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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Escreve a Renata.

Mensagem da Renata, com umas dúvidas que vão interessar a mais de um leitor.

Danilo, parabéns pelo seu blog. É uma iniciativa admirável manter um blog com tantas informações úteis que certamente ajuda a vida de muita gente. Eu sou estudante de Filosofia da UFRJ mas vou trancar minha matrícula neste semestre. Pretendo cursar Letras na Puc. Entrei num curso de tradução (DBB) há um mês e estou muito feliz por perceber que realmente levo jeito pra coisa. Acho o trabalho de tradução muito interessante e quero me dedicar somente a ele. Entendi pelo seu blog que inglês é a língua mais significativa no mercado, seguida de espanhol e francês, e que tradução literária e legendagem são muito procurados mas não correspondem à maior parcela do mercado e pelo jeito não são o melhor caminho para escolher como uma boa fonte de renda exclusiva. Certo? Me parece que manuais e documentos da área jurídica são a maior fatia do bolo. Você sugeriria alguma área como mais garantida para se investir? Eu poderia fazer um curso de tradução jurídica por exemplo, mas não sei até que ponto isso é o ideal considerando que eu não sei nada de Direito. Outra dúvida: o inglês é hoje a língua mais importante no mundo, por motivos econômicos e políticos, certo? Será que pode ser interessante aprender mandarim, prevendo uma mudança nesse aspecto, já que a China está crescendo e segundo alguns entendidos do assunto (eu não sou) está prestes a tomar o lugar dos EUA?

Renata, obrigado pela mensagem e descuple pelo tanto que demorou para responder. Vamos ver se me faço mais claro.

A maior parte do movimento, talvez mais de 50%, é de inglês. Por outro lado, há uma quantidade enorme de tradutores de inglês, o que significa que as chances de quem traduz inglês não são realmente maiores do que as chances de quem traduz francês ou espanhol. Existe muita gente trabalhando e vivendo e ganhando com francês, italiano, espanhol e outras línguas. O único mercado que parece ter minguado é o de alemão e vários colegas meus que traduziam praticamente só alemão, hoje estão vivendo mais do inglês do que do alemão. Mas esta é uma afirmação empírica, não tenho realmente dados que a alicercem.

Quanto ao curso de tradução jurídica, você tem toda a razão. Não se pode traduzir algo que não se entende e não é em umas poucas aulas que você ou qualquer pessoa vai aprender a destrinchar tradução jurídica. Eu pego assim, as bordas da jurídica que fazem contato com a financeira e posso dizer que é uma barra pesadíssima. Jamais teria a coragem de dizer que sou tradutor jurídico. Aliás, conheço muito poucos tradutores jurídicos realmente bons. Não quer dizer que você precise fazer um curso de direito para fazer tradução jurídica, mas precisa aprender como funcionam as engrenagens do nosso ordenamento jurídico e o ordenamento jurídico do país ou países onde se fala a língua de que você está traduzindo. Isso se pode fazer lendo, lendo furiosamente e pesquisando adoidada.

Quer dizer, para traduzir um documento jurídico do inglês para o português, você precisa entender como funcionam as coisas aqui e lá. E “lá” pode ser Inglaterra, Escócia, Estados Unidos, Canadá e Deus sabe mais o quê, porque pode te cair no colo um documento escrito em inglês, traduzido do japonês, sobre a legislação japonesa sobre as cooperativas.

Existem, aí, uns modelitos, umas formulinhas e tal, mas é o que na indústria de confecções se chama “serviço de carregação”.

Isso se aplica a todo e qualquer tipo de trabalho tradutório, inclusive o literário. Você tem que entender o original muitíssimo bem para conseguir traduzir.

Mas o fato é que o mercado te conduz, Renata. Quando peguei minha primeira tradução na área financeira, não sabia a diferença entre “ativo” e “passivo”. Tive de estudar como um doido para entender essas e outras coisas.

Quanto a línguas, respondo amanhã, que este artigo já está longo demais.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Tradução técnica, científica, pragmática....

Sou estudante de tradução francês, curso o segundo semestre. Estou perdida com os termos tradução técnica, especializada, pragmática, científica... não consigo defini-los nem diferenciá-los claramente. Agradeço se poder me ajudar.

Abraço, Sara!

Antigamente, falava-se em tradução literária e técnica. O que não era uma, era outra e estava acabado. Mas é uma posição simplista demais, porque tradução técnica, no ver de muitos, se refere exclusivamente a assuntos, digamos, industriais, coisas de engenharia, mas não incluiria finanças, direito ou mesmo ciências puras.

Então, foi proposta a oposição entre tradução literária (textos com valor estético, mas sem utilidade prática) e tradução pragmática (textos com utilidade prática mas sem valor estético). Mas esta classificação também é frágil, porque deixa no limbo coisas importantes, tais como a tradução de textos religiosos, área dificílima e objeto de estudos muito avançados, bem como diversos tipos de tradução na área de humanidades, onde a mistura entre considerações estéticas e pragmáticas é grande. Sem falar na área de publicidade, desdenhada pelos teóricos, porque envolve "comércio", mas que tem uma problemática extraordinariamente interessante, para quem não tem o cérebro tolhido e atrofiado por ideologias.

Então, começa-se a falar em tradução especializada. Ou seja, eu faço especializada, porque só lido com algumas áreas específicas, como finanças e tributação. Outros colegas fazem engenharia, medicina, ciências puras e assim por diante. Outros, ainda, fazem psicologia e por aí em fora. Pode ser, mas aí fica a literatura como "não especializada", o que me parece uma pena, porque traduzir literatura é, a meu ver uma especialização como qualquer outra.

Na verdade, a maioria dessas classificações foi criada por teóricos que se interessam basicamente pela tradução do que consideram grandes obras literárias (o que exclui Bianca, Sabrina & Júlia, e ficção de massa, como Harry Potter) e têm um desprezo mal escondido pelo que faz a maioria dos tradutores, que é exatamente a tradução de textos que não se classificam como grandes obras literárias. Essas classificações desprezam o fato de que toda tradução envolve considerações estéticas e estilísticas, mesmo a tradução da mais seca lista de peças. Basicamente, lá no fundo, no fundo, querem dizer "tradução da grande literatura e o resto". "Resto" é o que faz a maioria de nós.

Na verdade, em vez de compartimentos estanques, há uma gama, onde, em um extremo, há certos tipos de poesia lírica e no outro as listas de peças, mas as transições entre um tipo de outro jamais são claras e precisas. Quanto mais se conhece sobre tradução, menos confiança se deposita nesses rótulos.

Finalmente, temos a tradução científica. Num momento em que se falava em literária (alto status) versus técnica (baixo status), a turma que fazia ciências puras preferiu se autodenominar tradutor científico, para ganhar um pouco mais de cacife, destacando-se da turma "meramente" técnica. O mesmo aconteceu com o pessoal que fazia jurídica, médica e assim por diante, num desejo claro de se divorciar da pecha de meramente lidar com porcas e parafusos. Quer dizer, química teórica é tradução científica, não técnica. Certo. Mas um texto de química industrial, o que é?

Se você adotar o termo tradução pragmática ou tradução especializada, qualquer um dos conceitos abarca tradução técnica, científica, jurídica, financeira, médica e que mais seja.

Aliás, Sara, se você faz francês (Onde? A gente gosta de saber dessas coisas. Poste um comentário informando, por favor.) essas coisas têm muito menos interesse que para a turma do inglês. O mercado francês é menor e menos diferenciado que o do inglês e, se você pretende se profissionalizar, quer dizer, ganhar a vida exclusivamente traduzindo francês, provavelmente vai ter que fazer um pouco de tudo.

domingo, 5 de novembro de 2006

Tradutor juramentado

Primeiro, saiba que o nome correto é Tradutor Público e Intérprete Comercial (TPIC). Embora "juramentado" seja comum, mesmo entre os TPICs, juramentada é a tradução, não o tradutor.

O TPIC é o único que pode fazer uma tradução juramentada e a tradução juramentada é a única que conta com “fé pública”. Gozar de “fé pública” significa que as autoridades são obrigadas a aceitar a tradução como correta, salvo prova em contrário. Em verdade, as autoridades somente podem aceitar documentos em português. Se o documento estiver em outra língua, tem de ser apresentado juntamente com uma tradução feita por TPIC, mesmo que a autoridade que o receber tenha condições intelectuais para entender o original perfeitamente bem.

Ocorre situação homóloga com as declarações e depoimentos verbais. O estrangeiro tem todo o direito de depor em sua língua e o juiz, por mais que entenda a língua do depoente, é obrigado a decidir com base na tradução feita por TPIC.

O TPIC não é servidor público e, portanto, nada recebe dos cofres públicos. Também, ao contrário do que muita gente pensa, não é obrigado a prestar serviços grátis a nenhum órgão público. O TPIC tem que ir atrás do trabalho, como todos os outros tradutores, tarefa em que uns são mais bem-sucedidos do que outros.

Para conquistar o título de TPIC, é necessário passar em um concurso promovido pela Junta Comercial do estado em que o tradutor reside. Acontece que as Juntas Comerciais raramente promovem esses concursos. Em São Paulo, onde são relativamente freqüentes, o intervalo médio entre um concurso e outro está em torno de 25 anos. À medida que os TPICs se aposentam, o quadro fica desfalcado e as diversas Juntas Comerciais se valem de diversos artifícios para manter quem atenda às necessidades de seus respectivos estados.

O concurso, pelo menos em São Paulo, costuma ser rigoroso e não são todos os que são aprovados. Além disso, são honestos. Se houve alguma desonestidade, alguma proteção, em algum concurso, pode ter sido em alguma daquelas línguas em que só havia um examinador e um candidato e o examinador sabia, de antemão, que não poderia haver outro. Nas línguas de grande e média demanda, não há chance de desonestidade.

Por outro lado, o tradutor juramentado não é um supertradutor. É simplesmente um tradutor competente. Se você precisar de uma boa tradução de algum documento que não vá ser entregue a uma autoridade e resolver contratar um juramentado porque entende que, tendo sido aprovado em concurso, há de ter competência, está usando um critério de seleção válido. Por outro lado, grande parte de nossos melhores tradutores jamais prestou concurso e é errado partir do princípio de que um TPIC é sempre mais competente que os outros tradutores.

É segredo de polichinelo que muitos TPICs têm muito mais serviço do que podem fazer pessoalmente e terceirizam o excesso, mantendo equipes numerosas de subcontratados, procedimento firmemente contestado por outros. A discussão levanta alguns problemas extremamente interessantes, que não vão ser discutidos aqui.

Uma coisa é certa: tornar-se TPIC não é fácil nem garantia de sucesso financeiro. O TPIC é obrigado a cobrar de acordo com uma Tabela de Emolumentos baixada pela Junta Comercial do seu estado. Para o leigo, a tabela parece ser uma verdadeira cornucópia. Quem é do ramo sabe que não é bem assim e que manter um escritório de tradução juramentada lucrativo não é tarefa simples.

Por fim, é bom lembrar que na maioria dos países, não existe o ofício de Tradutor Público e Intérprete Comercial e enviar “traduções juramentadas” para esses países não faz muito sentido. Por outro lado, de tanto lidar com as peculiaridades de cada país estrangeiro, muitas vezes é o TPIC o mais indicado para preparar uma documentação para uso no exterior.

Em tempo, e antes que me entendam mal: não sou TPIC, nunca prestei o concurso nem trabalho como subcontratado de TPIC nenhum. Quer dizer, se alguém pensa que estou defendendo meu terreno e minhas regalias, engana-se.