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sábado, 11 de julho de 2009

Artigo Longo, Antipático e Desagradável.

Mensagem simpática e agradável, de uma estudante querendo lugar como estagiária. Lamento, não tenho o que fazer com uma estagiária, seria desonesto contratar.

Mas, se estivesse procurando uma, dificilmente escolheria essa candidata, por simpática que me tenha parecido. Além do já tradicional "estudo inglês a X anos", outros erros de gramática, pontuação, essas coisas. Erros de português numa mensagem pedindo emprego de estagiária de tradução são absolutamente impensáveis. Esse tipo de mensagem deve sempre se lido, relido e requetecontrarrelido e polido até brilhar.

Procura estágio, portanto, está na faculdade - e nem é das que tenha pior fama entre nossos estabelecimentos. Como escreve tão mal? Há tempos, conversei com um professor de curso superior sobre esse assunto, e ele me explicou, não sem alguma condescendência, que não cabe à faculdade ensinar português básico aos alunos, eles têm que aprender essas coisas no curso médio. O professor de curso superior tem que partir da premissa que o aluno sabe essas coisas.

Bom, que seja. Mas o aluno não sabe e os professores sabem que não o aluno não sabe, porque hão de ler os mesmos erros nos trabalhos apresentados. Quer dizer, constroem o prédio sem que haja alicerce. Mas, então, como se permite que ingressem nos cursos superiores alunos que não tenham o alicerce necessário para construir o prédio? Como essa moça, aparentemente séria, honesta e disposta a trabalhar, é recebida num curso para o qual não está preparada? Para que serve o vestibular?

Como se podem construir os andares superiores sem o alicerce? Tudo há de balançar, com o risco de ruir. Mas a nossa academia prossegue, ereta: cumprem sua obrigação, se os outros não cumpriram a deles, não é problema da academia. Vão dormir satisfeitos, em paz com suas consciências: amanhã, tem mais.

Mas, ainda que mal pergunte, quando é que esse pessoalzinho que está na faculdade, muitos pagando bom dinheiro, acreditando que, ao sair, vai ter lugar no mercado, vai aprender a pontuar e a distinguir entre "a", "à", "á", "há" e "ah"? Que a gente diz "houve casos"? Que o certo é "vendem-se casas"? Que se diz "mal feito"? E mil outras coisas a mais, coisas que, se ignoradas, barram qualquer candidato na porta de entrada de uma editora ou agência de traduções? Quando é que esses pontos vêm a baila, se nunca são exigidos?

Tive vontade de perguntar ao meu amigo professor se ele concordaria que, além do compromisso de ensinar o que quer que ele julgasse sua obrigação de ensinar a seus alunos, a Universidade, como instituição, tem o duplo compromisso de garantir ao formado que está preparado para enfrentar ao mercado e garantir ao mercado que seus diplomados são competentes para exercer a profissão que consta em seus diplomas.

Ah, e ainda digo mais: formar profissionais da tradução sem ensinar a usar ferramentas de tradução assistida por computador é muito feio. Mas isso eu já disse mil vezes.

Se você está fazendo faculdade e quer se dedicar à tradução como profissional, pegue aqueles livros de português para concursos públicos, cheios de testes e de questões de concurso, e resolva todas as questões. Todas. Depois pegue outro e mais outro. Até conseguir responder a todas as perguntas corretamente sem pestanejar. E, se tiver alguma dúvida, procure numa boa gramática, a do Bechara, por exemplo, ou o livro dele sobre análise sintática. E estude como uma fanática. Não adianta saber falar inglês bonitinho e claudicar no português: sua vida vai muito mais escrever português do que qualquer outra coisa.

Se não vai a bem, que vá a mal.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

FAQ 1

A pretendente a tradutora

Na verdade é que eu to super confusa como todo vestibulando que se preze hahaha. Você trabalha de tradutor né? mas você fez algum curso/faculdade?Eu tenho um amigo que faz tradução e interpretação na Unibero, mas por enquanto eu vou tentar a Unesp por que é pública mesmo. Eu me interessei pelo curso, por enquanto é o que eu vou fazer mas sempre vem aquelas dúvidas: será que o mercado de trabalho é amplo? será que pra essa profissão uma faculdade faz mesmo diferença? Pelo que eu entendi você trabalha em casa né? Tem algum tipo de exigência pra ser um tradutor?

O que você leu acima é a mensagem recebida da T. Já respondi esse tipo de mensagem muitas vezes, mas, como ninguém leu o blogue de ponta a ponta, lá vai de novo.

A confusão é melhor do que a certeza total, T, principalmente porque é um modo mais humilde de examinar a realidade. Um tanto de confusão é bom, principalmente quando se é jovem.

Não "trabalho de tradutor", sou tradutor profissional desde 1970, o que é bem diferente: uma questão de postura, empenho, dedicação. Desde 1970, o dinheiro que entra na casa vem da tradução.

Não fiz faculdade, por motivos que não vêm ao caso agora. Do ponto de vista jurídico, não faz diferença: o exercício da profissão é livre, no Brasil e em qualquer lugar do mundo, e, por isso, você pode viver de tradução com ou sem faculdade. Do ponto de vista comercial, a faculdade ajuda muito. Enquanto você não puder apresentar um currículo com uma boa experiência, um título de bacharel facilita muito sua vida. Depois de uns cinco ou seis anos de prática, ninguém mais vai olhar se você tem graduação ou não, mas, no início, faz uma grande diferença.

Do ponto de vista intelectual, então, nem se fale. Você pode aprender em casa, sozinha, tudo o que ensinam na faculdade e até mais, porém não é nada fácil. Uma faculdade bem feita vai ajudar você a organizar as idéias e pensar melhor. Mas o acento aqui é em "bem feita". Não adianta fazer faculdade promovendo ausências coletivas ou tomando carona em trabalhos antigos. Precisa estudar. Principalmente, precisa estudar português como uma louca.

Você diz que pretende ir para a UNESP. Rio Preto? Dizem que é bom lugar para se estudar. Faculdade no interior pode ser uma escolha excelente. Talvez a Kelli possa te dizer alguma coisa sobre isso.

A maioria dos tradutores trabalha em casa, sim e, de modo geral, precisa constituir uma firma para poder trabalhar, o que não é grande dificuldade. Existe mercado, sim, e existe muita gente vivendo de tradução. O problema é que muita gente não quer, de verdade, ser tradutora, quer ser paga para ler coisas lindas. Então, fica exasperada quando, em vez de traduzir uma bela obra literária, é encarregada de traduzir um livro de auto-ajuda, ou de ficção de massa. Sabe, como se você fosse se especializar em cirurgia plática, mas só trabalhasse com mulheres lindas. Se a postura for essa, fica complicado. Agora, se você quiser traduzir, não falta serviço.

[Kelli] Eu não posso dizer muita coisa além do que o Danilo já falou, até por não conhecer ninguém de Rio Preto. Cursei Letras na UNESP, mas em Araraquara, e cada campus é bem diferente do outro. Posso adicionar uma coisa só: muito aluno pensa que os professores universitários são semideuses, e muitos professores se sentem assim mesmo. Quanto eu era estudante, o prédio com os departamentos e salas dos professores era conhecido como Olimpo, para se ter uma idéia. E as brigas de egos que tinha por lá condiziam com o nome.

A melhor coisa que eu fiz foi nunca me sentir diminuída ou receosa por causa disso. O melhor dos cinco anos do meu curso, academicamente falando, foi ir atrás de professor, ficar no pé, conversar nos intervalos e tratá-los com igualdade. Com respeito, mas com igualdade. Afinal, são gente como a gente. Consegui muito com essa postura. Aliás, sem ela, eu não estaria escrevendo neste blog agora.[/Kelli]


O mestrado do Mackenzie

Uma colega pergunta o que eu acho do curso de mestrado do Mackenzie. A bem dizer, praticamente nada. Dos professores, a única que conheço é a Valderez Carneiro da Silva, veterana e respeitada, desde os tempos heróicos da Faculdade Ibero-Americana. Dos outros, nunca ouvi falar, o que significa que não circulam muito nos ambientes dos tradutores profissionais, embora possam ser excelentes professores.

Esse, como acho que todos os outros cursos superiores, não trata de ferramentas de tradução assistida por computador. É um empurra-empurra ridículo, isso. A turma da graduação acha que é problema da especialização, a turma da especialização acha que é coisa para graduação. A turma do mestrado acha que não é problema deles e a de doutorado acha que de jeito nenhum é coisa para eles. Mas, quando você chegar no mercado, a maioria dos clientes vai querer saber se você sabe lidar com essas coisas.

De resto, o Mackenzie é uma instituição séria e um curso de especialização vai ajudar a arrumar as tuas idéias, embora ninguém, mas ninguém mesmo, vá virar tradutor em três semestres. Quer dizer: espere um bom curso, mas não um milagre. Muito depende de quanto você já sabe e de quanto você está disposta a se dedicar. Num curso desses, não se ensinam línguas. Quer dizer, ou você é boa de português e inglês, ou não vai aproveitar o curso. Por outro lado, não me canso de repetir que você faz o curso, não é o curso que faz você. Tem que dar duro. Os professores, por bons que sejam só podem ensinar; mas é exclusivamente a você que cabe aprender.

domingo, 4 de maio de 2008

Que línguas aprender par ser tradutor?

Oi, Danilo. Tudo bem?

Meu nome é Julieta, tenho 18 anos e interesso-me pela área de tradução também. Atualmente faço jornalismo, mas irei mudar de curso. Visitei seu blog esses dias e achei-o ótimo. Tirou algumas dúvidas que eu tinha.

Pretendo começar o curso de Tradutor e Intérprete aqui em Bauru na Universidade do Sagrado Coração (não sei se conhece a universidade, esse é o site www.usc.br), porém o curso aqui oferece tradução apenas português/inglês. Seria muito pouco? Porque, na verdade, eu me interesso por outras línguas também, além do inglês.

Gostaria de ter uma resposta, se possível. Obrigada.

Para começar, Julieta, parabéns pelo seu português impecável. Escrever bem não garante nada, mas quem não sabe escrever tem um futuro triste na tradução. Quer dizer, está começando com o pé direito.

Já estive duas vezes na USC como palestrante. O ambiente é agradável e amigável, mas a visita foi curta demais para que eu pudesse formar uma opinião sobre o curso em si. De qualquer forma, o curso, por bom que seja, só pode ensinar: só você pode aprender – e esta é uma lição que todo estudante deveria saber.

A maioria dos cursos de tradução só cuida de inglês, o que é lamentável, mas uma necessidade, porque a busca pelos cursos de tradução em outras línguas é muito pequena. E a predominância do inglês só faz aumentar desde que estou no mercado. Muitos excelentes tradutores de alemão hoje vivem mais de traduzir inglês.

Mas vamos tentar colocar as coisas nas devidas proporções.

Traduzir exige um conhecimento muito profundo do par de línguas envolvido e mesmo você, que escreve português muito bem, vai ter de aprender uma meia dúzia de coisinhas sobre nossa língua, para se tornar uma tradutora de primeira água. De inglês, então, nem se fala – mesmo que você tenha feito um curso pesado, tipo cultura inglesa. Se seu inglês for meio cru, então, vai ter de dar um duro danado. Não que você não vá conseguir, é claro.

Poucas pessoas conseguem atingir esse nível em LM+2, quer dizer sua própria língua materna e mais duas. Raras conseguem LM+3. Muito raras conseguem mais que isso. A quase totalidade das pessoas que acha que é capaz de traduzir de e para quatro línguas (LM+3), simplesmente carece de autocrítica.

Nada impede que você faça como tantos tradutores apaixonados por línguas, que são capazes de ler com razoável facilidade oito ou mais línguas, mas as línguas de trabalho são realmente LM+1 ou LM+2, raramente LM+3. O resto é diversão.

E o seu rendimento não depende do número de línguas que traduz. Se você traduzir inglês, depende muito mais de sua especialização. Eu, por exemplo, sou um especialista em contabilidade, finanças, direito societário e tributário. Por isso, tenho serviço em quantidade e posso exigir um pagamento relativamente alto. Se agregasse francês e alemão ao meu inglês, não iria ganhar um tostão a mais, porque, para cada tradução do francês aceita, teria de recusar uma de inglês.

Na verdade, se você trabalhar com inglês, não precisa de mais nada. Se trabalhar com francês, italiano, alemão ou espanhol (grupo que se chama figs em inglês – French, Italian, German, Spanish) vai ter mais dificuldade em montar uma carteira e pode ser útil trabalhar com duas línguas, digamos, francês e italiano, ou alemão e inglês. Se optar por algo que não seja Inglês+FIGS, aí sim, provavelmente vai ter de trabalhar com várias línguas. Mas aí, estamos entrando em um campo muito complexo, que fica para outro dia, porque este artigo já vai longo demais.

Espero que a resposta tenha sido útil a você e a mais alguém. Acho que amanhã volto ao tema.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Tradução de autor brasileiro para o inglês

Antes da palestra que ia fazer para os alunos de uma faculdade, estava fazendo conversa social com os professores. Uma me contou, orgulhosa, que estava fazendo mestrado ou doutorado, não me lembro, em literatura, e seu tema era um determinado autor brasileiro. No seu entusiasmo pelo assunto, contou que inclusive tinha encarregado seus alunos de traduzir alguns trechos desse autor para o inglês, como trabalho do semestre.

Acho que ocultei bem minha surpresa perante a absoluta inutilidade de fazer alunos de bacharelado em tradução numa faculdade brasileira traduzirem literatura brasileira para o inglês. A chance de algum tradutor brasileiro ser convocado para uma tarefa dessas é próxima de zero. A pouca literatura brasileira que se traduz para línguas estrangeiras é sempre traduzida por falantes nativos da língua de chegada. Essas traduções são sempre publicadas por editoras estrangeiras e, no exterior, tem-se como norma que cada um traduz exclusivamente para a sua própria língua. Conheço raríssimas exceções a essa regra.

Tradução técnica, comercial e jurídica para o inglês, faz-se muito, aqui no Brasil mesmo, por falta de falantes nativos que se encarreguem do serviço, mas isso não parecia importante para os professores. A literatura, para eles, era a mais elevada manifestação do espírito humano e, portanto, era dela que a faculdade tinha de se ocupar.

A tradução literária para uma língua estrangeira num estabelecimento de ensino brasileiro somente vale se for feita como exercício para procurar construir uma sintaxe contrastiva, a ser usada para melhor traduzir do inglês para o português. Mas não era isso o que estava acontecendo. Os alunos estavam sendo conduzidos a imaginar que algum dia eles iriam estar alegremente traduzindo os clássicos da nossa literatura para o inglês. Durante a palestra, confirmei minha suspeita de que o inglês da turma deixava a desejar, o que tornava o exercício ainda mais inútil: tanta coisa a aprender, e eles ficavam lutando com o estilo complicado de um autor regionalista, com seus dialetalismos todos.

Mas, antes de começar a palestra, perguntei se havia algum treinamento em uso de programas de memória de tradução, que, afinal de contas, são ferramentas cada vez mais essenciais para os tradutores. Olharam-me como se eu tivesse dito algo de impróprio e deixaram claro que, para eles, essas coisas eram irrelevantes, de certo modo indignas de um estabelecimento de ensino superior dos sérios, como aquele. Se não fossem tão educados e formais, teriam me mandado lavar a boca.

Podia ser pior: em outra faculdade, na mesma época, usavam PowerTranslator e diziam que era ferramenta de memória de tradução.