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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ABRATES e SINTRA, mais uma vez

Este meu artigo gerou um artigo do Óscar Curros que aparentemente foi tirado do ar pelo próprio autor,  reacendeu a velha polêmica sobre ABRATES e SINTRA e gerou este comentário de um dos leitores aqui do blogue:

Danilo,

Sinceramente, não dá pra se entusiasmar com o SINTRA. Trata-se de uma saleta minúscula no final da Rua da Quitanda com uma única atendente. Tive a desagradável surpresa de visitá-lo. Imagina você andar no solão do Rio toda a rua da Quitanda para, finalmente, conhecer o seu sindicato e se deparar com a realidade.

Ao perguntar o que o SINTRA faz pelo tradutor, a única resposta é "o Sintra coloca o seu nome no sítio e oferece uma tabela sugestiva de preços". Tenha santa paciência, mas o SINTRA ainda precisa crescer para aparecer. Cobrar R$ 260,00 por ano para fazer isso é uma piada. Em todo o escândalo do Concurso para Tradutor Juramento do RJ, ele ficou caladérrimo e não moveu uma palha.

A ABRATES pelo menos se agitou um pouquinho nesse episódio do famigerado concurso, realiza os congressos de tradução, faz lá sua prova de credenciamento e etc.

Pronto. Desabafei. 


O artigo do Óscar Curros foi  discutido nas listas e no Orkut. Resumidamente:

Alguns tradutores não se associam porque as entidades não fazem nada, no que têm toda a razão. Outros tradutores afirmam que as entidades não fazem nada porque os tradutores não se associam e, por isso, falta dinheiro, no que, também, têm toda a razão. É um círculo vicioso a ser rompido.

Um terceiro grupo diz que quem reclama da diretoria está sempre errado e, em vez de reclamar, deveria montar uma chapa, candidatar-se às eleições e levar a entidade avante, para ver o que é bom para a tosse. Estes, a meu ver, estão sempre errados.

Quando eu vou a um restaurante e digo que a comida está mal feita, não se espera que eu consiga cozinhar melhor. Quando eu critico o prefeito, governador ou presidente, não se espera que  me candidate governe o faça um governo melhor que o deles.

Eu, por exemplo, sou péssimo administrador e, se fosse eleito diretor de uma das entidades, faria coisas horríveis, inimagináveis. Por isso que faço pela profissão aquilo que aparentemente sei fazer: escrever e falar.  Alguma coisa tenho que fazer, alguma coisa temos todos que fazer, se não for uma, que seja outra. Como diz o velho samba, “quem não sabe tocar violão nem pistão toca surdo.” A história do “não tenho tempo”, essa sim é um absurdo. Se você não tem tempo para os outros, não pode esperar que os outros tenham tempo para você.

Mas o fato é que, como mencionado no comentário reproduzido acima, o SINTRA não empolga a categoria nem com ações nem com propostas ou informações. A ABRATES faz bem mais, com os congressos e credenciamentos, mas ainda falha muito no quesito informação e divulgação. Note-se que o Congresso de Porto Alegre está aí, explodindo, na praça, com uma programação cada vez mais apetitosa — mas a página inicial do sítio da ABRATES sequer menciona o evento!

Do SINTRA, nada se sabe. Não acredito, não posso acreditar, que a diretoria não se reúna, não converse, não discuta, não tenha ideias a compartilhar conosco, não tenha planos. Alguma coisa hão de estar fazendo.

Provavelmente, nenhum dos diretores sabe como atualizar uma página em html, o que é perfeitamente desculpável e fazer um jornalzinho impresso agora está fora de cogitação, pelo custo. 

Mas se tivessem um bloguinho, a coisa seria simples, simples até demais. Qualquer pessoa razoavelmente alfabetizada por manter um blogue. Se até eu consigo, ora, esferas!

(Amanhã volto à Casa das Rosas — alguns dos colegas presentes à reunião me desafiam a falar sobre a Denise. Pois não perdem por esperar.)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Óscar Curros, Fundador da Óscar Curros Translations

O Óscar Curros, CEO e Fundador da Óscar Curros Translations, escreveu  em seu blogue sobre ABRATES e SINTRA, citando coisas que escrevi aqui.
Alguns colegas me perguntaram se eu não ia responder. Não tenho o que responder, oras! O Óscar Curros não me perguntou nada, só citou algo que escrevi. Meio picadinho, é fato, mas com o devido crédito. E deu lá suas opiniões, às quais tem todo o direito, como eu o tenho cá às minhas, que não são as dele, assim como as dele não são as minhas, se me faço claro. Não vou agora duelar com o colega mesmo porque não entendi bem o encadeamento das ideias, a começar pela referência ao Garganta Profunda, que me pareceu ter muito pouco que ver com o peixe.
De qualquer modo, o artigo me pareceu pouco mais do que uma tentativa velada de atrair gente para a IAPTI. Não faço, nem pretendo fazer, parte da IAPTI. Pode ser até uma entidade valiosa — pode até distribuir carteirinha válida no Brasil, como perguntou um colega numa das listas — mas certamente, sendo uma associação internacional, não teria como substituir nem SINTRA nem ABRATES, que nos representam em nível local. São coisas bem diferentes. Por exemplo, não me parece que a IAPTI, com todo seu valor, pudesse fazer algo sobre a estranha história do concurso para TPIC no Rio de Janeiro.
Alguns colegas também ridicularizaram o título de “CEO e Fundador da Óscar Curros Translations” que o Óscar atribuiu a si próprio, já que a Óscar Curros Translations parece ser tribo de um só ou muito poucos índios e um título tão altíssono, grandíloquo e sesquipedal pode parecer enganoso a alguns e megalomaníaco a outros.  Também acho meio exagerado, mas é a moda, agora e, evidentemente, direito dele usar, mesmo porque é pura verdade: o fundador é ele e certamente é ele quem apita.
Como eu ia dizendo, entretanto, é moda, agora, e conheço vários e várias CEOs, Diretores, Presidentes, Chairmen, Chairwomen, Chairpersons e Chairodiaboqueoscarregueatodoseles de empresas muito pequenas, que mal e mal comportam o chefe e uma recepcionista, se tanto. A Internet nos iguala a todos e permite a uma empresa microscópica se apresentar como se fosse uma grande multinacional. Pensei até em adotar para mim o nome de Vetusto e Venerável Grão-Nababo Geral das Traduções Nogueira, mas achei melhor desistir da ideia, embora continue preferindo “nababo” a “CEO”, que me parece antipático em português.
Sou a favor da liberdade de expressão e as opiniões do Óscar são bem-vindas, lembrando-se sempre que são as dele.
Por hoje, é só, que estou inundado de problemas. Amanhã, se estiver vivo, devo escrever sobre o debate da Casa das Rosas.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A ABRATES, o SINTRA, o Congresso, Porto Alegre — e eu.

Você vai ao Congresso da ABRATES em Porto Alegre? Eu vou. Ou melhor, pretendo ir, porque a gente planeja e, no fim, dá tudo errado. Mas quero ir, pretendo ir, devo ir. Quem me conhece, sabe que eu tenho uma ligação afetiva muito forte com Porto Alegre, criada quando morei lá, ainda recém-casado, e fortalecida em visitas posteriores, quando fiz vários amigos na comunidade de tradutores do Rio Grande do Sul. Para ir a Porto Alegre, qualquer pretexto serve, nem precisa ser um bom motivo.
Quero ver a terra, quero abraçar os amigos, quero participar do Congresso. Estive nos dois primeiros, no Rio. Ao terceiro, tive de faltar, porque minha mulher já estava doente demais para viajar ou ficar sem mim mais do que algumas horas.
Mas o Congresso parece estar muito devagar. Não se vê nada nas listas de tradutores. Pouco ou quase nada no Twitter, embora a ABRATES tenha seu arroba próprio. Creio que nada no Facebook, uma que outra coisa no Orkut, mas, de oficial, praticamente nada. Parece até que o Congresso é secreto. Eu até fiz um agito no Twitter, mas, do pessoal da ABRATES, só apareceu o Marcelo Neves — que não participa das listas — e, mesmo assim, mais como particular do que como Tesoureiro da ABRATES.
A página é de uma pobreza franciscana. Há menos de três meses do Congresso, sabemos o nome de dois palestrantes:  Renato Beninatto, meu amigo de muitos anos, fundador da lista trad-prt e provavelmente uma das pessoas que melhor conhece o mundo da tradução profissional e Carlos Ancêde Nougué, de quem eu não tinha ouvido falar, mas parece ser pessoa de alta competência. O fato de que eu não conhecia Carlos Ancêde Nougué, a despeito dos meus 40 anos de militância tradutória, mostra uma das facetas importantes desses eventos, que é alargar nossos horizontes.
Mas fico aqui parafusando se SINTRA e ABRATES não fariam bem em sair um pouco do casulo, para postar umas coisinhas nas listas, Orkut e Twitter. Não ia custar tanto assim e podia até fazer muito pelo movimento, porque ambas as entidades parecem eternamente envolvidas em uma nuvem de mistério. Certo que ambas têm suas páginas na Internet, mas são coisas mortas, mais que mortas. Nem sei quando foram atualizadas pela última vez.
Nem um bloguesinho elas têm. Se a Kelli e eu conseguimos manter este blogue, porque nossas duas entidades representativas não podem? 
Agora vou contar para você de onde saiu este blogue: há anos, sugeri à ABRATES a criação de uma seção "Colegas de Amanhã" no site da entidade, para orientar os iniciantes e atrair mais associados para a ABRATES. Propus-me a escrever todos os textos sozinho ou juntamente com outros colegas. Recebi uma proposta amável e a sugestão de que formássemos um grupo de três, para não termos só a minha opinião. Os dois colegas lembrados para participar eram conhecidos meus e gente de capacidade. Aceitei na hora, satisfeitíssimo com a chance de trabalhar com eles.
Nunca mais me disseram nada sobre o projeto. Mudou a diretoria e não sei se a anterior julgou o projeto tão idiota que nem valia a pena repassar aos sucessores, ou se foram os sucessores que acharam a ideia toda uma bobajada só. Só sei que morreu o assunto. Ninguém é obrigado a concordar com minhas ideias, mas podiam ter dito que o projeto não ia sair.  
Depois de uns meses, me enchi de esperar resposta a criei este blogue que já estou escrevendo há mais de três anos. O ano de 2010 promete ainda mais.
Feliz ano novo!

terça-feira, 29 de abril de 2008

Existe tabela de preços para tradução?

Hoje vou trabalhar para o inimigo. Escreveu ontem a Ana Paula, que é cliente (não minha), quer dizer, compradora de traduções, e pergunta como é que funciona essa coisa de preço, porque um tradutor falou a ela em tabela obrigatória, o que foi uma surpresa, porque outro tradutor não falou em tabela alguma e cada um cobra um preço e tal. A mensagem dela é longa e não vou colar aqui. Só vou dar uma resposta.

Existe uma tabela obrigatória em cada Estado, estabelecida pela Junta Comercial do respectivo Estado e aplicável exclusivamente às traduções juramentadas. Tradução juramentada só quem pode fazer é TPIC. Se não sabe o que é TPIC, clique aqui. Fora disso, os preços são livres.

O TPIC também pode fazer traduções não juramentadas, que eles chamam traduções livres, um nome que não me agrada, mas isso é outra história. As "traduções livres" feitas pelos TPICS não estão sujeitas a tabela alguma, mas eles tendem a cobrar todas as traduções pelo mesmo preço, o que é direito deles. As tabelas das diversas juntas estaduais diferem e são atualizadas muito irregularmente, segundo princípios e critérios que provavelmente ninguém entende.

Existe uma tabela do SINTRA, o Sindicato Nacional dos Tradutores, que é algo confusa e serve como referencial para muitos profissionais, mas não é obrigatória: segue quem quer – e quem pode.

Os preços, na realidade, variam enormemente. O mínimo dos absolutamente mínimos, que eu saiba, é de R$ 0,03 por palavra do original para tradução de língua estrangeira ao português e R$ 0,06 para tradução do português a uma língua estrangeira, preço de fome pago pelas agências mais muquiranas e miseráveis. Haverá, quem sabe, quem menos ainda pague. Viver com esse pagamento não chega a ser fácil, digamos assim.

Os profissionais mais tarimbados cobram muito mais. Meu piso, atualmente, é R$ 0,25 por palavra do original, para traduções do inglês para o português, por exemplo. Coincidentemente, o mesmo que consta na tabela do Sindicato. Entretanto, já cobrei mais ou menos que a tabela do Sindicato. Deve haver quem cobre mais.

Vale a pena pagar R$ 0,25 por palavra ou até mais, quando se encontra gente disposta a cobrar um oitavo desse valor? Boa pergunta! Meus clientes acham que sim, mas tem quem ache revoltante pagar tudo isso por uma simples tradução, quando tem muita gente com preços mais em conta. Na verdade, se a tradução de três centavos satisfaz, pagar mais que isso é desperdício. Agora, precisa ver se o cliente entende do riscado o suficiente para poder avaliar a qualidade de uma tradução. Deixa terminar com uma historinha interessante.

Um escritório de advocacia aqui de São Paulo, membro de uma rede internacional, recebeu uma carta-consulta de um cliente estrangeiro. Ficaram todos satisfeitos, claro. Prepararam uma resposta a capricho, toda enfeitada como é hábito dos advogados, e mandaram traduzir. Leram a tradução recebida palavra por palavra. Acharam uma maravilha. Não que estivesse boa, mas é que, para os olhos tupiniquins dos advogados do escritório, de português baço e inglês ralo, o Tupiniquinglish da tradução parecia de uma transparência e precisão totais: uma verdadeira perfeição tradutória. Para eles, evidentemente, quanto mais Tupiniquinglish, mas bonito ficava. Mandaram para o cliente, com casca e tudo. Mas o fato é que o cliente era inglês e ninguém lá entendia Tupiniquinglish muito bem. Dois dias depois, receberam um e-mail que dizia, simplesmente: Please, find another translator. Thank you.

Ainda bem que o advogado que recebeu o e-mail sabia algum inglês e não precisou mandar traduzir o e-mail: ia ser a maior saia justa para o coitado que tinha traduzido o engrimanço para o inglês.

Amanhã, conto uma outra historinha divertida, mas de tradução do inglês para o português. Este artigo já está longo demais.

Obrigado pela visita.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Tabela de preços para traduções do SINTRA

Apareceu na minha página de recados no Orkut, assinado por Zanzibar, que eu não sei quem possa ser:

Tenho um texto, em inglês, de 6708 palavras e 40271 caracteres (com espaço). Se para traduzi-lo para o português um tradutor fosse me cobrar por palavras, o serviço sairia, pela tabela do Sintra, R$ 1475,76 (R$ 0,22 x 6708). Se o tradutor fosse me cobrar por lauda, vejamos: 40271 dividido por 2100 (tamanho da lauda) = 19,17 laudas x R$ 24 cada lauda = R$ 460,08. A diferença é de 1000 reais! Por favor, qual a lógica de se usar dois critérios?

Para responder, melhor reproduzir um pedacinho da Tabela do SINTRA:

Tradução / Versão

  • Tradução R$ 0,22 por palavra de um idioma estrangeiro para o português
  • Tradução literária R$ 24,00 por lauda com 30 linhas x até 70 caracteres com espaço por linha (igual a cerca de 2.100 caracteres por página, com espaços) de um idioma estrangeiro para o português (direitos autorais à parte)
  • Versão R$ 0,32 por palavra do português para um idioma estrangeiro
  • Versão de um idioma estrangeiro para outro R$ 0,35 por palavra de um idioma estrangeiro para outro

Vamos começar dizendo que quem fez a tabela não fui eu e a pergunta talvez devesse ser encaminhada ao próprio SINTRA. Mas, aparentemente, quem mandou o recado queria saber minha opinião. Então vamos ver se nos entendemos.

Se você fizer uma tradução, cobra R$ 0,22 por palavra. Isso significa R$ 0,22 por palavra do original ou da tradução? São coisas diferentes: mil palavras de original dificilmente vai dar mil palavras de tradução. Faz uma diferença e, então, precisa ficar claro do que estamos falando.

Tentei entender. À primeira vista, me pareceu que era do original, por causa do de um idioma estrangeiro para o português. Cobrar R$ 0,22 por palavra de um idioma estrangeiro me pareceu que era por palavra do original. Mas logo me dei conta de que não deve ser isso, porque a mesma frase aparece no segundo item e não me parece provável que alguém vá cobrar com base no número de laudas do original. Quer dizer, não vejo alguém pegando um texto em inglês e dizendo “aqui há X laudas”. Já vi empresas calculando preços e dizendo “este texto em inglês vai dar X laudas em português”.

O segundo item é interessante porque diz que tradução literária se cobra por lauda. Deve ser porque tradução literária se faz para editora e editora gosta de lauda. Tudo bem, cores e gostos não se discutem. Também, como apontado pelo Zanzibar, indica uma enorme diferença entre o preço da tradução inespecífica e da tradução literária. Por outro lado, diz que na tradução literária, há, ainda, os direitos autorais à parte, como está lá dito. Esse último pedacinho faltou combinar com as editoras, que juram, de pés juntos e apoiados em portentosos pareceres jurídicos, que o pagamento por lauda é o pagamento pelos direitos autorais e acabou a história. Isso é briga de cachorro grande e não vou me meter nela. Mas estou avisando e quem avisa, amigo é.

Mas o segundo item me fascina: primeiro que fala em tradução literária em oposição ao simples tradução do primeiro item. Será que para o SINTRA existe tradução e tradução literária? Ou será que eles simplesmente saíram pela tangente e não quiseram definir o que é a tradução que não for literária? Sei lá. Melhor perguntar a eles, não a mim.

O que é tradução literária? Shakespeare é, sem dúvida. Os famosos Bianca, Sabrina & Júlia serão? Conheço gente que diz que isso não é literatura. Lobsang Rampa e a turma toda da auto-ajuda, isso é literatura? Não é? Paulo Coelho, é ou não é? Bíblia é literatura? Corão? Os Diálogos de Platão? Coisa difícil, isso, de dizer o que raio é literatura e o que não é.

Mas a fascinação não termina aí, Zanzibar. O que acontece se eu traduzir um livro sobre, digamos, finanças – que é minha área – e que dificilmente alguém classificaria de literatura? No segundo item, certamente não cabe. No terceiro e quarto, muito menos. Então cai no primeiro. Quer dizer que, se eu traduzir um livro sobre finanças para uma editora, devo cobrar R$ 0,22 por palavra (do original ou da tradução, não sei), mas abrir mão dos direitos autorais à parte?

Veja, Zanzibar, você me faz uma pergunta e eu te devolvo uma dúzia delas. Mundo estranho, o nosso.

Agora, se você me perguntar como é que eu cobro, vou dizendo logo de cara: pelo número de palavras do original. Sei que são normalmente menos palavras que na tradução, mas minha tabela de preços já leva em conta esse fato. Antes que me esqueça, Zanzibar, ninguém é obrigado a acompanhar a tabela do SINTRA. Aliás, até é bom. Porque se eu fosse obrigado a cumprir, estava perdido: até hoje não consegui entender direito como funciona. E olha que há anos eles só trocam os valores.

domingo, 5 de novembro de 2006

Entidades de classe dos tradutores

Há duas entidades de classe para os tradutores: SINTRA e ABRATES. Ambas são alvo das mesmas críticas, as quais discuto abaixo.

São entidades puramente cariocas


O fato de que ambas têm sede no Rio de Janeiro tem motivos históricos e não me incomoda em nada. Em algum lugar têm de ter sede, pode ser no Rio ou em Boca do Acre. Já que estão no Rio, que no Rio fiquem. O fato de que a estrutura de ambas as entidades é tal que torna impossível a participação de tradutores dos outros estados pari passu com quem mora no Rio, me incomoda muito e já levantei o problema várias vezes.

Não me parece que alguma diretoria de qualquer das entidades tenha se preocupado com a questão. Todas quererem organizar uma "seção" ou "delegacia" paulista forte, mas nenhuma quer segregar os assuntos nacionais dos ligados especificamente ao Rio de Janeiro.

Quer dizer, a solução começa com a separação entre a "nacional" e a "carioca". Parece o famoso "departamento feminino" que há, ou havia, em alguns clubes e grêmios. Conta-se que um dia convidaram uma mulher consciente de sua igualdade com os homens para que dirigisse o "departamento feminino" de uma agremiação e ela respondeu que, antes de aceitar a honra, queria saber quem ia cuidar do departamento masculino. Nem SP nem nenhum outro lugar deve aceitar ser o "Departamento Feminino" das nossas agremiações. Quer dizer, sou frontalmente contrário à criação de uma "delegacia paulista" ou "seção paulista" enquanto não for criada a "delegacia carioca". Ou o Rio de Janeiro não é um estado? E tem que haver um modo de fazer com que quem mora fora do Rio possa participar ativamente das discussões e decisões. Ou será que alguém espera que todos compareçamos às reuniões no Rio de Janeiro?

Enquanto viger a situação atual, ou você está no Rio, ou é sócio de segunda classe. O statu quo parece convir.

Não fazem nada pela classe

Fazer, fazem, mas pouco, muito pouco, quase nada. Não fazem mais porque não têm recursos. A ATA faz mais porque tem mais recursos. Americanos são "born joiners": entram para a sociedade, pagam, comparecem à assembléia, montam chapa, elegem diretores, pagam anuidade, fazem a entidade crescer e partem para a briga. No Brasil, a turma quer que primeiro a entidade faça alguma coisa para depois se associar, paga a anuidade com atraso, não vai à assembléia, se nega a participar de chapa e depois fica reclamando que "eles não fazem nada". Não existem "eles", existimos "nós".

A turma parece crer que entidade profissional é como convênio de assistência médica. No convênio, um grupo de capitalistas junta recursos para oferecer serviços a um público pagante, na expectativa de que a receita exceda a despesa e os donos possam auferir lucro. Na entidade profissional, os profissionais se juntam e juntam seus recursos para criar uma associação que os represente e defenda.

Quando acontece algo errado, a turma reclama "e o que faz o SINTRA?". Nada. O SINTRA, não faz praticamente nada e a ABRATES faz, mas pouco e devagar. Não tem poder de resposta rápida. Mal-e-mal as entidades conseguem se manter vivas e ainda por muito favor.

Uma associação profissional é como o que os americanos chamam "bucket brigade", aquela turma que fazia uma fila para ir passando balde de água de mão em mão e apagar um incêndio. Todo mundo comparece e dá uma mãozinha. Ficar de fora e reclamar que a "bucket brigade" não funciona, pega mal.

São entidades fechadas em si próprias

Acho absolutamente ridículo o fato de que nenhuma das duas entidades faz das listas de tradutores em o Orkut um veículo de comunicação com a classe. Participo de pelo menos cinco listas brasileiras de tradutores (isto se não participar de mais) e ainda de um grupo de tradutores ativíssimo no Orkut. Rolam conversas importantes, discussões interessantes mas não aparece nenhuma das duas entidades para participar nem para dizer "juntem-se a nós". Quer dizer, as entidades se fecham em si mesmas, só se comunicam com a categoria para se defender e para reclamar que ninguém colabora. Não há uma, uma só, uma única iniciativa organizada de comunicação com a categoria. É de se perguntar se realmente querem ampliar a representatividade da entidade ou preferem manter o stato quo, embora publicamente lamentem a pouquidão dos associados.

Aliás, também não há uma lista de discussão de assuntos profissionais patrocinada por uma ou ambas as entidades. O isolamento é total. Saem boletins esporádicos, vez que outra uma mensagem eletrônica circular, convocando para uma assembléia. Mas nenhum, nenhum mesmo, esforço de comunicação com a classe, exceto os dois congressos da ABRATES.

Os congressos


A iniciativa de maior impacto das entidades foram os congressos da ABRATES. O primeiro foi um sucesso; o segundo foi muito criticado. O fato é que, bem ou mal, fizeram. Antes pouco que nada. Espero que alguém, que tenha talento organizador, promova o terceiro.

Participar ou não?

Sou associado de ambas as entidades. Quem me convenceu foi o Paulo Wengorski. Convenceu-me de que não me assistia o direito de reclamar sem participar. A ABRATES me fez três pedidos: um artigo e duas participações em congressos. Atendi os três. Quando começou a história do credenciamento, participei dos prolegômenos, mas me afastei porque achei que iria surgir um conflito de interesses, dado o fato de que, na época, eu era ativíssimo como instrutor na Via Rápida. Não me arrependo. Não ia faltar quem alegasse que estava participando da equipe em proveito próprio. O SINTRA não me pediu nada nem tinha razão para pedir. Se pedisse, teria procurado ajudar, dentro de minhas limitações.

Gostaria de participar das discussões e assembléias das duas, mas não tenho condições de ir ao Rio de Janeiro para isso. Só poderia participar via Internet.

Participar da diretoria ia ser mais difícil ainda, dado que sou mau administrador nem moro no Rio. Minha colaboração há de limitar-se ao que eu sei fazer, para não fazer besteira. Cada um tem sus limitações e problemas, mas me parece extraordinário que a esmagadora maioria de nós não possa contribuir com nada, nada, absolutamente nada para com a profissão, salvo reclamar que "ninguém faz nada".