quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Edição Extra Extra: Martin Claret X Denise Bottmann
Do blogue da Denise Bottmann:
No dia 03/11 o Juiz de Direito da comarca de Registro rejeitou a queixa-crime proposta por Martin Claret, em sentença publicada no Diário Oficial do Estado, por considerá-la sem justa causa. Decorrido o prazo para recurso sem manifestação do proponente.
Se você não entendeu direito, a Martin Claret ingressou em juízo contra a Denise. Houve uma audiência de conciliação, em que a Denise se negou a retratar-se. Posteriormente, o juiz rejeitou a queixa, quer dizer, concluiu que a Denise não tinha cometido crime algum. Dessa rejeição, cabia à Martin Claret o direito de apelar e, para isso, tinham um prazo. Optaram por não apelar, que também é direito deles. Como não apelaram no prazo, não podem apelar mais.
Nossos parabéns à Denise e ao seu advogado. Por outro lado, do fundo do coração, esperamos que a Martin Claret e as outras editoras envolvidas no escândalo dos plágios de tradução passem a agir direito.
Denise, um abraço e tome uma boa garrafa de vinho tinto hoje. Você merece.
O blogue da Denise está aqui. Clique para visitar e deixar um recadinho a ela. Ela merece.
sábado, 24 de outubro de 2009
Edição Extra: Quanto mais Mexe, mais Fede
Acho impossível que você não conheça a Denise, que mantém um blogue chamado Não Gosto de Plágio, que está deixando algumas editoras botocudas à beira de um ataque de histeria. O passatempo — ou talvez compulsão — da Denise é descobrir plágios tradutórios. Para entender melhor a coisa, visite o blogue dela, uma inacreditável coleção de informações corretíssimas e incríveis.
Vou falar aqui só da última que ela aprontou, porque tenho uma participação secundária na encrenca e porque me fez rir muito.
A Denise tuitou que a Madras tinha republicado uma tradução de A Origem das Espécies de Charles Darwin. A tradução era atribuída a Caroline Kazue Ramos Furukawa e que ela, (a Denise, não a Caroline Furukawa, que talvez nem exista), descobriu que o texto era copiado de uma publicação da Lello, datada de 1913 e assinada por Joaquim Dá Mesquita Paul, que pode ter existido ou não, sabe-se lá. O mesmo texto tinha já sido publicado pela Hemus e pela Ediouro em várias ocasiões. As "traduções" brasileiras trazem algumas alterações, para descaracterizar, mas o texto é obviamente o mesmo.
Como é que podemos dizer que duas traduções diferentes podem ser plagiadas uma da outra? Existem dois meios clássicos, o primeiro deles sendo a comparação da estrutura dos períodos. É fácil notar que alguém pegou a tradução feita em Portugal e foi trocando uma palavra cá e outra lá por um sinônimo:
Joaquim Dá Mesquita Paul (1913):
O exame rápido de alguns casos observados nos animais domésticos permitir-nos-á estabelecer a possibilidade ou mesmo a probabilidade de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado de natureza.Caroline Kazue Ramos Furukawa (2009):
O exame rápido de alguns casos constatados nos animais domésticos nos permitirá estabelecer a possibilidade, ou mesmo a probabilidade, de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado natural.
Veja que "observados" foi trocado por "constatados" e mais umas coisinhas aqui ou lá. Talvez até coisa que o próprio tradutor pudesse ter feito — se lhe tivesse sido dada a possibilidade de reler seu texto. Mas, se você pegar o original e der a dois tradutores, pode apostar que nunca sairiam duas traduções assim.
Mas o segundo meio de detectar o plágio é bem mais eficaz: pelos erros comuns. Se duas traduções repetem os mesmos erros, uma é plágio da outra. Não é a coincidência de uma falha ou duas, mas sim de várias e as duas traduções andam de mãos dadas nos índices de falta de qualidade.
A Denise, que, como eu, acredita que só se pode aquilatar a qualidade de uma tradução mediante comparação, foi procurar o que dizia Darwin e notou, admirada, que "duck" sempre saia como "canário", fato que aponta no blogue dela.
Quando li, logo suspeitei que a tradução da Lello tivesse sido feita do francês. Em francês, "pato" de diz "cannard". Recapitulando, fica mais ou menos assim: Darwin escreveu "duck", o tradutor francês botou lá "cannard", que é corretíssimo, mas o tradutor da Lello pensava que "cannard" significava "canário" e mandou ver. E a Hemus, Ediouro e Madras ajudaram a propagar a besteira.
Mais tarde, apareceu no blogue a Ivone Benedetti e apontou mais uns indícios de que a tradução inicial tinha sido feita de um texto francês. A Denise deu uma sherlockada a mais e encontrou o texto francês de que o português foi traduzido.
Quer dizer, quanto mais mexe, mais fede.
Espero que você tenha se divertido tanto quanto eu.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
TJ
Alguém aí já ouviu falar de Pimpi Coggins? Eu, nunca, antes de hoje. Ela foi convidada a contar sua história de tradutora na 50ª edição do TJ. Comecei a ler, e escreve bem, a mulher. Mas, de repente, me senti relendo coisas. Vejam se vocês já leram algo parecido:
"Learning and investigating what different programs can do to improve our work shouldn't scare us. Believe it or not there are still some people who use the computer as a glorified typewriter, while others refuse to accept new technology. It took me three years to convince a very close friend of mine to buy Trados. Today, even though he doesn't use it to its full potential, he won't even translate a short sentence without it. Learning new things is not easy, but it is a necessity in our industry and keeps our mind from stagnation." (o Danilo tem uma história igualzinha, igualzinha, mas com Wordfast, se não estou enganada.)
"...the camaraderie among translators is vital to maintain your sanity. Knowing that if you have to work until the wee hours of the morning, Messenger will be by your side. To be able to reach a friend who will assist with a word or phrase, to know that there is always someone out there who is willing to extend a helping hand in the middle of the night. Priceless!"
"Other profiled translators before me have already mentioned the importance of becoming active in professional associations, and I could not agree more."
Algumas coisas aí me parecem puro Danilês. Outras, já ouvi de outros profissionais bem-sucedidos. Eles estão todos aí, entregando o ouro para nós, que estamos começando. Creio que são as três dicas que mais li até hoje para os iniciantes de tradução:
1. Conheça as tecnologias ao seu dispor. Estão aí para ajudar, aumentar seu rendimento, e consequentemente, seu ganho. Sim, custam caro. Mas quem quer ganhar mais deve estar disposto a gastar mais. Eu, por exemplo, fiz um empréstimo gigante, para as minhas possibilidades atuais, mas aproveitei a promoção do MemoQ (50% de desconto!) e ainda me dei um note, para poder trabalhar em minhas viagens.
2. Mostre-se. Não adianta resolver virar tradutor e não contar para ninguém. Vá a seminários, conferências, torne-se um membro de associações sempre que puder. Participe de fóruns na internet, ajude outros tradutores. Tudo isso é vitrine. Não pense que orkut e twitter são brincadeiras de adolescente, porque não são só isso. Tem muito trabalho rolando nessas redes sociais. Muito mesmo.
3. Mantenha contato com outros tradutores. A era da solidão se foi, acabou, e enquanto houver internet, ela não volta. Alguns vão te pedir ajuda, outros vão te ajudar, outros vão virar amigos de trocar receitas, nomes de médicos e dicas para acalmar filho de visita. Mas, quando bater aquela solidão, ou aqueles terrores de prazo curto, de branco, de não conseguir encontrar uma tradução decente, sempre vai ter alguém ali para ajudar. Isso dá um conforto que eu não consigo descrever.
Tem algumas outras, sempre repetidas, mas creio que a Pimpi falou das principais, aqui.
Não me esqueci: nosso artigo do TJ, sobre plágio, está dando o que falar.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Assim, não pode ficar!
domingo, 24 de maio de 2009
A Denise e a Metempsicose Tradutória
domingo, 6 de janeiro de 2008
O mistério de Invanhoé, cada vez mais misterioso
Este blog entrou em recesso de fim de ano meio forçado: ele, que adquiriu vida própria, não queria parar e eu não queria que parasse. Mas a vida quis que parasse e parou.
Reabre hoje e reabre com chave de ouro, com uma mensagem recebida do Saulo von Randow Júnior, o homem que está levantando o maior escândalo do mundo tradutório brasileiro: o plágio de traduções por atacado, feito pelas nossas editoras. O início da história você encontra aqui, se é que ainda não conhece, está aqui.
Uma historinha sórdida. Vamos insistir e, um dia, as editoras vão ter de se manifestar – ou individualmente, ou através da Câmara Brasileira do Livro. Cabe a nós, com os meios de que dispomos, chamar a atenção de todos para o problema e obrigar os editores agir corretamente.
Esse plágio por atacado me fere profundamente, embora nada do que eu tenha feito tenha sido plagiado. Sou amante de música clássica e a maior parte do que ouço já está no domínio público há anos. Quer dizer, para tocar ou reimprimir a quinta Sinfonia de Beethoven, não é necessário pagar direitos autorais. Como Beethoven não tem sucessores com direito intelectual sobre sua obra, se um maluco mandar imprimir a partitura da uma sinfonia dele e publicar como de sua autoria, não há como me processar. Mas a grita vai ser enorme, principalmente por parte dos músicos e editores honestos. Espero que as editoras honestas se juntem também ao nosso clamor.
Se você sabe de alguma coisa que possa nos ajudar, escreva para mim. Se você pedir, seu nome será mantido em segredo, mas a informação será pesquisada e pode ajudar a dar um pouco mais de dignidade à nossa profissão. Não vou publicar informações, assinadas ou anônimas, sem pesquisar.
Danilo,
Gostaria de colocá-lo a par, bem como aos leitores do seu "blog", sobre a repercussão do artigo "O Mistério de Ivanhoé: alguns dias após a publicação da matéria no seu sítio, fui contactado pela, também tradutora, Denise Bottmann, a qual queria saber mais sobre o assunto.
Ela disse ter tomado conhecimento do caso num grupo de debates do "Yahoo" conhecido como "Litterati", onde o assunto foi levantado. Como dispunha, assim como eu, das 2 edições do livro "Ivanhoé" , ela partiu para o cotejo dos livros e ficou assombrada com o que encontrou. Como também possuía 2 edições do "Fausto" e "Werther" de Goethe, ela resolveu aprofundar as investigações e, aí também, encontrou vestígios de plágio.
A Denise, então, tentou entrar em contato umas 3 ou 4 vezes com a Nova Cultural e, ao mesmo tempo, escreveu um e-mail para a seção Folha Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, os quais se interessaram sobre o assunto e publicaram uma matéria sobre o caso.
Logo em seguida, partindo de uma matéria publicada pela Revista Veja sobre o lançamento, na época, sobre a coleção "Obras-Primas" da Editora Nova Cultural, começamos um trabalho de cotejo dessa coleção com os livros dos mesmos autores de outras editoras, principalmente os da Editora Abril Cultural.
Nesse ínterim, a repercussão dos plágios deu origem a um abaixo-assinado por parte dos tradutores, fazendo com que o mesmo ganhasse as páginas do jornal Folha de S.Paulo como matéria digna de nota. Como eu possuía alguns desses livros (Ana Karênina, Tom Jones, Crime e Castigo) de ambas as editoras e a Denise possuía outros, passamos a publicar nossos "achados" junto ao "blog" que destaca o abaixo-assinado acima referido as nossas descobertas.
Atualmente, eu e a Denise estamos trabalhando para separar o joio do trigo: com o apoio de algumas pessoas que são proprietárias de sebos, estamos trabalhando para saber quais obras foram vilipendiadas nesse processo de plágio descarado (direto) e, também, por um sistema de tradução por sinonímia, sem qualquer respeito ao trabalho do tradutor original da obra em questão.
Na ocasião, gostaria de manifestar o meu agradecimento ao Danilo por seu empenho na busca de solução para esse que começou como "O Mistério" e que, agora, já se traduz em vários "Mistérios".
Cordialmente,
Saulo von Randow Júnior
O abaixo assinado de que o Saulo fala está aqui. É só clicar.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
O mistério de Ivanhoé
Saulo von Randow Júnior é colega nosso tradutor, mas tem seu lado detetive e um mistério a solucionar. Leia a entrevista abaixo, onde ele nos conta sobre o mistério e sobre sua curiosidade, da qual, aliás, compartilho.
Quem é você, Saulo?
Nesses tempos de caos aéreos, e para facilitar a identificação, eu diria que sou um profissional oriundo desse metiê: primeiramente, através da maior empresa de aviação privada dentro do país (infelizmente, já falecida, apesar de ter tido o nome mantido pela sua sucessora) e, numa segunda etapa, pela maior empresa do mundo no mesmo ramo. Em ambos os casos, com maior intensidade no último, em função do alcance internacional dessas empresas, vi-me mergulhado, diariamente, num cipoal de informações, memorandos, circulares, e-mails e correspondências, todos redigidos em língua inglesa, o que me obrigou a ter um conhecimento mais amplo da mesma.Com o tempo, adquiri uma certa habilidade no domínio dos dois idiomas, o que me permitiu começar a fazer serviços de composição e tradução de textos para essas empresas, em vista do farto material que sempre tinha à disposição. Mesmo assim, ainda me deparava com algumas expressões cujos significados não conseguia depreender. Isso me levou a tentar aperfeiçoar ainda mais esse "dom" que foi surgindo aos poucos, através da leitura de livros especializados, dicionários e quaisquer artigos relacionados ao tema da tradução.
Isso me permitiu ter, hoje, um dicionário particular Inglês-Português-Inglês, fruto das minhas memórias de tradução, quase do mesmo porte do Dicionário Houaiss de Português, isso em ambas as direções (infelizmente, economicamente inviável de se editar). No momento, estou desmembrando esse colosso em obras mais palatáveis ao pendor do mercado.
Como você foi encontrar duas edições de Ivanhoé?
Em pouco tempo, descobri quais eram os grandes personagens (numa época onde os recursos eram escassos) que marcaram e nobilitaram a tradução no país, dentre eles, o de Brenno Silveira. Como rato de biblioteca que sou, vivia em busca de encontrar, em sebos, os livros que tais pessoas verteram para o português, uma vez que tais obras, na sua grande maioria, já teriam caído em domínio público e, assim, seria mais fácil encontrar a versão original em inglês na Internet, para fazer uma comparação. Numa dessas visitas a um sebo, tive a felicidade de me deparar com uma tradução do livro Ivanhoé, de Walter Scott, feito por Breno (sic) Silveira, para a minha grande alegria.Como você descobriu que as traduções eram iguais?
Ao começar a fazer o cotejo das duas versões, percebi que não estava aprendendo nada de novo, o que, para mim, era inconcebível no caso de uma tradução feita por uma pessoa do porte do Brenno. Foi então que resolvi confrontar com outra edição do mesmo livro, a qual eu já havia submetido a tal processo, mas só que traduzido por uma pessoa desconhecida, pelo menos para mim, nessa área de tradução.O que você fez quando notou a identidade de traduções?
Enviei um e-mail para ambas as editoras que constavam dos registros de "copyright" do livro tentando saber quem, realmente, era o verdadeiro tradutor do livro em questão ou se tratava-se de uma fase tardia de “Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos” tentando chegar num, já famoso, “Fernando Pessoa”, ou seja, de um heterônimo às avessas.Qual foi o resultado das suas investigações?
Recebi (de uma delas) como resposta que, pelo fato dessa editora ter passado por processos de reestruturação e incorporação por outras empresas, os arquivos contendo os originais que poderiam decifrar tal mistério estavam extraviados, ou seja, irremediavelmente perdidos.
O Saulo e eu nos fazemos duas perguntas:
A primeira é : quem é Roberto Nunes Whitaker? A Internet só nos diz que traduziu o Ivanhoé, mais nada.
A segunda pergunta é : por que não foi usado o nome de Brenno Silveira? Brenno Silveira é um dos mais conhecidos e respeitados tradutores do Brasil, o autor de um dos primeiros livros sobre tradução escrito no Brasil, “A Arte de Traduzir”, publicado pela Melhoramentos lá por 1954 e recentemente reeditado pela UNESP. Por que ocultar o nome de um ilustre tradutor, que só valorizaria a publicação? O que teria levado a editora a essa medida? Por que as mensagens do Saulo às editoras não foram respondidas ? Sei de tradutores e pseudotradutores que assinam traduções alheias, sei de tradutores que trabalham para mais de uma editora com nomes diferentes, sei de gente que assinou traduções com nomes supostos porque achava que ia prejudicar seu currículo se as assinasse com o nome verdadeiro. Mas nunca ouvi dizer que a obra de um tradutor famoso fosse republicada como se fosse de outro. Que se ganha com isso? Não deve ser dinheiro, porque o Brenno Silveira deve ter cedido os direitos sobre sua tradução à editora, como é praxe, uma praxe de que a maioria dos tradutores não gosta, mas, mesmo assim, uma praxe. Nesse caso, não haveria nada mais a pagar ao tradutor.
Se você tem alguma idéia das razões, deixe seu comentário aqui no blog mesmo. Os dados das duas edições são:
CÍRCULO DO LIVRO S.A.
Caixa Postal, 7413 - São Paulo, Brasil
Edição integral
Título do original: "Ivanhoe"
Tradução de Breno Silveira
Capa de Ballestar
Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Livraria Martins Editora S.A. (sem data)
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA
Rua Paes Leme, 524 – 10º andar
CEP 05424-010 - São Paulo - SP
(c) Copyright desta edição Editora Nova Cultural Ltda, 2003
Todos os direitos reservados
Título original: Ivanhoe
Tradução: Roberto Nunes Whitaker.
Se você tiver a edição da Martins, que aparentemente é a primeira e data de 1960, por favor, entre em contato comigo. Estou curioso como só um homem consegue ficar. E, claro, se houver algo errado em nosso raciocínio, não deixe de me avisar. Só queremos entender.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
De dicionários e plágios
Quando saiu, em 2004, minha casa estava o caos, o escritório nas garras de pedreiros e pintores, eu trabalhando num canto da nossa microssala de visitas – e achei que comprar mais um livro seria loucura no momento. Mas fiquei chateado, frustrado mesmo, porque o dicionário foi anunciado como o resultado de longos lavores de especialistas, com direito a elogios na imprensa e tudo.
Passada a tempestade da reforma comprei outras coisas, mas aquele tal do "Dicionário Jurídico e de Finanças", de autoria de Maurício Faragone e de Ricardo Pignatari, jamais comprei. Não que me faltem dicionários, porque tradutor velho tem carradas deles, mas, se era como diza a editora,
Um dicionário criado por profissionais da área de tradução em conjunto com profissionais da área jurídica;
- Aproximadamente 40 mil verbetes e 160 mil definições;
- Mais de 1.000 siglas de órgãos dos governos Brasileiro e Americano em Português/Inglês e Inglês/Português;
não seria de pouca ajuda para mim. O livro foi muito elogiado, inclusive por gente que sabe das coisas.
Só faltou dizerem que era a salvação da lavoura. De qualquer modo, tenho o Maria Chaves de Mello, gentileza da autora, e o Noronha, que comprei com meu dinheiro, e fui resolvendo meus problemas com eles.
A verdade é, entretanto, que jamais concordei com muita coisa que o Noronha diz. Mas eram meras opiniões impressionistas e subjetivas: nunca tinha me debruçado sobre o livro, para fazer uma análise detida e aprofundada. Quem fez foi Luciana Carvalho Fonseca Corrêa Pinto, (ou Luciana Carvalho, como é mais conhecida), que resumiu suas conclusões no congresso da ABRATES em 2005, numa apresentação feita com o ímpeto natural da alguém jovem como ela e uma firmeza intelectual que muita gente não atinge nem em idade madura. Mais dia, menos dia, a Luciana publica algo mais carnudo sobre seu trabalho, o que vai ser bom para todos nós. De qualquer maneira, sua análise foi útil e confirmou o que eu já pensava.
Como eu dizia, não gosto muito do Noronha. Entretanto, se eu não gosto muito do Noronha, o Noronha gosta ainda menos do Faragone e do Pignatari, tanto que ingressou em juízo contra eles. Não por achar o dicionário deles ruim, mas por achar que era plágio do seu.
Alegar plágio é fácil. Provar plágio é mais complicado do que parece. Plágio de dicionário bilíngüe, então, é questão mais que complicada. Deixe dar um exemplo: pegue as definições de qualquer verbete em dois dicionários unilíngües e vai ver que diferem. Se o Aurélio dá como primeira acepção de mesa “Móvel, comumente de madeira, sobre o qual se come, escreve, trabalha, joga, etc.”, o Houaiss, para descrever exatamente o mesmo objeto, diz Rubrica: mobiliário. móvel composto de um tampo horizontal, de formatos diversos, repousando sobre um ou mais pés, e que ger. se destina a fins utilitários: refeições, jogos, escrita, costura, apoio etc. Quer dizer, não pode usar a mesma definição. Se usar, é plágio e encrenca na justiça. O caso dos bilíngües é mais complicado: não há como ter mesa sem a tradução por table. Então, fica assim: o autor da ação reclama que foi plágio, os réus dizem que não foi plágio coisa nenhuma e perguntam: se não puder traduzir “mesa” por “table”, vou traduzir como? Foi mais ou menos isso que alegaram os réus da ação.
É assim mesmo que funciona. Um diz que sim, outro diz que não e o juiz diz quem tem razão. Neste caso, o juiz da 24ª Vara Cível de SP, Wagner Roby Gídaro, encarregado de julgar a ação, decidiu que, antes de dizer quem tinha razão, deveria perguntar algumas coisas para quem sabia e nomeu uma perita. Lamentavelmente, não tive acesso ao laudo pericial. Entretanto, o juiz faz várias citações na sua sentença, que se encontra aqui e, pelo que se lê, o laudo deve ser verdadeiramente suculento.
O juiz fala em “a Senhora Perita”, sem citar o nome. Curioso por saber quem poderia ter dado cabo da reputação de dois dicionários com uma só cajadada, perguntei à Luciana Carvalho. Não que ela tenha obrigação de saber, mas como ela é interessada nesses assuntos, talvez soubesse. A verdade é que sabia. A “Senhora Perita” se chama Rena Singer e um dos seus assistentes foi Stella Tagnin, que evidentemente a Luciana conhecia por ser sua orientadora.
Adotaram uma estratégia de trabalho interessante: catalogaram as falhas encontradas nos dicionários e rotularam as coincidências de falhas como indícios de plágio. Quer dizer, quando ambos estão certos, poder-se-ia alegar que chegaram à conclusão correta independentemente. Mas quando há falhas, é difícil crer que sejam coincidências: só se pode crer que sejam casos de plágio. E as falhas coincidentes encontradas não foram poucas, algumas das quais a sentença menciona:
A Sra. Perita Judicial também verificou a existência de termos não técnicos e absolutamente dispensáveis que foram encontrados exclusivamente nas obras elaboradas por autores e requeridos, comparando com outras obras do gênero: abrasion, annoyance, commotion, (defeat, to), injustice e neophyte (fls. 1571/1572). Nesse ponto esclareceu a Sra. Perita Judicial: A apreciação do Quadro leva a supor que um exame seqüencial da obra dos réus em relação ao do autor Noronha teve em vista a presença de termos não jurídicos presentes exclusivamente nas duas obras (fls. 1571).
As últimas manifestações da Sra. Perita Judicial então trazem a conclusão irrefutável a este Juízo. Descreve inicialmente que deve ser privilegiada a informação a respeito dos dados qualitativos da comparação das obras, ainda que este Juízo tenha utilizado essa informação para abrir esta fase de fundamentação.
Segue, entretanto, relacionando as mesmas falhas de revisão e apresentação dos mesmos termos que “não cumprem seu papel de ordenar as denominações de seus sistemas de conceitos”.
Além disso, “a primeira parte das obras não é um espelho às avessas da segunda parte”, ou seja, os mesmos termos que serviram para a tradução do inglês para o português não foram utilizados para a tradução do português para o inglês. A Sra. Perita Judicial também alerta para a existência de “denotativos” e “lista de falsos cognatos” e “conotativos” “pouco usuais, incomuns ou impróprios em uma obra de referência especificamente jurídica e de finanças, e peculiares exclusivamente às duas obras” (fls. 1582), nesse ponto exemplificando: O termo beleguim consta da seguinte forma: - na obra de Noronha: bailiff’s official; police agente / esses termos não existem no vice-versa – na obra de Pignatari/Faragone: bailiff’s official / no vice-versa existem. A Perita não conhecia o significado do termo e recorreu ao Aurélio Século XXI, que apresenta as seguintes acepções: “agente de polícia; esbirro; galfarro; malsim, mastim, meirinho, quadrilheiro, tira”. A primeira acepção, agente de polícia, consta da seguinte forma: - na obra de Noronha: agentes de polícia – policiman; constable; - na obra de Pignatari/ Faragone: agentes de polícia – policeman; constable. (Negrito da Perita) Nas duas obras verificam-se os mesmos erros: plural em português e singular em inglês. Não consta em nenhuma obra de referência que na língua portuguesa a forma plural seja a usual e, na inglesa, o singular seja a norma. (fls. 1582). Com isso, a Sra. Perita Judicial foi analisando as falhas e constatando a coincidência delas nas duas obras e com exclusividade, eis que seu trabalho se pautou pela análise qualitativa e comparativa (fls. 1582/1586).
Perante um laudo desses, o juiz evidentemente decidiu que se trata de plágio e condenou os réus a recolherem do comércio sua publicação e a mais outras obrigações, além da sucumbência. Sucumbência significa que os réus além de tudo tiveram de fazer um pagamento de honorários aos advogados dos autores, ente outras coisas.
Quem clicar aqui, vai ver que a editora dá o livro por esgotado, o que é um eufemismo dos bons.
Quem sabe, agora, alguém, talvez o próprio Dr. Noronha, aproveita os conselhos da “Senhora Perita” para fazer um bom dicionário jurídico. Ou, melhor ainda, contrata os serviços de um lexicógrafo profissional para fazer as tarefas que lhe cabem.
Há males que vêm para bem, ou, ao menos, podem vir.
Por hoje, é só. Espero você no sábado de tarde, na Reunião na Sala 7, que é a distância e grátis.