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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Qual é o certo?

É comum encontrar, nos locais de discussão dos tradutores, alguém perguntando qual é o certo. Pode ser a grafia de uma palavra estrangeira, pode ser o sentido de uma palavra portuguesa, pode ser uma construção, mil coisas.

A discussão rola e começam a aparecer as opiniões contrárias: um cita
Fulano que diz uma coisa, outro cita Beltrano que diz o oposto. Um terceiro cita o Google – e assim vamos. Na maioria das vezes, a discussão é inconclusiva e o perguntador fica muito frustrado. Frustrado, mas tem que terminar a tradução – e terminar no prazo.

A língua, tanto no aspecto lexicológico, quer dizer, no sentido das palavras, como no gramatical, é muito menos monolítica do que se pensa. Se há usos indiscutivelmente errados, como nós vai e há outros indiscutivelmente certos, como nós vamos, falta consenso em mil e um pontos, onde partidos opostos afirmam opiniões diferentes e se comprazem em atirar lama um no outro.

Além disso, a língua muda com o tempo e o que errado ontem pode ser considerado "já aceito" ou "perfeitamente correto" hoje. O mais divertido é, entretanto, que o que hoje é "errado" já foi considerado certíssimo.

Quer uma prova? Vá dizer, hoje, estava meia louca ou estavam meios loucos e vão te repreender, afirmando que meio aqui funciona como advérbio e, portanto, não tem flexão de gênero nem de número: diz-se, em bom vernáculo, estava meio louca, estavam meio loucos.

Pena que não combinaram essa regra com Camões: Onde os outros meios mortos se afogaram (III, 116), Uns caem meios mortos (III, 50); nem com Vieira: Aqueles samaritanos eram meios fiéis e meios gentios; nem com Júlio Dinis: Mas, antes de receber resposta divisou por entre a porta meia aberta o rosto pálido de Daniel (Pupilas). E por ai vamos, mesmo sem citar os brasileiros. Há exemplos de sobra.

Nem por isso vou começar a dizer a tradução já estava meia completa, porque, nos dias de hoje, a construção não é mais aceita.

Muitas vezes, também, a construção mais "correta" é anormal e ficamos entre a cruz e a caldeirinha: Conte-me a verdade, meu filho é o que diz a gramática, me conte a verdade, meu filho é o que a maioria de nós diria. Aqui, ainda dá para sair pela tangente, com um conte para mim a verdade, meu filho –mas não faltará quem corrija a regência, transformando nosso exemplo em conte a mim a verdade, o que, ao menos, é mais natural que o conte-me a verdade.

Mas nem sempre há uma boa saída que soe natural e seja incontroversa.

Se fosse fácil, ser tradutor não tinha graça.

Aqui abaixo tem o convite para a Reunião na Sala 7. Grátis, via Internet, leia e apareça lá.

2 comentários:

carol custodio disse...

Oi Danilo!
Seu texto está ótimo para uma aula de tradução daquelas que abrem logo os olhos de quem está começando.

adorei.

eu venho aqui de vez em quando, mas pretendo vir todos os dias.

parabéns pelo excelente trabalho, são poucos os tradutores que conseguem falar sobre o que fazem e como fazem.

:)

:*

Julieta Sueldo Boedo disse...

Olá Danilo, gostei muito desse texto seu! Mas muito mesmo! E fala de um tema que aparece todos dias, especialmente com relação a dúvidas de tradução e de língua, mas em outros âmbitos também. O que é certo? E essa coisa dos pronomes em português me deixa louca, não concordo, acho inaceitável que se siga umas regras para falar e outras tão distantes e diferentes, e que ninguém usa na língua falada, para escrever! Acho que isso acontece em outras línguas também, mas no caso do uso dos pronomes aqui no Brasil é demais! Saludos e parabéns epelo blog!!!!