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quarta-feira, 2 de julho de 2008

O Leão está Doente II

O Ivan, num comentário aí abaixo, diz Com certeza! No caso de uma empresa, são necessárias outras competências e habilidades para que o negócio não afunde... Certíssimo, Ivan. Traduzir é uma coisa, dirigir uma agência de tradução é outra.

Aí, então, vem uma das minhas birras prediletas, que é a confusão entre os dois papéis. Alguns tradutores são excelentes administradores, da mesma forma que alguns tradutores são excelentes cozinheiros ou trombonistas, mas não tem nada que ver uma coisa com a outra. Uma das coisas que me irritam é o tradutor que critica o dono de agência dizendo vi traduções horríveis dele. E daí?

O que eu espero do dono da agência é que me pague bem e no prazo e não me atormente a vida com perguntas e exigências idiotas. Se o sujeito sabe traduzir, cozinhar ou tocar trombone, não faz a mais remota diferença.

Mas o caso da Lionbridge, que é uma sociedade de capital aberto e, portanto, deveria estar nas mãos de gestores profissionais, parece ser outro. Não se trata de tradutores metidos a gestores, trata-se de gestores profissionais que não conseguiram entender como funciona a tradução.

Estamos sofrendo muito com as Lionbridges todas, porque nos pagam mal e tardiamente e porque consideram o pagar cada vez menos a única estratégia possível. Não sei muito bem onde isto tudo vai dar, mas fico pensando nos dinossauros, que foram crescendo, crescendo, até se tornarem inviáveis, enquanto as baratas continuam aí. Não que eu goste de baratas ou me considere uma, mas acho que você entendeu o que eu quis dizer.

5 comentários:

Pedro Conti disse...

Quando você contrata uma faxineira, pode dizer a ela o que quer que seja feito (varra esta sala, lave as janelas, arrume as estantes) e deixar que ela decida qual é o melhor caminho para esse resultado, ou pode fornecer instruções minuciosas sobre todo o processo (segure esta vassoura com a mão direita sobre a mão esquerda, cotovelo separado do corpo, e comece a varrer desta ponta da sala em direção à outra, etc. etc.). Na melhor das hipóteses, em ambos os casos o resultado será o mesmo. Mas a segunda alternativa demorará muito mais, gerará estresse e insatisfação para ambas as partes e provavelmente sairá mais cara, presumindo-se que o pagamento seja feito por hora.

Tradução é algo muito simples: entra um texto no idioma X, sai um texto no idioma Y. O problema para os administradores e seu delírio de controle é que continua a ser um processo artesanal, "analógico", apesar da crescente ênfase em reaproveitamento e sistematização. Em última análise, a qualidade da tradução depende da qualidade (e experiência) do tradutor e do tempo de que ele dispõe para fazê-la, e não há ferramenta ou processo que possa mudar isso.

Você pode entregar ao profissional o texto X e solicitar que ele lhe devolva Y no formato Z, confiando que ele saberá qual é a melhor maneira de chegar de um ponto ao outro. Isso, porém, é cada vez mais raro em nosso mercado. A culpa, acredito, é dos produtores de softwares de tradução, que precisam vender o seu peixe. Para eles, os profissionais de tradução não são um mercado promissor, porque todo tradutor acumula, ao longo do tempo, um conjunto de ferramentas que considera ideais e não está disposto a gastar dinheiro continuamente em atualizações e novos conceitos. Restam, portanto, as grandes firmas de tradução e as grandes empresas que as contratam, administradas por pessoas para quem a palavra "leveraging" tem propriedades mágicas. (Veja-se, a esse respeito, o novo enfoque publicitário da Trados, em que o tradutor aparece apenas como um dos componentes de um sofisticado processo comercial e administrativo chamado “tradução”.)

Temos então um aumento exponencial da complexidade, com uma profusão de sistemas, formatos e módulos de controle, todos caríssimos, superpostos a algo que é, repito, essencialmente artesanal. Acredito que todos nós já tenhamos enfrentado situações em que, para traduzir um pequeno bloco de, digamos, 20 mil palavras, é necessário baixar centenas de megabytes de programas e referências, gastar horas ou dias instalando programas e estudando manuais para, ao final, produzir o mesmo arquivo .doc que teria nos custado algumas horas de trabalho.

O problema é que, na falta de algum breaktrough realmente significativo na área da tradução automatizada, entramos no período "barroco" do desenvolvimento de software. A adoção desses monstrengos pelas empresas e firmas de tradução revela um enorme desconhecimento tanto de informática como do processo de tradução em si. O que acontece na prática? Via de regra, o tradutor recebe uma montanha de materiais e instruções, encontra alguma maneira de exportar o texto a traduzir para o formato da ferramenta de sua preferência, executa o trabalho e importa o resultado para a geringonça original. Algo que seria feito em um único estágio passa a ter três, dois dos quais inúteis e contraproducentes, já que o tempo perdido tentando enganar o sistema poderia ser melhor investido na tradução em si. O mesmo se aplica às memórias de tradução "protegidas" ou online; no primeiro caso, nada que possa ser visto na tela do computador está realmente protegido; no segundo caso, ou a memória online é ridiculamente insatisfatória ou acumula uma enorme quantidade de lixo ("garbage in, garbage out") e torna-se inútil.

Em suma: somos artesãos e continuamos trabalhando artesanalmente, seja qual for a superestrutura que nos imponham. Porém, quando a complexidade aumenta, mantendo-se inalterados os prazos e a remuneração, o que sofre é o produto final. Meu sonho de consumo – e acredito que o seja também para a maioria dos colegas – é receber um texto com uma instrução simples: “traduza”. Por mais manuais, ferramentas e fluxogramas que nos empurrem goela abaixo, continuamos a varrer a sala com a boa e confiável vassoura de piaçava quando não há ninguém olhando.

Danilo Nogueira disse...

O comentário abaixo foi vetado por engano. Ainda bem que tinha uma cópia e pude repostar.

Danilo

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Gostei do ótimo e refletido comentário do Pedro Conti. Acho que deveria ser leitura recomendada para quem está entrando no mercado agora. E eu gostaria de apontar uma possível solução para o problema: se o tradutor souber conquistar mais clientes diretos e menos agências de tradução, ele estará livre da pressão de ser obrigado a usar este ou aquele programa de memória de tradução e, aliás, ninguém lhe falará nada sobre memórias de tradução, uma vez que os clientes finais não dão a mínima para os detalhes da produção e se interessam mais pelo (bom) resultado final.

Ivan Cortez disse...

Pra mim, o comentário do Pedro Conti caiu como uma luva... Não tive boas experiências com agências, ainda prefiro tratar diretamente com o cliente final!

Pedro Conti disse...

Acho que talvez não esteja muito clara a relação do meu comentário anterior com o post original do Danilo (a quem peço desculpas antecipadas se estiver me excedendo). Acredito que muitas empresas de tradução estejam enfrentando dificuldades por duas razões distintas mas relacionadas.

A primeira, como tentei apontar, é a aposta na tecnologia em detrimento do trabalho artesanal do tradutor. Existem atividades – a agricultura, por exemplo - em que a mão-de-obra pode ser substituída com vantagens pela tecnologia. Nesses casos, a tecnologia é um insumo valioso e compensa o investimento. Outras atividades, porém – e aí entra a tradução, ao menos por enquanto – são irredutíveis à tecnologia, que pode no máximo ter um papel acessório. Ela pode acelerar a produção de resultados, mas não pode produzir ela própria esses resultados. Essa aposta financeira na tecnologia como um fim em si mesmo, num setor em que ela só pode ser um meio, é suicida. Mesmo que invista fortunas em software, a Lionbridge ou qualquer outra empresa não obterá bons resultados se não houver na ponta de lá tradutores bons e motivados e na ponta de cá revisores idem. Não existe ainda um software que corrija uma tradução ruim. A informática é particularmente suscetível a esse tipo de auto-engano; é muito comum que sofisticados sistemas implantados pelas empresas geram mais trabalho do que economizam.

Mesmo essa argumentação, porém, baseia-se na premissa de que os compradores da tecnologia conheçam o seu métier, o que está longe de ser o caso. Eles apenas caem no canto de sereia do marketing, que lhes promete o paraíso da racionalização absoluta da tradução. Na prática, porém, (a) os tradutores, que estão na ponta dessa cadeia de “otimização” do processo, são refratários e até hostis às novas tecnologias porque elas complicam o seu trabalho em vez de simplificá-lo; e (b) as próprias tecnologias são ridiculamente inadequadas. Acreditar que algum "software proprietário" de tradução tirado da cartola possa ser mais eficiente que os produtos que disputam o mercado, existentes há muitos anos e sujeitos a contínuos aperfeiçoamentos com base no feedback recebido dos seus usuários, é de uma estupidez comovente. Existem exemplos extremos disso, como um certo software de tradução on-line, bastante popular entre as grandes empresas, que simplesmente não faz absolutamente nada - sequer exportar um arquivo - se você não estiver online e conectado ao seu banco de dados. Uma pane da Internet como a dos últimos dias colocaria o tradutor em férias forçadas. Qualquer profissional poderia apontar esse pequeno detalhe, mas aparentemente não havia um disponível para ser consultado quando o software foi criado.

A segunda causa, na minha opinião, é não dizer “não” ao cliente. Como não entendem de tradução, os clientes contratam as agências presumindo que estejam sendo assessorados por profissionais. As agências, porém, topam qualquer coisa; depois dá-se um jeito. Virou moda pegar trabalhos quilométricos para serem traduzidos de um dia para outro e distribuí-los por um batalhão de tradutores díspares, com alguém na ponta para coletar os pedaços, juntá-los e entregar o monstrengo resultante ao cliente. Disso não pode sair boa coisa. O que acontece a médio prazo? O cliente, percebendo que a contratação de uma agência a peso de ouro não resolve o seu problema e acaba gerando outros, acaba recorrendo a tradutores autônomos em cuja qualidade confia ou, nas empresas maiores, à contratação de um tradutor permanente.

A solução, evidentemente, seria dizer a verdade ao cliente: "olha, posso sim traduzir seu manual de 300 mil palavras em uma semana, mas vai lhe custar caro e vai ficar uma droga". Suponho que os clientes esperem isso da agência. Você confiaria em um médico que tenha horror a dar más notícias aos pacientes?

Ana Iaria disse...

E há outro fator para os mastodontes da tradução: um dia a casa cai.
Eu trabalho para uma agência pequena em Londres, com gente agradável e sem exigências absurdas. Eles não estão nem aí se uso Trados ou tabletes de cera e styllus, desde que entregue no prazo e bem feito.
Havia um projeto interessante para uma grande firma internacional. Um dia, chega um email da PM dizendo que o projeto estava encerrado. E ela contou por quê. O cliente caiu no conto da maravilha de uma híper-mega-super agência, dona de softwares de tradução, que jogou o preço lá embaixo, garantiu que a tradução seria feita no país onde mora o tradutor (outra balela na qual caem os clientes) e abocanhou o cliente. Fazer o quê?
Continuo trabalhando para a agência pequena, que agora está com um cliente muito, mais muito maior que aquele, e estamos satisfeitos.
Quanto à outra, sou cara demais pra ele e só me procuram quando ou é coisa cabeluda de Direito ou não tem ninguém disponível. Aí pagam meu preço.
Eu acho que pior que gente que não entende de tradução administrando estas mega-agências, é a política de "fazemos qualquer negócio". Isto sim vai contribuir para a despencada destes mastodontes.
A começar com este leão que está começando a miar.