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domingo, 13 de setembro de 2009

Agências: Cada Cabeça, uma Conta.

Para encerrar esta conversa sobre agências (que vai voltar daqui a algum tempo, porque sempre é assunto bom), em vez de ficar fazendo aqueles discursos apaixonados contra as agências, acho melhor pensar com mais objetividade. Vamos tentar?

Quem já trabalhou numa empresa com organização razoável, sabe que a necessidade de decidir entre comprar algum produto ou serviço de terceiros e fazer em casa mesmo está sempre presente. É o que hoje se chama terceirizar ou não. Há modas. Já foi moda fazer tudo internamente e comprar o menos possível. Depois veio a moda de se concentrar na vocação da empresa e terceirizar o restante. Qualquer que fosse a moda no momento, sempre houve quem estivesse na contramão.

Nós, também, somos empresas e temos de tomar essa decisão o tempo todo. Temos colegas que se trancam no escritório, traduzindo o dia inteiro, respondem e-mails uma vez por dia e jamais atendem telefone, tendo para isso uma secretária-recepcionista, que também faz outros serviços administrativos, para poderem se concentrar na tradução, que o que eles sabem fazer. Outros preferem tomar conta de tudo sozinhos. Ambos fizeram contas e um chegou à conclusão de que valia a pena pagar a secretária, para traduzir mais; o outro chegou à conclusão de que era melhor fazer tudo sozinho e embolsar o dinheiro. O mesmo com mil outras coisas.

Da mesma forma, temos colegas que, para "não pagar a agência", vão atrás de clientes diretos. Temos outros que acham isso uma chatice e preferem se concentrar em traduzir, deixando essas tarefas para as agências. Ambos fizeram as contas, ambos acharam melhor assim. O mesmo acontece com as empresas que preferem contratar tradutores diretamente ou terceirizar. Cada cabeça, uma conta.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A História não Grudou

Falando da má conta em que as agências costumam ter os tradutores, falei da acusação de ganância, que me parece injusta. Agora, falo de uma acusação justa: a de que muitos tradutores são bichos roleiros. E são mesmo. Deixa contar um caso para você. Não é o único, mas é um de que me veio à cabeça agora.

Recebemos, eu e uma colega, uma encomenda para um feriadão. A encomenda veio do exterior e o cliente não tinha a mais remota ideia do que acontecia aqui. Ela aceitou entregar a tradução na quarta de noite, eu aceitei revisar durante o feriado. Entrega direta para mim, na noite da véspera do feriado, com cópia para o cliente.

No dia da entrega, nada. No dia seguinte, cliente me escreve perguntando se tinha recebido. Não, não tinha. Prazo apertado, essas coisas, que você já conhece. Cliente liga da Europa para a casa da tradutora, ninguém atende. Começou, então, um diálogo surrealista por e-mail. Vou resumir, aqui.

A moça jurou que tinha mandado, na hora prometida. Se o serviço não tinha chegado nem ao cliente nem a mim, era por algum problema de internet, pelo qual ela não podia se responsabilizar. Só podia mandar de novo quando terminasse o feriadão, no domingo, porque o arquivo estava no computador doméstico, e ela estava num hotel, a 400 km de SP. Não podia re-enviar a mensagem porque tinha sido mandada de uma conta de gmail cuja senha não lembrava e que estava anotada em casa. Quer dizer, não dava de jeito algum.

Mandou no domingo de noite, faltava um pedaço. Avisei, respondeu horas depois, pedindo desculpas, dizendo que não entendia por que o arquivo tinha ficado incompleto, enviando agora o arquivo inteiro. Arquivo cheio de erros e problemas, serviço picaretado a mais não poder.

Jamais o cliente e eu vamos saber ao certo o que aconteceu. Temos nossas suspeitas. Na história da moça nenhum de nós dois acreditou — nem você está acreditando agora. A história era perfeita, totalmente plausível, não havia como provar que ela estivesse mentindo, mas não grudava. Simplesmente, não grudava.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Mais agências, ainda

Outro dia, mencionei que muitas agências não têm uma opinião muito boa dos tradutores. É verdade. Às vezes, concordo com elas; outras vezes, não.

Há tempos, a dona de uma agência se queixava do que ela chamava a ganância dos tradutores. - Hoje em dia dizia ela - todos querem ganhar X por lauda. Como é que eu posso pagar tanto, se o máximo que eu consigo cobrar é Y, porque é isso o que os outros cobram?

Como ela pode pagar tanto por lauda, eu não sei, nem é problema meu: não me meto com a vida alheia. O meu problema é como é que eu vou conseguir pagar a conta do supermercado e, com menos de X por lauda, eu não consigo.

Lembra da minha mãe, que achava que os outros tinham de cobrar dela o que ela queria pagar e que era uma grande cachorrada deixar de pintar a casa dela por dez, para ir pintar a casa dos outros por quinze.

E, por favor, pare de dizer que você cobra no máximo Y, porque isso é o que os outros cobram. Pare de jogar a culpa nos outros, porque, neste mesmo momento, tem outra dona de agência dizendo que também não pode cobrar mais do que Y (e, portanto, não pode pagar X) por causa "dos outros". Você é a outra dos outros, sempre foi e nunca vai deixar de ser. Faça alguma coisa, não espere que 'os outros" façam. Não me pergunte o que os tradutores estão fazendo: todo tradutor que diz, "não trabalho por Z, meu mínimo é X", já está fazendo alguma coisa. E quem está agindo assim, está conseguindo viver melhor, o que é direito de todos.

Mas, muitas vezes, lamentavelmente, a agência reclama dos tradutores com toda razão. Amanhã, falo disso.