segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Curso de intérprete na PUC-SP
sábado, 3 de outubro de 2009
Tradutor & Intérprete
Como disse no último artigo, "tradução" tem dois sentidos: um mais específico, restrito à tradução de texto para texto e outro mais genérico, que inclui todas as modalidades tradutórias, inclusive a interpretação e o trabalho com audiovisuais e o que mais seja. É essa aberração lógica e semântica que leva a coisas esquisitas como os cursos de "tradutor e intérprete".
Se estivermos vendo "tradução" como termo genérico, não faz sentido, porque seria algo como dizer "médico e ginecologista". Ginecologia é uma especialidade médica e todo ginecologista é médico, por definição. Logo "médico E ginecologista" é bobagem.
Se estivermos vendo como específico, quer dizer como "tradutor de texto para texto" é pior,: criamos um problema de todos os diabos, porque muita gente que tem talento para uma das modalidades não serve para a outra. Há tradutores que não dão para interpretação e vice-versa. Aliás, eu sou um exemplo: como intérprete, já fiz alguma intermitente / cochichada na minha área de especialização e até que não me saí mal, em razão da minha capacidade cognitiva, quer dizer, do fato de que conheço muito bem o assunto. Mas a minha capacidade interpretatória propriamente dita é baixíssima: se tivesse que ganhar a vida como intérprete, estava perdido. Como tradutor, até que me saio bem, embora sempre haja o que aprender.
Das palestras na Jornada, entendi que o conceito geral é de que a formação do intérprete começa com a formação em tradução de texto para texto. Pode ser. Mas também pode ser que essa postura tenha motivos mais culturais e históricos do que pedagógicos, e que possa mudar após uma reflexão mais detida sobre a interpretação, que leve a esquematizar um curso onde mesmo as aulas teóricas e disciplinas básicas sejam voltadas para a interpretação.
Como sempre penso em termos musicais, fico lembrando de uma época em que não se permitia ao aluno aprender saxofone antes de dominar o clarinete e ao costume espanhol antigo de obrigar o aluno a estudar bandolim antes de pegar no violino. As duas práticas foram abandonadas e nem por isso a música perdeu nada. Hoje, quem quer estudar violino começa com violino, quem quer aprender sax começa com sax e pronto.
Uma coisa não se pode discutir: as técnicas de interpretação, seja simultânea, seja uma das diversas modalidades de consecutiva, são totalmente diferentes das técnicas usadas pelo tradutor de texto para texto.
Não sei se amanhã posto. Na pior das hipóteses, até segunda. Obrigado pela visita.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Intérprete é Tradutor?
A Jornada na USP começou com o pé direito na escolha do tema: Interpretação. Poderia ser tradução literária, legendagem, mas foi interpretação e quase todos os palestrantes eram todos profissionais da interpretação simultânea.
Quem faz interpretação simultânea não gosta de ser rotulado como tradutor e rejeita o termo "tradução simultânea" — que, aliás, aparece mais de 280.000 vezes no Google. São intérpretes, não tradutores, fazem interpretação, não tradução e sua associação é a de intérpretes de conferência, não de tradutores de conferência.
Mas, se simultânea não é um tipo de tradução, se vamos restringir tradução para "de texto a texto", então aquele pessoal que escreve as legendas em português para os filmes estrangeiros também não faz tradução. Nem os que preparam os textos a serem lidos pelos dubladores. Muito menos ainda os que ficam sinalizando em LIBRAS para os que ouvem.
Na verdade, o problema é que tradução é tanto o gênero, que engloba todas as espécies lembradas acima e provavelmente mais umas quantas, como uma de suas espécies, a tradução de texto para texto. E ter um mesmo termo para o gênero e para uma de suas espécies é contrário à lógica mais elementar.
Nunca conseguir re-encontrar um texto em que um francês preconizava o uso de "translation" como termo genérico, reservando "traduction" especificamente para a tradução de texto para texto. Não pegou, talvez porque os anglófonos não conseguissem uma boa tradução para o termo. Em português, seria translação para o gênero e tradução para a espécie, o que transformaria o 30 de setembro em "Dia do Translator". Mas aqui também não pegou.
A questão é tão momentosa que o professor Dr. Francis Henrik Aubert julgou apropriado abrir a sessão explicando por que interpretação cabia ali, como discussão válida para o dia do tradutor. Conheço o Francis há uns bons trinta anos. É um intelectual meio esquisito: ao contrário de tantos outros, que fazem da abstrusão uma bandeira, ele faz questão se ser claro e preciso, provavelmente por que fala do que sabe e sabe o que está dizendo, o que se não pode dizer de todos. Sua palestra, como de esperar, foi extremamente precisa e clara.
Porém, mais claros ainda foram os profissionais da simultânea que por lá apareceram para falar, porque, com sua participação, nos disseram que, para eles, interpretação é realmente uma das muitas espécies da tradução. Opinaram com seus pés, para parafrasear uma expressão inglesa.
Por hoje, é só. Amanhã tem mais. Obrigado pela visita.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Colega sem sorte
Um recadinho no Orkut tem uma queixa de um colega que se queixa da falta de sorte. A história toda eu conheço já há algum tempo e vou resumir para você, mascarando um que outro pormenor.
O colega teve a sorte de arranjar um emprego único, para uma combinação de qualificações que ele tinha e que incluía a capacidade para atuar como intérprete. Como o emprego exigia uma combinação de conhecimentos especial, a remuneração era alta. Além disso, havia a garantia de um contrato. O contrato não foi renovado e o nosso amigo se viu meio perdido. Já faz tempo que está tentando se reorganizar, mas não consegue.
O primeiro problema, aqui, é o contrato, que dá uma falsa segurança. Você não pode ser demitida, mas, por outro lado, quando acaba, acabou e não tem choro. Mesmo o vínculo empregatício regido pela CLT, a famosa carteira assinada, que dá alguma garantia a mais, garante muito pouco. O que garante a segurança, para quem tem emprego, é a liquidez do mercado local. Quer dizer, se você tem o único emprego de tradutora existente na sua cidade, se perder o emprego ou arranja outra profissão ou muda de cidade.
Quando se trata de um emprego que combina duas funções, digamos tradutora e editora de vídeo e, por isso, paga mais, a chance de você manter o esquema em outro lugar é baixíssima, porque poucas empresas vão precisar dessa combinação.
Além disso, mesmo em cidades grandes, poucas empresas contratam tradutores ou intérpretes como funcionários: dada a oscilação constante do volume de trabalho, a grande maioria prefere terceirizar esse tipo de serviço.
Não quer dizer que um tradutor tenha de viver nos grandes centros, mas quer dizer que, se você mora fora dos grandes centros, é melhor procurar trabalhar como independente, via Internet, do que procurar um emprego. Emprego de intérprete tem menos ainda. Não quer dizer que não haja serviço, quer dizer que intérprete que marca cartão e tem carteira assinada é raridade. A maioria trabalha como independente e acaba viajando muito. É esse o mercado.
Então, o colega não é realmente desprovido de sorte. Simplesmente, achou uma agulha em um palheiro e não consegue achar a segunda.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Respondeat superior
Um latinzinho faz sempre bem. Esse, aí em cima literalmente quer dizer “responda o superior” e, daquele jeito superconciso peculiar aos romanos, significa o chefe é responsável pelos erros dos subordinados. Esse é um ponto que eu já lembrei muitas vezes: não há maus tradutores, há gente incompetente que confia serviços de tradução a quem não está preparado para a função.
Por que o escolhido não recusa o trabalho? Muitas vezes por não poder, ou por lhe faltar coragem. Pode ser um funcionário da empresa, sem coragem de negar algo ao chefe, pode ser um aluno da faculdade momentaneamente ofuscado pelo "precisamos da colaboração para o sucesso do evento”. Pode ser um coitado vaidoso sem autocrítica, que ache que seus dois milréis de conhecimento de uma língua estrangeira lhe permitem se arvorar em tradutor ou intérprete. Sei lá, pode ser mil coisas. Pode, inclusive, estar desesperado atrás de dinheiro. Não faz diferença: cabe a quem escolhe escolher direito o tradutor/intérprete, como lhe cabe também escolher direito a sala onde se realiza o encontro, o serviço de som, de bufê e o que mais seja. No caso de texto escrito, cabe escolher bem o diagramador, impressor, encadernador, capista, ilustrador, enfim, toda essa turma de profissionais que conjugam seus esforços para o sucesso de um empreendimento de publicação ou de comunicação com o público.