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sábado, 4 de abril de 2009

Fiquei cabreiro



Lá pelos meados da semana, me deu uma gana enorme de repassar uma série de conceitos a respeito de tradução e, em menos de três dias, encontrei uma boa dúzia de caras que chamam a tradução "parte da literatura". Para usar uma expressão muito em moda na minha adolescência, fico cabreiro com essas coisas. Tradução não faz parte da literatura coisa nenhuma.

Não precisa ser muito inteligente para saber que a tradução literária é importante. Também não precisa ser muito inteligente para saber que uma boa parte dos teóricos da tradução tem a tradução literária como ponto de partida. Mas também não precisa ser muito inteligente para saber que a maior parte do trabalho de tradução hoje e sempre não tem nada que ver com literatura. Conheço dezenas de tradutores que jamais traduziram nada de literatura na vida - muito menos de alta literatura. Quer dizer, para essa turma acha que tradução significa exclusivamente tradução de obra literária e que nós, a maioria, os que traduzem textos não literários, simplesmente não somos tradutores. Tradutores são eles, em sua nefelibática arrogância.

Agora, então faço uma pergunta, se tradução faz parte da literatura, por que se fala em "tradução literária", em vez de "literatura tradutória"? Ou será que eu esqueci o pouco português que sabia e agora num sintagma nominal desses o substantivo significa a espécie e o adjetivo é que indica o gênero?

4 comentários:

Hugo Torres disse...

Penso que a Tradução faz parte da Literatura, pois ela não só ajuda a conhecer a literatura de outras línguas, como pode influenciar ou enriquecer a literatura nacional (ou da língua alvo), e tal como enriquece a língua em si. Mas a Tradução não é exclusivamente isso.

Cumprimentos de Portugal

ernestodiniz disse...

É bastante comum acharem que a Tradução é parte da Literatura, seja por pura associação preguiçosa, seja por repetição via senso comum. A Tradução hoje é área autônoma em alguns lugares e em outros muitos é um ramo da Linguística Aplicada.

As categorizações são sempre um problema, mas comumente fala-se em: tradução literária (versus) e tradução técnica. Mas existe a tradução publicitária, a tradução intersemiótica, e outras mais.

Grande abraço.

Hugo Torres disse...

Vejo a tradução como uma área extremamente interdisciplinar, ou necessariamente assim, porque não pode ser dissociada dos temas que a compõem. Por exemplo, para a tradução de literatura, faz todo o sentido que entre no espectro da mesma, desde a pesquisa ao resultado final.

Cumprimenos

Danilo Freire disse...

Se me permitem fazer um paralelo, o episódio me faz lembrar de discussão algo semelhante no Direito, que é minha "formação oficial".

Lá, os juristas, principalmente os mais antigos, seguindo os passos do positivismo, digladiam-se por uma tal "natureza jurídica" das coisas. Falar da natureza jurídica de algo é localizá-la no 'mundo jurídico' (sic), como se houvesse uma espécie de taxonomia jurídica.
Essa metodologia combinada com outros fatores autorizam (ou assim pensam) a alocar o Direito no Maravilhoso Reino da Ciência...

Ocorre que essa tal natureza jurídica não serve a nada, senão para o onanismo intelectual da maioria dos juristas - e assim, dizem, estão a fazer Ciência! A inflação do ego se verifica e pode ser incontrolável.

Aqui me parece ocorrer um fenômeno essencialmente parecido.

Lá, os juristas não conseguem (e não querem) conviver com a idéia de que o Direito não é (ou pode não ser) ciência e que isso não é nenhum demérito; aqui - e posso bem estar errado -, esses literatos-tradutores resolveram, a bem do status, alocar a Tradução no seio da Literatura, tida como o crème-de-la- crème, de modo que matam dois coelhos com uma caixa d'água só: enaltecem a Literatura, a Tradução (como momento especial daquela) e a si mesmos, posto que se dedicam a duas atividades supremas.

Parece tão difícil simplesmente reconhecer que às vezes uma coisa pode não ter lugar ou constituir ela mesmo o seu próprio lugar; há de se expurgar eventuais sujeiras que contaminam o "mundo de fora"