Mudamos para www.tradutorprofissional.com

Mostrando postagens com marcador preço de tradução. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador preço de tradução. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Causo Relampo

Um casinho relâmpago, só para não dizer que não postei nada hoje.

Rapaz pergunta se eu posso fazer uma revisão técnica de uma tradução dele e quanto cobraria pelo serviço. Cotei meu preço. Ficou furioso: "É mais do que eu vou ganhar pela tradução!"

Quem mandou cobrar pouco?

Tradutor reclama que ganha pouco e, quando subcontrata serviço para outro, acha que o outro deve cobrar menos ainda. Querem "preço especial para colega". Não faço e pronto. Minha posição: o cliente que quiser o meu serviço, tem que pagar o meu preço. Se eu fizer um "preço camarada" para um colega poder cobrar baixo e ainda ganhar algum, indiretamente estou vendendo o meu serviço ao cliente por preço baixo.

Faz sentido?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Um Pouco mais sobre Preços

De vez em frequentemente, alguém me pergunta quanto cobrar. Desculpe, mas essa é uma pergunta à qual não respondo. Até já disse quanto cobrava; quanto os outros devem cobrar, eu não digo. Se você está querendo saber quanto deve cobrar, dê uma olhada na tabela do SINTRA.

A tabela do SINTRA está acima da média do mercado e, por exemplo, nenhuma agência vai pagar aqueles valores. Por outro lado, as agências têm suas próprias tabelas e vão dizer a você direitinho quanto pagam. Sempre se pode tentar negociar um preço melhor, mas nem sempre se consegue alguma coisa. As melhores editoras e os clientes diretos estão chegando cada vez mais perto da tabela do SINTRA. Cabe a você decidir quanto vai cotar por seu trabalho.

O problema principal, e eu já disse isso aqui mil vezes, é cotar com firmeza. Nada de dizer Bom, sabe como é, a turma aí está cobrando 10, mas a gente procura não cobrar tanto… Isso não é coisa de profissional. Profissional diz, calma mas firmemente, eu cobro X por palavra. Se o cliente pedir desconto, a melhor resposta é é o preço que eu cobro de todos os clientes, não faria sentido cobrar menos do senhor.

Sempre deixe as coisas muito bem claras e por escrito. Muitos clientes mandam um pedido ou ordem de serviço para seus fornecedores. Se receber um destes, leia atentamente e releia mais atentamente ainda, antes de começar e peça uma emenda escrita se estiver algo errado. Não adianta o cliente dizer ah, desculpe, erro de preenchimento, a gente dá um jeito. Na hora do vamos ver, vale o que está escrito e você se ferra.

Se o cliente não mandar pedido nem ordem de serviço, mande um e-mail dizendo mais ou menos: A tradução de tal coisa vai custar tanto para ser pago no dia tal. O prazo de entrega é de tantos dias a contar do recebimento de um e-mail confirmando a aceitação desta proposta. E especifique se você vai dar nota fiscal de pessoa jurídica ou RPA, para evitar problemas posteriores.

Cuidado, muito cuidado, com o cliente que te telefona e diz que a proposta está aceita, mas que o e-mail vai só amanhã. Dá menos trabalho enviar um e-mail do que fazer um telefonema e há uma grande probabilidade de que esse cliente meramente queira fugir à aprovação por e-mail, que vale como prova em juízo.

Agora, vamos mudar de assunto um pouco, por favor. Outra hora a gente volta a falar em preços.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Mais preços

Escreve o Rolim

Eu cobro mais barato que qualquer um aqui na minha cidade, Belém do Pará. Tão barato que chega a ser ridículo, porque não cobro por palavras, toques, laudas... cobro por empreitada. Aliás, eu não cobro, a agência diz o que tem de dinheiro e paga. Acontece que o cliente aqui, por mais rica que seja sua empresa, não está acostumado a pagar grandes serviços de tradução e pensa que a coisa é fácil e por isso, barata. As duas agências para as quais trabalho já me ligam com o seguinte discurso: “Rolim, temos um book do Grupo Fulano de Tal, de 150 'páginas' e temos X reais pra pagar o serviço. Tu fazes em 10 dias?”. Se eu não o fizer, alguém o fará, e o fará mal feito, sem revisão, e às vezes usando a ferramenta de tradução automática online (os três juramentados que aqui residem cobram zilhões e poucos os procuram). Seriíssimo, mas acontece muito aqui em Belém nos materiais do Governo do Estado, Prefeitura, entre outros. Cruel, mas preciso pagar minhas contas. 80% dos meus serviços são por empreitada, sempre saio perdendo e muito chateado. Mas não posso abrir mão dos parcos serviços que aqui aparecem.
Forte abraço. Adoro teu blog.

Oi, Rolim, bom saber que você adora o blogue. Eu também, embora por motivos diferentes.

Tudo o que você diz de sua cidade se aplica ao mundo todo e, no mundo todo, há tradutores que acham que isso é só no cantinho deles. Numa lista britânica, estava todo mundo outro dia reclamando da mesma coisa. Mas há muito serviço mais bem pago, sem dúvida (e você mesmo diz que ninguém aí cobra menos que você, o que comprova minha assertiva). Tem que ir atrás, como vou eu e vão tantos. Ficar pensando que teu mercado é a cidade onde você mora é um dos maiores erros que você pode cometer.

Quanto ao trabalhar por empreitada, também não vejo problema. Me oferecem muito serviço assim. O sujeito diz "tenho tal coisa para traduzir e uma verba de X". Você pode aceitar ou pode fazer uma contraproposta e, se a proposta for ruim demais, simplesmente rejeitar. O jogo de proposta, contraproposta, aceitação ou rejeição faz parte do mundo dos negócios.

Se você aceitar tudo o que te oferecem, pelo preço que te oferecerem, vão ter oferecer cada vez menos para fazer cada vez mais. Quer dizer, muito depende de que tipo de reputação você cria para si próprio. Nenhum cliente vai te oferecer preços bons se souber que você aceita qualquer preço. Nem você, quando cliente, faz isso. Se você for comer num restaurante, não vai dizer "a refeição aqui é barata demais, vou pagar 20% a mais do que a conta que você apresentou".

Curioso como tradutor tem medo de recusar preços baixos. Precisa ter coragem, mas dá um lucro danado. Esse sempre foi um meu maior segredo: dizer "não" com uma enorme tranquilidade. Sem discurso, sem sarcasmo, sem ironia, sem gracinhas. Só um "não, meu preço mínimo para esse serviço é X", educado mas firme.

Ah, por fim, nunca diga que algum dos seus colegas cobra "zilhões". Isso não existe.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Mais preços

A tendência é a gente ficar furioso com os que cobram menos que nós, dizer que aviltam o mercado, que se prostituem e o que mais seja, mas se esquecer de que há também os que cobram mais que nós e que podem estar dizendo o mesmo dos nossos preços. Então, aí vai a historinha — que já contei mil vezes.

Um dia, um grupo de amigos decidiu que ia cobrar o equivalente a 1 OTN por lauda. Uma história muito velha, como você pode ver, porque a OTN desapareceu há quase vinte anos e eu ainda cobrava por lauda. Mas ainda vale.

Tempos depois, fui convidado para uma mesa redonda, onde uma colega verberou com palavras duras a turma que cobrava pouco. Ela cobrava não me lembro lá quanto e reclamava de ter perdido serviço para quem cobrava preços inferiores. Só faltou xingar a mãe de quem cobrava menos que ela. No auge da revolta contra os que aviltavam a nobre profissão de tradutor, voltou-se para mim e disparou "quanto você cobra". Foi a minha vez de me divertir: "Eu e mais fulano, beltrano e sicrano combinamos de jamais cobrar menos de uma OTN por lauda. O mercado está aceitando bem."

Saia justa total, porque o preço era bem superior ao que a colega tinha cotado. Como fica? A colega retrucou com uma série de sarcasmos, chegando a insinuar que eu mentia e justificou seu preço com não sei quantas razões, desde "não esfolar o cliente" até "o valor justo".

Não, não estava mentindo. Mas também não reagi. Seria bobagem: era a minha palavra contra a dela e cada um que acredite em quem quiser. Podia ser diferente: não duvido nada que haja quem cobre mais do que eu e poderia ser eu o cobra-pouco da mesa.

Fica a lição: quem execra os que cobram menos, tem que estar preparado para se justificar os que cobram mais.

Por hoje é só. Acho que amanhã tem mais.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Preços


Recebo várias mensagens de colegas falando sobre preços, alguns falando em aviltamento, prostituição e quejandos; outros tantos falando em preço justo. Alguns até me condenando por não falar o suficiente sobre o assunto. Mas não é verdade, porque tem até um marcado aí do lado "preço de tradução".

Parece que alguns gostariam que eu dissesse "o preço justo para uma tradução é X, pagar menos que isso é exploração, aceitar menos que isso é aviltamento".

Sinto muito, não vou dizer. Posso dizer quanto eu cobro: no Brasil, meu piso é R$ 0,30 por palavra do original; no exterior, o piso é US$ 0,15, também por palavra do original. São valores altos, cobrados por tradutores experientes. Isso significa que, no Brasil, nenhuma agência trabalha comigo e que, no exterior, só umas poucas agências e clientes diretos me contratam. Por outro lado, tenho clientes que oferecem US$ 0,17 por palavra do original.

Desde agosto do ano passado, a Kelli revisa minhas traduções e é paga do meu bolso. Por incrível que possa parecer, revisar o próprio serviço custa mais caro do que pagar uma revisora. Fazer uma revisão decente de seu próprio trabalho toma um tempo danado e eu ganho mais traduzindo. Aliás, do ponto de vista estritamente técnico, ninguém deveria revisar seu próprio serviço e, antes da Kelli, quem revisava meu trabalho era minha mulher.

Ter uma revisora também aumenta minha capacidade para lidar com serviços de urgência: mais de uma vez, entre eu terminar a minuta de uma tradução de 50.000 palavras e entregarmos o serviço completo e revisto, preciso menos de uma hora, porque vou passando o serviço para a Kelli aos pedacinhos e ela está sempre nos meus calcanhares.

Antes que me esqueça, esses são valores para serviço de tradução do inglês para o português. Nestes tempos de hoje, raramente traduzo para o inglês.

Acho que amanhã volto ao assunto. Tenho uma história divertida para contar, mas é longa demais para hoje.

domingo, 3 de maio de 2009

Artigo na revista Época

A revista Época 472, 4 de maio de 2009, traz na página 134, um artigo sobre tradução, com direito a palpite do meu particular amigo Renato Beninatto, fundador da lista trad-prt. Vale a pena ler.

O artigo difere do usual, porque se concentra na aplicação tecnologia, assunto que interessa a todos nós.

Começa com algumas informações genéricas, já conhecidas de todos nós. Mas na terceira coluna, aparece uma informação interessante, falando de tradução de manuais de instruções, contratos de negócios, vídeos institucionais, quer dizer, do mercado onde opera a maioria de nós, o exército oculto, cujo nome raramente aparece nos jornais. Diz lá que essa é a maior fatia do mercado (o que eu venho dizendo aqui desde que comecei esta lengalenga de blogue, quem sabe agora que saiu na revista, acreditam em mim) e que, no último trimestre, cresceu 85% em relação ao mesmo período do ano anterior. 

Entendeu? Com crise e tal, cresceu 85%! E vem o diabo da agência chorar que, com a crise, falta serviço e é necessário cortar nossa paga. A All Tasks espera vender R$ 7 milhões este ano. Deus que os ajude e não se esqueça de mim, como dizia minha mãe.

Lá pelas tantas,  Sávio Levi, diretor de operações da Lionbridge no Brasil, afirma “O principal desafio no Brasil hoje é encontrar mão de obra qualificada. Em 120 testes que fizemos no ano passado, aprovamos menos de 10% das pessoas” . Isso é uma afronta à categoria, um insulto. Perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado. Tradutor bom é o que não falta. O que falta é agência disposta a pagar bem. Paguem melhor que chove gente boa. Conheço muito tradutor bom que se recusa a trabalhar para as agências brasileiras, porque encontrou clientes diretos aqui e agências lá fora que estão dispostos a pagar mais. A isso se chama concorrência. As agências concorrem pelo nosso trabalho e fica com ele quem mais paga. Só isso.

Tem um trecho com um tanto de baguncinha intelectual quanto ao uso de ferramentas de tradução. Não sei se proposital ou o simples fruto da tentativa de comprimir o máximo de informações em um espaço insuficiente.

Fiz várias experiências, muitíssimo bem-sucedidas, combinando WF, um poderoso glossário e Google Translate. Fiz com inglês, mas deve funcionar com outras línguas. Mas funciona assim: O WF abre um segmento (quer dizer, um período), procura na memória, se não encontrar nada, pede para o Google Translate, e eu reviso o segmento, com apoio do meu super glossário. Quando está direitinho, eu aprovo o segmento e vamos em frente. Fica, realmente bom e é rápido. Se mandar para um revisor, ele jamais vai saber que eu usei o G-Translate como apoio.

Mas mandar o G-Translate traduzir a meleca toda e mandar para o revisor não dá, porque sai esta meleca. Revisar essa porcaria é impossivel: tem de fazer de novo. Por favor, não me venham de borzeguins ao leito.

O último parágrafo  me parece bobagem pura. Aliás, já temos gente boa fazendo tradução literária usando WF + Google Translate e satisfeita com o resultado. Mas vai demorar até a turma se dar conta disso.  Claro, precisa revisar — mas toda tradução automática precisa de revisão cuidadosa. 

O fato é que tradutor costuma ter pavor de tecnologia e essa é uma das maiores falhas da profissão. Não tem que ter medo, tem que aprender a usar, tem que dominar. Não dar uma de avestruz. Tem que aprender a usar e ser melhor que a ferramenta. Essa é a realidade.  Veja que, com toda a tralha que a All Tasks tem, a dona se queixa da falta de mão-de-obra. Quer dizer, ainda somos nós a chave do problema, o fator escasso. 

__________________________

Este artigo foi alterado para agregar as contribuições de dois leitores, um que me mandou um link que funcionava para a reportagem e outro que corrigiu um erro de atribuição. A ambos, nossos agradecimentos. Um blogue se faz de muita coisa, inclusive de leitores atentos e dispostos a colaborar.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Desaforo!

A história é antiga, mas acho que não contei aqui, ainda. Liga um possível cliente, pede cotação. Dei a cotação e, claro, ele já foi pedindo um desconto: já tinham feito a tradução uma vez, tinha ficado ruim e eles estavam refazendo e, evidentemente, não podiam pagar duas vezes pelo mesmo serviço.

Houve um tempo em que eu era bem mais irridatidiço do que ainda sou hoje e tive uma vontade quase irresistível de dizer ao cliente exatamente o que eu achava que ele devia fazer com a tradução. Mas "quase", significa que a tentação não era irresistível e eu resisti.

Hoje em dia, simplesmente diria que meu preço era aquele e acabou a história. Naquela época, ainda argumentava com cliente, era fã das "respostas merecidas". Não me lembro exatamente das palavras que usei no momento, mas foi algo mais ou menos assim: alguém na sua organização contratou um tradutor incompetente, o que, em si, é prova de incompetência. O tradutor incompetente foi pago pela tradução inútil, o incompetente que contratou o incompetente recebeu o seu salário e você ainda quer que eu pague o pato?

Meu interlocutor não gostou muito da resposta, entre outras coisas porque provavelmente tinha sido ele o incompetente que escolheu o tradutor incompetente, mas acabou me encarregando do serviço.

Uma variante dessa mesma história é a solicitação de "uma olhadinha" numa tradução que já está feita, mas alguém achou umas "coisinhas". Não existe "uma olhadinha". Existem traduções e revisões.

"Olhadinha" é mais uma daquelas tentativas desaforadas de minimizar o valor do nosso serviço para justificar uma redução no pagamento. Já me aconteceu uma vez, também, e cotei um preço para a revisão e outro, vinte por cento mais baixo, para retraduzir tudo.

Nada disso importa, entretanto. Mesmo que não tivesse dado aquelas respostas, mesmo que eu não tivesse ficado com o serviço, mesmo que as histórias tivessem sido inventadas, não faria diferença para o objetivo deste artigo. O objetivo aqui é conscientizar você de que não tem obrigação de pagar pelos erros dos outros. Pague pelos seus, e já basta.

Desaforo, isso de quererem que a gente pague pelos erros dos outros — até mesmo se a gente ganhasse muito. Você não acha?

sábado, 24 de janeiro de 2009

E essa tal de crise, heim? (continuação)

O problema maior de qualquer crise não é econômico, mas sim emocional. A gente tende a se apavorar e se limitar a reduzir preços, o que é um erro. Em crises, muitas vezes é necessário aceitar serviço a preços mais baixos, até porque a demanda pelos nossos serviços cai e aumenta muito a quantidade de gente querendo traduzir. Entretanto, achar que a solução é cortar os preços é de uma ingenuidade triste.

Quando consultado sobre preços, jamais diga "Ah, bom, eu estava cobrando dez, mas sabe, a crise anda feia e tive que baixar para oito". Isso é uma demonstração clara de que as coisas andam mal para o seu lado e onze entre cada dez clientes, ao ouvir uma afirmação dessas, vão tentar chupar o teu sangue por canudinho.

Se o cliente perguntar como você anda de serviço, lembre que nada obriga você a dar essa informação. Quanto você tem de serviço, quanto trabalha, quanto ganha, são dados confidenciais. Já chega o leão, que fica futricando a nossa vida. Não se pode responder com um ressonante "não é de sua conta", lamentavelmente. Se você for do tipo gozador, pode sair com uma brincadeira qualquer, do tipo "não seja curioso", "é confidencial", "quê? Detetive, você, agora?" ou coisa que o valha. Se não for, ou se o relacionamento com o seu cliente for mais formal, cite o último serviço bom que você fez — mas não vá dizer "bom, há três meses recebi uma lauda e meia de uma agência aí, mas ainda nem conseguir receber". Enfim, você me entende.

Logo volto ao assunto, mas por hoje é só.

Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

E essa crise, heim?

Pois é, está todo mundo preocupado, não? Já passei por muitas crises, mas esta aqui parece que vai ser mais braba do que as outras. Como trabalho basicamente com finanças, estou mais bem informado que a média — e estou de cabelo em pé.

Até um agnóstico empedernido como eu sabe que o futuro a Deus pertence, mas tem uma que outra coisa que a gente pode ir esperando.

O volume de serviço deve cair verticalmente. Quem tinha muito serviço, vai ter um fluxo médio, quem tinha médio vai ter pouco. Quem já tinha pouco pode ficar sem nada.

Caindo o volume, cai o preço. Vai ficar cada vez mais difícil cobrar "Tabela do SINTRA". Até aí, tudo bem. Mas a turma que trabalha para aquelas editoras e agências que pagam entre uma miséria e quase nada por palavra e ainda atrasam o pagamento vai ter que tomar uma atitude, porque chega a um ponto em que não vale a pena mais trabalhar — se é que ainda vale trabalhar para essa gente. Mas tem um limite, sim, e conheço vários colegas que estão nesse limite, embora nem todos tenham percebido.

Quer dizer, trabalhar menos a preço mais baixo. O bicho vai comer.

Pior são os aproveitadores. A crise mal estava se iniciando e já tinha agência chorando lágrimas de crocodilo, pedindo descontos e favores absolutamente sem necessidade, jogando com o nosso medo. Vai ter muito disso, sempre tem.

As piores são as agências que vivem de subcontratar serviço no exterior. Sabe como funciona, não? A Empresa X, lá fora, precisa de uma tradução para o português. Encontram três agências que traduzem "from Afrikaans to Zulu" e leiloam a tradução entre elas. Leiloam, porque não entendem uma palavra de português e, portanto, como critério de escolha, só têm o preço. Ganha a Alpha International, que funciona no fundo do quintal de um aventureiro qualquer, mas tem um site bonito. A Alpha Internacional então leiloa o serviço entre várias agências brasileiras, porque, na verdade, nunca tiveram um tradutor de português nos seus cadastros. Como não sabem nada de português, o critério único é o preço. Ganha a Agência Beta Brasil, que, então distribui o trabalho entre seus tradutores. Quer dizer, ao pegar o serviço da Beta Brasil, você é vítima de dois leilões reversos.

O assunto é fascinante, mas tenho que ficar por aqui. Volto a ele no próximo artigo, que deve aparecer no sábado.

Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Me dá um desconto aí!

Acontece a toda hora: liga o cliente e oferece um serviço por um preço muito baixo. O cliente tem mil alegações em apoio à pretensão de desconto. Só para ilustrar, aqui vão algumas, que ouvi de agências:
  • Tivemos de dar um desconto ao cliente final;

  • Atuamos no mercado XXXX, onde os preços são mesmo menores;

  • Foi uma concorrência brutal, contra fulano e beltrano, que, sabidamente, cobram pouco e tivemos de cobrar ainda menos para ganhar;

  • O trabalho já tinha sido feito uma vez, por outro tradutor, ficou mal feito e não podemos cobrar do cliente duas traduções, estamos, inclusive, absorvendo um prejuízo;
Nada disso é relevante. Agência tem a mania de querer descarregar nos nossos ombros as besteiras que fez. Às vezes, nem fez besteira alguma, está cobrando seu preço normal, mas inventa alguma desgraça, para ver se chora um descontinho.

Aceitar ou não aceitar, eis a questão! Claro que, se você está com a corda no pescoço, qualquer cinco milréis é dinheiro e eu já fiz mais de um serviço a meia-paga.

Por outro lado, se você for aceitar, pode ter certeza de que o mesmo cliente vai voltar com outro pedido de desconto: a concessão de um desconto sempre gera mais pedidos de descontos. É quase impossível migrar de meia-paga para remuneração integral, não importa qual seja o cliente.

O cliente pode até jurar que é só esta vezinha que ele vai pedir desconto e que vai haver muito mais serviço com remuneração normal e mais mil coisas, mas não demora vem outra choradinha. Se você concedeu desconto uma vez, não importa qual seja a alegação feita pelo cliente, na próxima vez ele vai lembrar que você deu o desconto e não se esquecer de pedir outro. E lá começa o chororô de novo.

Só para evitar choradeiras futuras, já vale dizer que não. Mas, como já insisti aqui mais de uma vez, tem de ser um não firme e educado.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

De tradutores e macacos

Mais uma vez, ontem, um colega usou, numa das listas, a expressão if you offer peanuts, you attract monkeys. Pode ser muito bonitinha, mas eu acho uma grosseria sem fim.

Eu cobro caro e o meu piso, para clientes nacionais, é a tabela do SINTRA. No exterior, ainda tenho clientes que me pagam USD 0.12 por palavra, mas é a minoria. Meu preço atualmente é USD 0,15. Acho um absurdo aceitar R$ 0,03 por palavra, como muitos colegas dizem que aceitam. Mas me recuso a classificar esse pessoal de macacos. Desculpem, mas me recuso. E, por favor, não me venham com a graçola de dizer que é para não ofender os macacos. É por achar muita falta de bons modos, mesmo.

Mais de uma vez aqui recomendei que se dissesse não às propostas com preços muito baixos e continuo recomendando. Acho que é necessário ter a coragem de dizer que não, a coragem de recusar. Mas me recuso a chamar de macaco quem não tem essa coragem. Já tive fome e a fome erodiu minha coragem, acabei dizendo sim para serviços a preços vilérrimos. Faz tempo e, com inflação e taxas de câmbio que sobem e descem, não posso dizer se os preços mais baixos que já aceitei são superiores ou inferiores aos três centavos de dólar discutidos naquela mensagem.

Se você nunca passou por isso, não sabe como é horrível, o ronco no estômago vazio. Mas também pode servir de vacina contra a arrogância, algo que não faz mal para ninguém.

Temos um colega que tem uma fonte de renda alternativa e se aproveita disso para jamais aceitar preços baixos: fome, ele não passa. Sorte dele e bom que ele use essa fonte de renda para recusar serviços a preço baixo e, dessa maneira, ajudar todos nós a cobrar mais. Porém erra ao escarnecer de quem não conta com essa vantagem e, na hora do sufoco, precisa se vender barato. Soberbia é sempre um defeito.

O colega que está aceitando serviços por preço muito baixo precisa de ajuda e orientação, não de ser chamado de macaco. Não estou defendendo a cobrança de preços baixos: estou defendendo o respeito aos coelgas.

Para terminar, deixe que eu conte uma historinha, que já contei mil vezes. Numa mesa redonda de tradutores, uma das colegas se eximia em falar cobras e lagartos de quem cobrava menos que ela. Macacos, aviltavam preços, traidores da categoria, desprovidos de profissionalismo, incompetentes, o diabo. Dado momento, voltou-se para mim e perguntou quanto eu cobrava. Respondi. Na época, era cerca de 40% a mais do que a tabela dela. O constrangimento foi geral e tão denso que dava para cortar com uma faca.

Moral da história: não chame macaco a quem cobra menos que você: sempre haverá alguém para quem o seu preço possa ser "de macaco".

E por hoje é só.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Estou sendo explorada?

Uma colega me faz essa pergunta. Conta que tem um grau de doutora e, por qualquer motivo, resolveu se dedicar à tradução em vez de à profissão em que se havia doutorado. Diz que recebe entre R$ 0,03 e R$ 0,04 por palavra da agência para que trabalha.

Pergunta se está sendo explorada.

Não gosto da palavra explorada neste sentido e não vou mais usar aqui. Mas sempre há algumas coisas que posso dizer à colega.

Comecemos dizendo que o fato de ela ser doutora não diz nada sobre a qualidade de sua tradução. Tradução é como pudim: precisa provar para saber se está bom - e eu não vi a tradução dela. Aliás, nem tenho como ver.

Por outro lado, a faixa citada é a mais baixa que as agências pagam. Portanto, se você está nessa faixa, ou precisa melhorar a qualidade de sua tradução ou procurar clientes que paguem melhor.

Resposts Mal-educadas


Já faz tempo, pelo menos em termos de Internet. No dia 7 de junho de 2004, acordei com espírito de porco e postei o texto abaixo, em inglês, na TCR-D uma lista de discussão internacional. O texto andou por aí, de seca em Meca e, hoje de manhã, uma amiga me avisou que tinha sido repostado em uma lista espanhola. Eu tinha completamente perdido o texto e fiquei satisfeito de recuperar, por cortesia dela. É uma série de respostas mal-educadas que eu usei em um outro momento da minha vida profissional. O LSD$ é uma moeda imaginária, o Lower Slobovian Dinar, ou Dinar da Baixa Eslobóvia, que eu inventei para não ter que dar preços reais. Espero que você goste das historinhas.

–O que você faz?
–Sou tradutor.
–É mesmo? Bacana, mas eu queria saber o que você faz para viver.
–Você quer dizer trabalhar? Eu não trabalho. Ganho tanto dinheiro com as traduções, que não preciso trabalhar.

–Dá para fazer esta tradução em três dias? Estou com uma pressa danada.
–Claro.
–Quando vai custar?
–LSD$ 1500.
–Não é demais para três dias de trabalho?
–Posso fazer em uma semana, se você preferir.

–Dá para fazer um precinho mais camarada para a gente?
–Por quê?

–Você ganha mais que eu!
–É mesmo? Então, porque você não vira tradutor?

–Temos uma cotação mais razoável para este pedido. Tem muito tradutor disposto a pegar o serviço a taxas mais razoáveis.
–Tem sim. Mas também tem muito cliente disposto a pagar a taxa que eu cotei.

–Temos uma cotação uns bons vinte por cento mais baixa que a sua.
–… [Silêncio]
–Oi! –Eu disse que temos uma cotação uns bons vinte por cento mais baixa que a sua.
–Sim, eu ouvi.
–E o que você me diz disso?
–Nada.

[para um cliente estrangeiro]
–Qual é sua menor taxa? –LSD$ X.
–Taxa muito alta para o Brasil.
–Sim, eu sei disso. É bem por isso que eu não trabalho para clientes brasileiros. Eu só vivo no Brasil, mas não trabalho aqui. O melhor dos dois mundos, sabe? Viver no Brasil, trabalhar no exterior.

–Qual é sua menor taxa?
–LSD$ X.
–Santo Deus, como é que você chegou a esse valor astronômico?
–Oferta e demanda.

–Qual é sua menor taxa?
–LSD$ X.
–Tudo isso por uma folha de papel?
–Não, o papel é grátis. É simplesmente a embalagem da tradução. O preço é pelo trabalho de pôr as palavras no papel.

–Os espaços não se traduzem, Por isso, a gente não paga os espaços.
–Muito bom. Vou entregar a tradução sem espaços.

–Conheço uma pessoa que cobra menos que você.
–E eu conheço muita gente que cobra menos que eu.
–Eles são bons tradutores?
–Não faço idéia. Nunca vi o trabalho deles.
–Tá bom, eu conheço um tradutor muito bom que cobra menos que você.
–Então, você tem o problema de decidir quem vai fazer a sua tradução.

–Fulano cobra menos do que isso.
–Você está falando comigo, agora.

–Você ficou maluco!
–Sim, sei disso. Meu psiquiatra cobra uma fábula. Por isso que minhas taxas são tão altas.

–Lamento muito, mas LSD 0,0001 por palavra é o máximo que podemos oferecer. É um projeto muito grande. Estamos fazendo uma proposta para 25 línguas.
–Minha proposta é só para português.

–Lamento muito, mas LSD 0,0001 por palavra é o máximo que podemos oferecer. Vamos ter prejuízo com este projeto.
–Fala comigo quando conseguir um contrato lucrativo.

–Vai ter mais trabalho no futuro.
–Então, vai se acostumando com o preço.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Preço de microsserviço

Suspendo a interminável série sobre achação de serviço para responder uma mensagenzinha.
Tenho uma dúvida que é a seguinte: me ofereceram um trabalho onde eu tinha que traduzir 3 frases que eram textos de rótulos de produtos do tipo: leve "X" produto e ganhe uma "mochila". A tradução, além de técnica, exigia uma adaptação pois era do português para um idioma estrangeiro, e no idioma estrangeiro a frase tinha outra estrutura. A agencia me ofereceu R$ 0,10 (dez centavos de real) por palavra com um total de 70 palavras(+/-), ou seja, eu receberia 7 reais pelo trabalho.

Gostaria de saber quanto um profissional cobra por esse tipo de trabalho e se a agencia ofereceu um valor justo.
Não é possível determinar um valor justo para serviço algum. Quer dizer, não há como eu possa dizer, baseado, nos dados que você me dá ou em quaisquer outros, considerando isto e aquilo, o que deveria ser pago. O que se pode falar é se o valor pago está de acordo com o mercado. Isso, na melhor das hipóteses, porque os preços no nosso mercado variam muito e o que está "dentro do mercado" para Alfa, pode estar "fora do mercado" para Beta.

Minha experiência é que, tirando fora os casos realmente extremos, a proporção entre os que cobram mais e os que cobram menos chega a dez para um, situação que leva a muito azedume sempre que a gente se põe a discutir essas coisas. Não há um procedimento padrão e, evidentemente, que paga luta por paga o mínimo, quem cobra luta por cobrar o máximo.

Dez centavos de real por palavra, preço de agência brasileira, para traduzir para uma língua estrangeira, não está de todo mau e tem gente ganhando bem menos que isso. A tradução para uma língua estrangeira, normalmente chamada versão é paga a uma taxa superior à da tradução para o português, mas a minha experiência é que não vale a pena, porque, se sua língua nativa for o português, dá uma trabalheira de todos os diabos. Além de que pouquíssima gente faz "versão" que preste – mas isso é outro problema.

O problema é o ser um microsserviço. A praxe do mercado é usar uma taxa mínima para essas coisas. Menos do isso, independentemente do trabalho que a tradução der, não cobre o trabalho de discutir o serviço, cobrar, emitir nota e quetais. Os clientes detestam e procuram sempre negociar essa taxa. Há tempos não tenho microsserviços no Brasil e, portanto, nem tenho taxa mínima em real. Mas diria que, algo em torno de R$ 50 – 75 seria de bom tamanho. Ou seja, se o cliente mandar uma frase de dez palavras, são R$ 50 e pronto. É também um meio de coibir abusos, o cliente que te pega meia hora no telefone para mandar um serviço de dez reais.

Entretanto, quando se trata de um cliente que manda montes de serviço, a gente às vezes nem cobra uma coisa dessas. Quer dizer, cada caso é um caso.

Pelo que me diz a missivista, o texto talvez seja de natureza publicitária e esses textos são dificílimos de traduzir, não importa para qual língua. O pessoal de criação da agência de publicidade fica um mês para bolar uma frase, cobra um preço condizente com o tempo gasto, mas se espera que o tradutor ache o equivalente em outra língua em menos de um minuto e cobre cinco reais pelo serviço.

Uma vez, eu estava no escritório de uma agência e ligaram da Secretaria do Governo do Estado do Paraná, pedindo uma traduçãozinha rapidinha, só três palavrinhas. Quando o dono da agência fez pé firme, sustentando que precisaria de pelo menos um dia para traduzir aquilo e cotou um preço condizente com um dia de trabalho de um tradutor, desistiram. Ainda bem, porque a frase – não me esqueço – era o slogan do governo do Paraná, na época: Paraná: aqui se trabalha.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Vale a pena trabalhar direito a 3 centavos por palavra?

Uma tradutora conhecida minha disse que quando pegava serviço mal pago, picaretava. Como justificativa, afirmava que não valia a pena trabalhar direito a 3 centavos por palavra.

Complicado, isso. Faz lembrar da história daquele cozinheiro de restaurante que, por ser mal pago, cuspia na comida. O dono continuava pagando pouco, o cozinheiro continuava recebendo pouco: quer dizer, não adiantava nada. Mas o infeliz que comia no restaurante, coitado, que não tinha nada que ver com o peixe, comia comida com cuspe. E quem come a nossa comida não é nem a agência nem o cliente da agência, mas sim o leitor. Quer dizer, pagam os inocentes pelos pecadores.

Entendo a posição dela – e que dá vontade de dar uma bela duma picaretada na tradução, lá isso dá. Mas, independentemente do problema ético, vem lá um problema estratégico.

Minha estratégia é diferente: faço uma força enorme para conseguir mais um tostão por palavra mas e, muitas vezes, recuso o serviço porque acho o preço baixo demais. Porém, quando aceito, faço sempre o melhor que posso.

A maioria (quer dizer, muitas mas não todas) as agências não está muito disposta a pagar um tostão a mais por qualidade, mas, mantido o preço, procuram primeiro quem possa fazer no prazo e, em seguida, quem tenha a melhor qualidade. No quesito prazo, a gente nunca sabe. Hoje você pode atender, amanhã talvez não possa. Então nem é bom pensar.

Se puder, certamente, a agência vai preferir o melhor tradutor disponível –mantido o preço. Quer dizer, num primeiro momento, trabalhar bem granjeia mais serviço. E, claro, mas convites para próximos serviços. E assim, aos poucos, você enche o seu tempo todo. E aí chega a hora de recusar serviço com preços menores, ou dos que demoram para pagar, ou dos que são chatos demais da conta. E, claro, quando surgir algum serviço que exija mais responsabilidade e pague mais, vão procurar quem?

Nunca esqueça que, quem avalia uma tradução jamais leva em conta o quanto foi pago. O cliente não diz, essa infeliz recebeu três centavos por palavra, o que você esperava? Diz quem foi a irresponsável que fez esse serviço porco? Nós pagamos isso?

Para finalizar, eu acho que cuspir na comida é coisa de porco, mesmo. Tem dó! Coisa nojenta!




terça-feira, 29 de abril de 2008

Existe tabela de preços para tradução?

Hoje vou trabalhar para o inimigo. Escreveu ontem a Ana Paula, que é cliente (não minha), quer dizer, compradora de traduções, e pergunta como é que funciona essa coisa de preço, porque um tradutor falou a ela em tabela obrigatória, o que foi uma surpresa, porque outro tradutor não falou em tabela alguma e cada um cobra um preço e tal. A mensagem dela é longa e não vou colar aqui. Só vou dar uma resposta.

Existe uma tabela obrigatória em cada Estado, estabelecida pela Junta Comercial do respectivo Estado e aplicável exclusivamente às traduções juramentadas. Tradução juramentada só quem pode fazer é TPIC. Se não sabe o que é TPIC, clique aqui. Fora disso, os preços são livres.

O TPIC também pode fazer traduções não juramentadas, que eles chamam traduções livres, um nome que não me agrada, mas isso é outra história. As "traduções livres" feitas pelos TPICS não estão sujeitas a tabela alguma, mas eles tendem a cobrar todas as traduções pelo mesmo preço, o que é direito deles. As tabelas das diversas juntas estaduais diferem e são atualizadas muito irregularmente, segundo princípios e critérios que provavelmente ninguém entende.

Existe uma tabela do SINTRA, o Sindicato Nacional dos Tradutores, que é algo confusa e serve como referencial para muitos profissionais, mas não é obrigatória: segue quem quer – e quem pode.

Os preços, na realidade, variam enormemente. O mínimo dos absolutamente mínimos, que eu saiba, é de R$ 0,03 por palavra do original para tradução de língua estrangeira ao português e R$ 0,06 para tradução do português a uma língua estrangeira, preço de fome pago pelas agências mais muquiranas e miseráveis. Haverá, quem sabe, quem menos ainda pague. Viver com esse pagamento não chega a ser fácil, digamos assim.

Os profissionais mais tarimbados cobram muito mais. Meu piso, atualmente, é R$ 0,25 por palavra do original, para traduções do inglês para o português, por exemplo. Coincidentemente, o mesmo que consta na tabela do Sindicato. Entretanto, já cobrei mais ou menos que a tabela do Sindicato. Deve haver quem cobre mais.

Vale a pena pagar R$ 0,25 por palavra ou até mais, quando se encontra gente disposta a cobrar um oitavo desse valor? Boa pergunta! Meus clientes acham que sim, mas tem quem ache revoltante pagar tudo isso por uma simples tradução, quando tem muita gente com preços mais em conta. Na verdade, se a tradução de três centavos satisfaz, pagar mais que isso é desperdício. Agora, precisa ver se o cliente entende do riscado o suficiente para poder avaliar a qualidade de uma tradução. Deixa terminar com uma historinha interessante.

Um escritório de advocacia aqui de São Paulo, membro de uma rede internacional, recebeu uma carta-consulta de um cliente estrangeiro. Ficaram todos satisfeitos, claro. Prepararam uma resposta a capricho, toda enfeitada como é hábito dos advogados, e mandaram traduzir. Leram a tradução recebida palavra por palavra. Acharam uma maravilha. Não que estivesse boa, mas é que, para os olhos tupiniquins dos advogados do escritório, de português baço e inglês ralo, o Tupiniquinglish da tradução parecia de uma transparência e precisão totais: uma verdadeira perfeição tradutória. Para eles, evidentemente, quanto mais Tupiniquinglish, mas bonito ficava. Mandaram para o cliente, com casca e tudo. Mas o fato é que o cliente era inglês e ninguém lá entendia Tupiniquinglish muito bem. Dois dias depois, receberam um e-mail que dizia, simplesmente: Please, find another translator. Thank you.

Ainda bem que o advogado que recebeu o e-mail sabia algum inglês e não precisou mandar traduzir o e-mail: ia ser a maior saia justa para o coitado que tinha traduzido o engrimanço para o inglês.

Amanhã, conto uma outra historinha divertida, mas de tradução do inglês para o português. Este artigo já está longo demais.

Obrigado pela visita.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Especialização

Um dos modos de ganhar mais é especializar-se. O especialista ganha mais por dois motivos: primeiro porque tem de fazer menos pesquisa; segundo, por ser mais bem remunerado, puxando os preços para cima. Das "puxadas", falei já aqui. Faz menos pesquisa porque os termos e conceitos se repetem; é mais bem remunerado porque se espera que seu produto seja de melhor qualidade, o que pode ser verdade ou não.

Há dois tipos de especialista: os natos e os feitos. Os especialistas natos são os que têm uma formação profissional anterior à sua dedicação ao traduzir. Por exemplo, o médico que, depois de aposentado, vira tradutor é um especialista nato em tradução médica. Os especialistas feitos são gente como eu, que acabei virando especialista em finanças mas, quando comecei na profissão, não era capaz de ler um balanço.

O especialista feito é feito pelo mercado. Quer dizer, eu jamais disse vou me especializar em finanças. O que me especializou foram aquelas duas senhoras que mandam na nossa vida, Dona Virtù e Dona Fortuna, das quais aqui falei muitas vezes. Virtù é o que temos em nós próprios, nosso potencial, jeito, talento, dom, esforço, chame como quiser. Fortuna são os fatores externos, as coincidências da vida.

Dona Fortuna me jogou no colo umas coisas de contabilidade e Dona Virtù me ajudou a fazer um serviço decente. Daí veio a reputação de que eu era capaz de dar jeito nessas coisas de contabilidade e, em seguida, vieram outros assuntos correlatos.

O especialista, por outro lado, é um prisioneiro de sua especialização: raramente alguém me oferece alguma coisa fora da minha área de especialização e, quando oferecem, eu recuso. Estou muito bem, aqui no meu canto.

Obrigado pela visita e volte sempre. Abandonei uma porção de coisas que fazia para cuidar melhor deste blog e espero voltar a postar todos os dias. Por falar nisso, você já notou que lá em cima, do seu lado direito, há uma caixinha com o nome pesquisar blog? Serve, evidentemente, para pesquisar nos arquivos anteriores deste blog que já está ficando bem grandinho. É bem possível que a resposta que você procura esteja lá. Se não estiver, pode me escrever fazendo a pergunta que, se eu tiver uma resposta, dou com prazer, aqui no blog, mascarando a sua identidade, para não dar bandeira demais. Se não tiver, paciência.

domingo, 13 de abril de 2008

Vamos continuar a falar de preços? Mais sobre a "puxadinha"

Esta conversa mole toda sobre preços vem daqui onde falo de preços médios e do que chamo a "puxadinha", ação de "puxar" o preço um pouco mais para cima ou para baixo da média do segmento. O Sidney Barros, Jr. deixou um comentário, dizendo a puxadinha em geral era para baixo. Discordo. Se a puxadinha for em geral para baixo, a média em si cai.

Puxa-se para baixo para entrar num mercado e o próprio ato de puxar para baixo clama aos quatro ventos que se tem pouca experiência, que se está sem serviço.

Pior ainda quando o tradutor é veterano. Se você está entrando agora no mercado e aceita um pouco menos que a média, pode estar procurando achar o seu lugar ao sol, oferecendo um incentivo extra ao cliente – seja agência ou não. Entretanto, um sujeito que tem dez anos de carreira na cacunda e aceita trabalhar por menos que a média ou permanece nos mercados "de carregação", precisa dar uma olhadinha mais atenta no seu trabalho como tradutor ou como vendedor do próprio peixe.

À medida que você vai firmando o pé em um determinado segmento do mercado, abandona a puxadinha para baixo. E quando está com o pé realmente firme, com um bom fluxo de serviço, está na hora de puxar para cima, de migrar para um segmento mais bem remunerado ou fazer ambas as coisas ao mesmo tempo.

Aumentar os próprios preços é um ato de coragem. A maioria dos tradutores tem uma visão excessivamente pessimista do mercado e acredita que todo cliente sempre procura o tradutor mais barato e que, portanto, a única maneira de conseguir o serviço é botando o preço lá em baixo. Não é verdade, e espero demonstrar isso amanhã. Por hoje, é só.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Vamos falar de preços?

Neste artigo, que inicia esta série sobre preços e pagamentos, disse que Não existe "preço justo", um preço determinado por uma fórmula matemática regida pela ética. Existe o preço que você e seu cliente combinaram. Essa é a definição jurídica de preço justo: o preço que as partes ajustaram. A definição econômica é o preço normal do mercado.

Normalmente, quem paga acha o preço é excessivamente alto e quem recebe acha excessivamente baixo, mas isso faz parte da vida.

Os preços de tradução são muito dispersos: tem quem receba R$ 0,03 por palavra, tem quem receba € 0,12 – e veja que é uma grande diferença. Menor do que parece, porque geralmente se exige mais de quem ganha mais e, por isso, quem ganha mais produz menos. Mesmo assim, há uma bela diferença.

A dispersão está ligada à segmentação do mercado. Quer dizer, não há um mercado de tradução, há uma infinidade de mercados, cada um com seus preços e suas regras, a maioria não escritas.

A primeira medida a tomar é saber em que segmentos de mercado você se encaixa e com que segmento está lidando. Se você pegar uma agência indiana, não adianta querer cobrar € 0,12 por palavra, porque não vai dar.

Por outro lado, tem o que se chama a "puxadinha": se você quer entrar num determinado segmento, talvez tenha que puxar o preço um pouco para baixo. Por exemplo, se a média for R$ 0,05 por palavra, talvez você tenha que aceitar R$ 4,00 para entrar no mercado.

Isso é absolutamente normal, mas propõe ao menos um problema: como passar dos R$ 4,00 "puxados para baixo" para os R$ 0,05 da média, para os R$ 0,06 "puxados para cima" e, por fim, como passar para um segmento que pague melhor.

Mas disso falamos amanhã.

domingo, 6 de abril de 2008

Preços e pagamentos

Preços e Pagamentos: Melhor Prevenir que Remediar

Este é o primeiro artigo de uma série, que vai ser longa, sobre a remuneração de nosso trabalho. O problema tem dois aspectos, ambos os quais vão ser abordados aqui: quanto cobrar e como evitar a possibilidade de não ser pago. Vou entremear estes artigos com artigos sobre outros assuntos, mas pretendo, publicar ao menos três matérias por semana sobre este assunto. Conto com os comentários e perguntas de vocês todos, para tornar esta série mais útil a todos.

Começo pelo óbvio:

  1. Tudo envolve risco. Toda ação é arriscada e a inação geralmente é mais arriscada ainda.
  2. É melhor prevenir que remediar, ou, para usar um termo mais moderno, é importante ser proativo. Fazer as coisas certo desde o início. O combinado está sempre certo. Fazer tudo por escrito: verba volant, scripta manent, como diziam os romanos.
  3. Se quer ser tratado como profissional, aja como profissional. Profissional (a) age com honestidade e transparência, (b) cumpre o prometido, (c) faz sempre o melhor que pode, (e) não se envergonha de cobrar pelo seu trabalho.
  4. Não existe "preço justo", um preço determinado por uma fórmula matemática regida pela ética. Existe o preço que você e seu cliente combinaram. Não há nada de errado em cotar um preço alto ou mais alto que a média, desde que a cotação seja transparente, desde que o cliente não seja enganado, desde que, na hora de cobrar, você cobre exatamente o que cotou. Cabe ao cliente decidir se que o seu trabalho ou o de outra pessoa que cobre menos.

Amanhã tem mais. Por hoje, chega, que é domingo.