terça-feira, 27 de outubro de 2009
Calote - as causas
sábado, 26 de abril de 2008
Riscos financeiros da tradução
Se recusar, corre pelo menos dois riscos: o de ficar de mãos abanando um bom tempo e o de perder o cliente. Se aceitar, corre pelo menos outros dois: o de ter de rejeitar uma oferta melhor, porque já tem todo seu tempo ocupado, e o de não ser pago no prazo, ou mesmo de não ser pago. É desse risco que vou falar hoje.
Serviço prestado no prazo combinado tem de ser pago no prazo combinado e pronto. Isso eu já disse até cansar aqui e alhures. Se você quer se meter a empresário da tradução, pegando serviços e repassando a terceiro, primeiro muna-se do capital necessário para encarar o problema se o cliente final não pagar. Se não tiver o capital, não se meta. Quer dizer, imagine o seguinte: e se o cliente final não pagar, o que é que você faz? Até que nível você pode garantir a parada e pagar o tradutor no prazo? Se for uma tradução de R$ 500,00, você agüenta o tranco? E se for de R$ 5.000,00?
Mas a turma não cria juízo, banca jogadas que não pode bancar. Fica como nos desenhos animados, que aparecem os cifrõezinhos piscando nos olhos, quando vê serviço grande pela frente. Depois, chora.
Do ponto de vista do tradutor final, quer dizer, de quem realmente meteu a mão no teclado, as considerações são um pouco diferentes, mas, por assim dizer, simétricas. Quer dizer, se Alfa te oferece um serviço, você tem que se perguntar se Alfa tem condições de bancar o jogo e mesmo se o cliente final é confiável.
Por exemplo, todos nós sabemos que governo paga quando quer. Se Alfa te oferece uma fatia de um serviço para o governo, você pode ter certeza de que o cliente final vai atrasar e receber vai ser uma odisséia. Se Alfa não tiver cacife para topar a parada em caso de atraso do cliente final, nem pensar, salvo se você estiver com disposição para esperar até que se disponha a pagar Alfa, sem tugir nem mugir.
Se Alfa tiver dinheiro e estiver meramente te sacaneando, botar a boca no trombone pode ajudar muito. Mas se a burra estiver vazia, nem que você toque O Vôo do Besouro no trombone vai ajudar.
sexta-feira, 28 de março de 2008
O dia em que eu virei doente contagioso
Houve uma época em que eu traduzia muitos relatórios para o inglês. Meus maiores clientes eram as firmas de auditoria e traduzi acho que uns bons mil balanços na vida. Uma vez, um dos clientes, uma estatal, me pediu para traduzir, além das demonstrações contábeis propriamente ditas, o relatório da diretoria. Depois de eu ter aceito, disse assim, meio como se não tivesse importância, Essa parte você vai pegar no cliente e cobra dele. Tocou uma sirene no meu bestunto, acompanhada de luzes vermelhas piscando loucamente, mas não tive jeito de recusar. Hoje, recusaria. Mas os tempos são outros e eu também.
Fui lá, no escritório do cliente. Recebido com mil formalidades e cortesias, pediram uma proposta. Isso foi antes da lei das licitações e as coisas eram menos formalizadas. Fiz em casa uma proposta e levei para eles. Pagamento em sete dias. Aprovaram quase sem ler. Mau sinal.
O texto era uma coisa de doidos. Não era muito técnico, disse lá o meu contato. Sempre que disserem não é muito técnico, fuja, fuja correndo: significa que é um emaranhado de pensamentos confusos saídos de mentes alucinadas. Aquele não era a exceção. Não tinha pé nem cabeça e ninguém se importava muito porque ninguém ia ler mesmo. O relatório da diretoria era uma obrigação legal e, para muitas empresas, se resumia a quatro linhas de coisa nenhuma. Mas grandes empresas escreviam grandes relatórios, com fotos maravilhosas e textos horrorosos. Mas, como eu disse, ninguém se importava, porque ninguém lia mesmo: liam-se as demonstrações contábeis e as notas, o relatório da diretoria era só para enfeitar.
Ninguém lia, ninguém lia, mas eu tinha que ler. Que ler e entender. Entender e botar
Terminado, nada. Nem tinha começado. Uma vez que você preste um serviço para uma empresa dessas e entregue sua fatura, vira doente contagioso. Todas aquelas pessoas formais e simpáticas que falavam com você horas sobre tudo ou sobre nada, repentinamente somem do mundo. Ninguém te diz mais nada. Parecia que eu tinha o corpo e – até a voz, porque nem ao telefone falavam comigo – recoberto de feridas purulentas.
Quatro meses depois, recebi uma carta avisando que poderia retirar meu cheque num certo dia numa certa hora num certo local – era no tempo do pagamento em cheque, ainda.
Fui lá. Meu São Jerônimo! Vai para o sétimo andar, pega um papel que carimba no décimo, desce para o térreo onde troca por uma ficha que leva ao oitavo. Fila para entrar na fila de quem precisa entrar na fila. Mais de duas horas para pegar o raio do cheque. Voltei para casa, passei no banco, depositei. Pelo menos, tinha fundos. Já é alguma coisa.
Mas nunca mais prestei serviço ao poder público.
sexta-feira, 10 de novembro de 2006
Atrasos e calotes
Por que a gente não recebe no dia combinado?
Alguns clientes são desonestos: devem, sabem que devem, podem pagar, mas não têm intenção de pagar ou acham que primeiro você tem que esperar até o momento em que eles acharem conveniente fazer o pagamento. Como tiveram toda pressa do mundo para receber a tradução, ficaram sem pressa nenhuma para pagar o tradutor.
Outros são desorganizados: sabem que devem, podem pagar, têm intenção de pagar, mas perderam o número da tua conta bancária, não se lembram quando foi combinado pagar, não acham a nota fiscal.
Um terceiro grupo simplesmente deu o passo maior que a perna: pegou um serviço grande, cotou baixo, para pegar, repassou uma parte a outros tradutores, ofereceu pagamento maior do que podia, o cliente final atrasou – e está feita a confusão.Muitas vezes, o que deu o passo maior que a perna é também desorganizado e/ou desonesto e aí, então, a situação fica realmente muito complicada.
É melhor prevenir que remediar e há três medidas que reduzem muito a probabilidade de um calote:
Limite seus riscos
Sabe por que você tem limite no cartão de crédito? Porque, se você não pagar, a operadora não perde muito. Aprenda com eles e nunca dê muito crédito a nenhum cliente nem muito menos aos "colegas" ou os que se apresentam como tal. Alguns dos mais espetaculares calotes que conheço foram dados por tradutores: acredite se quiser, as agências e os clientes diretos podem atrasar, o que é mau, mas geralmente acabam pagando. Os "não pago, não pago e não pago" costumam ser os "colegas". De um modo ou de outro: limite o crédito — e, conseqüentemente, o risco.
Se for um serviço para vários meses, peça pagamentos quinzenais, a partir do primeiro mês, pelo menos. Não aceite serviços que ocupem 100% do seu tempo: o risco é grande demais e você fica sem poder atender outros clientes. Mesmo que receba, quando acabar o serviço fica sem saber o que fazer da vida.
Se o pagamento estiver atrasado, só continue a trabalhar se não tiver absolutamente nada que fazer. Um dos melhores meios de receber é dizer, "desculpe, se não receber, não posso trabalhar e o fluxo do prazo fica suspenso". E não se constranja com argumentos do tipo mas você desconfia de mim? Simplesmente, pare e avise que parou.
Explique tudo direitinho
O cliente quer uma cotação e você tem obrigação de dar. Faça a cotação por escrito e explique tudo com o máximo de clareza. Se você cobrar por lauda, explique exatamente o que você define como lauda. Muitos clientes crêem que lauda é uma página do trabalho deles e se recusam a pagar, porque mandaram um texto de dez páginas e receberam uma fatura de cinqüenta laudas. Não adianta depois você dizer que a Junta Comercial, o SINTRA, ou quem quer que seja, definiu a lauda como X. A lauda que vale é aquela que você combinou com o cliente por escrito e isso quando você tem prova de que o cliente entendeu e aceitou a definição.
Esse é um dos motivos pelos quais eu prefiro cobrar por palavra do original: o cliente já sabe quanto vai pagar quando envia o serviço e assim não há problemas posteriores. A tradução costuma sair mais comprida que o original? Tudo bem. Então, se você cobra 10 por palavra contada na tradução, deve cobrar 12 por palavra contada no original. Só isso. Se possível, faça uma cotação fechada, do tipo "honorários para a tradução do documento xpto.doc: R$ X". Assim, não tem discussão.
Faça uma cotação escrita, indicando não só o preço, mas também prazo e forma de pagamento. Você não pode reclamar que o cliente está atrasado se não tiver combinado um prazo antes. E finalmente, explique como vai ser cobrado o serviço. Para o cliente, RPA é uma coisa, nota fiscal de autônomo é outra e nota fiscal de pessoa jurídica é ainda outra. Se o cliente espera NF de pessoa jurídica mas você aparece com RPA ou com nota fiscal de autônomo comprada na prefeitura, as coisas podem se complicar. Não caia na história da nota fiscal comprada da prefeitura: essa nota é de pessoa física e não exime o cliente do pagamento de uma barbaridade de INSS.
Exija confirmação escrita
Não inicie o serviço sem o cliente confirmar, por escrito, que aceita suas condições. Pode ser num fax, pode ser num e-mail. Mas tem que ser por escrito e na aprovação é necessário constarem as condições. Sua proposta foi aprovada, não resolve nada. Mas um "de acordo" e uma assinatura numa cópia do seu fax, ou um e-mail onde conste toda a sua proposta resolvem muito. Um fax desses já me tirou de uma boa encrenca, com um cliente que simplesmente se recusou a quitar minha fatura, sob a alegação de que não podia pagar uma barbaridade dessas por uma tradução. Confrontado com um fax de sua aprovação, pagou em 24 horas.
Se o cliente não pagar na data…
Não entre em pânico. Dois dias depois telefone e, educadamente, sem ironias, sem indiretas, diga que o pagamento ainda não apareceu na sua conta. Peça para ele investigar. Não assuma você o compromisso de falar com o Departamento de Contas a Pagar: peça a seu contato no cliente que faça isso. Se não receber em uma semana após o vencimento combinado, escreva um e-mail educado, informando que não consta pagamento e pedindo recibo do depósito. Não telefone: escreva. Solicite recibo de entrega. Se não receber resposta, escreva depois de dois dias, sempre educadamente, sem insultos nem acusações. Se não receber pagamento ou resposta satisfatória em quinze dias, converse com seu contador, que pode orientar sobre o saque de uma fatura e aponte para protesto. Antes de apontar para protesto ou executar a dívida, avise o cliente. Muitos clientes pagam imediatamente só de ouvir a palavra "protesto".
Na pior das hipóteses, você vai ter de ingressar em juízo. Temos diversos colegas que ingressaram e ganharam. Não tenha medo: o dinheiro é seu.
Jamais…
Por falar em "o dinheiro é seu", ao cobrar o cliente jamais chore as mágoas, dizendo que está precisando do dinheiro porque isto ou aquilo. Você prestou o serviço e tem de ser pago no prazo, mesmo que não esteja necessitando do dinheiro. Se disser que está precisando, o cliente ainda é capaz de te oferecer um pagamento parcial e dizer "resolve o teu caso?", como se estivesse te prestando um favor.
Ainda não recebi do cliente…
Uma das desculpas mais comuns para atrasos no pagamento é a famosa ainda não recebi do cliente. Geralmente, quem dá essa desculpa, são os colegas, não as agências. Mas você não tem nada, nada mesmo, que ver com isso. Quem te passou a tradução é quem te passou a tradução é o responsável pelo pagamento. Além disso, você não tem como saber com certeza se o cliente final pagou ou não.
Jamais…
Divulgue o nome do cliente na Internet. Jamais chame o cliente de ladrão. Deixar de pagar uma dívida é inadimplência, não roubo, e chamar alguém de ladrão porque atrasou um pagamento é crime contra a honra, previsto no código penal. Se chamar o cliente de ladrão porque não pagou a sua fatura ou disser alguma coisa do tipo "fui roubada", ainda pode ser processada e perder a ação, o que é pior.
“Atendimento informal”
Atendimento sem nota fiscal nem RPA, nem pensar. Nota Fiscal de terceiros, então, pior ainda.
Gostou deste artigo? Deixe seu comentário. E volte amanhã, que tem mais.