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domingo, 21 de junho de 2009

Laudas, páginas, etc.

Perguntou a Vanessa, num comentário a este artigo:

Danilo, você saberia me dizer quantas folhas A4 dariam, mais ou menos, 10.000 palavras? Usando as formatações atuais (quais são?).

Vanessa, não entendi. Aparentemente, você quer saber quantas folhas A4 seriam necessárias para um texto de dez mil palavras. Até aí, tudo bem. Depois você diz "usando as formatações atuais (quais são?). Fiquei totalmente embananado com essa parte do teu recado. Vou tentar responder, de uma forma ou de outra, e se a resposta não for satisfatória, faça um comentário aqui e a gente vai se achando.

Se você está querendo saber se existe uma "formatação padrão" para traduções de texto, eu digo que não há. As editoras ainda pensam em termos de laudas, mas a definição de lauda (e a quantidade de texto que cabe em cada uma) varia muito de uma editora para outra. Por outro lado, os clientes não-editoriais esperam que você acompanhe a formatação do original que recebe para traduzir, que vai variar em Arial 14 e espaço duplo a Times New Roman 10, com espaço simples, com mil e uma outras variáveis.

Espero ter iluminado um pouco o teu caminho.

sábado, 16 de maio de 2009

Cobrar pelo original ou pela tradução?

Escreveu Dani Correa:

Olá, gostaria de tirar uma dúvida. O preço cobrado é por folha traduzida ou por folha gerada? Exemplo: uma folha traduzida, se transformou em duas depois da tradução O que é o certo?
 
Certo, Dani, em qualquer negócio é aquilo que você e o cliente entendem e combinaram entre si. O importante, é que você como profissional entenda as implicações de cada sistema de quantificação do trabalho.

Antigamente, a cobrança era sempre por lauda. A lauda era definida como uma folha de papel formato ofício, com três centímetros de margem esquerda e dois de margem direita, algo que as máquinas de escrever faziam muito bem, e com 32 linhas por folha. Era simples: você entregava o serviço, o cliente contava as folhas, multiplicava pelo preço por lauda definido de comum acordo e estava feita a conta. Como era quase impossível quantificar o trabalho do original e facílimo contar as folhinhas da tradução, era um sistema prático e sensato.

Esse sistema foi caindo em desuso porque, atualmente, só os TPICs entregam serviço em papel e, mesmo eles, deixaram há anos de usar sua formatação habitual (Courier 12, espaço duplo) para acompanhar a formatação do original. A nossa tribo é conservadora, Dani, e tem muita gente que, até hoje, não entende que tradução se possa cobrar de alguma forma que não seja por lauda. Inclusive, gente de menos de 30 anos de idade, que provavelmente nunca viu uma lauda de verdade na vida. Começou uma longa, metafísica e esotérica discussão sobre o que seria uma lauda, em termos de computador, apoiada, inclusive em um parecer preparado pelo Professor Dr. Francis Henrik Aubert, TPIC e professor da USP (e meu amigo há coisa de trinta anos, mas isso é outra conversa). Isto, lá para quem faz juramentada, tem muito significado, porque são obrigados a cobrar por laudas da língua de chegada. 

Para nós outros, não é um problema relevante: o que importa é entendermos o sistema e termos certeza do que o que vamos receber é aceitável.
O sistema de quantificação baseado na língua de chegada tem a desvantagem de que cria insegurança para o cliente, que só sabe quanto vai pagar quando o serviço está completo. Internacionalmente, cada vez mais, por isso, o pagamento é baseado no texto de partida. Por exemplo, o cliente diz "Tenho 10.000 palavras em inglês, para traduzir ao português, quanto você cobra?" Ou, então, "Tenho 10.000 palavras em inglês, para traduzir ao português, pago X por palavra do original. Você aceita?"

Há quem diga que esse método trabalha contra o tradutor, porque o texto em português é sempre mais longo que o texto em inglês. Discordo totalmente. Como profissional, você deve saber disso e de outras coisas e fazer um ajuste apropriado em suas tarifas. 
Por exemplo:

Digamos que sua taxa normal seja R$ 0,10 por palavra da língua de chegada. O cliente vai mandar a você um texto de cerca de 10.000 palavras. O português deve dar uns 20% a mais. Quer dizer, o português vai dar umas 12.000 palavras. Isso significa que, para traduzir esse texto, você vai ganhar coisa de R$ 1.200,00. Certo? Agora, se o cliente quiser cotação pela quantidade de palavras que ele tem lá, sob as vistas dele, tudo bem. A gente cota como o cliente quer. Mas, para você ganhar os mesmos R$ 1.200,00, vai ter de cobrar R$ 0,12 por palavra. No princípio, a gente se sufoca um pouco, mas logo se acostuma. Eu não cobro por texto de chegada desde o século passado e não tenho me dado de todo mal.

Aproveite, já que está aqui mesmo, e clique nos marcadores "TPIC" e "Lauda", aí do lado, que tem muita coisa de interessante para você.

domingo, 15 de março de 2009

No princípio, é tudo muito fácil

Posicionei a folha de papel jornal formato ofício na máquina de escrever Olivetti Studio 44, uma semiportátil mecânica, marquei cuidadosamente três centímetros de margem superior, mais três de esquerda e outro tanto de direita, ajustei a máquina para espaço duplo. Com esses ajustes e mais o de deixar outros tantos três centímetros de margem inferior, estava configurada a lauda.

Isso feito, no canto superior direito da página, escrevi
1, acionei a alavanca de espaços uma meia dúzia de vezes para centralizar o título verticalmente na página, e sapequei:

ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS
JOHN N. MYER

TRADUZIDO POR
DANILO AMEIXEIRO NOGUEIRA

Olhei minha obra de arte, conferi se estava tudo certinho, tirei a folha de papel da máquina, pousei do meu lado direito, com a face escrita para baixo, virei para minha mulher, que estava do eu lado, e disse, todo pomposo: "acabo de ganhar dez cruzeiros".


A Vera tirou os olhos da apostila que estava lendo e me olhou incrédula. Dez cruzeiros, em menos de dois minutos, era uma pequena fortuna.


Era verdade, mas uma verdade algo distorcida, porque era uma lauda atípica. A maioria das laudas tinha 32 linhas, a maioria das linhas tinha 75 caracteres e era necessário revisar tudo aquilo, sem corretor ortográfico nem nada desse tipo, sem internet para pesquisas, sem dicionários eletrônicos, datilografando letra por letra numa máquina dura como ela só, emendando com branquinho, tesoura e cola.


O trabalho demorou uns bons três meses, entre outras razões porque, de manhã, eu trabalhava como tradutor interno na falecida Arthur Andersen. Depois, foi para a revisão, composição, provas e, finalmente, impressão. Saiu no ano seguinte. Assim eram as coisas em 1970, quando comecei a trabalhar para a editora Atlas.


Estou escrevendo isso tudo porque é domingo e estou baixando a bola um pouco e também porque entrei ontem no
Twitter (DaniloNogueira), a última mania internética, segundo a revista Época de hoje, o que me fez lembrar do tempo em que a gente ainda traduzia a muque. E, acreditem, traduzia.

Até amanhã.


(A Kelli está furibunda. Deixa ela voltar para contar para vocês a cachorrada que a Telefônica fez com ela.)

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Atrasos e calotes

Por que a gente não recebe no dia combinado?

Alguns clientes são desonestos: devem, sabem que devem, podem pagar, mas não têm intenção de pagar ou acham que primeiro você tem que esperar até o momento em que eles acharem conveniente fazer o pagamento. Como tiveram toda pressa do mundo para receber a tradução, ficaram sem pressa nenhuma para pagar o tradutor.

Outros são desorganizados: sabem que devem, podem pagar, têm intenção de pagar, mas perderam o número da tua conta bancária, não se lembram quando foi combinado pagar, não acham a nota fiscal.

Um terceiro grupo simplesmente deu o passo maior que a perna: pegou um serviço grande, cotou baixo, para pegar, repassou uma parte a outros tradutores, ofereceu pagamento maior do que podia, o cliente final atrasou – e está feita a confusão.

Muitas vezes, o que deu o passo maior que a perna é também desorganizado e/ou desonesto e aí, então, a situação fica realmente muito complicada.

É melhor prevenir que remediar e há três medidas que reduzem muito a probabilidade de um calote:

Limite seus riscos

Sabe por que você tem limite no cartão de crédito? Porque, se você não pagar, a operadora não perde muito. Aprenda com eles e nunca dê muito crédito a nenhum cliente nem muito menos aos "colegas" ou os que se apresentam como tal. Alguns dos mais espetaculares calotes que conheço foram dados por tradutores: acredite se quiser, as agências e os clientes diretos podem atrasar, o que é mau, mas geralmente acabam pagando. Os "não pago, não pago e não pago" costumam ser os "colegas". De um modo ou de outro: limite o crédito — e, conseqüentemente, o risco.

Se for um serviço para vários meses, peça pagamentos quinzenais, a partir do primeiro mês, pelo menos. Não aceite serviços que ocupem 100% do seu tempo: o risco é grande demais e você fica sem poder atender outros clientes. Mesmo que receba, quando acabar o serviço fica sem saber o que fazer da vida.

Se o pagamento estiver atrasado, só continue a trabalhar se não tiver absolutamente nada que fazer. Um dos melhores meios de receber é dizer, "desculpe, se não receber, não posso trabalhar e o fluxo do prazo fica suspenso". E não se constranja com argumentos do tipo mas você desconfia de mim? Simplesmente, pare e avise que parou.

Explique tudo direitinho

O cliente quer uma cotação e você tem obrigação de dar. Faça a cotação por escrito e explique tudo com o máximo de clareza. Se você cobrar por lauda, explique exatamente o que você define como lauda. Muitos clientes crêem que lauda é uma página do trabalho deles e se recusam a pagar, porque mandaram um texto de dez páginas e receberam uma fatura de cinqüenta laudas. Não adianta depois você dizer que a Junta Comercial, o SINTRA, ou quem quer que seja, definiu a lauda como X. A lauda que vale é aquela que você combinou com o cliente por escrito e isso quando você tem prova de que o cliente entendeu e aceitou a definição.

Esse é um dos motivos pelos quais eu prefiro cobrar por palavra do original: o cliente já sabe quanto vai pagar quando envia o serviço e assim não há problemas posteriores. A tradução costuma sair mais comprida que o original? Tudo bem. Então, se você cobra 10 por palavra contada na tradução, deve cobrar 12 por palavra contada no original. Só isso. Se possível, faça uma cotação fechada, do tipo "honorários para a tradução do documento xpto.doc: R$ X". Assim, não tem discussão.

Faça uma cotação escrita, indicando não só o preço, mas também prazo e forma de pagamento. Você não pode reclamar que o cliente está atrasado se não tiver combinado um prazo antes. E finalmente, explique como vai ser cobrado o serviço. Para o cliente, RPA é uma coisa, nota fiscal de autônomo é outra e nota fiscal de pessoa jurídica é ainda outra. Se o cliente espera NF de pessoa jurídica mas você aparece com RPA ou com nota fiscal de autônomo comprada na prefeitura, as coisas podem se complicar. Não caia na história da nota fiscal comprada da prefeitura: essa nota é de pessoa física e não exime o cliente do pagamento de uma barbaridade de INSS.

Exija confirmação escrita

Não inicie o serviço sem o cliente confirmar, por escrito, que aceita suas condições. Pode ser num fax, pode ser num e-mail. Mas tem que ser por escrito e na aprovação é necessário constarem as condições. Sua proposta foi aprovada, não resolve nada. Mas um "de acordo" e uma assinatura numa cópia do seu fax, ou um e-mail onde conste toda a sua proposta resolvem muito. Um fax desses já me tirou de uma boa encrenca, com um cliente que simplesmente se recusou a quitar minha fatura, sob a alegação de que não podia pagar uma barbaridade dessas por uma tradução. Confrontado com um fax de sua aprovação, pagou em 24 horas.

Se o cliente não pagar na data…

Não entre em pânico. Dois dias depois telefone e, educadamente, sem ironias, sem indiretas, diga que o pagamento ainda não apareceu na sua conta. Peça para ele investigar. Não assuma você o compromisso de falar com o Departamento de Contas a Pagar: peça a seu contato no cliente que faça isso. Se não receber em uma semana após o vencimento combinado, escreva um e-mail educado, informando que não consta pagamento e pedindo recibo do depósito. Não telefone: escreva. Solicite recibo de entrega. Se não receber resposta, escreva depois de dois dias, sempre educadamente, sem insultos nem acusações. Se não receber pagamento ou resposta satisfatória em quinze dias, converse com seu contador, que pode orientar sobre o saque de uma fatura e aponte para protesto. Antes de apontar para protesto ou executar a dívida, avise o cliente. Muitos clientes pagam imediatamente só de ouvir a palavra "protesto".

Na pior das hipóteses, você vai ter de ingressar em juízo. Temos diversos colegas que ingressaram e ganharam. Não tenha medo: o dinheiro é seu.

Jamais…

Por falar em "o dinheiro é seu", ao cobrar o cliente jamais chore as mágoas, dizendo que está precisando do dinheiro porque isto ou aquilo. Você prestou o serviço e tem de ser pago no prazo, mesmo que não esteja necessitando do dinheiro. Se disser que está precisando, o cliente ainda é capaz de te oferecer um pagamento parcial e dizer "resolve o teu caso?", como se estivesse te prestando um favor.

Ainda não recebi do cliente…

Uma das desculpas mais comuns para atrasos no pagamento é a famosa ainda não recebi do cliente. Geralmente, quem dá essa desculpa, são os colegas, não as agências. Mas você não tem nada, nada mesmo, que ver com isso. Quem te passou a tradução é quem te passou a tradução é o responsável pelo pagamento. Além disso, você não tem como saber com certeza se o cliente final pagou ou não.

Jamais…

Divulgue o nome do cliente na Internet. Jamais chame o cliente de ladrão. Deixar de pagar uma dívida é inadimplência, não roubo, e chamar alguém de ladrão porque atrasou um pagamento é crime contra a honra, previsto no código penal. Se chamar o cliente de ladrão porque não pagou a sua fatura ou disser alguma coisa do tipo "fui roubada", ainda pode ser processada e perder a ação, o que é pior.

“Atendimento informal”

Atendimento sem nota fiscal nem RPA, nem pensar. Nota Fiscal de terceiros, então, pior ainda.

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domingo, 5 de novembro de 2006

O que é uma lauda

Antigamente, as traduções eram entregues em folhas de papel formato ofício (22 cm X 32 cm), datilografadas em espaço duplo e com umas margens generosas. Tinha lá sua razão de ser, em virtude do modo como os livros eram compostos na época, à força de linotipo, uma máquina que ganhou esse nome em português porque era chamada Linotype em inglês. Agora, que a traquitana foi aposentada e que todos nós usamos computador, lauda é coisa que não faz mais sentido.

Entretanto, alguns setores do mercado se apegaram tanto ao nome lauda que ainda mantêm a unidade de cobrança, embora não se tenha jamais chegado a um acordo quanto ao que seja uma lauda feita no computador e as definições variem de algo como 1000 a até 2500 caracteres – com ou sem espaços. Então, é necessário fazer uma contagem, geralmente com a ferramenta de contagem de palavras do próprio Word e depois converter em laudas. Como se não fosse mais simples cotar por milhar de caracteres de uma vez. Mas a tradição demora a morrer.


As laudas são contadas, tradicionalmente, com base no texto traduzido, algo que os clientes aceitavam antigamente, mas cada vez os irrita mais. O cliente quer saber o preço total antes de aprovar o pedido e, por isso, prefere cobranças baseadas no texto de partida, quer dizer, no original e não são poucas as vezes em que o cliente se surpreende, ou pelo menos se declara surpreso, com a quantidade de laudas que deu “aquela meia dúzia de pagininhas de texto” e pede uma “reconsideração da contagem” porque está “acima do orçado”.


Para evitar esse problema, alguns tradutores estão começando a cotar um número de “laudas garantidas”. Quer dizer, contam os caracteres do original, multiplicam por 1,3, presumindo que a tradução seja 30% mais longa que o original, dividem pelo número de caracteres que constitui a sua “verdadeira lauda” e, assim chegam um número de laudas. O curioso é que esses profissionais acham o meu modo de cotar complicadíssimo: coto um preço por palavra do original. Fiz os outros cálculos antecipadamente e determinei um preço por palavra do original que me pareceu aceitável.


Aprendi a cotar assim trabalhando para o mercado americano e inglês, onde esse é o padrão. Parece que essa tendência está se espalhando, como tantas coisas que se tornaram padrão nos Estados Unidos. Hoje, até o SINTRA anda falando em cotação por palavra.