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sábado, 3 de outubro de 2009

Tradutor & Intérprete

Como disse no último artigo, "tradução" tem dois sentidos: um mais específico, restrito à tradução de texto para texto e outro mais genérico, que inclui todas as modalidades tradutórias, inclusive a interpretação e o trabalho com audiovisuais e o que mais seja. É essa aberração lógica e semântica que leva a coisas esquisitas como os cursos de "tradutor e intérprete".

Se estivermos vendo "tradução" como termo genérico, não faz sentido, porque seria algo como dizer "médico e ginecologista". Ginecologia é uma especialidade médica e todo ginecologista é médico, por definição. Logo "médico E ginecologista" é bobagem.

Se estivermos vendo como específico, quer dizer como "tradutor de texto para texto" é pior,: criamos um problema de todos os diabos, porque muita gente que tem talento para uma das modalidades não serve para a outra. Há tradutores que não dão para interpretação e vice-versa. Aliás, eu sou um exemplo: como intérprete, já fiz alguma intermitente / cochichada na minha área de especialização e até que não me saí mal, em razão da minha capacidade cognitiva, quer dizer, do fato de que conheço muito bem o assunto. Mas a minha capacidade interpretatória propriamente dita é baixíssima: se tivesse que ganhar a vida como intérprete, estava perdido. Como tradutor, até que me saio bem, embora sempre haja o que aprender.

Das palestras na Jornada, entendi que o conceito geral é de que a formação do intérprete começa com a formação em tradução de texto para texto. Pode ser. Mas também pode ser que essa postura tenha motivos mais culturais e históricos do que pedagógicos, e que possa mudar após uma reflexão mais detida sobre a interpretação, que leve a esquematizar um curso onde mesmo as aulas teóricas e disciplinas básicas sejam voltadas para a interpretação.

Como sempre penso em termos musicais, fico lembrando de uma época em que não se permitia ao aluno aprender saxofone antes de dominar o clarinete e ao costume espanhol antigo de obrigar o aluno a estudar bandolim antes de pegar no violino. As duas práticas foram abandonadas e nem por isso a música perdeu nada. Hoje, quem quer estudar violino começa com violino, quem quer aprender sax começa com sax e pronto.

Uma coisa não se pode discutir: as técnicas de interpretação, seja simultânea, seja uma das diversas modalidades de consecutiva, são totalmente diferentes das técnicas usadas pelo tradutor de texto para texto.

Não sei se amanhã posto. Na pior das hipóteses, até segunda. Obrigado pela visita.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O que é necessário para ser tradutor profissional

Escreve a Adriane

Minhas línguas são o Português e o Espanhol. Quero muito de ser Tradutora. E necessito saber como funciona.... Como é valida uma tradução, já seja ela literária, legal, técnica, comercial, etc?

Em resumo preciso de um diploma? Sendo assim, que estudo, onde estudo? Existe Especialização ou Pós Graduação para Tradutor? Que necessito para me registrar? Como e onde me registro? Diferença de Tradutor Juramentado. Onde posso trabalhar? Serve em outros países?

Adriane,

Não é necessário diploma de nada para trabalhar como tradutora em país algum do mundo, mas fazer faculdade, direitinho, na faculdade mesmo, em vez de no boteco da esquina, ajuda muito, por mais que você fale português e espanhol bem e mesmo que, oficialmente, seu diploma não seja reconhecido no país onde você morar. A exceção são as traduções juramentadas, que somente podem ser feitas por TPIC (na caixa "pesquisar blog", aí em cima, escreva TPIC e dê Enter para descobrir que bicho é esse). Existem mil cursos para tradutores em diversos níveis. Você deve procurar nas instituições de ensino superior da região em que mora.

Registro como tradutor não existe (salvo se você for TPIC). Mas você vai ter de se registrar como profissional autônoma na prefeitura de sua cidade e no INSS ou então constituir uma empresa. Mas isso é coisa para conversar com um contador, não comigo.

Nossa profissão é globalizada e a maioria de nós trabalha na Internet. Eu, por exemplo, tiro cerca de 90% de minha renda de clientes de fora do Brasil.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Por que os tradutores fracassam? (1)

Uma estudante de tradução me escreveu, dizendo que é voz corrente que não se pode viver de tradução. Ela não disse, mas a frase corrente é “No Brasil, não é possível viver de tradução”, com ênfase em "no Brasil”. Como se viver de tradução no exterior fosse um mar de rosas e aqui fosse o inferno dos infernos, entende? Tenho uma ojeriza particular por esse “no Brasil”, porque, na maioria das vezes, é dito por quem não faz a mais remota idéia de como são as coisas fora daqui. Também tenho ojeriza do “de uns tempos para cá" dito por gente que não sabe como as coisas eram antigamente, mas isso é outra coisa. O fato é que, entretanto, aqui e alhures muita gente tenta viver de tradução e não consegue. Por quê?

Um dos motivos é saturação de mercado. Tradução é e sempre foi a tábua de salvação de muitos que não deram certo em outras áreas e, como sabiam alguma coisa de uma língua estrangeira, geralmente o inglês, “pegaram umas traduções para fazer”. Mesmo entre os estudantes dos cursos de tradução tem muita gente que “gosta de inglês mas não tem saco para ser professor”, fora a turma do “sei lá”: “Ia fazer propaganda, sabe, mas, sei lá, resolvi fazer tradução!”.

Entretanto, o mercado é cada vez mais exigente conosco e a vida dos para-quedistas, dos biqueiros e da turma do “sei lá” está cada vez mais difícil. Tradução, cada vez mais, exige dedicação plena e um grande investimento de tempo e dinheiro. Quando comecei, em 1970, tinha uma máquina de escrever semiportátil, menos de meia-dúzia de dicionários e nem sequer telefone. Meu equipamento cabia no tampo da minha escrivaninha. Tudo o que eu fazia era datilografar traduções, o que já não é pouco, mas é bem menos do que se exige hoje. Muitos traduziam exclusivamente depois do expediente ou nos fins de semana, para fazer um dinheirinho extra.

Hoje, mesmo as editoras, tradicionalmente as mais tolerantes com prazo, exigem traduções a toque de caixa, impossíveis de encarar por quem “tem um emprego”: ou você é profissional da tradução ou não é. Nem pense em ser tradutor se não pode manter uma média de pelo menos 3000 palavras por dia.

Além disso, até mesmo as editoras estão começando a exigir que o tradutor seja estabelecido como pessoa jurídica. (Se você não sabe o que é isso, clique aqui). Não vale a pena ter uma firma de traduções para traduzir somente “depois do expediente”.

Em vez de “bater” a tradução em folhas de papel ofício, você tem que digitar num computador e, em vez de ir simplesmente escrevendo o texto, tem que saber lidar com coisas tais como html, trados, PowerPoint, pdf e mil e um outros formatos. Não me diga, por favor, que você quer ser tradutor literário. A tradução literária tem um volume ínfimo em relação aos outros ramos da tradução. E não me diga que “no Brasil…”, porque nos Estados Unidos e na Inglaterra a participação da literatura no bolo total é infinitamente menor que no Brasil. E mesmo os tradutores literários estão sob pressão cada vez maior de prazo e informatização. Já tem muita gente fazendo tradução literária com Wordfast. E não se esqueça que legendagem também está cada vez mais informatizada. Por enquanto, sobra, que eu me lembre, a dublagem, como área que não foi informatizada.

Quer dizer, o mercado e as suas exigências estão transformando o traduzir em profissão. Pretendo voltar ao assunto. Espero que seja interessante para você. Seus comentários são bem-vindos e, antes que me esqueça, muito obrigado pela visita.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Nós e a imprensa

Cada vez que leio um artigo sobre tradução na imprensa, diminui minha fé nela, na imprensa, quero dizer – não na tradução.

O que vende jornal é a reclamação, a esculhambação, evidentemente. Imprensa é oposição, como já disse o Millôr, há muitos anos. Por isso, a maioria dos artigos sobre tradução na imprensa se resume a divulgar erros, principalmente os cômicos. Isso não me preocupa, desde que o que apontem como errado esteja errado mesmo. Não façam como a Veja, que, há anos, meteu o pau de rijo no colega que tinha traduzido "The Physician" por "O Físico", sem saber que os médicos antigamente eram chamados "físicos" em português e que quem fez a tradução usou o termo antigo propositadamente. Acho que quem escreveu a diatribe jamais tinha lido o "Auto dos físicos" de Gil Vicente. Mas mesmo isso é de relevar.

O que me preocupa e irrita, de fato, é a confusão geral que a imprensa faz, entrevistando somente as pessoas que fazem tradução literária ou de filmes e dando as opiniões delas como se referindo à tradução como um todo.

Na verdade, o mercado de tradução literária e de filmes, embora apareça muito nos cadernos de cultura dos nossos jornais de domingo e tenha uma grande importância para nossa vida intelectual, responde por uma pequena parcela do mercado como um todo. Por exemplo, eu, que vivo de tradução desde 1970, jamais traduzi um filme e não traduzo um livro há mais de 30 anos. E, aliás, jamais traduzi literatura.

Além disso, geralmente a imprensa entrevista quem é tradutor amador, gente que não quis ou não conseguiu transformar tradução no seu ganha-pão. Muitos são extremamente competentes como tradutores, mas não são profissionais. Se você pretende ser profissional, decididamente não é a sua turma. Você pode até admirar as traduções deles, muitas vezes excelentes, mas não os utilize como modelos enquanto profissionais, porque, a rigor, profissionais é que não são.

Por isso, quando ler alguma daquelas jeremiadas lamuriosas sobre a impossibilidade de se viver de tradução, sobre gente que trabalha com máquina de escrever porque não tem dinheiro para computador, gente que traduz de noite e trabalha de dia em alguma outra coisa para não morrer de fome, saiba que muito provavelmente não vai ser essa a sua vida.

Aliás, há vários tradutores de editora vivendo decentemente. Ganham menos do que os outros, mas conseguem viver de sua tradução, estão felizes com o que fazem e não trocariam de profissão por nada deste mundo.