segunda-feira, 26 de março de 2007
Mais tupiniquinglish
domingo, 25 de março de 2007
Reconhecimento público do tradutor
A platéia de jovens atenta, tão atenta quanto consegue ficar uma platéia de jovens. Chegou a minha vez de falar. Comecei dizendo que não traduzia um livro havia mais de um quarto de século - e a maioria da platéia tinha bem menos de vinte e cinco anos de idade -, jamais tinha traduzido literatura, jamais tinha traduzido um filme, que não fazia simultânea (entre outras coisas porque meu inglês falado é frágil demais) não era juramentado. Tensão no auditório. Que raio vem fazer esse cara aqui? Os professores que me ladeavam na mesa e os que estavam na platéia, mexiam os pés, inquietos e se entreolhavam, preocupados.
Continuei dizendo que há mais de trinta anos sustentava família com meus ganhos como tradutor. Espanto total.
A situação, nas faculdades, melhorou muito, mas o público em geral ainda vê a dupla Livro & Filme como o ganha-pão básico do tradutor. Os mais bem informadinhos sabem dos TPICs, embora falem deles como "juramentados", ou "oficiais", o que é bem pior. Outros conhecem o pessoal da simultânea. Mas, mesmo nas faculdades, a minha situação causa algum espanto. Quer dizer, mesmo no ambiente acadêmico, a atuação profissional não é tão conhecida como deveria ser, quem dirá entre o público em geral.
O curioso é que não faço parte de uma minoria, ao contrário: a grande maioria dos tradutores tem uma experiência semelhante à minha. Esses segmentos mais visíveis da profissão são muito importantes sob diversos pontos de vista, mas representam uma parcela muito pequena do nosso trabalho e, por isso, há inúmeros tradutores que pouco ou nada fazem nessas áreas, como é meu caso.
Trabalho, como a maioria de nós, na "face oculta" da profissão. Isso me irrita? Não. Nem um pouco. Meus clientes sabem o que eu faço, me respeitam e me pagam por isso. Sou tradutor porque gosto de traduzir e porque é assim que ganho a vida. Reconhecimento público é o que menos me interessa.
Há anos, apareci em algumas matérias jornalísticas e, depois, uma que outra pessoa que me conhecia como cliente ou freguês, comentou a matéria comigo. Sempre achei isso um tanto constrangedor. Quando me perguntam o que faço, digo que sou tradutor e, antes que me peçam uma tradução do último gangsta rap para o português, ou, o que é pior, a tradução para o inglês daquele rock que a banda de garagem do filho compôs, já vou dizendo que só faço financeira. Evita tanto problema!
Até amanhã. Mas, não sem uma pausa para nossos comerciais: agora, o Aulavox tem uma página especial para os meus cursos. Acho que vai facilitar a vida dos interessados. Vem curso de Trados por aí, tem a Reunião na Sala 7, grátis, como de sempre, desta vez discutindo os aspectos econômicos da tradução. Depois tem um Wordfast avançado, para quem quer aprender a mexer com a Caixa de Pandora. Divirtam-se.
sexta-feira, 23 de março de 2007
Notinha rápida sobre Tupiniquinglish
quinta-feira, 22 de março de 2007
Notinha rápida sobre amadorismo
Mas, de qualquer forma, eu sou tradutor profissional, não amador. Há diferenças.
O amador traduz o que quer.
O profissional traduz o que alguém precisa que ele traduza.
O amador tem outra ocupação remunerada e geralmente nem pensa em cobrar por suas traduções.
O profissional cobra por suas traduções e geralmente nem pensa em ter outra ocupação remunerada.
O amador traduz depois do serviço.
O serviço do profissional é traduzir.
Tenho orgulho de ser profissional, entre outras coisas porque não é qualquer um que consegue. Entretanto, nada tenho contra os amadores – salvo quando, numa apoteose de arrogância, me chamam "mercenário da tradução". Uma vez, ouvi isso de um professor universitário, que me tratou com desprezo, porque eu insistia em cobrar pelas minhas traduções. Eu sabia quem era, mas, me fazendo de bobo, perguntei do que ele vivia. Peito inflado, respondeu, "sou professor titular de tal e tal coisa na universidade de qual e qual". E eu, fazendo uma cara de perfeito idiota (fácil, no meu caso, a natureza ajuda), disse "ah, então, o senhor é mercenário do ensino!" Quase apanho e, evidentemente, fiz um inimigo. Mas há certo tipo de pessoa que é melhor ter como inimigo.
Espero postar mais alguma coisa hoje.
quarta-feira, 21 de março de 2007
Madame d'Anjou responde - preços nos EUA
Sei que você tem clientes estrangeiros, e a minha pergunta é a respeito de preço. Estou fazendo um serviço de tradução para um cliente dos EUA. Estou fazendo tradução para língua estrangeira, usando os serviços de revisor e entregando o serviço em .pdf (fdp, na minha opinião). Qual você acha que seria um valor justo (bom, mas dentro do mercado) nessa situação?
Minha amiga,
Não posso dizer quanto você deve cobrar. Seu preço faz parte de sua estratégia de marketing e essa estratégia, não posso traçar por você. Mas posso dar algumas informações que talvez sejam úteis.
Posso dizer, por exemplo, que, pela tradução, cobro 12 centavos de dólar por palavra do original de agência e 15 centavos de dólar por palavra do original dos clientes diretos. Revisão de originais, o que também se chama "preparação de originais" (editing), cobro por hora: 40 dólares. De modo geral, se a tradução for boa, dá para revisar 1000 palavras por hora. Se a tradução for ruim, reviso mais lentamente, cobro pelo tempo gasto e aviso o cliente que o serviço estava "below standard". Esses, aparentemente, são os preços correntes pagos nos EUA, para os tradutores que moram lá, também. Ao menos é o que me dizem meus colegas de lá de cima.
Há quem cobre mais. Há também, quem diga que cobra mais, mas não cobra. Mas esses preços são bons parâmetros, para serviços de tradutores experientes.
Nos EUA, duvido que alguém pague uma bonificação por estar traduzindo para uma língua estrangeira. Inclusive, é muito raro que alguém seja solicitado a traduzir para uma língua estrangeira, por aquelas plagas. O normal é "target language same as mother language".
Já que seu preço vai incluir o trabalho do revisor, é necessário somar os dois valores. Como se trata de cliente direto, algo assim como, digamos, 15+4 = 19 centavos de dólar por palavra, por tradução e revisão.
Agora, você me diz que "entrega o pdf". Isso significa que alguém faz o serviço de editoração eletrônica. Lamento muito, mas não tenho idéia de quanto isso possa custar. Eu não faço serviço de editoração eletrônica: meus clientes têm suas próprias equipes especializadas e minha participação na área se limita a fazer uma revisão de provas (proofreading), que é bem diferente da revisão de originais (editing) e que custa 1 centavo de dólar por palavra, porque toma muito menos tempo.
Não resolve seu problema, mas quem sabe ajuda.
Aliás, se você pretende fincar pé no mercado americano, deveria filiar-se à ATA (www.atanet.org) .
terça-feira, 20 de março de 2007
Madame d'Anjou responde - cliente que atrasa
O colega presta serviços "informais" a uma agência. Lá pelas tantas, a agência começa a atrasar. A conta fica alta. O colega se nega a entregar mais serviço antes do recebimento do saldo. A agência chora, diz que as coisas andam ruins, que o mau momento passa, etc.
Que fazer?
Prestar serviços "informais" só dá problema. Na hora de reclamar, você não tem como. É uma economia grande, de início, mas, a médio prazo, a economia é a base da porcaria. Se o colega tivesse uma bela coleção de notas fiscais, podia receber até o último tostão em juízo. Assim, de boca, fica complicado.
A agência pode estar falando a verdade, mas também pode estar mentindo para fazer caixa às custas do tradutor. Não seria a primeira que isso acontece e é difícil de descobrir onde está a verdade. Podem, também ser incompetentes. Outros, de caso pensado, pagam direito as primeiras entregas e depois começam a atrasar. Lá pelas tantas, o tradutor se enche e pára de anteder. Então eles começam a atrasar o pagamento de mais alguém. Vai saber o que está acontecendo.
Ainda que mal pergunte, nós não tínhamos aquele acordo com o Banco Itaú? Eles não fazem tradução, nós não concedemos empréstimos? Lembre-se de que cada vez que você aceita receber pagamento atrasado, está concedendo um empréstimo não remunerado ao seu cliente. Pergunta: você tem condições financeiras para fazer isso?
Estão sendo desonestos? Não sei, não importa. Quando eu vou ao supermercado, querem meu dinheiro, não saber se quem me deve é honesto ou desonesto. Não faz sentido eu passar necessidade para financiar empresa dos outros.
Vale a pena contiuar a trabalhar para eles? Certamente não. Melhor investir tempo em procurar outros clientes.
Madame d'Anjou
De vez em quando, minha caixa de correspondência parece o Consultorio da Madame d'Anjou. Os colegas que lêem este blog ou as coisas que eu escrevo alhures me escrevem com perguntas de cunho profissional, muitas das quais viram artigos para o blog, sempre descaracterizados para proteger identidades.
Fico muito honrado, mas um tanto constrangido. Não tenho soluções para todos os problemas – nem dos outros, nem meus. E minhas sugestões podem simplesmente não funcionar, ou porque não entendi o problema direito, ou porque não tenho as informações necessárias – ou simplesmente porque sou falível, bem mais falível do que parece. Quer dizer, o que eu digo é só mais uma opinião a considerar. No fim das contas, é você quem decide e arca dom as conseqüências.
Mas há dois pontos que gostaria de ressaltar aqui: o primeiro é que a essas consultas sempre respondo via blog. Desculpem, mas tem de se assim. Se eu escrever ainda mais do que escrevo em tudo quanto é canto, preciso parar de trabalhar e isto tudo aqui que eu faço é serviço não-remunerado, se é que ainda não notaram. Outro ponto é que não posso responder na hora. Quer dizer, alguém me escreve "Danilo, preciso da sua ajuda urgente, hoje de tarde, tenho que..." Bom, desculpe, mas eu não tenho como interromper trabalho com prazo apertado para responder imediatamente, quer diretamente, quer via blog.
Isso dito, fico satisfeito quando posso dar uma sugestão e ainda mais satisfeito quando alguém comenta, agregando alguma coisa que me escapou ou apresentando uma opinião diferente.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Por que me apresento como "tradutor profissional"?
Caro Danilo. Sou tradutor há não muito tempo e procuro me atualizar lendo blogs e eventualmente participando de grupos. Uma coisa que me chama a atenção partindo de alguns tradutores mais experientes é que eles se identificam com "tradutores profissionais". Normalmente a gente não houve falar de "médicos profissionais", "advogados profissionais" ou "professores profissionais". Será que isso denota uma necessidade de ainda temos que nos afirmar como profissionais (e não o somos?) e tendo que lembrar que vivemos exclusivamente disso? Ou será que o mercado ainda não nos vê como dignos de nos sustentarmos fazendo o que fazemos? Talvez seja apenas para nos diferenciarmos dos picaretas, mas eles existem em todas as profissões. De qualquer forma eu gostaria de ser apenas tradutor. E pronto.
Há uma distinção: não se pode ser advogado amador e, por isso, não pode haver advogado profissional. Sou tradutor profissional como há músicos profissionais, por oposição a músicos amadores ou semiprofissionais.
Assim como há excelentes músicos amadores e semiprofissionais, há excelentes tradutores amadores e semiprofissionais. Por isso, quando me digo profissional, não quero dizer que os amadores e semiprofissionais sejam uns incompetentes, mesmo porque há suficiente incompetência entre os profissionais.
Digo-me profissional para realçar o compromisso com a tradução, que exigiu de mim um investimento de tempo e dinheiro, investimento que amador algum pode fazer. Para deixar claro que traduzir não é algo que eu faça nas horas vagas, mas sim o que enche as horas do meu dia. Essa é uma distinção importante, principalmente para o cliente que tem um serviço grande e complicado, que exige recursos especiais de que os amadores não dispõem nem vão dispor, porque, financeiramente, é um despropósito investir o que eu investi para traduzir um par de horas por dia.
Como disse acima, há excelentes tradutores amadores e semiprofissionais. Mas há serviços que somente podem ser feitos por profissionais e, por isso, é bom deixar as coisas claras.
Você não perguntou, mas cada vez que alguém me pergunta se faço traduções, respondo sou tradutor profissional, se era essa a pergunta. Acho que o artiguinho que fica logo abaixo deste diz mais sobre o assunto.
domingo, 18 de março de 2007
Ajustados e desajustados
Há relativamente poucos tradutores mais velhos que eu em atividade. A turma vai se aposentando e morrendo e, de qualquer maneira, a profissão aumentou tanto que, mesmo que todos os que traduziam no meu tempo de iniciante ainda continuassem trabalhando, ainda constituiriam uma parcela pequena da categoria.
Comecei em 1970, na mesma época em que os cursos superiores de tradução. E demorou muito para os formados começaram a conquistar seu lugar ao sol. É uma história complicada, sobre que um dia ainda escrevo algo. Mas o fato é que, ainda hoje, uma parte, provavelmente a maioria, dos tradutores atuantes não tem formação superior como tradutor. Quem são os tradutores atuantes, então?
sexta-feira, 16 de março de 2007
Mais sobre o Wordfast - para Dirceu
Danilo,
O Wordfast tem custo ou é free? Se tem custo, como faço para adquirir de maneira segura?
Vou conseguir usar ele sem um curso? Acho o site da Wordfast um pouco confuso, é só atravéz deste site que eu consigo compra-lo? Aqui no Brasil não encontro? Preciso de cartão de crédito internacional para a compra? Creio que vai ser útil onde trabalho, pois traduzo muitos manuais para a empresa.
Grato,
A resposta: Wordfast é pago. Existe uma antiquíssima edição grátis, que não recomendo a ninguém: era grátis porque ainda estava em testes e era muito instável. Compra-se do próprio site, www.wordfast.net e a compra é protegida por toda sorte de meios. Nunca se soube que alguém tenha tido algum problema com segurança do pagamento. O site do Wordfast até que é dos mais simples, mas precisa ser lido com cuidado e atenção. A maioria de nós não tem muita paciência para essas coisas, sei, mas não tem jeito. Você pode pagar com cartão internacional (aliás, praticamente todos os cartões brasileiros são internacionais, há muitos anos) ou via Paypal.
Você baixa o programa, que funciona em modo demo até que você pague. Em modo demo, ele aceita até 500 segmentos, o que dá para você se divertir e ver se gosta e, inclusive, aprender a usar o programa. Para a maioria das pessoas, o programa se paga em uma semana, no máximo.
Dizem que há cracks. Não conheço nenhum e, se conhecesse, nem usaria nem divulgaria. O criador, Yves Champollion não tem outro meio de vida e passa o dia ajudando a gente. Não consigo me imaginar logrando o Yves. Para mim, é algo que repugna tanto quanto o cliente que pede tradução e não paga. Sei que você não pediu crack, Dirceu, mas aproveitei a oportunidade para mencionar o fato.
Tenho certeza de que vai ser útil para você, mas não porque traduz manuais: programas de memória de tradução são úteis para traduzir qualquer coisa. Se eu fosse traduzir a Bíblia, ou a Ilíada, certamente me valeria de um programa desse tipo.
Se você vai conseguir aprender sozinho, não sei, mas não seria o primeiro. Como é que você pensa que eu aprendi?
Mais sobre o tupiniquinglish
Não é necessário se inscever, não tem hora pra entrar e dura uma semana. Não há limite de vagas. Inteiramente grátis.
Tupiniquinglish
Na semana que vem, tem um e-talk meu na SBS, sobre tupiniquinglish. Grátis.
Tupiniquinglish é uma doença que grassa entre os rios Oiapoque e Chuí. Aflige, principalmente, os brasileiros que escrevem inglês, mas já vi muito tupiniquinglish escrito por tradutores "native speakers", que não sabiam descontaminar seus textos da influência do português. É possível se livrar do tupiniquinglish? Não. E, não se iluda, se sua língua nativa for o português, você nunca vai escrever "como eles". Por outro lado, quer o seu inglês seja nativo ou não, é possível melhorar muito a qualidade daquilo que se convencionou chamar "versões" com alguns procedimentos simples e é sobre isso que vamos conversar.
quinta-feira, 15 de março de 2007
Recado à comentarista iniciante
Comece por aqui: http://tradutor-profissional.blogspot.com/2007/02/mensagem-aos-iniciantes.html
Apotegma do dia
Concorrência dos meus colegas arruína o mercado.
(Anônimo Jr. escritor, poeta e jornalista de biografia desconhecida e obras perdidas)
As cinco habilidades
Presume-se, primeiro, que o tradutor tenha a capacidade de ler a língua de partida, quer dizer, a língua de que traduz. De modo geral, a língua de partida é uma língua estrangeira. O conhecimento necessário para traduzir é muito mais amplo do que o conhecimento neessário para se virar nas férias ou para ler o jornal. Quando você se põe a traduzir e, principalmente, quando vê sua tradução analisada por alguém, é que nota quanto passava por cima de mil pormenores e matizes daquele livro que parecia ter lido e entendendo perfeitamente.
Preume-se, em segundo lugar que o tradutor tenha a capacidade de escrever a língua de chegada, a língua para a qual traduz, que costuma ser sua própria língua materna. Aqui, também, o conhecimento necessário de longe ultrapassa o que seria necessário para as atividades normais e mesmo para atividades especiais, como escrever literatura. O literato escreve o que que quer, o tradutor escreve o que os outros querem, o que é uma exigência diferente. Nem de longe quero dizer que o tradutor seja superior ao escritor. Essa coisa de "superior" e "inferior" é meio idiota. O escritor precisa ter um tipo de criatividade diferente daquela esperada do tradutor, por exemplo e ficar fazendo essas comparações é desperdício de tempo.
A maioria dos tradutores e candidatos a tradutor investe muito tempo e esforço no aprendizado de uma língua estrangeira. Poucos se preocupam o suficiente com sua própria língua. É constrangedora a quantidade de mensagens que recebo começando assim: estudo inglês ***a*** dez anos. Deveria ter gasto um par de semanas a estudar português, também, pelo menos para apender a diferença entre "a" e "há".
Na Europa e na América do Norte, a exigência de boa redação na língua de chegada é tão grande, que só em raríssimos casos se admite que alguém traduza para uma língua estrangeira. Quer dizer, lá, não se faz "versão", sob a alegação de que ninguém domina uma língua estrangeira a ponto de a ter como língua de chegada.
O problema é que nem mesmo os nativos, muitas vezes, sabem o suficiente. A turma se esforça tanto para dominar uma língua estrangeira, que acaba escrevendo sua própria língua "com sotaque". Dá pena ver como tantos tradutores escrevem textos originais, cheios de estrangeirismos sintáticos. Imagino quando estão traduzindo. Não é só aqui. Há anos, me pediram para examinar umas traduções do português feitas por um inglês. Até eu, que sou brasileiro, encontrava o tupiniquinglish no texto dele. Livrar-se da contaminação é um dos maiores problemas do tradutor. Mas essa e outras questões ficam para amanhã, porque, por hoje, é só.
quarta-feira, 14 de março de 2007
Artigo 150!
Se tiver um momento, aproveite para ver os cursos Aulavox.
Apotegma
Há os que têm a formação errada.
(Anônimo Jr., pouco conhecido filósofo da escola da egolatria intolerante)
Programas, memórias, profissionalização
Pergunta boa, mas embaraçosa. Vamos ver se consigo me fazer claro. Não existe "o melhor programa". Eu próprio tenho e uso vários, conforme a situação. Entretanto acho que, para começar, o Wordfast é a melhor escolha. É barato, fácil de usar e processa arquivos no formato Trados, que é padrão de mercado e faz praticamente tudo o que você possa querer. Embora eu tenha um Trados autêntico, só uso nos raros casos em que me mandam uma memória protegida por senha. Salvo isso, processo todos os trabalhos "Trados" no WF, que é mais fácil e eficiente. Os TTX faço no DVX. Com o andar das coisas, você talvez queira comprar outras ferramentas, mas isso é outra coisa.
Esses programas (Trados, Wordfast, DVX, SDLX, StarTransit) são úteis para traduzir qualquer tipo de texto: literário, técnico, religioso, o que seja. Funcionam com qualquer língua que se escreva da esquerda para direita e seu Windows saiba processar. Mesmo para as línguas que se escrevem da direita para a esquerda servem, mas com algumas restrições e, se você trabalha com línguas orientais, é bom se informar direitinho primeiro.
Todos eles trabalham com textos eletrônicos e tem mais de um tradutor digitalizando livros inteiros só para gozar das inúmeras vantagens que esses programas oferecem.
Cada vez mais, nossos clientes exigem o uso desses programas e, por isso, é cada vez mais difícil trabalhar sem eles. Acho um crime não ensinarem essas coisas nas faculdades.
O constrangedor da pergunta está no fato de que sou parte interessada na história, porque dou treinamento em Wordfast, Trados e DVX. Mas gostaria de lembrar que, antes de fazer um curso, seja meu o de qualquer outra pessoa, você deveria tentar aprender por si só. Foi assim que eu aprendi. De Wordfast, tem uma apostil grátis, aqui, que a Vera e eu preparamos. Está um pouco antiquada, mas o essencial tem e funciona.
Editoras e direitos autorais, fim da novelinha
Como dizia no último capítulo, os editores costumam oferecer aos autores a opção entre receber seus direitos em forma de um pagamento fixo ou em forma de porcentagem sobre as vendas. Essa opção jamais é oferecida ao tradutor, nem aqui nem em qualquer outro país que eu conheça. As editoras fazem um contrato de cessão de direitos autorais, como, aliás, tem de ser feito, mas esse contrato sempre é de cessão por quantia fixa. Não se faz contrato de cessão de direitos autorais por participação nas vendas. A maioria deles é o que se chama "contrato de adesão": um formulário, ao qual se adiciona o nome do livro e do tradutor e se apresenta ao tradutor para assinatura. É pegar ou largar.
A falta de opção, certamente, é um mal. Há quem diga que esse pagamento por quantia fixa é ilegal. As editoras afirmam que é perfeitamente legal. Ambas as posições contam com o respaldo de advogados. Como os advogados existem para defender os interesses de seus clientes, podemos ter como certo que, se mudaram de cliente, vão mudar de opinião. Não seria a primeira vez que isso se vê no mundo. Fica para o judiciário resolver e não conheço decisão transitada em julgado sobre o assunto.
Esse regime de pagamento por quantia fixa prejudica o tradutor quando o livro estoura na praça. Ver que o livro vendeu uma barbaridade e você ganhou o mesmo de sempre é uma dor. Por outro lado, nos beneficia quando o livro vende pouco. Ver que o livro encalhou e você ficou com o teu numa boa é um prazer. Se você embocar meia dúzia de sucessos e agüentar firme até começarem a entrar os direitos (duas vezes ao ano, sempre a partir do lançamento da obra, que pode ser bem posterior à entrega da tradução) vai rachar de ganhar dinheiro. Se, por outro lado traduzir uma enfiada de livros de baixa vendagem ou de vendagem lenta, vai morrer de fome antes de formar um fluxo de caixa razoável.
Deixe eu contar um caso: trabalhei alguns anos para a Editora Atlas, honestíssima, pelo menos no meu tempo. Pagavam quantia fixa por lauda, como todos. Um dia, fizeram um acordo com um grupo de professores, para traduzir uma série de livros que iam ser recomendados aos alunos. A série incluia um livro difícil, que ia ser usado exclusivamente nos cursos de pós, que eram poucos na época, e vender pouco. Esse livro ficou na minha mão, porque eu tinha um pouco mais de experiência. Os "best-sellers", que eram mais fáceis, iam ficar nas mãos de outros tradutores. Ainda bem que trabalhávamos por lauda. Caso contrário, eu ia penar para ganhar muito pouco, enquanto a turma da moleza ia rachar de ganhar dinheiro.
Bom, você pode perguntar, mas o pagamento pelas vendas deve ser em adição ao pagamento por lauda. Uhhhm, acho que não. Ou paga uma coisa, ou a outra. Na Alemanha, recentemente, por pressão dos tradutores, as editoras ofereceram um sistema misto, que me parece honesto. Nesse sistema, o pagamento por lauda, na hora da entrega ia ser considerado um "adiantamento sobre direitos autorais", evidentemente a um valor menor que o atual, mas o tradutor ia ter participação nas vendas, como se autor fosse.
Bonito, mas a associação dos tradutores de lá fez lá suas continhas e recusou a oferta, exatamente pelas razões que eu expus acima: ia beneficiar os que traduzem livros de alta vendagem, mas ia impor à maioria um sufoco insuportável. Ninguém ia querer traduzir livros de baixa vendagem e ia ter fila para traduzir auto-ajuda.
Na verdade, o que os tradutores querem é ganhar mais, o que é perfeitamente legítimo: todos nós queremos ganhar mais e, sabidamente, o que se ganha para traduzir livros é muito pouco. Irrisório, para dizer a verdade. Então, a luta por melhor pagamento é legítima e necessária. Mas duvido que o caminho do pagamento por porcentagem seja o melhor para nós.
Por que as editoras pagam tão pouco? Essa é uma outra novelinha, que não vai se iniciar hoje. Acho que está na hora de mudar de assunto uns tempos..
Por hoje é só. Amanhã, espero eu, tem mais. Já que está aqui, deu uma olhada nos meus cursos via Aulavox.