Amanhã, com mais gente de volta ao eito, volto ao ritmo normal, com a primeira análise do segundo “você decide”. Hoje, vou falar deste artigo de outro blogue que me foi apontado pela Kelli, depois de ler sobre ele na 50302.
O objetivo, aqui, não é defender quem traduziu. Todos nós sabemos que tradutor ruim tem em penca neste mundo - e não só no Brasil. Em vez de descrever o objetivo, vou logo ao assunto e, quem sabe, este artigo fala por si próprio — como, aliás, deveria falar — e dispensa aquelas descrições do tipo “este trabalho tem por objetivo…”.
O texto analisado pela Rosana Hermann é um livro assinado pelo Steve Jobs. Digo “assinado”, porque, assim como muita tradução assinada por Fulano de Tal foi feita por Beltrano de Qual, o que tem de texto fantasmagórico por aí não é pouca coisa. A Rosana leu o livro em português, numa tradução publicada pela Agir e detestou. Sentou a lenha e os comentaristas acompanharam, incluindo uma comentarista, que se assina Marcela e diz ser tradutora e parece ser mesmo.
Falha minha, apontada pela Adriana Morgan: já na capa do livro diz que não é do Jobs. Mas o meu erro não altera o valor dos comentários abaixo.
Um dos meus bordões prediletos é que nem toda deficiência encontrada numa tradução é uma deficiência de tradução e nem toda deficiência de tradução é de responsabilidade do tradutor. Uso “deficiência”, aqui, como termo genérico para “erros e outras barbaridades”.
Muitas dessas deficiências estão no original e nós somente traduzimos a bobagem que o autor disse. Não nos cabe o dever de transmutar lixo em ouro — e muitas vezes nem que quiséssemos seria possível. Quem de nós ainda não foi condenado por alguma besteira contida em nosso serviço e que estava no original? Eu já fui, mais de uma vez. Uma vez, tomei uma cacetada de um cliente porque “a tradução era inservível”. Era, de fato. Mandava fazer uma porção de coisas que, aqui no Brasil, não se fazem. Mas quem tinha mandado fazer não era eu, era o raio do presidente da empresa, nos EUA. Quer dizer, você só pode saber se a tradução está bem feita se comparar com o original.
Se a tradução estiver errada, pode ser erro do tradutor, mas pode também não ser. Por exemplo, quando eu traduzia para a Westinghouse, fazendo coisas para a Companhia do Metrô de SP, era obrigado a usar a terminologia oficial e padrão, que mandava traduzir public address system por sistema de endereçamento ao público. Horrível, não é? Mas eu era obrigado a usar, era o termo oficial. Algumas editoras têm regras obrigando e proibindo o certos usos e revisores que ajustam qualquer tradução a essas exigências. Ah, antes que me esqueça, revisores também os há bons e maus: muitos corrigem erros e melhoram traduções, outros, nem tanto.
Claro, pode ser — e muitas vezes é — burrada de quem traduziu. Mas é importante definir as responsabilidades direitinho.
Os comentários variam muito de qualidade, o que não é de surpreender. O mais divertido, na minha opinião, é o da Marcela, que se diz tradutor e afirma que
pior que traduzir no Google são as chamadas “ferramentas de tradução” ou “memórias de tradução” – leia-se Trados, CAT e afins, que nada mais são que “google translators” com licença paga e que por serem “mecânicas” pouco sabem diferenciar entre um “blue” de “azul” e um “blue” de tristeza ou um “out of de blue” de “inesperadamente”.
O profundo desconhecimento que a Marcela revela do que sejam ferramentas de tradução é lamentável, embora muito comum. O pior é que mesmo nas faculdades haja quem pense assim. Mas isso é assunto para outro artigo, que este já está longo demais e eu preciso trabalhar.
Quanto ao segundo fator de qualidade, o terminológico - bem, esses são outros quinhentos. Outros novecentos, eu diria até. Conheço "tradutô jurameintadu" que trabalha a toque de caixa, mal pesquisa os assuntos e a respectiva terminologia, não sabe o que é a função de concordância de uma CAT e vai tocando o barco, cheio de trabalho! Êêêêê beleza... Usar a Web a nosso favor é, sem dúvida, um diferencial de qualidade. Saber encontrar a informação certa num lugar confiável é fruto de paciência, curiosidade e muita, muita vontade de descobrir a "verdade". Alguns não têm essa paciência, outros não querem sacrificar o tempo precioso, que poderia ser usado no shopping gastando os gordos honorários. E outros ainda não compreenderam direito o que é traduzir. Quanto ao fato de Wildcat afirmar que "não tinha conhecimento suficiente do assunto", conto a minha experiência, certamente bastante representativa do mercado tradutório: a não ser que seja uma área especialíssima e cabeludíssima, ou muito exótica, meto as caras. Afinal, traduzir é aprender, e cabeça não foi feita só pra usar chapéu ;-) Claro, ao desbravar novos territórios, o ritmo do trabalho diminui devido às pesquisas e intermináveis leituras. Suponhamos que o assunto do texto do Wildcat não tenha sido tão cabeludo e o problema tenha sido mesmo a baixa qualidade do texto de partida. Aí não tem jeito. Com ambiguidades e passagens em que a compreensão é difícil ou até impossível, só chamando o santo. Ou ficando em comunicação direta e contínua com o autor. Ou explicando a situação pro cliente *antes* de começar o trabalho.
Marcos,
Sempre lembrando que não sou TPIC nem trabalho à sombra de qualquer um deles, tenho di dizer que esse seu fim de comentário, tem, a meu ver, uma falha essencial, a falha da generalização.
Mas tradutores incompetentes e preguiçosos há de sobra em qualquer canto e não me parece que os TPICs sejam muito piores do que os outros. Sem contar que corre por aí que algumas traduções juramentadas nunca passaram pela mão de um TPIC, mas não divulgue isso, por favor, que é mero boato.
Além disso, não acho os emolumentos dos TPICs tão altos assim, não. Além de traduzir, eles têm uma carga infernal de tarefas administrativas e burocráticas que consomem um tempo enorme. Aliás, a minha tabela particular é mais alta que a da junta e não acho meus honorários tão gordos assim. Dá para passear no shopping, sim, mas acho que tenho direito a isso — e a outras coisas também.
Em outros pontos, concordo plenamente. É possível trabalhar em áreas pouco conhecidas, com os recursos de que dispomos hoje, desde que se faça muita pesquisa — o que torna o serviço mais moroso, e, por extensão, menos lucrativo. Eis uma das razões pelas quais fui me especializando. O que eu preciso pesquisar, para fazer um serviço na minha área é muito pouco e, por isso, posso me concentrar em outros detalhes e, evidentemente, ganhar mais.
E quanto ao avisar o cliente de que se conhece pouco a área, acho essencial. O cliente tem direito a informações claras e verdadeiras.
De vez em quando, alguém me pergunta por que o nível das traduções no Brasil é tão baixo.
Agora, assim, logo de início, tenho que fazer uma digressão: acho um absurdo como tanta gente, inclusive gente que deveria saber das coisas, fala de problemas universais como se fossem exclusivamente brasileiros. O nível das traduções é baixo no mundo todo e, creiam-me, não é mais baixo no Brasil que lá fora. Já peguei mais de uma tradução do português para o inglês, feita nos EUA ou no RU que dava medo de tão ruim e lá eles se queixam exatamente dos mesmos males que aqui. Fim da digressão. Voltemos ao assunto.
Por que o nível das traduções (e das revisões, já que estamos falando dessas coisas) é tão baixo? Uma vez foi uma professora de inglês, que me fez a pergunta, com um sorriso sarcástico. Respondi na lata: "porque o ensino do inglês é fraco demais". Ela não gostou muito, mas quem fala o que quer ouve o que não quer e eu sou um velhinho muito mal educado.
Mas, de fato, o nível das traduções e revisões é baixo, sim. Não há como negar. Por quê? Porque tradução e revisão são atividades muito mais complexas do que pensa a maioria dos usuários e mesmo muitos dos profissionais da área. Só isso. São tarefas que exigem conhecimentos enormes de problemas de linguagem (e de suas soluções: não adianta saber que está errado, precisa saber fazer melhor, o que é outra coisa), uma paciência de santo e um tempo enorme.
Tudo isso custa dinheiro, muito mais que o cliente quer pagar. Quem paga três centavos de real por palavra não pode reclamar de qualidade. Se tiver sorte, vai até pegar algum profissional bom, mas a tendência é de os bons profissionais logo subirem para as faixas de preço mais altas ou arranjarem outro serviço.
Reclamam que é difícil conseguir e reter bons profissionais, que o mercado não permite pagar mais. Está bom, que não permita. Não vou discutir isso. Mas o fato é que nós — tradutores e revisores — também temos que procurar o que é melhor para nós e não temos a obrigação de trabalhar a um determinado preço quando temos oportunidades melhores.
Não sei se já contei isso aqui, mas um dia um cliente me disse que tinha uma cotação por metade do meu preço. Respondi que era como restaurante: tinha de todo preço e cabia a ele escolher a que restaurante ele ia levar o cliente dele. Se achasse um barato e bom, não havia razão para pagar mais caro. Mas se escolhesse o mais barato e desse problema, a responsabilidade era dele. O cliente não replicou, mas poderia ter dito que, às vezes, o mais restaurante mais barato é o melhor, no que teria toda a razão. Mas a responsabilidade continuava sendo dele. Quer arriscar, arrisque, mas não se esqueça que quem não arrisca não vira petisco.
Por hoje é só. Obrigado ao Tom Fernandes pela ideia.
Só quem mantém um blogue destes sabe o trabalho que dá e, de vez em quando, simplesmente não dá coragem. Ontem foi o caso. Gosto muito de escrever estas notas, mas ontem, preferi ler e dormir.
Esta é a segunda parte da resposta a um comentário deixado aqui e, certamente, a mais importante.
Como disse na primeira parte deste artigo, acho deselegante e de pouca ética o hábito de desfiar coleções de erros alheios em público. Mas quando faço uma revisão, me considero na obrigação de manter o cliente informado sobre a qualidade do trabalho. Já elogiei muita gente, já fiz outros tantos perderem o cliente.
Quando a tradução é ruim, preciso de mais tempo para revisar. Ou cobro mais – e preciso justificar a cobrança – ou tomo prejuízo – o que não é minha obrigação, porque a burrada não foi minha. Já devolvi textos por inservíveis, já tive de refazer do zero, num fim de semana, porque tinha prazo para entregar e não havia tempo para grandes discussões, visto que a agência estava fechada.
Você não acredita quanta sem-vergonhice tem por aí. Tem gente que faz testes lindos, mas repassa tradução para pessoas absolutamente incompetentes; tem gente que simplesmente entrega material sem dar nem uma olhada por cima, para tirar o grosso dos erros. Chegou no fim, manda e o revisor que se vire. Por outro lado, tem gente que faz serviço bonito, inclusive se dando ao luxo de destacar os pontos mais complexos para atenção especial do revisor. Um ganha estrelinha dourada, o outro toma pito. É assim que funciona. O cliente e, mais do que ele, o leitor, merecem o nosso respeito.
Não importa se o cliente paga pouco ou muito: aceitou, tem que caprichar, que eu não estou aqui para limpar caca feita por gente incompetente ou descuidada. Caiu na minha mão, tem que sair bonitinho (não como estes artigos batuscritos assim meio a la porca em meio a mil outras coisas).
Mas a safadeza não é só dos tradutores: o que tem de cliente que manda para o editor o lixo dos lixos, esperando que a gente devolva uma tradução impecável é uma barbaridade. Tem uma turma que manda tradução automática para a gente revisar e quer pagar preço de revisão normal. E – acredite se quiser – temos um par de colegas espertinhos que fornecem traduções automáticas a clientes como se tivessem sido feitas por eles. Pau neles!
Com meu comentário, posso estar prejudicando alguém? Desculpe, mas dizer a verdade não prejudica a ninguém; calar perante o erro prejudica a muitos, incluindo uma turminha boa que está aí doida atrás de servço.
Não somos nós os primeiros a reclamar do que nos parece excesso de corporativismo em outras profissões? Quantas vezes você não ouviu alguém revoltado dizendo que os membros desta ou daquela profissão encobrem os erros uns dos outros? Então, como é que fica?
Um outro ponto do comentário que merece análise é o "dá para entender" e o "errado, não está". Que é isso, companheiro? Quando você está do outro lado do muro, como comprador, aceita um "dá para usar" ou um "quebrado, não está"? Acha que isso é aceitável? Pois é. O que não é aceitável para o comprador, não deve ser aceitável para o vendedor. Revisão serve para transformar uma boa tradução em uma tradução excelente. Tradução ruim não se revisa: joga fora e faz de novo.
Finalmente, no fecho você se refere a mim como "paladino das traduções bem sucedidas", não sem uma pontinha de escárnio. Não sou paladino de nada, mas defendo a qualidade. Aliás, meu nome é Danilo e prefiro não ser tratado por "senhor" - especialmente quando o "senhor" é forma de escárnio, não de respeito.
Uma colega que se diz iniciante escreve reclamando de um texto traduzido que ela considera de má qualidade, publicado em numa revista. Dá até um link para o texto. Mas eu prefiro dar ao assunto uma análise mais ampla.
Há traduções tão ruins, que a gente sabe que não prestam sem nem precisar ver o original. Quando você vê que a tradução diz que alguém tomou um curso e depois aplicou para um passaporte, já pode dizer, logo de cara, que a coisa está feia.
Outras vezes, entretanto, sem ver o original, não se pode dizer que o tradutor tenha falhado. É como um retrato: pode ser que o quadro mostre um rosto feio porque o modelo, coitado, também não era grande coisa. E não estou falando daquelas coisas que pintava o Picasso, estou falando de pintura acadêmica.
Em outras palavras, sem ver o original, é muito difícil dizer se há falhas de tradução.
Não é obrigação do tradutor transformar um documento de partida mal escrito em um documento de chegada brilhante. Nem sempre é possível, muitas vezes é indesejável, nunca é obrigação do tradutor.
Nem sempre é possível, porque alguns textos são tão mal escritos que não têm salvação; muitas vezes é indesejável, porque pode ser necessário preservar a ruindade do texto de partida para informação do leitor, algo que já tive de fazer. Finalmente, nunca é obrigação do tradutor, porque arrumar texto alheio é obrigação de preparador de texto, copidesque, ou quem quer que seja. Caso o tradutor seja encarregado de dar jeito no texto (e presumindo que o texto tenha jeito), são dois trabalhos, dois pagamentos, dois prazos.
Mas não gosto disso. Minha experiência é que quando a gente arruma textos alheios acaba sempre distorcendo alguma coisa que ficou dúbia ou obscura no original e acaba dizendo o que o autor não queria dizer — uma responsabilidade com a qual não quero arcar. Por isso, todo texto ajeitado deve ser submetido à aprovação prévia do autor. O problema aí é saber se o autor vai entender a tradução, certo? Então, o que deve ser ajeitado é o documento de partida, para depois o "ajeite" ser aprovado pelo autor, para depois ser traduzido.
Vamos começar aqui uma série de artigos desenvolvendo o material da mais recente Reunião na Sala 7. Foi uma reunião muito produtiva, por sua interatividade. Tratamos, na reunião, de precauções simples, que deveriam fazer parte da rotina do tradutor, mas que muitas vezes não fazem. Alguns dos participantes acharam o assunto muito pertinente, fizeram anotações e nos mandaram.
Achamos um desperdício de tempo e esforço (nosso e alheio) não aproveitar o material. Por isso, nasce hoje esta série. Lembramos que é uma série sobre essa reunião específica, que pode ou não vir a se tornar um hábito. Como sempre, seus comentários são bem-vindos.
Procedimentos básicos
Entenda seu original
Tentar traduzir um texto sem entender, apoiando-se exclusivamente em glossários e dicionários, é o erro mais fundamental que o tradutor pode cometer. Glossários e dicionários, na melhor das hipóteses, oferecem sugestões e só se pode escolher a sugestão correta entendendo o original.
Se conhecer o assunto, se souber do que se trata, pode começar a traduzir na hora, sem maiores cuidados. Mas, se não conhecer, leia o original e outros documentos sobre assunto semelhante, tanto na língua de partida como na de chegada, na medida do permitido pelo prazo. Internet está aí para encontrar essas coisas.
Se de todo o texto não fizer sentido, converse com o cliente e, em caso extremo, devolva o serviço. Lembre sempre de que se o tradutor não entende o original, o leitor não vai entender a tradução.
Faça direito da primeira vez
Somos contrários à idéia do faz de qualquer jeito e depois arruma. Fazer de qualquer jeito e depois arrumar dá muito mais trabalho do que tentar fazer tudo direitinho desde o início. Não existe tradução sem erros e toda tradução deve ser cuidadosamente revista, mas escreva cada palavra como se fosse imediatamente ser publicada. Quanto menos erros tiver sua minuta de tradução, maior a chance de não passar nenhum erro importante na versão final.
Jamais use o comando "substituir todas"
O substituir todas é um comando perigoso. Escreveu colher, decidiu que deveria ser coletar, manda substituir todos os colher por coletar e o Word troca escolher por escoletar. Sim, existe o somente palavras inteiras, para impedir essa desgraça, mas você vai descobrir que, lá no meio do documento, tem um caso de colher que deve ser mantido. Por exemplo uma colher de sopa de manteiga, que vai ficar uma coletar de sopa de manteiga, e lá se vai a reputação de um tradutor para o inferno.
Passe o revisor ortográfico e gramatical
Ao terminar a tradução, a primeira coisa a fazer é passar o revisor ortográfico e gramatical. Nenhum deles é perfeito, todos fazem sugestões bobas, mas também pegam muitos erros. É útil porque, durante a revisão, você pode usar o comando de localizar e, se a palavra buscada estiver escrita com erro, o comando não vai achar. No fim de tudo, quando for a hora de entregar a tradução, passe o revisor ortográfico e gramatical de novo: na revisão, a gente sempre escreve alguma coisa errada.
Arranje quem revise sua tradução
Toda tradução precisa ser revista e ninguém consegue revisar direito seu próprio trabalho. Mesmo um revisor profissional, quando traduz, deixa passar erros que, ao revisar o serviço de terceiros, teria emendado imediatamente. Revisar é trabalho pesado que exige atenção: não existe isso de dar uma olhada. Se é para dar uma olhada, melhor fazer uma prece e mandar embora de qualquer jeito.
É responsabilidade das agências e editoras mandar revisar por conta delas, mas quando se trata de atendimento a cliente final, a responsabilidade de pagar o revisor é de quem traduz.
Hoje, ficamos por aqui. Espero que você tenha gostado. Deixe seu comentário aqui abaixo - nós gostamos de saber o que pensam do nosso trabalho e de ver as sugestões dos leitores.
Tenho de dizer que já estou cansado de ouvir clientes finais, donos de agências e gerentes de projeto falando mal de tradutores e editores. Por outro lado, também estou cansado de ouvir tradutores e revisores falando mal de clientes finais, donos de agência e gerentes de projeto. Achar defeito no trabalho dos outros é muito fácil, mas pouco útil, por pelo menos duas razões: primeiro, a gente ganha muito pouco falando mal dos outros e, segundo, os outros geralmente não dão a mínima para o que a gente diz.
Isso dito, faço aqui a solene promessa de nunca mais criticar clientes finais, donos de agência e gerentes de projeto. Mas certamente vou criticar a mim próprio e aos membros da minha tribo, a tribo dos tradutores e revisores. Um pouco de autocrítica, um pouco de mea culpa, não faz mal a ninguém, desde que seja uma crítica honesta e inclua um certo esforço para abandonar os caminhos do pecado. Não, acho que vou fazer uma coisa melhor: em vez de autocrítica, vou escrever uma lista de decisões. Ainda é meio cedo para decisões de ano novo, mas não faz mal.
Prometo que vou sempre passar o revisor ortográfico mais uma vez antes de entregar o serviço. Uma vez, decidi fazer uma mudança de última hora em uma tradução para uma agência americana, onde ninguém entendia uma palavra de português. Fiz um “substituir todos” e, em conseqüência, mudei não só a palavra que queria mudar, como também as tripas de uma outra palavra mais comprida. Não me perguntem qual: prefiro esquecer essas coisas. Depois, o pessoal de DTP formatou o texto e mandou para o cliente final, que sabia português e quase teve um infarto. Se eu tivesse passado o revisor ortográfico mais uma vez, antes da entrega, teria poupado ao cliente um grande constrangimento e eu próprio não iria sofrer o prejuízo financeiro que sofri. E, já que estamos falando nisso, também prometo nunca mais usar o comando “substituir todos”.
Quando estiver revisando o serviço de um colega, prometo que nunca vou fazer uma alteração sem uma justificativa melhor do que “porque fica melhor assim”. Uma das coisas mais irritantes para um profissional é ver seu trabalho cheio de alterações aparentemente sem proveito nem finalidade. O gerente de projeto, que muitas vezes não sabe português, quando o cliente é estrangeiro, fica sem entender o que está acontecendo nem o que fazer. O tradutor fica zangado e tudo o que o revisor tem a dizer é “bom, fica melhor assim”. Nem sempre a gente pode justificar todas as alterações com gramática e dicionário, mas, pelo menos tente dizer coisas do tipo para manter a uniformidade, ou para melhorar a coerência.Comecei a agir assim e, aos poucos, estou desenvolvendo um conjunto de regras claras e precisas para melhorar a qualidade das traduções que reviso, isso para não falar das minhas próprias.
Não vou ficar furioso por causa de alterações de revisores. Se o revisor fizer uma alteração aceitável em minha tradução, eu vou aceitar. Se a alteração for inaceitável, entretanto, vou conversar com o gerente de projeto e tentar explicar claramente por que eu não concordo com ela. Não há motivo para começar cada um de meus comentários com alguma coisa do tipo “esse cricri imbecil…”. Simplesmente, vou tentar citar alguma prova de que estou certo. Por exemplo, a ortografia brasileira é governada por lei (2623/55, com suas emendas) e o regulamento pode ser encontrado em qualquer dicionário. Veja a regra 53 e note que ela dá pleno apoio à minha pontuação. Se você não leu a regra 53, abra o dicionário e leia agora. Talvez você tenha uma surpresa.
Vou conferir a formatação de minhas traduções. Faz muito tempo que decidi aprender a formatar um documento direito com o MSWord. Nada de muito especial: O Word não é o QuarkExpress e eu não presto serviços de editoração eletrônica. Mas certas coisas como usar tabelas e tabulações corretamente, formatar parágrafos deslocados como se deve, em vez de usar marcas de parágrafo e espaços, coisas desse tipo. Se você não está entendendo, então precisa passar uma tarde com uma boa introdução ao Word for Windows. Quando terminar a tradução, veja se em algum lugar há dois espaços consecutivos. Salvo se o texto for em inglês e os dois espaços consecutivos forem usados no fim de uma sentença (e de todas as sentenças), não deve haver nenhum caso no texto todo. Muitas vezes, batemos a barra de espaço duas vezes ou mais entre uma palavra e outra e muitos de nós esquecem de apagar os espaços que sobram antes de entregar o serviço e, assim, o texto fica parecendo queijo suíço. Os espaços no início da linha ou antes de marcas de parágrafo ou tabulação também são um mau costume. Não deixe aprender a usar o tabulador. E nunca use um hífen quando deveria usar um travessão, por favor. E nunca use dois hífens quando deveria usar um travessão. Aquele pessoalzinho bom que edita seu trabalho ou faz editoração eletrônica vai ficar grato e, quem sabe, lembrar de você nas suas orações. E é mais provável que o cliente lembre de você para um outro serviço.
Vou respeitar as convenções tipográficas da língua de chegada. Os números em inglês seguem a regra do xxx,xxx.xx e em português a do xxx.xxx,xx, não faz diferença se a gente está contando dólares, reais ou camelos. Também vou respeitar todas as convenções sobre uso de maiúsculas e pontuação.
Não vou aceitar serviços que não possa fazer. O cliente (ou o gerente de projeto) pode bater a cabaça na parede, se quiser, mas não vou aceitar um prazo apertado demais. Não vou dar ouvidos àquela história de que é um serviço fácil, porque sei que isso não existe. Não vou dar ouvidos àquela história de que uma “minuta” serve, porque sei que o mesmo sujeito que diz que quer o texto “só para informação” é exatamente o mesmo que depois vai dizer que eu fiz um serviço porco e cobrei um dinheirão. Evidentemente, isso significa que vou aprender a fazer estimativas realistas do tempo necessário para fazer um serviço. Nunca mais vou dar uma olhadinha e dizer “tá bom, acho que vai dar.”
Vou fazer questão de ter tudo por escrito. Não estou dizendo que os clientes sejam desonestos. Mas a melhor maneira de evitar mal-entendidos é escrever tudo antes de começar a trabalhar: taxas, datas de entrega e quantificação. Se a contagem se basear no original, peça ao cliente a contagem e aceite antes de começar. Se o cliente insistir em uma contagem um pouco menor que a sua, não reclame: cada versão do Word for Windows dá uma contagem diferente. Simplesmente aceite as pequenas diferenças como coisa da vida. Se a diferença for grande, investigue o assunto. Se a taxa for boa, às vezes até uma contagem baixa demais pode ser aceitável. Nesse caso, não reclame. Se a paga final for baixa demais, não aceite o serviço. O que importa é que tudo deve estar por escrito e bem explicado. Quando receber as informações do cliente, leia tudo direitinho. Monstros terríveis muitas vezes se ocultam por detrás de um palavreado aparentemente inofensivo. E, finalmente, nunca aceite nada que o cliente diga que é somente “para constar”. É justamente esse trecho que o cliente vai pedir para você ler muito cuidadosamente, quando chegar a hora. E, se o acerto vier em forma de e-mail, imprima e pendure onde você veja. Combinar tudo por escrito, conferir o combinado direitinho e deixar tudo sempre à vista são um dos meios mais importantes para assegurar a satisfação do cliente. E, como você sabe, cliente satisfeito é cliente que volta.
Vou sempre cobrar o máximo e fazer um serviço tão bom quanto possível. Vou sempre procurar conseguir o maior pagamento possível por qualquer serviço que aparecer. Mas, depois de aceitar o serviço, vou esquecer quanto estou recebendo e fazer a melhor tradução que puder. Jamais vou fazer uma tradução de segunda e dizer que está até que boa demais para o que estão pagando. É uma estratégia é contraproducente, porque, quando alguém precisar de um bom tradutor, vai provavelmente oferecer ao sujeito que fez a tradução melhor, não a quem fez uma tradução “compatível com o preço”.
Não mentirei. Se não puder terminar o serviço em tempo, vu dizer “Desculpe, subestimei o tempo que precisava para essa tradução”. Ninguém mais acredita naquela história do HD novinho em folha que deu pau mais uma vez ontem.
Vou sempre conferir minha tradução, para ver se tem tradutorês. Tradutorês, caso você não saiba, é aquela língua esquisita que só se encontra em traduções. Não existe razão alguma para uma tradução parecer esquisita. Se você está traduzindo para o inglês, por exemplo, procure coisas como “The legislator of our fatherland found it to be a good thing to allow such action, being that under the previous legislation it was held to be illegal”. Se estiver traduzindo para o português, procure coisas do tipo Suficientes dados não estão disponíveis para que pudéssemos tornar nossas ações consistentes com… Não há justificativa para uma coisas dessas. Também procure coisas que não fazem muito sentido para você, porque, se não faz muito sentido para, você, provavelmente não vai fazer sentido algum para o leitor.
Não vou tentar “melhorar” o original. Tenho grande orgulho de meu trabalho como tradutor e não sinto o ímpeto de mostrar aos leitores de minhas traduções que grande escritor que eu sou. Por isso, não tento “melhorar” os originais que me confiam para traduzir. No início, muitas vezes eu tentava, até adicionando alguma coisa que achava de interesse, ou omitindo coisas que eu achava inúteis. Não faço mais isso. Com os prazos que tenho, mal dá para fazer uma tradução decente. E, de um modo ou de outro, quem lê a tradução tem o direito de saber o que o autor disse, não o que eu acho que ele deveria ter dito.
Não vou discutir com o cliente por causa de preferências de vocabulário e sintaxe. Se o cliente quiser mudar o texto, pode mudar à vontade. Vendi o texto para ele, e ele agora é o dono do texto. Essa é uma das razões pelas quais não gosto de assinar traduções. Finalmente, reservo-me o direito de jamais trabalhar para o cliente de novo – quer dizer, se eu encontrar outro melhor.
Não vou contradizer meu cliente. Se o cliente disser que a irmã dele poderia fazer a tradução, não vou abrir a boca. Se o cliente disser que o primo dele tem um programa que pode fazer a tradução, não vou discordar. Se o cliente alegar que, se eu insistir nesses preços abusivos, ele vai pedir para a filha dele fazer a tradução, vou, muito educadamente, dizer – desculpe, esse é o mínimo absoluto que eu posso cobrar –, sem uma sombra de ironia, desligar, e deixar que ele se dane.
Não vou falar mal de colegas, mas, se encontrar erros de tradução, vou apontar. Jamais vou dizer – não dê essa tradução para a Fulana, a mulher é quase analfabeta – , mesmo se souber com certeza que ela é mais burra que a mãe da burrice. Entretanto, vou dizer ao cliente que não acho mandate of security uma tradução decente para mandado de segurança e não quero saber quem disse que era.
Não vou brincar com taxas e condições de pagamento. Só vou aceitar o serviço quando o cliente e eu estivermos de acordo quanto a taxas e condições de pagamento e o cliente entender exatamente o que está pagando. As agências sabem exatamente o que estão fazendo, mas muitos clientes finais não têm idéia. Por exemplo, quando o cliente é brasileiro, provavelmente vai pensar que a lauda equivale a uma página de seu texto, o que não é verdade. Algumas agências pagam de acordo com o original, outras, pela tradução, e essas coisas precisam ser combinadas antecipadamente. E, feito o acordo, vou cumprir tudo cuidadosa e estritamente. Por exemplo, se o pagamento não estiver na minha conta na data combinada, o cliente vai ficar sabendo no dia seguinte, logo cedo.
Jamais vou me apresentar como “free lance”. Acho esse termo pejorativo. Um “free lance” é um mercenário e eu não sou “soldado da fortuna”. Sou tradutor profissional e faço o máximo para me conduzir como deve um profissional liberal.
E, finalmente, não vou resmungar. Estou cansado de ouvir tradutores, revisores, donos de agência e gerentes de projeto que vivem reclamando de tudo, do tanto que trabalham, do pouco que ganham, dos clientes e fornecedores incompreensivos e desonestos, de tudo. Considero reclamar um desperdício de tempo e energia. Vamos investir nosso tempo e energia em melhorar nossa sorte.
Há séculos, prometi a um cliente que se o número de caracteres minha tradução excedesse o original em mais de 5%, o serviço era grátis. O cliente topou, todo satisfeito, embora meu preço fosse salgado, porque sabia - e sabia porque sabia - que uma tradução do inglês para o português sempre é ao menos 30% mais longa que o original e que, como os manuais que ele queria tinham de ter a mesma diagramação em português, espanhol e inglês, os manuais latinos sempre eram compostos em corpo menor do que os originais em inglês.
Minha tradução final ficou, de fato, mais longa que o inglês - mas a diferença era inferior aos 5% de tolerância.
Como consegui isso, se todos nós sabemos que muitas vezes o português exige construções mais longas que o inglês? O que escapa à maioria dos tradutores é que, em outras tantas vezes, o português aceita, com elegância, construções mais breves do que o inglês. Nesses casos, lamentavelmente, a maioria de nós simplesmente ignora a possibilidade de ser mais conciso e acompanha a sintaxe inglesa. Um bom exemplo é a quantidade excessiva de pronomes retos e oblíquos encontrada em textos traduzidos do inglês.
Mas quem colocou a questão em perspectiva foi mesmo o Millôr Fernandes, que um dia comparou
Para traduzir bem, é necessário saber escrever bem.
Verdade, mas dessa afirmação, costuma-se tirar a idéia errônea de que os melhores tradutores hão de ser os bons escritores: fulano escreve muito bem, logo, tem de ser um excelente tradutor. Peço vênia para discordar. Escritores e tradutores têm perfis diferentes, da mesma forma que tradutores e professores. O bem-escrever do tradutor difere do bem-escrever do escritor. O escritor escreve o que lhe vai pela alma, o tradutor escreve o que vai pela alma alheia - são coisas diferentes.
Temos um colega que passa por bom tradutor e que, a meu ver, tem muito que aprender e talvez nem tenha cura: tudo o que sai da mão dele tem o mesmo estilo (a saber, o dele próprio), independentemente de quem o tenha escrito.
Tradutor tem que ser como ator: numa peça é um feirante gritão, na outra um aristocrata fanfarrão, na terceira é um bandido ameaçador e nas três parece autêntico, por mais que, ele próprio, seja quieto e retraído.
Lembra aquela história do dia em que convidaram Jânio Quadros para fazer uma ponta numa novela. Fez, claro, papel de Jânio Quadros, porque outro não sabia fazer. Quer dizer, não era ator, só sabia ser ele próprio e nada mais.
Você já se viu em dificuldade para escolher entre duas traduções possíveis para a mesma frase? O meu sistema de escolha é este:
Dentre duas traduções, prefira a que mais precisamente refletir o sentido do original.
Dentre duas traduções que satisfaçam a condição anterior, prefira a que estiver menos aberta a falsas interpretações.
Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a que for mais correta gramaticalmente.
Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a que melhor refletir a forma do original.
Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a que melhor fluir na língua de chegada.
Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a que usar o vocabulário mais conhecido.
Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a mais breve.
Mas note que as perguntas devem ser feitas em seqüência; não vale simplesmente escolher a mais breve se não satisfizer os seis critérios anteriores. Espero que você goste e comente. Este é um dos processos que vamos aplicar nas Oficinas de Tradução a Distância. Depois falo um pouco mais delas. Se eu não bater o meu bumbo, ninguém mais vai bater – mas um pouco de suspense não faz mal a ninguém.
Eu já acho fazer “versão”, quer dizer, traduzir da minha língua para uma língua estrangeira, uma temeridade. A maioria das “versões” para o inglês feitas por brasileiros que tenho visto é de péssima qualidade – e olhe que inglês não é minha língua materna. Se fosse, provavelmente acharia ainda mais besteiras.
Já fiz muita “versão”, entretanto e, ao que tudo indica, não me dei de todo mal. Porém, de tempos para cá, só tenho feito “versões” para clientes cuja língua nativa é o inglês. Quer dizer, se ele aprova, não tenho o que temer do meu tupiniquinglish. As outras, tenho recusado. Fico mais tranqüilo, assim.
Uma vez, uma colega me pediu a revisão de uma “versão”. Fiz e me arrependi. Não acredito que eu tenha competência para revisar o inglês alheio e garantir que o resultado tenha nível profissional. Não aceito mais esse tipo de serviço.
No tempo em que eu ainda fazia muita “versão”, tinha um funcionário de um cliente que insistia em escrever “direto em inglês”, para minha revisão, para se ganhar tempo e ele ir “treinando”. Aqui, temos um problema inicial: eu presto serviços de tradução, não de ensino em inglês. Se o cliente quer treinar o seu inglês, por favor, que procure um professor. Há muitos e bons. Comigo não, violão.
O segundo problema deixaria alguns teóricos da tradução irritadíssimos. Para mim, toda tradução (ou “versão”) pressupõe um original, dele depende e a ele tem de ser fiel. Não é possível revisar uma tradução (ou “versão”) sem ter ao lado o original, que nos esclareça se o texto que o cliente nos enviou é fiel. Então, tive um pega com o sujeito. Fiz pé firme. Ele disse que eu era teimoso e eu dei a famosa resposta de Mário Covas: teimoso é você, que teima comigo! Cravei os cascos na lama e não aceitei. Não aceitei e não aceitei. E quando eu digo que não aceito, é porque não aceito e pronto.
Como revisor, eu sou o goleiro e, quando a bola entra no gol, o culpado sou eu. Não adianta dizer que o texto do cliente estava confuso e tal. Se der meleca, sou eu o acusado de incompetente. Por isso, não aceito. Prefiro perder o cliente. Mas não perdi. Havia muito serviço de “versão” na casa e era eu quem fazia. Só havia um cara que queria escrever direto em inglês.
Um dia, o cara saiu da firma e foi trabalhar em outro lugar. Tempos depois, me ligou e perguntou se eu estava disposto a aceitar um novo cliente. Eu já previ o que era, mas deixei que ele se enforcasse na própria corda. Aceitei. Ele mandou o texto via e-mail. Com todo jeito de inocente, pedi o original. Ele disse que não tinha. Então eu disse que não podia revisar e, de novo, cravei os cascos na lama. Ele desistiu e nunca mais tentou fazer contato. Não fez falta.
Ontem, na Reunião na Sala 7, prometi que ia postar aqui no blog uns endereços para cadastramento de tradutores. Lamentavelmente, meu computador titular deu problema e estou trabalhando no regra 3, em cujo HD não estão todas as informações que quero. Então, vai ter de esperar um pouco. Mas não impede que eu escreva sobre outro assunto que vem me preocupando muito, a história do amo a língua inglesa (ou francesa, ou turca, ou o que diabo seja). A turma estuda tanto, mas tanto, a língua estrangeira, que acaba descuidando do português. Ama tanto a língua estrangeira, que despreza a sua própria. E traduzir é, principalmente, escrever português.
O problema menor, a meu ver, são os erros de português encontrados nas traduções. É muito mais grave o problema dos tradutores que começam a escrever tradutorês nos seus textos originais em português. Vou dar dois exemplos, ambos do inglês e ambos mascaradinhos, para não criar caso demais da conta. Mas o essencial está preservado.
Uma colega escreve eu fui oferecida um trabalho de revisão. Santo Deus! Misericórdia! Eu fui oferecida um trabalho é tradução literal de I was offered a job e é coisa que, em boca de gringo tem lá sua graça. Mas brasileiro nascido e crescido aqui, que estudou aqui toda sua vida e que se considera profissional da língua (e revisora!), escrevendo uma barbaridade dessas – e, tenha certeza – não foi brincadeira.
Outro me escreve falhei em lembrar. Ora, pipocas, falhei em lembrar, em língua de quem come arroz e feijão, significa lembrei e isso foi uma falha da minha parte. O que o colega quis dizer é não lembrei, mas achou chique copiar o inglês I failed to remember.
Que essas coisas se escrevam numa tradução já é mau, já revela um grave problema de contaminação. Que se escrevam em mensagens e recados e cartas e coisas escritas originalmente em português, é alarmante. Daqui a pouco, vão dizer faz você gostar para comer panquecas?
Mas, se a gente corrige, ficam zangados, somos acusados de falta de coleguismo, arrogância, o diabo – e lá vem aquele sarcasmo internético irritante do tipo peço humildes desculpas pelo meu terrível erro… Instalou-se, lamentavelmente, a cultura da crítica construtiva, que muitos interpretam como só dizer coisas boas e nunca apontar os erros.
Então, vou começar esta nova fase do blog sendo destrutivo, arrogante, antipático e espírito de porco: gente, é o seguinte: quer ser tradutor? Estude português. Leia menos inglês e mais português. Ame menos o inglês e mais o português. Compre o Lições de português pela análise sintática do Evanildo Bechara e leia de ponta a ponta. Consulte um dicionário antes de escrever subtotal para não bota hífen onde não deve. Aprenda a usar maiúsculas direito, em vez de acompanhar o hábito americano de salpicar o texto de maiúsculas como se fosse ketchup. Em outras palavras, não escreva português como gringo. Português é português, inglês é inglês. Ou, na expressão da moda, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Escreve um leitor irritado com a qualidade de uma tradução juramentada que leu. Não vi a tradução e, mesmo que tivesse visto, não ajudaria nada, porque é para uma língua que não conheço direito. Mas, sim, há traduções juramentadas de baixa qualidade. O missivista acha que o TPIC signatário da tradução foi nomeado por ter amigos influentes. Pode ser e pode não ser. Vamos ver se consigo colocar as coisas nos seus devidos lugares.
O TPIC não é um supertradutor e não jura que a tradução é perfeita. Jura, unicamente, que é o melhor que consegue fazer e que é a expressão do que diz o original. Então se o documento diz que o Brederodes Brunzundungas era auxiliar de aprendiz de laçador de cachorro da carrocinha de alguma obscura cidade no Alasca, a tradução não pode dizer que ele era coordenador do curso de direito em Harvard. Tenho uma amiga TPIC que quase se atraca com um cliente que queria que ela traduzisse may elect to como obriga-se, porque uma coisa é uma coisa e a outra coisa é outra coisa. Não quer dizer que as traduções dela ou de qualquer outro tradutor sejam perfeitas.
Além disso, são especialistas na tradução de certos tipos de documento. Esperar que um deles faça boas traduções de comerciais de TV é querer demais – embora sempre haja as exceções. Cada macaco no seu galho, de modo geral, embora haja os polivalentes, ou talvez devesse dizer poligalhentes.
Lamentavelmente, entretanto, há traduções juramentadas de qualidade muito má, sim. Por quê? Mil razões. Em alguns estados, há uma série de tradutores ad hoc e nomeados a título precário que nunca foram concursados e mesmo os concursos, que não se realizam há muitos e muitos anos, podem não ter sido dos mais estritos. Deus sabe o que sabia o primeiro colocado entre os que se candidataram a TPIC de alemão no Estado de Baixo Solaranjas do Oeste em 1965. Alguns desses profissionais podem ser de alta categoria, mas nem todos serão e os critérios para nomeação são algo obscuros.
Mesmo em SP, as coisas deixam a desejar. O último concurso foi honesto e disso parece que ninguém duvida. Parece que o penúltimo também foi. Não há acusações de suborno ou favorecimento conhecidas e comprovadas, embora haja quem diga que muita gente boa foi reprovada. Mesmo assim, conheço um par de pessoas aprovadas a quem eu jamais confiaria uma tradução. Como terão passado? Por quê? Sabe Deus. Mas tenho certeza de que não foi à custa de suborno nem de amizades.
Alguns dos TPICs também repassam serviços a terceiros, jurando que revisam tudo direitinho, palavra por palavra, algo que pode estar mais nas intenções do que nas ações de cada um. Essa prática é combatida por muitos, porém bastante comum. E é bem possível que quem recebe esses serviços ainda os repasse a outros. Nunca se sabe, realmente, quem fez uma tradução.
Mas é bom não generalizar: há uma elite de TPICs que presta serviços de alta qualidade. Pena que não seja fácil, para o usuário, saber quem é o melhor profissional para a língua que lhe interessa.
Já fiz muita revisão, para agências americanas e européias, mas para brasileiras, nunca. Outro dia, chegoua vez. Vou poupar você dos detalhes, para me deter num dos pontos que me chamou mais atenção: o fato de que todos os pronomes ingleses tinham sido traduzidos pelos seus homólogos portugueses. Se você ainda se recordar de suas aulas de inglês, vai se lembrar de como achou estranha a exigência de um sujeito explícito em cada frase. Onde o português diz não vi e não gostei, sem pronomes, o inglês precisa de I did not see it and I did not like it, com dois pronomes.
Essa é uma lição a aplicar na tradução do inglês para o português: tomar tento nos pronomes ingleses, porque não precisamos de todos eles em português, e ver quais precisam ser realmente traduzidos e quais podem ser omitidos. Entre a tradução e a omissão, há a transposição, como você provavelmente sabe, mas não vou falar nisso agora. Vou dizer que não é boa praxe traduzir todos os pronomes do inglês por pronomes do português. Mas lá o tradutor da agência traduzia todos. Todos, sem exceção. E o texto ficava horrível. Como era minha obrigação, fui cortando pronomes a torto e a direito – e, creio, só com isso já dei uma boa melhorada no texto.
A tradução estava sendo entregue em prestações e me deu gana de escrever para o tradutor para discutir o assunto. Depois, me lembrei que as agências americanas e européias com que estou acostumado pagam com base no número de palavras do original. Isso quer dizer que, para traduzir um certo texto, você vai ganhar X, com pronomes ou sem pronomes. Por outro lado, as agências brasileiras pagam de acordo com o volume da tradução (caracteres, toques, palavras, o que seja), o que significa que para cada pronome, que tem duas ou três letras, o tradutor ganha tanto como para digitar anticonstitucionalissimamente, se é que essa sucuri verbal foi alguma vez usada por alguém para alguma coisa.
Em outras palavras, se o tradutor deixasse de traduzir todos os pronomes, como manda a boa praxe, a qualidade da tradução ia aumentar, mas o pagamento ia se reduzir.
Ainda volto a este assunto, mas este artigo já está longo demais.
No Orkut apareceu uma oferta de trabalho e o solicitante exigiu "tradução perfeita", exigência que, digamos, causou espécie e algumas reações apaixonadas.
Nunca fiz uma tradução que eu considerasse perfeita mais de cinco minutos depois da entrega ao cliente.Isso é que eu chamo teoria heraclítica da tradução. Lembra daquela história de que não se atravessa o mesmo rio duas vezes, porque nós próprios evoluímos e mudamos ao atravessar o rio e, ao reatravessar, somos diferentes? Pois é. Acontece o mesmo com a tradução. Você traduz, qualquer coisa, não precisa ser nenhuma obra-prima, e, nesse traduzir, se aperfeiçoa. Ao revisar a primeira vez, já conta com uma experiência que não tinha antes e, por isso, corrige as escorregadas, mas também o que, na primeira vez, pareceram acertos. Ainda bem que tem prazo para entregar. Se não houvesse, a gente ia continua dando só mais uma revisadinha até o dia do juízo final. Tem que mandar para o cliente, benze e manda. Mas se, no dia seguinte abrir de novo, não vai gostar do que fez. Se gostar, se achar perfeito, tem alguma coisa errada com você.
Por outro lado, tem o fato de que precisa saber aos olhos de quem a tradução tem de parecer perfeita. Existe um tanto de subjetivo na avaliação de qualidade de traduções. Pode parecer irritante, mas são essas subjetividades que os teóricos formalizam nos seus escritos. Falando, digamos, mais academicamente, a pergunta talvez fosse: perfeita de acordo com que teoria? Porque a aplicação de diferentes teorias resulta em diferentes traduções. Se não resultasse, para que, então, diferentes teorias?
Você pode dizer que o tradutor tem de ser respeitado em suas teorias. Claro, tem. Mas a pergunta é a seguinte: imagine um cliente, seja um intermediário como uma agência de traduções, ou um cliente final, digamos, uma empresa ou escritório de advocacia. Digamos que esse cliente recebesse uma tradução e, na leitura, lhe parecesse que a tradução está falha. O cliente liga para quem traduziu e diz que não gostou. Quem traduziu aparece no escritório do cliente no dia seguinte, com meia dúzia de trabalhos acadêmicos sobre teoria que dão todo apoio teórico à sua tradução. O cliente fica impressionado e se perguntando "será que eu sou burro?" e ligou para uma pessoa conhecida que ensinava teoria da tradução em uma faculdade e que, sendo partidário de outra teoria, caiu na gargalhada: "você foi vítima da turma do polissemantismo desagregacional unificado, uma teoria que tem lá seus defensores, mas são todos uns malucos. As traduções deles são um horror. Deve ter estudado na Faculdde X, onde se ensina essa idiotice, entre muitas outras. Lá na Y, onde eu dou aula, a gente procura fugir dessas doideiras. Pura masturbação mental. Joga fora a tradução e dá graças a Deus que você percebeu."
No lugar do cliente, o que você faria? Ou será que você pensa que acadêmicos não discordam? Por hoje é só.
Antes de encerrar, informo que a semana que vem volta a programação de cursos a distância via Aulavox. Tive de cancelar diversos eventos por causa de um momento mau que aparentemente passou. Hora de voltar à ativa. Aos que, mesmo sem entender, compreenderam, meus agradecimentos.