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quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Agências, empresas e tal (3)

Voltando ao assunto, que, aliás, não tem fim, uma das razões pelas quais não gosto de repassar serviço é a questão da responsabilidade pelo pagamento.

Penso assim: quando traduzo, faço questão de, antecipadamente, acertar com meu cliente uma data de pagamento e de receber nessa data. Quando repasso serviço a um colega, fico eu sendo o cliente dele e acho que tenho a obrigação de garantir uma data fixa para o pagamento e de cumprir essa promessa. Para isso, precisaria ter capital de giro que me permitisse pagar no prazo combinado independentemente do que fizesse o cliente. Tenho lá algum dinheiro, é fato, mas não é coisa que possa ser usada como capital de giro do escritório. O cliente final pode atrasar, atrasar muito e mesmo não pagar e como é que fica o tradutor?

Sei de tradutores desesperados que aceitaram a história de “quando o cliente pagar você recebe” e, como não recebiam, cansados de ligar para o intermediário sem obter resultados, em desespero de causa, ligam para o cliente, o que causa sempre muito mal estar, porque o intermediário reclama que é falta de ética. Quer dizer, tem que esperar, quietinho, e ainda dizer obrigado quando o pagamento chega.

Alguns intermediários relutam em pressionar o cliente pelo pagamento, para não parecerem chatos. Estão, na verdade, fazendo cumprimentos com chapéu alheio, porque estão fazendo concessões com o dinheiro que pertence ao tradutor, não a eles próprios.

Outros, aceitam todo tipo de serviço, sem procurar ver se o cliente final é de confiança.

O pior, mesmo, é quando o tradutor liga para o cliente final, para suplicar pagamento, e descobre que já foi feito há muito tempo. Mas isso já é outra conversa.

Obrigado pela visita e volte sempre.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

A ilusão de segurança

De vez em quando aparece um cliente com uma grande oferta de serviço. Grande quantidade, serviço firme. Claro, como é seguro e tal, um verdadeiro emprego, vem lá aquele pedido de um descontinho amigo. Coisa pequena, 30% é suficiente.

Pule fora.

Durante algum tempo, vão te mandar montes de serviço, nas horas mais estranhas, pedindo as coisas mais estranhas e você jamais vai ter coragem de recusar. Pode ser até demais para você, mas você não quer se arriscar a ver um concorrente no pedaço. O serviço vai crescer, até que você vai abandonar seus outros clientes, conquistados com tanto esforço. Lá pelas tantas, praticamente todo o seu serviço é para aquele cliente.

Um dia, mudam os ventos. Alguém é demitido, promovido ou transferido e o novo encarregado acha um absurdo o que se está fazendo. Ou não gosta do teu serviço. Ou acha que você ganha demais. Ou tem um amigo tradutor. Ou mudam os planos da empresa. Ou a empresa é vendida.

E param de te dar serviço. Para, simplesmente, param.

Aí você vê que esse “verdadeiro emprego”, de emprego, não tem nada. Não tem férias, não tem 13º, não tem FGTS, não tem aviso prévio, não tem convênio. A rigor, não tem nada. Acabou e você não recebe um tostão. E perdeu seus outros clientes. E, durante meses, recusou serviço. E, durante meses, não cultivou novos clientes.

Mas aí já é tarde. Se, com isso, você entender que a segurança não está no grande cliente, mas sim numa boa quantidade de gente que te mande pouco serviço, de tal modo que nenhum cliente signifique mais que 20% do seu faturamento, menos mal.

Estou escrevendo isto tudo porque já aconteceu comigo.

Até amanhã.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Wordfast, Trados, DéjàVu, StarTransit (2)

(Veja a parte inicial deste artigo mais abaixo)

O curioso é que tem gente que acha que vai virar tradutor com um programa desses. O sujeito baixa um demo do programa, entra na lista de usuários e depois reclama que o programa não faz nada. Não faz mesmo. Ajuda a fazer mais e melhor, mas não faz nada. Essa é a realidade. É programa para quem sabe traduzir.

Outros, pegam o demo e perguntam onde é que a gente baixa as memórias. Um dia, eu estava a fim de zuar e respondi assim:

  • There are no downloadable memories.
  • If there were, they would be password-protected.
  • If they were not password protected, they would cost a fortune.
  • If they did not cost a fortune, they would not be in your language pair.
  • If they were in your language pair, they would not be in one of the areas you work with.
  • If they were in one of the areas you work with, you can bet your sweet behind that they would be full of errors.
  • If they were not full of errors, they would use terminology that your most important client finds unacceptable.
Life is hard, pal, and the world is far from fair, but that is the way it is. Let's be brave and face it.

Aliás, é por isso que os programas são bons: porque potencializam a capacidade de cada um de nós. Em outras palavras, se você for bom de tradução, com um desses programas vai ficar melhor ainda. Se for ruim, vai fazer bobagens nunca vistas.

É certo que, de vez em quando, o cliente (geralmente uma agência) tem uma memória e obriga a gente a trabalhar com essa memória. A memória pode ser boa e pode não ser. Quando não é, a encrenca é grossa, mas isso já é assunto para outro comentário.

Por hoje é só. Espero que tenha gostado. Se gostou, deixe um comentário dizendo que gostou e volte amanhã, que tem mais. Se não gostou, deixe um recado metendo o pau e volte amanhã, para ver se melhorou.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Roubaram seu cliente?

De vez em quando, o cliente de algum colega nos procura. Isso é normal. Afinal, o cliente tem o direito de procurar o tradutor que quiser, da mesma forma que você muda de médico ou de mecânico na hora que bem entende. Trate esse cliente do mesmo modo que você trataria se ele tivesse saído do nada.

Parece contrário à ética profissional Então, me responda o seguinte: você está em tratamento médico com o Dr. X e, lá pelas tantas, resolve mudar de médico e consultar o Dr. Y. O que você diria se o Dr. Y se negasse a atender alegando que não pode roubar cliente de colega?

Isso não significa que você tenha o direito de copiar o caderno de endereços de seu colega e abordar os clientes dele, oferecendo um desconto. Concorrência é uma coisa, pirataria é outra.
Agora, se o cliente do seu colega vier procurar você, o seu colega pode não vai gostar, mas isso também é outra coisa e prova de imaturidade profissional. Lembre-se de que um cliente só vai procurar um novo fornecedor se estiver insatisfeito com o fornecedor atual e fique em paz com sua própria consciência, como eu estou com a minha.

Por outro lado, se um cliente seu passar a procurar um de seus colegas, nem por isso considere o colega seu inimigo. Faz parte da vida.

Antes que eu me esqueça, já perdi mais de um cliente para colegas e já ganhei mais de um cliente deles – e nunca deixei que isso prejudicasse a amizade que nos une.

Amanhã tem mais. Obrigado pela visita.

domingo, 26 de novembro de 2006

Qualidade (2)

Esta nota é continuação do artigo de mesmo nome, abaixo.

Voltei do cliente arrasado. Não só tinha perdido o serviço, o que me fez falta na época, mas, principalmente, estava com minha dignidade no chão. Um serviço que nem para “má qualidade” serve é, de fato, um horror.

Pouco a pouco, entretanto, fui entendendo o que tinha acontecido.

Vou poupar você dos detalhes, porque pouco interessam e quero ser breve. O cliente tinha resolvido abandonar o projeto, meu contato tinha sido demitido e o novo encarregado da área estava querendo reduzir os prejuízos. Um dos meios era parar de pagar o tradutor. O caminho mais simples era alegar que a “má qualidade” do serviço tinha ficado aquém do desejado, esperado e combinado: um excelente pretexto, porque incontestável.

Não tinha um contrato, falha minha, falta de experiência. Para serviços pequenos, do tipo bate-e-volta, dos quais tenho muitos, nem sempre dá para fazer, mas se não pagarem a perda é pouca. Em muitos casos, temos, ao menos, um e-mail. Naquele época, não havia isso. Tínhamos nossa palavra. O melhor, eu tinha a minha, porque a dele não havia. Para grandes trabalhos, entretanto, pelo menos uma boa carta de especificações é essencial.

Mas mesmo que tivesse contrato, seria impossível provar que a “má qualidade” estava no nível esperado. E ia exigir uma verdadeira batalha judicial, contra os advogados de uma grande empresa, que poderiam me infernizar a vida com mil recursos protelatórios que iam me custar uma fortuna.

Desse fracasso, tirei muitas lições. Delas, gostaria de compartilhar com vocês as duas mais importantes:

Primeiro, cuidado com os projetos grandes e longos. A segurança financeira de cada um de nós está nos pequenos projetos, não nos grandes. O vendeiro ali da esquina vai te explicar que o importante é ter muitos clientes, não ter um cliente que seja responsável por 90% das tuas vendas. Você vira refém desse cliente e isso é péssimo para sua segurança.

Segundo, jamais aceite entregar serviços “mais ou menos”. Sempre, sempre, sempre faça o melhor serviço que puder. O cliente, muitas vezes, pede para sacrificar a qualidade em favor do prazo ou do preço. Depois de três meses, ninguém se lembra de que você deu conta de 300 laudas num fim de semana. Abrem o texto, encontram as falhas e perguntam quanto foi pago por aquele lixo e quem foi o porco que fez.

sábado, 25 de novembro de 2006

Uma questão de qualidade

Num canto do escritório do cliente, uma caixa cheia de manuais xerografados. Naquele tempo, a gente ainda ia pessoalmente ao cliente, pegar e entregar serviço. Estava em início de carreira e com um fluxo de serviço ainda muito irregular e, por isso, cada vez que via a caixa, babava. O cliente dizia que estava aguardando autorização para mandar traduzir.

Um dia, me avisou que o serviço tinha sido liberado. Três meses para fazer tudo. Por que três meses? Porque sim e pronto: essas coisas não se discutem. Não precisava ser coisa muito boa, era só, realmente, um rascunho, para o pessoal dele entender do que se tratava.

Aliás, como não precisava revisar e como era um serviço grande, esperava um bom desconto. Dois, para dizer a verdade, um pela falta de revisão, outro pelo volume de serviço. Aceitei, todo satisfeito, levei a caixa para casa, dividi o trabalho com um colega e fui em frente.

Um mês depois, fui chamado de novo. O responsável pela área tinha mudado e o novo responsável tinha cancelado o serviço, dada a má qualidade da tradução. Não adiantou argumentar que o combinado era entregar sem revisão. O cliente disse que até para má qualidade há um limite, que ele entendia que era sem revisar, mas que estava, realmente, ruim demais. Pagaram o entregue e ponto final.

A segunda parte da história, conto amanhã. Posso garantir que foi uma lição importante.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Cliente ladrão

De vez em quando, aparece alguém na Internet, irado porque não foi pago por algum cliente e se refere a o mau pagador como "ladrão".


Quem deixa de pagar conta não é ladrão nem vai para a cadeia. Quem deixa de pagar uma dívida é inadimplente e, no máximo, pode ver a dívida sendo executada, quer dizer, ver um juíz forçando o leilão de seus bens para pagar a dívida.

No entanto, dizer que alguém é “ladrão” porque deixou de pagar uma conta (por exemplo, a fatura do tradutor) é crime de contra a honra e dá cadeia. Portanto, se alguém deixar de pagar sua fatura, não vá acusando de ladrão nem dizendo que vai pôr na cadeia, porque desse jeito quem acaba na cadeia é você.

E isso vale para a maioria dos países do mundo, não só para o Brasil.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

WordFast, Trados, DéjàVu, StarTransit...

Não me canso de dizer que o domínio das ferramentas de tradução assistida por computador é essencial para o tradutor. As exceções são poucas, muito poucas. Por exemplo, não dá para usar essas ferramentas para dublagem e legendagem. Mas o resto, fica melhor e mais fácil com elas. Não importa se você traduz inglês, alemão ou turcomano; se faz técnica, literária ou religiosa: funciona do mesmo jeito e ajuda muito.

Mas é importante não confundir ferramentas de tradução assistida por computador com ferramentas de tradução automatizada.

Ferramentas de tradução assistida por computador são programas como Wordfast, Trados, DéjàVu, StarTransit e mil outros que ajudam o tradutor em suas tarefas. Para mim, trabalhar sem elas é como apertar parafuso com faca de cozinha. São chamadas, muitas vezes, de ferramentas de memória de tradução, mas esse é um nome enganoso, porque dá a entender que a única coisa que eles fazem é tratar de memórias e repetições, o que não é verdade.

Tem muita gente que diz que é bobagem, que na área deles ou para o par de línguas que traduzem não ajuda nada, mas e mera falta de conhecimento ou medo da mudança. A pressão pelo uso desses programas aumenta constantemente e logo vai ser impossível viver sem eles.

Não acredita? Então espere. Quando eu comecei, tinha gente que dizia que não precisava de máquina de escrever, porque era tradutor, não datilógrafo. Depois vieram os que diziam que quem sabia escrever à máquina direito não precisava de computador. Depois vieram os que diziam que não precisavam dessa coisa de Internet. Hoje, dizem que não precisam de ferramentas de tradução assistida por computador.

Do outro lado, há os programas de tradução automática, tipo BabelFish e PowerTranslator, que procuram substituir o tradutor. Mesmo os melhorzinhos deles ainda têm graves limitações e há mais de 30 anos que estou ouvindo dizer que tem aí um programa que está para sair que vai acabar com os tradutores. Quando sair, aí eu acredito.

Obrigado por ter lido este comentário. Comente, se quiser, e volte amanhã, que tem mais.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Agências, empresas e tal (2)

Este artigo é continuação do artigo do mesmo nome, aqui abaixo.

A minha colega tem carradas de razão, mas detesto terceirizar, não importa o nome que se dê ao processo. Terceirizar me obriga a assumir mais obrigações administrativas, o que não quero. E tem as responsabilidades: perante o colega, sou responsável pelo pagamento; perante o cliente, sou responsável pela qualidade da tradução. Se eu pedir a um colega que faça uma tradução por mim, vou me sentir na obrigação de revisar – e revisar toma tempo. Além de tomar tempo, se o texto tratar de um assunto que não conheço, é bem possível que eu não consiga fazer uma boa revisão.

Tudo isso toma tempo que eu poderia usar para traduzir, que é o que gosto de fazer. Sem falar na dor de cabeça.

Tem, também, a questão dos impostos. Ou peço nota ao colega, ou trabalho “informalmente”. Se for um negócio informal, não tenho como dar saída na despesa e vou pagar uma fortuna de imposto de renda, porque o cliente faz absoluta questão de nota. Se pedir nota ao colega, ambos vamos ter que pagar ISS, que é cumulativo. Se o colega me der um RPA, então, é um Deus-nos-acuda. E tem mais uma porção de outras coisinhas.

Quer dizer, o custo de repassar um serviço a um colega é alto, bem mais alto do que se pensa e geralmente, bem mais alto do que a comissão que o colega consideraria “justa”.

Volto ainda ao assunto, que, a rigor, não tem fim. Espero que você tenha gostado. Deixe seu comentário e volte sempre.

Sobre comentários

Gosto que deixem comentários, mas é bom lembrar que, perante a lei, o responsável pelo que se diz aqui sou eu. Quer dizer, se alguém deixar um comentário dizendo que alguém cometeu um crime, por exemplo, aceitou suborno para aprovar um candidato no concurso para juramentado ou para aprovar um aluno na faculdade, ou reprovou uma moça bonita que se recusou ao exame no divã, eu é quem fico sujeito a processo por calúnia, como diz o Artigo 138 do Código Penal, por mais verdadeira que possa ser a denúncia. Situação cômoda para o denunciante, mas não para mim.

Por isso, esse tipo de comentário vai ser sempre barrado.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Convocação geral

Nove de dezembro de 2006 é dia de Reunião na Sala 7, as 14 horas.

A reunião é virtual, quer dizer, não importa onde você estiver, pode participar tranqüilamente.

O assunto, como sempre, é a nossa profissão. Coisas como preços, mercado, clientela, formas de atendimento, enfim, todas aquelas coisas que interessam a quem é ou pretende ser tradutor profissional. O formato agora está mais dinâmico e interativo, com mais oportunidades para discutir as questões propostas no chat.

A participação é grátis: não fazemos coleta, não passamos rifa, não cobramos jóia, não pedimos o número do seu cartão de crédito, não ficamos empurrando curso, nada.

É necessário inscrever-se antecipadamente. É permitida a inscrição de grupos. Compareça e avise seus colegas.

Para saber como funciona, clique aqui. Aqui abaixo, na área dos comentários, você pode já fazer alguma pergunta ou sugerir algum tema para discussão

Regulamentação

A regulamentação significaria que, para traduzir, seria necessário diploma de tradutor, o que seria excelente para as faculdades, que teriam um público cativo. Entretanto, não significaria que quem tivesse curso superior iria ter serviço, quer dizer, para os tradutores não ia adiantar muito. Nem muito menos significaria que as faculdades iam ser obrigadas a ensinar as coisas que é necessário saber para conseguir se firmar no mercado.

Se a profissão regulamentada, a porteira ia ser fechada para os que não tivessem curso superior, mas quem já estivesse atuando como tradutor, teria seus direitos adquiridos respeitados. Há tanta gente atualmente nessa situação de “direitos adquiridos” (incluindo eu) que os efeitos iam começar a ser sentidos somente depois que boa parte dessa gente morresse ou se aposentasse.

Isso, evidentemente, se a regulamentação “pegasse”. A regulamentação das secretárias, por exemplo, não pegou: para contornar a lei, foi criada a “assistente administrativa” e nós todos conhecemos casos de “pessoa que assina” em outras profissões.

Entretanto, mesmo que todos os que hoje exercem a profissão sem serem diplomados fossem impedidos de traduzir, não haveria serviço suficiente para todos os formados em cursos superiores de tradução. Curso superior de tradução virou moda e o mercado está saturado.

Aliás, não há absolutamente lugar algum no mundo em que a profissão de tradutor seja regulamentada. Existem, sim, países onde o diploma é mais valorizado. Mas essa é outra história.

Espero que tenha achado este artigo interessante. Deixe seu comentário e volte amanhã, que tem mais.

(amanhã volto ao assunto da terceiriação)

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Falsos cognatos (2)

O colega Francisco Fabiano deixou um comentário, que discuto aqui, com alguns cortes para simplificar. O texto dele vai em itálico, os meus adendos em redondo.

Sobre falsos cognatos, registre-se também o Vocabulando, da Isa Mara Lando (que foi bastante ampliado recentemente).

O livro da Isa Mara Lando é essencial, mas sua tônica não são os falsos cognatos, mas sim aquelas palavras que são diabólicas para taduzir. É sempre a primeira fonte de consulta que abro.

O vetusto "Arte de traduzir" do Breno Silveira, que foi relançado em 2004, contém lista de falsos amigos em inglês e espanhol.

Sim, mas carece do tratamento que lhes dá o Agenor.

Há um livro do Ulisses W. de Carvalho que trata do assunto com qualidade. Nenhum supera o grande Agenor, que para tristeza geral não teve uma terceira edição. O livro se chama Dicionário das palavras que enganam em inglês, autor Ulisses Wehby de Carvalho, Editora Campus/Elsevier, 2004.

E eu que não sabia! Vexame.

Na bibliografia do Vocabulando há referência à obra 280 erros comuns na tradução da língua inglesa, de autoria de Ronaldo Alves de Oliveira, Ed. Edicta, 2004, que trata do tema (esse eu não conheço "ao vivo e em cores", só a referência da Isa Mara).

Nem eu tampouco. Tem o Mascherpe e Zamarin, vetusto, também, que só se encontra em sebos. Deve haver outros.

Agências, empresas e tal

Jamais repasso trabalho a terceiros. Se não puder fazer, porque o prazo é curto demais, porque o assunto me escapa, ou porque exige uma língua que não conheço, recuso o serviço. Às vezes, recomendo um colega, quando conheço alguém com o tipo de competência apropriada.

Tenho sido muito criticado por esse procedimento. Uma colega e amiga diz que aceita tudo o que lhe mandarem, faz o que pode e repassa o resto a algum colega. Diz ela, e não se razão, que, dessa forma, atende o cliente e direciona o serviço para um tradutor cuja capacidade ela conhece. Agrega que se meramente recomendar o colega, como faço eu, existe uma grande possibilidade de o cliente enviar o serviço a alguém diferente do indicado e até, com perdão da palavra, a uma agência.

Quando repassa serviço, a minha colega retém uma porcentagem, como reembolso pelo tempo gasto em contatos e conversas, tempo que ela normalmente estaria usando para fazer traduções remuneradas. Diz que ficaria satisfeitíssima se eu repassasse a ela as minhas sobras de serviço, também retendo uma taxa de repasse, ou como quer que se prefira chamar a diferença entre aquilo que o cliente final paga e o que o tradutor recebe.

É uma discussão interessante, com ramificações importantíssimas, à qual pretendo retornar amanhã e, creio eu, em diversos outros artigos.

Obrigado por sua visita e deixe seu comentário abaixo.

domingo, 19 de novembro de 2006

Falsos cognatos

Duas palavras se dizem cognatas quando têm a mesma etimologia. Por exemplo, semear, semente, seminário, disseminar são palavra cognatas, todas elas derivadas do latim semen. Muitas dessas palavras encontram cognatas em outras línguas: disseminate em inglês, por exemplo, ou seminário em espanhol e italiano, ou séminaire em francês, pertencem todas à mesma família do semear, semente, seminário, disseminar e, por isso, são todas cognatas.

Para saber se duas palavras são cognatas, é necessário saber um bocado de lingüística diacrônica ou consultar dicionários etimológicos. Ser “parecida”, não é suficiente. Por exemplo, haver e have são parecidíssimas, nas não são cognatas, porque, a despeito da semelhança, as duas palavras têm origens totalmente diferentes. Quer dizer, não se arrisque a dizer que suas palavras são cognatas sem uma boa pesquisa em dicionários.

O sentido das palavras muda com o tempo. Paedagogus, que deu nosso pedagogo, era o escravo encarregado de conduzir as crianças à escola. Aos poucos, o sentido foi se estendendo para o atual e se perdeu o sentido original. Isso é normal em todas as línguas, não só no português. Quando duas palavras cognatas em duas línguas evoluem em direções diferentes, lá pelas tantas, a despeito da forma muito parecida, os seus sentidos se tornam tão diferentes que já na se pode traduzir uma pela outra.

O exemplo clássico é o actual inglês, que não pode mais ser traduzido automaticamente pelo português atual, embora ambos tenham a mesma origem, o latim actualis. Os tradutores chamam esses casos de falso cognatos. Confesso que não gosto do termo: dá a impressão de que não são cognatos de verdade, mas são e não vão deixar de ser. São falsos porque se fingem de amigos mas nos traem. Por isso, os franceses chamam esses casos de falsos amigos, o que é uma saída bem melhor. Muitas vezes, a falsidade é parcial: por exemplo, actual como termo técnico de filosofia aristotélica, é atual mesmo e é assim que se traduz.

Existe um monumental trabalho sobre falsos cognatos inglês-português, que é o Guia Prático da Tradução Inglesa, do Agenor Soares dos Santos, que, lamentavelmente, está esgotado há muitos anos. Se encontrar em algum sebo, não deixe de comprar.

Claro que é importante não cair nas armadilhas dos falsos cognatos, mas é mais igualmente importante não cair em outras armadilhas da tradução. Quem sabe volto ao assunto.

Obrigado por sua visita e espero que tenha gostado do que viu. Deixe seu comentário e volte amanhã, que tem mais.

sábado, 18 de novembro de 2006

Trabalhar para pesoas físicas

Trabalhar para pessoas físicas é sempre um problema. A maioria das pessoas físicas não entende por que tem de pagar para traduzir – e, mais ainda, por que tem de pagar tanto. Acham “um roubo” ou esperam que a gente trabalhe grátis para maior glória delas. Quer dizer, por exemplo, eu traduzir barato para facilitar a elas o acesso ao título de "doutor" em alguma coisa.

Tradutores públicos, que têm de tratar freqüentemente com pessoas físicas, sofrem muito com isso. Quando o serviço é grande, é pior ainda: a maioria das pessoas não se dá conta de quanto tempo se gasta para traduzir um livro. Então, o sujeito precisa ler o livro para sua tese de mestrado e vai procurar um tradutor – e fica surpreso com o preço.

No início de carreira, todo mundo faz tudo e eu não tinha medo algum de traduzir um livro sobre engenharia. Quando um engenheiro me pediu um orçamento, fiz lá minhas contas e cotei o preço. O engenheiro caiu das nuvens, afirmando que era o salário dele de um mês.

Eu retruquei que ele era um homem de sorte, porque eu precisaria de dois meses para fazer a tradução e ganhar aquele tanto – e não tinha férias, décimo terceiro, essas coisas. E, por cima, ainda tinha que comprar meu próprio equipamento. A resposta, sem dúvida, foi boa, e o próprio engenheiro concordou, mas acabei não ficando com o serviço: o homem não tinha como desviar um mês do seu salário para mim, não importa de quanto tempo eu necessitasse para fazer a tradução.

Provavelmente encontrou outra pessoa que fizesse o serviço “mais em conta” – mas isso não é problema meu: e problema de quem aceitou o trabalho por preço baixo demais.

Espero que você tenha gostado deste artigo. Amanhã tem mais.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Revisão, revisores, proofreading, etc. (3)

Este artigo é continuação e encerra uma série de três

Dois problemas: primeiro, o das editoras/agências que simplesmente contratam o tradutor mais barato que encontrarem e exigem o trabalho pronto em prazos breves demais, condições que os tradutores costumam aceitar sem pestanejar, de acordo com a idéia de que “se eu não aceitar, alguém aceita”; segundo, o da confusão “sem querer querendo” entre revisão de originais e leitura de provas.

A conjunção desses dois fatores criam problemas graves para revisores e leitores de provas: o tradutor faz porcaria, porcaria esta que é entregue a alguém para um “proofreading”. O leitor de provas se prepara para concentrar atenção em minúcias e no eventual pronome mal colocado, mas topa com um horror tradutório, cheio de frases sem sentido, anglicismos de freqüência, quando não com dúvidas do tradutor indicadas por pontos de interrogação – falhas que não deveriam ter passado pelo revisor e, provavelmente, nem pelo tradutor. Mas chegam não mão do revisor de provas / leitor de provas / proofreader, com o pedido de “dar uma olhada final, já passou inclusive pelo revisor.

Por essas e por outras, antes de aceitar um trabalho é bom examinar primeiro, salvo se a relação de confiança com o cliente for tão forte que permita discussões sobre prazo e preço depois de iniciado o trabalho.

Para terminar, vou contar uma historinha. Uma agência mandou um serviço de proofreading, com o aviso de que era só para examinar alguma falha de diagramação, porque o serviço já tinha passado por revisão e as provas tinham sido lidas pelo leitor de provas do cliente. Leitura de provas, aqui, é função da Vera, minha mulher e exímia catadora de erros em serviço alheio (principalmente no meu). A intuição feminina dela exigiu que ela fosse conferir uma data com o original e, evidentemente, a data estava errada. Passamos o serviço, motu proprio, para revisão de tradução / editing e conferimos tudo, tendo encontrado dúzias de erros factuais, por exemplo, datas erradas, listas de nomes que não conferiam com o original e mil outros problemas. Como isso foi acontecer, já é outra história. Como também é outra história o caso dos metidos a revisor.

Obrigado pela visita, deixe seu comentário e volte amanhã, que tem mais.


quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Revisão, revisores, proofreading, etc. (2)

Este artigo é continuação do anterior.

Revisar é tarefa árdua e exige uma atenção enorme e conhecimento de mil coisas. Mas poucos são os clientes que gostam de pagar revisores, essa é a verdade. Então, vêm com o velho golpe do “João sem braço”, pedindo para “dar uma revisada, ver se tem alguma coisinha”. Isso não existe. Ou você revisa ou não revisa. Se revisar, cobre e faça direito. Aceite “dar uma olhada” e pode ter certeza de que, depois, todos vão dizer que você fez serviço porco.

Outro problema para quem faz revisão de originais é o hábito, que se instala no exterior e no Brasil, de usar proofreading assim, meio que “sem querer, querendo” para uma única fase de trabalho, após a tradução, que deveria ser o editing, no caso de termos um trabalho que vá ser entregue sem diagramação especial. O velho truque de procurar minimizar o trabalho necessário, para obter um desconto.

Proofreading é leitura de provas de impressão, de trabalho diagramado depois de revisto, jamais a revisão do que acaba de ser entregue pelo tradutor.

Se cada um fizer seu trabalho direitinho, o revisor de originais trabalha mais depressa que o tradutor e o leitor de provas mais depressa que o revisor. Isso significa que o preço por palavra (ou lauda, ou o que for) cobrado pelo revisor de originais é menor que o cobrado pelo tradutor e o preço do leitor de provas é ainda mais baixo. No fim do dia, como as produções são diferentes, deveriam ganhar todos a mesma coisa.

Amanhã, termino esta história de revisão. Espero que gostem. Os comentários são bem-vindos.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Revisão, revisores, prooferading, etc.

Toda tradução deveria passar por uma revisão, por competente e cuidadoso que seja o tradutor. A revisão inclui duas tarefas: a primeira é garantir que original e tradução dizem a mesma coisa, quer dizer, que não há “erros de tradução”; a segunda é garantir que a tradução está escrita em linguagem isenta de tradutorês, quer dizer, sem aquelas construções e expressões que só aparecem nas traduções mal feitas.

São tarefas conflitantes. A primeira, exige um cotejo da tradução com o original; a segunda exige que a tradução seja lida separadamente, sem nem pensar no original. Na verdade, para que uma tradução ficasse realmente boa, deveria haver dois revisores, cada um encarregado de uma das tarefas de revisão, com uma reunião final entre ambos, para que um aprovasse as emendas do outro. Já me aconteceu, e terá acontecido a outros, que, a para melhorar minha redação, um revisor inseriu em meu texto um erro de tradução. Prova de que era necessária uma alteração, claro, mas ainda bem que eu validei a revisão e pude apontar a falha. Não era tarefa minha: deveria, realmente, haver dois revisores. Não há – e o revisor tem de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.

O trabalho descrito acima se chama propriamente revisão, ou revisão de originais, em português e, em inglês, editing. Não deve ser confundido com leitura de provas, que também se chama revisão de provas, e, em inglês proofreading. A leitura de provas/proofreading é algo que se faz somente quando a tradução vai ser impressa e, atualmente, muitas vezes já em formato pdf, quer dizer, com a diagramação final. Nessa fase, o profissional não olha mais o texto original. Concentra-se no arquivo que tem à sua frente, procurando o que se chama “gralha”, quer dizer, um acento fora de lugar, um número com vírgulas onde deveria haver pontos, um parágrafo quebrado, um hífen faltando ou mal colocado, essas coisas. Tem que ser alguém de grande competência na língua de chegada. Se for monoglota, não faz grande diferença. Os problemas de tradução já foram eliminados pelo revisor de originais, esse sim, com competência em duas línguas.

Amanhã, volto a este assunto. Por hoje, chega. Espero que você tenha gostado. Deixe seu comentário e volte amanhã, que tem mais.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Você conhece um bom glossário?

A Internet está cheia de glossários de diversos tipos, páginas com links para glossários e páginas com links para páginas de links para glossários, sem falar nos mil glossários que estamos sempre compartilhando uns com os outros. Tenho até um programa grátis, o xBench, que me permite consultar todos os meus glossários ao mesmo tempo.

Mas é preciso tomar muito cuidado com esses glossários. Por exemplo, circula por aí uma alma penada de glossário, cuja criação é atribuída a dois grandes escritórios de advocacia e a uma grande firma de consultoria, conforme a história que contam quando nos mandam uma cópia. Entretanto, esse glossário nada mais é que uma compilação de diversos outros glossários, sem análise nem crítica alguma e, de par com soluções corretas, contém erros monumentais. A primeira vez que me mandaram, foi há uns dez anos. Deste então, recebi várias outras versões, sempre com mais e mais acréscimos, cada um mais esquisito que o anterior.

Entretanto, como é distribuído como “o glossário do/da _____” goza de grande crédito entre alguns tradutores e, conseqüentemente, é a fonte de algumas das mais terríveis bobagens tradutórias que já se fizeram. Se você tem um desses, cuidado: ele jamais foi validado por alguém que tivesse bons conhecimentos da área e foi sofrendo adições de diversos tipos, muitas delas bisonhas. Quer dizer, nenhuma das três conhecidas e respeitáveis firmas cujos nomes normalmente são associados com o texto tem alguma coisa que ver com ele.

Caso semelhante se dá com uma coletânea de glossários disponibilizada por uma universidade conhecidíssima, que não são pesquisas acadêmicas feitas profissionais tarimbados, como muitos pensam, mas sim trabalhos de alunos inexperientes, muitas vezes, feitos às pressas. Não tenho conhecimento de todas as áreas cobertas por esses glossários, mas, nas áreas que conheço, posso dizer que são muito fracos.

Considere tudo que encontrar em um glossário como uma sugestão, uma sugestão que precisa ser confirmada e validada de alguma outra forma, usando um documento monoglota. Conferir um glossário bilíngue com outro bilíngüe não vale: é bem possível que um tenha sido copiado do outro, como o tal do glossário jurídico que aparece com três nomes e os mesmos erros.

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