sua sala de visitas, mas, profissionalmente, não vale grande coisa.

Carteira de tradutor não existe e, se existisse, não teria muita utilidade. Por outro lado, se você conseguir um emprego de tradutora em uma empresa (como eu já tive), na sua Carteira Profissional vai constar "tradutora". Mas, realmente, pouco adianta. O que adianta é o que você traz dentro da cabeça.

Então, vai aí o conselho que eu sempre dou: Aproveite cada minuto livre de sua vida para estudar a língua estrangeira à qual você vai se dedicar (inglês, espanhol, o que seja). Leia feito uma doida. Tudo! Desde os grandes autores até bula de remédio. Tudo importa para o tradutor. E, para cada minuto que dedicar à língua estrangeira, dedique ao menos dois ao português. A maioria dos aprendizes de tradutor tem um português lamentável e, como profissional, você vai precisar fazer cabriolas incríveis com seu português.

Magda pergunta: Sou formada em letras (licenciatura), estava procurando um curso só para tradutor e encontrei seu blog e você disse que existem cursos livres de tradução, gostaria que você me indicasse algum, pois não consigo encontrar nenhum em São Paulo, apenas universidades com o curso completo de letras e tradução.

O Curso da Associação Alumni está lá bem vivo, Magda. E, ao que dizem, a Ângela Levy ainda mostrando a classe.

Paula pergunta: Devido a essa iniciativa do governo, criei minha pequena empresa. Agora a dúvida é como fazer a nota fiscal, pois o modelo estabelecido pede endereço e como a minha empresa é na minha própria residência, eu não tenho como colocar o endereço daqui.

O endereço da minha empresa também é o da minha residência. Isso não é problema algum. Na minha nota fiscal consta como endereço da firma o endereço da firma, que, coincidentemente, é o endereço da minha residência.

Mariana escreve: Eu estava pesquisando sobre a profissão de tradutor no Google e encontrei o blog de vocês, que me chamou bastante atenção pelas valiosas informações dadas. Primeiramente, gostaria de me apresentar; chamo-me Mariana e estou cursando Direito, encontro-me na metade do curso e não gosto da minha área. Por outro lado, sou apaixonada por línguas - estudei inglês por sete anos, estou aprendendo francês e mais à frente pretendo iniciar o alemão! Foi então lendo um livro da Jane Austen da coleção Penguim Classics, há mais ou menos um mês atrás, que me veio a ideia de ser tradutora. Parece ser o tipo de profissão que junta tudo o que mais amo: leitura, escrita e línguas. No entanto, eu não entendo nada do mercado da tradução e sequer sei por onde começar. Ouço muito falar em pessoas que traduzem artigos avulsos, etc. Mas como se faz para trabalhar na tradução de livros, quais os caminhos a seguir, quais as opções que a profissão oferece? É possível viver bem da atividade de tradução? Talvez sejam perguntas demais, mas peço encarecidamente que respondam.

Mariana, desculpe, mas você está pedindo que eu re-escreva para você, de novo, 50% do que está no blogue e isso eu não posso fazer. Clique aí do lado onde diz "principiantes" e "iniciantes" que aparecem as respostas a todas às suas perguntas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

TJ

Eu estava aqui, meio de bobeira e sem sono, resolvi dar uma olhada na nova edição do TJ. Sim, tem mais um artigo nosso (muito mais do Danilo do que meu, eu mal toquei nele), e vou dar o link daqui a pouco. O que me chamou a atenção foi outra coisa.

Alguém aí já ouviu falar de Pimpi Coggins? Eu, nunca, antes de hoje. Ela foi convidada a contar sua história de tradutora na 50ª edição do TJ. Comecei a ler, e escreve bem, a mulher. Mas, de repente, me senti relendo coisas. Vejam se vocês já leram algo parecido:

"Learning and investigating what different programs can do to improve our work shouldn't scare us. Believe it or not there are still some people who use the computer as a glorified typewriter, while others refuse to accept new technology. It took me three years to convince a very close friend of mine to buy Trados. Today, even though he doesn't use it to its full potential, he won't even translate a short sentence without it. Learning new things is not easy, but it is a necessity in our industry and keeps our mind from stagnation." (o Danilo tem uma história igualzinha, igualzinha, mas com Wordfast, se não estou enganada.)

"...the camaraderie among translators is vital to maintain your sanity. Knowing that if you have to work until the wee hours of the morning, Messenger will be by your side. To be able to reach a friend who will assist with a word or phrase, to know that there is always someone out there who is willing to extend a helping hand in the middle of the night. Priceless!"

"Other profiled translators before me have already mentioned the importance of becoming active in professional associations, and I could not agree more."

Algumas coisas aí me parecem puro Danilês. Outras, já ouvi de outros profissionais bem-sucedidos. Eles estão todos aí, entregando o ouro para nós, que estamos começando. Creio que são as três dicas que mais li até hoje para os iniciantes de tradução:

1. Conheça as tecnologias ao seu dispor. Estão aí para ajudar, aumentar seu rendimento, e consequentemente, seu ganho. Sim, custam caro. Mas quem quer ganhar mais deve estar disposto a gastar mais. Eu, por exemplo, fiz um empréstimo gigante, para as minhas possibilidades atuais, mas aproveitei a promoção do MemoQ (50% de desconto!) e ainda me dei um note, para poder trabalhar em minhas viagens.

2. Mostre-se. Não adianta resolver virar tradutor e não contar para ninguém. Vá a seminários, conferências, torne-se um membro de associações sempre que puder. Participe de fóruns na internet, ajude outros tradutores. Tudo isso é vitrine. Não pense que orkut e twitter são brincadeiras de adolescente, porque não são só isso. Tem muito trabalho rolando nessas redes sociais. Muito mesmo.

3. Mantenha contato com outros tradutores. A era da solidão se foi, acabou, e enquanto houver internet, ela não volta. Alguns vão te pedir ajuda, outros vão te ajudar, outros vão virar amigos de trocar receitas, nomes de médicos e dicas para acalmar filho de visita. Mas, quando bater aquela solidão, ou aqueles terrores de prazo curto, de branco, de não conseguir encontrar uma tradução decente, sempre vai ter alguém ali para ajudar. Isso dá um conforto que eu não consigo descrever.

Tem algumas outras, sempre repetidas, mas creio que a Pimpi falou das principais, aqui.

Não me esqueci: nosso artigo do TJ, sobre plágio, está dando o que falar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Grito de Dor do Principiante

O artigo da Kelli, aí abaixo, é o grito de dor de todos os principiantes. Poucas profissões têm um sistema para incluir o principiante e a nossa não é uma delas. Quem sai da faculdade fica meio sem ter para onde ir e, muitas vezes, vai ensinar inglês, porque não tem a mais remota ideia de como começar a vida de tradutor. Nosso mercado, que eu venho observando e analisando há anos, com as ferramentas que vou adquirindo ao traduzir milhares de textos sobre finanças, economia, marketing e matérias conexas, é muito confuso e pouco transparente.

Não se trata de um mercado fechado, controlado. Nem eu nem ninguém mais tem como fechar a porteira para impedir a entrada dos mais novos. O próprio crescimento do mercado, conjugado com a aposentadoria e morte dos veteranos, abre vagas que vão sendo preenchidas pelos mais novos. Mas é verdade que uma das melhores maneiras de ingressar no mercado é atrair a atenção dos veteranos, porque muitas vezes é o veterano que encaminha aos mais novatos os serviços que não pode fazer.


O caso da Kelli comigo é um pouco diferente, porque não repasso serviço para ela: nós trabalhamos juntos em mil e uma coisas. O fato é, entretanto, que, quando eu precisei de alguém para trabalhar comigo, não anunciei no jornal: convidei uma jovem que me pareceu inteligente, que eu tinha conhecido numa comunidade do Orkut. Se ela não fosse competente, não teria sido convidada (ou teria sido “desconvidada” logo em seguida). Mas também é verdade que se não tivesse participado ativamente da comunidade do Orkut e lá demonstrado sua capacidade, dificilmente teria sido convidada.

Ou seja, como se dizia antigamente, há que crescer (intelectualmente) e aparecer. Mas isso eu já disse mil vezes e o restante do que eu tenho a dizer fica para amanhã. Obrigado pela visita.

domingo, 2 de agosto de 2009

Início de Carreira

Continuando a resposta à Larissa, vou dizer, mais uma vez, como comecei, agregando os porquês de me ter firmado no mercado. A história, de tão repetida, está batida demais da conta. Mas sempre tem gente que pergunta de novo.

Eu era professor das Escolas Fisk e, um dia, a Arthur Andersen, uma das mais importantes firmas de auditoria da época, perguntou se havia um professor quisesse “fazer umas traduções”. Me ofereceram o serviço. Aceitei, eram quatro horas por dia, seguidas, sem janela, e, ainda por cima, pagas com 50% de acréscimo, por serem “externas”. Qualquer pessoa que tenha trabalhado em cursos de livres de línguas sabe que filé é uma coisa dessas.

Além de tudo, havia muitos anos que eu queria me devotar à tradução, mas, por um motivo ou por outro, a coisa não se materializava. Já estava algo cansado de aulas de inglês e achei traduzir uma delícia. Em pouco tempo, a Arthur Andersen me ofereceu um emprego, como tradutor, e agarrei com as duas mãos.

Logo depois de começar a traduzir lá, procurei a Editora Atlas, que se especializava em contabilidade (de que a auditoria é um ramo especializado) para oferecer meus serviços. Fiz um teste e passei porque criei um caso com o testador, na frente do diretor editorial. O original tinha substitute machines for men, eu traduzir direito e o testador deu bronca, porque lhe escapara a regência peculiar de substitute. O diretor editorial disse “não entendo inglês, mas a única tradução que faz sentido aqui é a que o Danilo deu”. Ainda bem que o testador não era rancoroso.

Me firmei no mercado por três razões:

1. Sempre dei o máximo. Errei, errei muito, fiz muita besteira e ainda erro e faço besteira. Mas nunca deixei de caprichar, de dar o máximo de mim, independentemente das condições.

2. Estudei como um doido. Não sabia nada de finanças nem de contabilidade, vi a oportunidade e li tudo o que fui encontrando, em inglês e português. Hoje, não faço feio entre contadores. Além disso, dei duro no inglês, no português e em técnicas de tradução

3. Participei. Reuniões, congressos, palestras; posteriormente, listas de discussão, artigos para o Translation Journal; cursos… onde houvesse um lugar onde eu pudesse estar, lá estava eu.

Combine esses três fatores e vai dar tudo certo para você. A turma fala que precisa ter sorte. Precisa, sim, mas a sorte bafeja quem está preparado.

Amanhã, falamos de outra coisa.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O que Veio Primeiro, a Galinha ou o Ovo?


Escreveu a Larissa:

Eu sou a Larissa e acabei de me formar em Letras-Tradução
pela Universidade de Brasília. Acompanho o seu blog já há muito tempo e gostaria de lhe fazer algumas perguntas, agora que vou ingressar no mercado de tradução. Já li muitos artigos seus onde você menciona que o ideal é trabalhar como pessoa jurídica, pois as agências de tradução e os clientes diretos exigem nota fiscal. No entanto, como seria viável manter uma empresa se ainda estou tentando conseguir clientes? E, ao mesmo tempo, como conseguiria clientes se não sou pessoa jurídica? Essa é uma dúvida que me persegue já há muito tempo e gostaria de saber se você tem alguma sugestão ou se você poderia contar como foi o seu início como tradutor e como conseguiu se firmar no mercado. De qualquer forma, desde já lhe agradeço, pois aprendi muito com seus artigos e o seu blog.

A pergunta, então, Larissa, é: o que veio primeiro, o ovo ou a galinha. Como todos sabem, foi o ovo. Havia animais botando ovo muito antes de haver galinhas. O problema é, aqui, descobrir o que é o ovo e o que é a galinha. Até aqui, escrevi 45 palavras, fiz uma graçola sem graça não ajudei em nada. Vamos ver se consigo dizer algo que se aproveite.

A primeira coisa a dizer é que como trabalhadora autônoma, vai ser muito difícil ir para a frente. Essa é uma hipótese que eu descartaria logo de cara.

Existem opções “informais” (um eufemismo para “ilegais”, mas, além da ilegalidade, pagam pouco. Ainda deve haver, por exemplo, algumas agências (não me peça nomes) que paguem "por fora". Mas essas agências são as que menos pagam, mesmo levando em conta que você não vai recolher impostos sobre o que receber. Pessoas físicas também não costumam pedir qualquer tipo de comprovante. Muitos tradutores repartem serviços com colegas, descontando do pagamento os impostos, mas sem exigir nota fiscal. Quer dizer, tem tudo isso e deve ter mais. O problema é que essa pseudoliberdade, além de ilegal, é uma prisão e uma prisão viciante. Você pode ficar nela anos, muitos anos, flutuando no espaço, sem jamais progredir profissionalmente.

Outa possibilidade absolutamente legal e viável é trabalhar para empresas estrangeiras, as quais não querem saber nem de RPA nem de nota fiscal. Você manda uma fatura em pdf, muitas vezes anexa a um e-mail e recebe o dinheiro. Temos um insigne colega que simplesmente fechou a firma no Brasil, para só atender seus clientes estrangeiros. Mas esse é um símio idoso, com uma clientela de elite. Eu já tive vontade de fazer o mesmo e teria feito se não fossem uns serviços de treinamento e consultoria que tenho aqui no Brasil, que me rendem algum dinheiro e muita diversão.

Nesse caso, pagam-se impostos via Carnê-Leão. O problema, aí, é conseguir clientes no exterior, um verdadeiro campo minado e, além de tudo exigentíssimo.

Mas, lembre-se: você tem que investir e arrisca. Todo profissional que trabalha por conta própria passa por isso. Muitos de nossos colegas se recusam a investir “Eu, gastar dinhero com programa de tradução assistida por computador? Não sou bobo!” É sim. Esses programas de pagam num instante e logo começam a dar lucro. Coisas desse tipo.

Pronto, a primeira metade de sua pergunta está respondida. A segunda, respondo durante o fim de semana.

Até lá, e obrigado por ter escrito.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Não tenho Tempo para Aventureiros

Há algum tempo, alguém postou uma pergunta muito boba em uma lista de discussão. Um colega nosso, muito gozador, respondeu assim "de acordo com a página tal do Collins Gem, a tradução é tal". A consulente ou não entendeu ou se fez de desentendida: agradeceu e sumiu do mapa. Mas, tem dó, postar uma pergunta numa lista sem se dar ao trabalho da abrir um dicionário antes, é abuso. Além disso, queima o filme. As listas são uma vitrina e eu posso traçar cada um dos clientes que tenho hoje à minha ativíssima participação na trad-prt, num outro momento da lista, momento que considero mais feliz do que o atual.

Aos poucos, foram me oferecendo serviços e oportunidades que foram me elevando do dez reau por baciada para patamares de remuneração mais elevados. E ninguém vai oferecer serviço para que posta na lista perguntas que poderiam ser respondidas por uma consulta a qualquer dicionário. Quer dizer, cada um forma sua própria reputação.


Postar perguntas é bom e, creiam-me, se a gente aprende muito sobre um profissional lendo as respostas que dá aos colegas, muito mais se aprende lendo as perguntas que posta. Uma pergunta bem formulada, sobre um problema complexo, conquista para o consulente a reputação de profissional interessado em fazer um bom serviço. Perguntas cretinas, por outro, conquistam para o consulente a reputação de…cretino.


Não vai faltar quem responda às perguntas bobas, claro. Alguns, por um senso de caridade que difere do meu ou às, vezes, por motivos que eu consideraria menos nobres.


Há algum tempo, soltei os cachorros em alguém que tinha postado uma série de perguntas cuja resposta se encontra em qualquer dicionário que se preze e até em alguns que não se prezam. Uma colega me repreendeu "Ah, seu Danilo, o senhor nunca foi principiante, ou já se esqueceu daquele tempo?" O "senhor" aí, não era demonstração de respeito - ninguém me chama de "senhor", exceto minhas sobrinhas - mas sim um daqueles sarcasminhos baratos tão correntios na Internet.


O fato é que censurei a consulente exatamente por me lembrar de quando era iniciante. Não havia Internet, naquele tempo, nem em sonho, mas eu já fazia perguntas - mas só quanto tivesse esgotado todos os recursos próprios. Aliás, essa é uma das características que distinguem, de um lado, o principiante, que merece todo o nosso respeito, porque todos nós um dia fomos principiantes e porque o principiante bisonho de hoje é o bom colega de amanhã, e, de outro o aventureiro, porque o aventureiro de hoje é o picareta de amanhã.

O principiante tem um compromisso com a profissão e dá um duro danado para fazer um bom serviço e se desenvolver, acumulando recursos e fazendo o melhor uso possível deles. O aventureiro, simplesmente quer entregar o serviço, de um modo ou de outro, e "pegar o dindim". À primeira palavra para a qual não lembrar imediatamente de uma tradução, posta dúvida na lista: alguém que lhe resolva os problemas, porque ele não está muito interessado em resolver nada. Não passa de um chupim, de um sanguessuga.


Desculpem, mas não tenho tempo para aventureiros.

domingo, 7 de junho de 2009

Os Principiantes

Não importa que a gente tenha um marcador "principiantes" e outro "iniciantes" aqui, levando a uma porção de artigos interssantes para quem ainda está no início: toda semana, ao menos três pessoas me escrevem perguntando como deve proceder o principiante.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Que língua estudar, para Tamara, da UNESP

Escreveu a Tamara:

Sou estudante de Letras, estou em meu 1° ano na Unesp/Assis e já no final deste 1° semestre devo optar por qual língua estrangeira estudar até o final do curso. O caso é que eu quero ser tradutora e isso está influenciando na escolha do idioma. Gosto muito mais do espanhol do que do inglês, mas o senhor acha que há muitas oportunidades para a tradução em língua espanhola como há para o inglês? Gostaria muito de trabalhar traduzindo novelas e filmes português/espanhol e vice-versa, sei que essa não é a área na qual o senhor atua, mas o senhor tem mais noção disso do que eu e poderia me ajudar a esclarecer essa dúvida que tanto me atormenta! (não estou exagerando!). 

Tamara, só para argumentar, vamos imaginar que "espanhol" e "inglês", no se caso, não sejam línguas, mas sim as nacionalidades de dois de seus pretendentes. Você pode casar com um ou com o outro, ambos são legais, mas você gosta muito mais do espanhol do que do inglês. Entretanto, no momento parece que o inglês tem um futuro profissional mais brilhante.

Você está perguntando com qual dos dois deve casar. Porque a gente, de certo modo, casa com a língua que traduz, convive com ela e seus falantes, visita o país onde ela é falada, lê jornais e livros escritos nela, essas coisas. Você estar abraçada com o inglês, vendo aquela assanhada da sua maior inimiga toda agarrada com o espanhol, é um sofrimento.

Pior: essas coisas profissionais mudam, Tamara. E, da mesma forma que o espanhol pode ganhar numa loteria qualquer e ficar podre de rico, o inglês pode dar um azar desgraçado na vida, entrar em depressão e estar um trapo de marido aos trinta anos, fazendo a infelicidade da terceira mulher. Prever o futuro é impossível. 

Falando do ponto de vista estritamente profissional, o mercado de inglês é maior que o de espanhol, mas também tem muito mais tradutores. Isso significa que quem é realmente bom, tem iguais chances de se profissionalizar tanto no inglês como no espanhol. Realmente, não vejo problema e tenho muitos colegas de espanhol que estão lotados de serviço. Acabou aquela ideia de que "espanhol todo mundo sabe e qualquer um traduz". Felizmente - e não me parece que isso tenda a mudar.

Dois comentários finais, para você e para todos os que lerem este artigo: 

Primeiro, que, dada a preeminência da TV e do cinema na nossa cultura, onze entre cada dez tradutores iniciantes ou pretendentes a tradutor esperam traduzir filmes, novelas e quejandos. Não estou dizendo que você, especificamente, não consiga chegar lá. Mas cabe dizer que essa é uma fração do mercado e o grosso do serviço, em qualquer par de línguas, é constituído por tradução pragmática (comercial, técnica, jurídica, médica…), em qualquer país do mundo e em qualquer época da história. A tradução de filmes e coisas assim aparece muito e está crescendo, mas ainda representa e, creio, vai sempre representar, um volume menor que o da pragmática. Mais de 90% dos tradutores jamais traduziram um filme ou literatura na vida. Eu nunca fiz nada disso e estou satisfeitíssimo com a profissão. Preciso escrever alguma coisa sobre esse assunto, um dia desses. 

Segundo, que para ser um bom tradutor, aprender a língua estrangeira é essencial, mas nem de longe o suficiente: é igualmente importante dominar a própria língua. Você escreve bem, Tamara, mas, como tradutora, vai ter de aprender a virar o português do avesso, porque vai ter de adaptar o seu português "natural", o jeito que a Tamara escreve, para o estilo do original, que pode ser muito diferente do seu. E, se você se dedicar ao espanhol, o problema é piorado pela semelhança entre as línguas: quanto mais semelhantes as línguas do seu par, maior a chance de contaminação. Quer dizer, estude espanhol como louca e português como louca e meia.

E, assim, você chega lá.

Ah, prefiro ser chamado "Danilo", mesmo, sem "senhor". Por favor.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Viver exclusivamente da tradução

O Mairo perguntou, como comentário ao artigo anterior:

Posso perguntar uma coisa diferente? Quanto tempo leva, se eu começar hoje, para eu começar a ganhar uns trocados como tradutor? Uns trocados eu digo ser capaz de fazer só isso dá vida...

Depende muito do caminho que você seguir. Eu consegui um meio período numa empresa, quinze dias depois, uma editora e, assim, imediatamente comecei a viver de tradução. Nem todos conseguem.


Atualmente, eu diria que o caminho mais simples para o iniciante é procurar agêncis e editoras (principalmente as pequenas). Não se ganha muito dinheiro, mas há um fluxo de serviço contínuo, que paga o essencial e dá uma experiência enorme. Isso, evidentemente, quando você estiver preparado. Não adianta fazer testes aos montes quando você ainda estiver engatinhando: só vai queimar o filme.


Procure ter vários clientes: depender de um só é um risco muito grande. Oito meses depois de conseguir o emprego na empresa, pedi demissão, para trabalhar exclusivamente por conta própria. Tinha uma editora que ocupava 75% do meu tempo e mais um cliente direto que ocupava o resto. Muito melhor do que ter de ir ao centro de São Paulo todos, os dias para trabalhar quatro horas. Um dia, a editora parou de me dar serviço e eu caí em desespero.


Em outras palavras, não é bom que qualquer dos seus clientes represente mais do que 25% dos seus rendimentos. Idealmente, 10% deveria ser o máximo.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Quero ser tradutor!

Ou, o que é mais frequente, "quero ser tradutora!". Rara é a semana em que não recebo uma mensagem de alguém que quer se dedicar à tradução como profissional, sempre me pedindo "algumas dicas".

Este blogue não passa de uma coleção de dicas para tradutores. Tem até, aí do lado, dois marcadores, um iniciantes e outro principiantes, que levam o leitor a várias notas especificamente direcionadas para os que estão ainda nos primeiros degraus da escada profissional.

Há muito pouco que eu possa dizer que não esteja aqui e que eu não tenha dito mil vezes em palestras e nas Reuniões na Sala 7. Uma das minhas maiores dificuldades atualmente é escrever artigos novos, sem repisar mais uma vez os fatos, temas e conselhos que já dei mil vezes.

Por que me escrevem, então, pedindo "dicas para iniciantes"?

Não sei. Talvez seja falta de paciência para pesquisar, para ler a tela toda do computador e ver o que nela está escrito, para dar uma boa xeretada no blogue.

Isso é mau. Mau porque o tradutor é, entre outras coisas, um pesquisador cuidadoso, um fuçador nato, um xereta paciente e incontrolável. E escrever uma mensagem perguntando o que está à vista de todos indica que o redator precisa, antes de tudo, mudar seus hábitos intelectuais.

Mas talvez eu esteja sendo injusto. Talvez o missivista tenha lido tudo e esteja procurando aquela diferença, o pulo do gato, aquela chave mestra que abre todas as portas. Como, depois de ler meio blogue, não encontrou, resolveu perguntar. O fato é que não existe essa chave mestra. Existe uma porção de coisas que você pode e deve fazer e que estão descritas nos itens para iniciantes e principiantes e, me desculpe, eu não vou repetir de novo mais uma vez (duplo pleonasmo proposital) para cada pessoa que me escreve.

Mas o pulo do gato não existe. Me faz lembrar as histórias que circulavam na minha adolescência — e devem ainda estar circulando, em versões mais modernas — sobre técnicas para conquistar as meninas. Tenho certeza de que entre as meninas circulavam as histórias recíprocas, sobre como conquistar os meninos. Mas, embora a maioria tivesse lá sua utilidade, nenhuma delas era garantida e eu também não tenho nenhuma técnica garantida para fazer carreira e conquistar clientes.

Mas, para quem insiste e pede, ao menos, uma diquinha, pequenininha que seja, tenho aqui a dica das dicas, a mãe de todas elas, a maior e mais importante: para cada hora que dedicar ao estudo da língua estrangeira à qual você quer se ligar como tradutor ou tradutora, dedique ao menos duas ao estudo do português.

Mas, se você insistir que quer mais uma diquinha, só uminha, porque teu português é bom, e você sabe a diferença entre "a", "á", "à", "ah" e "há", sabe quando se usa "havia" e quando se usa "haviam" (o que é mais do que sabem muitos que me pedem dicas para pretendentes a tradutor), eu vou dizer: aprenda a usar seu computador, principalmente o Word for Windows. Dá pena ver gente que não sabe formatar parágrafos, que bate enter duas vezes no fim do parágrafo, pensa que para iniciar página nova tem que ir dando enter até virar de página, não sabe formatar tabulações nem localizar e substituir marcas de parágrafo, por exemplo.

Agora, se você continuar a insistir, eu vou dar a terceira e última dica: clique nos marcadores "iniciantes" e "principiantes", aí do lado, que tudo o mais que eu sei está lá.

Pronto, já dei três.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Respondendo: estudante quer ser tradutor

Mensagem do Luis, algo abreviada:
Meu nome é Luis, tenho 19 anos. Sou estudante de Engenharia e tenho pensado em ter uma renda mas a faculdade ainda está no começo e ainda não é hora de conseguir um estágio remunerado. Por isso, tenho pensado sobre tradução. Domino bem o inglês, costumo ler os livros na língua original, e tenho CPE.

Como começar? Já li algumas dúvidas similares no blog, mas nunca sobre o que fazer primeiro em relação a me apresentar para as editoras. Já mandei e-mails para algumas, mas não recebi resposta; não sei se devido à falta de experiência ou de formação (faculdade/curso).


Pretendo fazer um curso de tradução, mas até agora o melhor que eu achei aqui no Rio requer graduação.


Enfim, o que eu gostaria de saber é quais são seus conselhos de como procurar algum tipo de trabalho como tradutor. Se devo continuar a comunicação por e-mail ou carta ou me apresentar pessoalmente nas sedes. E principalmente se o diploma de proficiência tem um peso inexistente sem curso/faculdade.

Luis,

É cada vez mais difícil fazer da tradução um bico. Os prazos estão cada vez mais breves, as exigências cada vez maiores. Mesmo a tradução de grandes obras literárias, que, antigamente, muitas vezes era feita nas horas vagas por escritores, jornalistas ou acadêmicos, hoje cada vez mais está nas mãos de profissionais que se dedicam à tradução em tempo integral. Curso de engenharia consome um tempo enorme e dificilmente vai sobrar algum para cumprir os prazos de hoje. Mesmo assim, vale a pena insistir e você não seria o primeiro que, aos vinte anos, descobre que prefere traduzir a ser engenheiro.

Por outro lado, você quer a "receita do bolo", (quem não quer?) para entrar na profissão e essa eu não tenho e não acredito que exista. Não existe um modo certo e certeiro para se tornar tradutor. Há recomendações e, também, gente que faz tudo ao contrário e se dá bem. Você vai ter que ir formando seu próprio caminho, como fiz eu e como fizeram os outros. Nada impede que eu dê algumas indicações.

As editoras significam uma parte importante mas pequena de nosso mercado. Sem contar os mercados de interpretação e audiovisuais e mais alguns segmentos, que provavelmente não interessam a você, ainda temos as agências e clientes diretos, segmentos que não podem ser desprezados. Não existe em lugar algum uma lista de agências ou clientes diretos, mas, se você der uma olhada nas páginas amarelas, sob "tradutores", vai ver vários anúncios destacados e pode apostar que são agências.

As editoras, além disso, são especializadas. Se o teu negócio é engenharia, não adianta se oferecer como tradutor a uma editora especializada em literatura: precisa procurar as editoras que publicam o tipo de livro que você lê e saberia traduzir.

Não se apresente pessoalmente: é possivel que nem passe da porta, se não tiver uma reunião marcada. Continue usando correio convencional ou eletrônico e conforme-se com o fato de que você pode ter de mandar muitos CVs antes de encontrar seu primeiro cliente. Pense, assim, em torno de cem. Tem gente que emboca na primeira, mas é raro.

terça-feira, 3 de março de 2009

Agruras de um iniciante

Um colega me escreve falando lá de suas agruras de tradutor iniciante, que trabalha de um modo algo precário. Pergunta:
É viável trabalhar dessa maneira até alcançar um renome? É romântico acreditar que a qualidade do trabalho em si, a despeito dos outros aspectos que credibilizam o profissional, pode dragar um amador dessa condição infame?
A mensagem é um tanto dramática e a condição dele não chega a ser infame, mas, de fato, é precária: por exemplo, está trabalhando com nota fiscal de terceiros, o que não é nada bom.

A pergunta me parece mal formulada. Eu teria preferido perguntar: é possível alcançar renome trabalhando dessa maneira?

Uma lição que aprendi há tempos é que, para sermos tratados (e remunerados) como profissionais, temos de agir como profissionais.Quer dizer, o primeiro passo na trilha da profissionalização é sempre nosso e, cada vez mais, profissionalizar-se exige investimento de tempo e dinheiro.

Para o iniciante, é terrível. Você pensa que, terminando a faculdade, vai virar tradutora da noite para o dia. Depois, descobre que tem que procurar serviço, dar nota fiscal, aprender a fazer misérias com o computador, usar programas de memória de tradução, mil coisas. Mas não tem saída: se você quer ser profissional, cabe unicamente a você a tarefa de profissionalizar.


Em tempo, uma das coisas que o colega lamenta é o fazer "versões para pessoas físicas". Nada há de errado nisso. Pessoas físicas são clientes como quaisquer outros, embora mais difíceis de atender.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Decidir aos 17...

A Thairine, em um comentário num post antigo, escreveu assim:

Oi Danilo. Meu nome é Thairine, tenho 17 anos e estou no terceiro ano do Ensino Médio. Tenho procurado muito nos últimos meses a respeito da profissão de tradutora/intérprete, e hoje, pesquisando mais sobre isso, acabei encontrando seu blog e achando muito interessante tudo que voce disse.

Estou num momento muito confuso por ter que escolher tão cedo o que eu quero pra minha vida profissional, e também estou ciente que todas as pessoas já passaram por isso ou ainda vão passar.

Gostaria muito que voce me ajudasse e tentasse colocar uma 'luz' no meu caminho, para eu saber se é isso mesmo que eu quero pra mim. Já pesquisei sobre varias profissoes que tinham me chamado a atenção (jornalismo, relaçoes internacionais, relaçoes publicas...), até que me deparei com Letras - com enfase em tradutor e interprete - e tenho gostado cada vez mais da área.

Gostaria de saber o que é preciso saber fazer, o que é preciso gostar pra não se 'decepcionar' com a profissão, quais são as possibilidades de mercado de trabalho, etc.

O que você puder ajudar já vai ser muito importante pra mim. Desde já agradeço. E parabéns pelo blog.

[Kelli] Ela perguntou para o Danilo, mas eu senti vontade de responder. Então, lá vamos nós.

Thairine, o momento de escolha da profissão é realmente muito confuso, para todo mundo. E é cruel que, num mundo com tantas opções que a gente nem conhece todas, seja necessário fazer a escolha aos 17, 18 anos, tão jovens. Eu passei por isso não faz muito tempo.

Sempre gostei muito de inglês, mas estava fazendo cursinho, aos 18 anos, para prestar arquitetura. No meio do ano, surgiu a possibilidade de dar umas aulinhas de inglês, sem muito compromisso, no começo. Mas aí viram que eu levava jeito pra coisa, e minha mãe e minha chefe se uniram, uma em cada orelha, para eu prestar letras. Para me livrar da falação, fiz minha inscrição. E aí aconteceu o que eu não esperava: comecei a ficar dividida. E acabei indo bem nos dois vestibulares e eu não saberia o que fazer até hoje, caso tivesse sido aprovada nos dois. Por sorte, passei só no de letras mesmo. Cá entre nós, eu provavelmente daria uma péssima arquiteta.

Passei alguns anos lecionando, e cada começo de semestre era uma alegria, um tal de fazer planos e aulas e isso e aquilo... até que no segundo semestre do ano passado isso não aconteceu. Comecei o semestre já bem desanimada, bem em clima de 5 de dezembro, sabe, querendo férias? Pois aí eu percebi que meus tempos de professora tinham acabado, e eu tinha voltado a dar umas aulinhas de inglês. Percebe a diferença? Eu tive sorte, pois na mesma época surgiu o Danilo com um convite para trabalhar com ele e eu, completamente insegura, mas ousada, aceitei e aqui estou hoje, aprendendo mundos sobre tradução.

Tudo isso, Thairine, para dizer o seguinte: com relação ao que você quer para si mesma, é muito difícil fazer uma escolha aos 17 anos e não se arrepender depois. Muito mesmo. Uma coisa importante para se ter em mente é que nada é para sempre e nada é irreversível, exceto a morte. Outra coisa é que, quando a gente muda de idéia, tem que ficar atento para não deixar as portas e janelas de oportunidades passarem e se fecharem.

Sobre o resto, bem... você já demonstrou ter algumas qualidades necessárias a um tradutor. Escreve bem, é curiosa. Se escreve bem, deve gostar de ler. Ser tradutor sem gostar de ler é um paradoxo, para mim. Deve estudar português sempre e cada vez mais, mais até que a língua estrangeira. Deve ler tudo o que cair na sua mão, seja lá o que for, porque quando menos se espera, aquele conhecimento basiquinho de mecânica pode ser muito útil em um texto que aparentemente não tem nada a ver com mecânica. Deve ser apaixonada por pesquisa, porque cai cada coisa nas nossas mãos, principalmente no começo... E também deve se sentir bem quando está sozinha. É uma profissão bem solitária, apesar de todo o contato que a internet permite ter com colegas.

Aqui do lado, tem uma série de marcadores. Clique em iniciantes e em principiantes, que tem muita coisa que vai te interessar. E volte sempre para conversar com a gente.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

FAQ 1

A pretendente a tradutora

Na verdade é que eu to super confusa como todo vestibulando que se preze hahaha. Você trabalha de tradutor né? mas você fez algum curso/faculdade?Eu tenho um amigo que faz tradução e interpretação na Unibero, mas por enquanto eu vou tentar a Unesp por que é pública mesmo. Eu me interessei pelo curso, por enquanto é o que eu vou fazer mas sempre vem aquelas dúvidas: será que o mercado de trabalho é amplo? será que pra essa profissão uma faculdade faz mesmo diferença? Pelo que eu entendi você trabalha em casa né? Tem algum tipo de exigência pra ser um tradutor?

O que você leu acima é a mensagem recebida da T. Já respondi esse tipo de mensagem muitas vezes, mas, como ninguém leu o blogue de ponta a ponta, lá vai de novo.

A confusão é melhor do que a certeza total, T, principalmente porque é um modo mais humilde de examinar a realidade. Um tanto de confusão é bom, principalmente quando se é jovem.

Não "trabalho de tradutor", sou tradutor profissional desde 1970, o que é bem diferente: uma questão de postura, empenho, dedicação. Desde 1970, o dinheiro que entra na casa vem da tradução.

Não fiz faculdade, por motivos que não vêm ao caso agora. Do ponto de vista jurídico, não faz diferença: o exercício da profissão é livre, no Brasil e em qualquer lugar do mundo, e, por isso, você pode viver de tradução com ou sem faculdade. Do ponto de vista comercial, a faculdade ajuda muito. Enquanto você não puder apresentar um currículo com uma boa experiência, um título de bacharel facilita muito sua vida. Depois de uns cinco ou seis anos de prática, ninguém mais vai olhar se você tem graduação ou não, mas, no início, faz uma grande diferença.

Do ponto de vista intelectual, então, nem se fale. Você pode aprender em casa, sozinha, tudo o que ensinam na faculdade e até mais, porém não é nada fácil. Uma faculdade bem feita vai ajudar você a organizar as idéias e pensar melhor. Mas o acento aqui é em "bem feita". Não adianta fazer faculdade promovendo ausências coletivas ou tomando carona em trabalhos antigos. Precisa estudar. Principalmente, precisa estudar português como uma louca.

Você diz que pretende ir para a UNESP. Rio Preto? Dizem que é bom lugar para se estudar. Faculdade no interior pode ser uma escolha excelente. Talvez a Kelli possa te dizer alguma coisa sobre isso.

A maioria dos tradutores trabalha em casa, sim e, de modo geral, precisa constituir uma firma para poder trabalhar, o que não é grande dificuldade. Existe mercado, sim, e existe muita gente vivendo de tradução. O problema é que muita gente não quer, de verdade, ser tradutora, quer ser paga para ler coisas lindas. Então, fica exasperada quando, em vez de traduzir uma bela obra literária, é encarregada de traduzir um livro de auto-ajuda, ou de ficção de massa. Sabe, como se você fosse se especializar em cirurgia plática, mas só trabalhasse com mulheres lindas. Se a postura for essa, fica complicado. Agora, se você quiser traduzir, não falta serviço.

[Kelli] Eu não posso dizer muita coisa além do que o Danilo já falou, até por não conhecer ninguém de Rio Preto. Cursei Letras na UNESP, mas em Araraquara, e cada campus é bem diferente do outro. Posso adicionar uma coisa só: muito aluno pensa que os professores universitários são semideuses, e muitos professores se sentem assim mesmo. Quanto eu era estudante, o prédio com os departamentos e salas dos professores era conhecido como Olimpo, para se ter uma idéia. E as brigas de egos que tinha por lá condiziam com o nome.

A melhor coisa que eu fiz foi nunca me sentir diminuída ou receosa por causa disso. O melhor dos cinco anos do meu curso, academicamente falando, foi ir atrás de professor, ficar no pé, conversar nos intervalos e tratá-los com igualdade. Com respeito, mas com igualdade. Afinal, são gente como a gente. Consegui muito com essa postura. Aliás, sem ela, eu não estaria escrevendo neste blog agora.[/Kelli]


O mestrado do Mackenzie

Uma colega pergunta o que eu acho do curso de mestrado do Mackenzie. A bem dizer, praticamente nada. Dos professores, a única que conheço é a Valderez Carneiro da Silva, veterana e respeitada, desde os tempos heróicos da Faculdade Ibero-Americana. Dos outros, nunca ouvi falar, o que significa que não circulam muito nos ambientes dos tradutores profissionais, embora possam ser excelentes professores.

Esse, como acho que todos os outros cursos superiores, não trata de ferramentas de tradução assistida por computador. É um empurra-empurra ridículo, isso. A turma da graduação acha que é problema da especialização, a turma da especialização acha que é coisa para graduação. A turma do mestrado acha que não é problema deles e a de doutorado acha que de jeito nenhum é coisa para eles. Mas, quando você chegar no mercado, a maioria dos clientes vai querer saber se você sabe lidar com essas coisas.

De resto, o Mackenzie é uma instituição séria e um curso de especialização vai ajudar a arrumar as tuas idéias, embora ninguém, mas ninguém mesmo, vá virar tradutor em três semestres. Quer dizer: espere um bom curso, mas não um milagre. Muito depende de quanto você já sabe e de quanto você está disposta a se dedicar. Num curso desses, não se ensinam línguas. Quer dizer, ou você é boa de português e inglês, ou não vai aproveitar o curso. Por outro lado, não me canso de repetir que você faz o curso, não é o curso que faz você. Tem que dar duro. Os professores, por bons que sejam só podem ensinar; mas é exclusivamente a você que cabe aprender.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O que é necessário para ser tradutor profissional

Escreve a Adriane

Minhas línguas são o Português e o Espanhol. Quero muito de ser Tradutora. E necessito saber como funciona.... Como é valida uma tradução, já seja ela literária, legal, técnica, comercial, etc?

Em resumo preciso de um diploma? Sendo assim, que estudo, onde estudo? Existe Especialização ou Pós Graduação para Tradutor? Que necessito para me registrar? Como e onde me registro? Diferença de Tradutor Juramentado. Onde posso trabalhar? Serve em outros países?

Adriane,

Não é necessário diploma de nada para trabalhar como tradutora em país algum do mundo, mas fazer faculdade, direitinho, na faculdade mesmo, em vez de no boteco da esquina, ajuda muito, por mais que você fale português e espanhol bem e mesmo que, oficialmente, seu diploma não seja reconhecido no país onde você morar. A exceção são as traduções juramentadas, que somente podem ser feitas por TPIC (na caixa "pesquisar blog", aí em cima, escreva TPIC e dê Enter para descobrir que bicho é esse). Existem mil cursos para tradutores em diversos níveis. Você deve procurar nas instituições de ensino superior da região em que mora.

Registro como tradutor não existe (salvo se você for TPIC). Mas você vai ter de se registrar como profissional autônoma na prefeitura de sua cidade e no INSS ou então constituir uma empresa. Mas isso é coisa para conversar com um contador, não comigo.

Nossa profissão é globalizada e a maioria de nós trabalha na Internet. Eu, por exemplo, tiro cerca de 90% de minha renda de clientes de fora do Brasil.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Comentário de uma pré-principiante

Escreveu a Tamara, num comentário a este artigo:

Eu tenho 17 anos e estou cursando o 3° ano do ensino médio. Sou uma pessoa que sempre tive um fascínio por línguas estrangeiras. Sei que em tradução existem os bons profissionais e os ruins também. Gostaria muito de ser tradutora principalmente de filmes e canais de TV á cabo. Será que existe um bom mercado para esse ramo em um outro país além do Brasil? O senhor acha que é preciso encarar esse tipo de profissão como um segundo emprego e estar trabalhando como professor de línguas por exemplo, para conseguir um bom retorno financeiro?

Tamara, você está começando cedo, não? Ainda no 3º ano do curso médio e já se preocupado com coisas como mercado! Parabéns! Vamos ver se consigo dar uma resposta adequada à sua mensagem.

Eu vivo exclusivamente da tradução desde 1970. Mesmo meus cursos, que me trazem algum retorno financeiro, são sempre voltados para a tradução. Não gosto da idéia de ser professor de línguas e tradutor ao mesmo tempo. Primeiro, porque são atividades diferentes, que exigem habilidades e formações também diferentes e nem sempre o bom professor é bom tradutor e vice-versa. Segundo que, devido aos compromissos fixos do professor (aula a tais e tais horas em tal e tal lugar) e a correria constante da tradução, conciliar as duas profissões é cada vez mais difícil. Terceiro, que o tradutor atualmente é obrigado a dominar um arsenal informático de bom porte, o que exige um bom esforço e só compensa se você se dedicar exclusivamente à tradução.

O mercado de filmes e TV está crescendo, mas é o mercado da moda e onze entre cada dez candidatos a tradutor quer participar dele, o que o torna um mercado difícil e complicado. Há muita coisa boa a fazer como tradutor fora desse mercado, creia-me, e, mesmo que você não consiga um lugar nele, vai encontrar muito com que se divertir.

Finalmente, a tradução hoje é a mais globalizada das profissões, profissionalmente todos nós moramos na Internet e não faz a mais remota diferença se você tem sua residência aqui ou na Conchinchina. Conheço gente que mora no Canadá e traduz filmes para exibição no Brasil, por exemplo. Por outro lado, o mercado internacional espera que você traduza para sua língua materna, o que quer dizer que (presumindo-se que você seja brasileira) você pode estudar inglês, tornar-se uma excelente tradutora de inglês, ir morar na Eslobóvia e, de lá, atender clientes em qualquer lugar do mundo que desejem traduções para o português do Brasil.

domingo, 4 de maio de 2008

Que línguas aprender par ser tradutor?

Oi, Danilo. Tudo bem?

Meu nome é Julieta, tenho 18 anos e interesso-me pela área de tradução também. Atualmente faço jornalismo, mas irei mudar de curso. Visitei seu blog esses dias e achei-o ótimo. Tirou algumas dúvidas que eu tinha.

Pretendo começar o curso de Tradutor e Intérprete aqui em Bauru na Universidade do Sagrado Coração (não sei se conhece a universidade, esse é o site www.usc.br), porém o curso aqui oferece tradução apenas português/inglês. Seria muito pouco? Porque, na verdade, eu me interesso por outras línguas também, além do inglês.

Gostaria de ter uma resposta, se possível. Obrigada.

Para começar, Julieta, parabéns pelo seu português impecável. Escrever bem não garante nada, mas quem não sabe escrever tem um futuro triste na tradução. Quer dizer, está começando com o pé direito.

Já estive duas vezes na USC como palestrante. O ambiente é agradável e amigável, mas a visita foi curta demais para que eu pudesse formar uma opinião sobre o curso em si. De qualquer forma, o curso, por bom que seja, só pode ensinar: só você pode aprender – e esta é uma lição que todo estudante deveria saber.

A maioria dos cursos de tradução só cuida de inglês, o que é lamentável, mas uma necessidade, porque a busca pelos cursos de tradução em outras línguas é muito pequena. E a predominância do inglês só faz aumentar desde que estou no mercado. Muitos excelentes tradutores de alemão hoje vivem mais de traduzir inglês.

Mas vamos tentar colocar as coisas nas devidas proporções.

Traduzir exige um conhecimento muito profundo do par de línguas envolvido e mesmo você, que escreve português muito bem, vai ter de aprender uma meia dúzia de coisinhas sobre nossa língua, para se tornar uma tradutora de primeira água. De inglês, então, nem se fala – mesmo que você tenha feito um curso pesado, tipo cultura inglesa. Se seu inglês for meio cru, então, vai ter de dar um duro danado. Não que você não vá conseguir, é claro.

Poucas pessoas conseguem atingir esse nível em LM+2, quer dizer sua própria língua materna e mais duas. Raras conseguem LM+3. Muito raras conseguem mais que isso. A quase totalidade das pessoas que acha que é capaz de traduzir de e para quatro línguas (LM+3), simplesmente carece de autocrítica.

Nada impede que você faça como tantos tradutores apaixonados por línguas, que são capazes de ler com razoável facilidade oito ou mais línguas, mas as línguas de trabalho são realmente LM+1 ou LM+2, raramente LM+3. O resto é diversão.

E o seu rendimento não depende do número de línguas que traduz. Se você traduzir inglês, depende muito mais de sua especialização. Eu, por exemplo, sou um especialista em contabilidade, finanças, direito societário e tributário. Por isso, tenho serviço em quantidade e posso exigir um pagamento relativamente alto. Se agregasse francês e alemão ao meu inglês, não iria ganhar um tostão a mais, porque, para cada tradução do francês aceita, teria de recusar uma de inglês.

Na verdade, se você trabalhar com inglês, não precisa de mais nada. Se trabalhar com francês, italiano, alemão ou espanhol (grupo que se chama figs em inglês – French, Italian, German, Spanish) vai ter mais dificuldade em montar uma carteira e pode ser útil trabalhar com duas línguas, digamos, francês e italiano, ou alemão e inglês. Se optar por algo que não seja Inglês+FIGS, aí sim, provavelmente vai ter de trabalhar com várias línguas. Mas aí, estamos entrando em um campo muito complexo, que fica para outro dia, porque este artigo já vai longo demais.

Espero que a resposta tenha sido útil a você e a mais alguém. Acho que amanhã volto ao tema.

terça-feira, 11 de março de 2008

Combinar, a gente combina antes

Já faz tempo que não encontro o Tércio. O Tércio tem trauma de tradução. Há muitos anos, quando nós dois andávamos desempregados, alguém pediu a ele uma tradução. Você faz para mim? Eu não sei nada de inglês. Depois você me diz quanto é.

O Tércio fez, caprichadinho. Fez a mão, bateu a limpo na máquina de escrever portátil que tinha em casa (estou dizendo que a historia é velha). Caprichou como pode, leu releu, revisou e trevisou. Foi encontrar o amigo para entregar. Chegou lá, o amigo, todo sorridente, disse Terminou, que bom! Estava esperando. Quanto é?

O Tércio tinha coçado a cabeça para determinar o preço. Pesou e mediu mil fatores, até que chegou a um valor que lhe pareceu justo.

Não me lembro quanto era e nem faz diferença, porque era ainda coisa de cruzeiros e ninguém mais sabe o que isso significa. Mas ele deu lá o preço dele e o amigo respondeu, na lata: Muito caro, não quero. Virou as costas e foi embora, deixando o coitado do Tércio com a tradução na mão e se sentido um perfeito idiota.

Tinha cometido um erro fatal, que muitos iniciantes cometem. Muitos de nós, principalmente os principiantes, se sentem constrangidos quando temos de cotar preço é adiamos a hora o máximo. Quando você entrega o serviço, não tem mais como adiar: aí precisa dizer mesmo. E, por mais justo ou camarada que você considere o preço, quem pediu pode achar um absurdo, um roubo. Ou pode achar que, para ele, não compensa.

Então, a gente combina. Combinar, combina-se antes, quer dizer, antes de começar. Não se pode combinar depois de pronto. Primeiro combina, quer dizer, você diz quanto vai custar e o cliente diz que concorda em pagar, e, depois, você começa.

Jamais traduza uma linha, uma que seja, sem antes ter a aprovação do cliente para o preço. Se for pessoa física, diga que vai dar uma olhada no serviço em casa e passa a cotação via e-mail. E escreva uma mensagenzinha assim Oi, Beta, a tradução das páginas 10-17 do livro "Teeth -Brushing Techniques for Quadriplegic Hens" vai custar R$ X, que eu espero receber contra a entrega da tradução. Entrego a tradução pronta 10 dias depois de você me responder este e-mail dizendo que está de acordo com o preço. Obrigado pelo interesse pelos meus serviços e um beijo.

Quanto mais amigo, bacana, legal, gente fina, "cool", quase uma irmã for a pessoa, maior é a necessidade de sermos formais e profissionais. Se você um dia encontrar o Tércio por aí, ele vai concordar.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Por que os tradutores fracassam? (1)

Uma estudante de tradução me escreveu, dizendo que é voz corrente que não se pode viver de tradução. Ela não disse, mas a frase corrente é “No Brasil, não é possível viver de tradução”, com ênfase em "no Brasil”. Como se viver de tradução no exterior fosse um mar de rosas e aqui fosse o inferno dos infernos, entende? Tenho uma ojeriza particular por esse “no Brasil”, porque, na maioria das vezes, é dito por quem não faz a mais remota idéia de como são as coisas fora daqui. Também tenho ojeriza do “de uns tempos para cá" dito por gente que não sabe como as coisas eram antigamente, mas isso é outra coisa. O fato é que, entretanto, aqui e alhures muita gente tenta viver de tradução e não consegue. Por quê?

Um dos motivos é saturação de mercado. Tradução é e sempre foi a tábua de salvação de muitos que não deram certo em outras áreas e, como sabiam alguma coisa de uma língua estrangeira, geralmente o inglês, “pegaram umas traduções para fazer”. Mesmo entre os estudantes dos cursos de tradução tem muita gente que “gosta de inglês mas não tem saco para ser professor”, fora a turma do “sei lá”: “Ia fazer propaganda, sabe, mas, sei lá, resolvi fazer tradução!”.

Entretanto, o mercado é cada vez mais exigente conosco e a vida dos para-quedistas, dos biqueiros e da turma do “sei lá” está cada vez mais difícil. Tradução, cada vez mais, exige dedicação plena e um grande investimento de tempo e dinheiro. Quando comecei, em 1970, tinha uma máquina de escrever semiportátil, menos de meia-dúzia de dicionários e nem sequer telefone. Meu equipamento cabia no tampo da minha escrivaninha. Tudo o que eu fazia era datilografar traduções, o que já não é pouco, mas é bem menos do que se exige hoje. Muitos traduziam exclusivamente depois do expediente ou nos fins de semana, para fazer um dinheirinho extra.

Hoje, mesmo as editoras, tradicionalmente as mais tolerantes com prazo, exigem traduções a toque de caixa, impossíveis de encarar por quem “tem um emprego”: ou você é profissional da tradução ou não é. Nem pense em ser tradutor se não pode manter uma média de pelo menos 3000 palavras por dia.

Além disso, até mesmo as editoras estão começando a exigir que o tradutor seja estabelecido como pessoa jurídica. (Se você não sabe o que é isso, clique aqui). Não vale a pena ter uma firma de traduções para traduzir somente “depois do expediente”.

Em vez de “bater” a tradução em folhas de papel ofício, você tem que digitar num computador e, em vez de ir simplesmente escrevendo o texto, tem que saber lidar com coisas tais como html, trados, PowerPoint, pdf e mil e um outros formatos. Não me diga, por favor, que você quer ser tradutor literário. A tradução literária tem um volume ínfimo em relação aos outros ramos da tradução. E não me diga que “no Brasil…”, porque nos Estados Unidos e na Inglaterra a participação da literatura no bolo total é infinitamente menor que no Brasil. E mesmo os tradutores literários estão sob pressão cada vez maior de prazo e informatização. Já tem muita gente fazendo tradução literária com Wordfast. E não se esqueça que legendagem também está cada vez mais informatizada. Por enquanto, sobra, que eu me lembre, a dublagem, como área que não foi informatizada.

Quer dizer, o mercado e as suas exigências estão transformando o traduzir em profissão. Pretendo voltar ao assunto. Espero que seja interessante para você. Seus comentários são bem-vindos e, antes que me esqueça, muito obrigado pela visita.