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sábado, 4 de abril de 2009

Irmão Angelino, intérprete ad hoc

Irmão Angelino conteve um grito de susto ao ver José Pequeno rolar escada abaixo depois de levar um encontrão proposital de João Grandão. Ainda bem que Irmão Marcelo, encarregado da enfermaria do colégio, estava passando e assumiu o comando da situação.

Minutos depois, irmão Patrick, recém-chegado da Irlanda para dirigir o colégio e ainda com um português meio capenga, chamou João Grande ao seu gabinete e pediu a Irmão Angelino que servisse de intérprete.

Aqui vai o diálogo entre os três, com as falas em inglês traduzias ao português por mim, porque nem todos os leitores do blogue sabem inglês, mas em negrito itálico, para deixar claro o que é o quê.

I. Patrick: O que aconteceu, João Grandão?

I. Angelino: O que aconteceu, João Grandão?

J. Grandão: O José Pequeno rolou a escada e, como de costume, estão pondo a culpa em mim, dizendo que fui eu quem empurrou. Sou grande mas não abuso dos pequenos.

I. Angelino: O José Pequeno rolou a escada e, como de costume, estão pondo a culpa em mim, dizendo que fui eu quem empurrou. Sou grande mas não abuso dos pequenos.

Essa é uma história que dá voltas na minha cabeça há tempos, sob várias formas. Note que João Grandão estava mentindo, porque tinha sido ele a derrubar o José Pequeno. Irmão Angelino tinha presenciado o acontecido e sabia que era mentira. Mas Irmão Patrick perguntou o que João Grandão dizia e João Grandão dizia que era inocente. Sendo assim, para dizer a verdade, Irmão Angelino teve de repetir uma mentira.

Dada a situação, Irmão Angelino podia agregar uma "nota do intérprete", contando ao Irmão Patrick que tinha testemunhado o incidente e que João Grandão estava mentindo. Mas nem sempre as coisas são assim.

2 comentários:

Mario disse...

Oi Danilo,

Sou leitor desde a primeira hora e acho que é a primeira vez que discordo do que está escrito no blog.

Nesta situação, o irmão Angelino tinha duas opções, mas só podia escolher uma: interpretava (e a abordagem à interpretação deve ser exactamente igual à da tradução, não se deve acrescentar nem omitir nada - a opinião, experiência e conhecimentos do intérprete não devem interferir na transmissão da mensagem) ou dizia o que viu ao irmão Patrick (e nesse caso já não pode servir de intérprete). As duas ao mesmo tempo é que não!

O irmão Angelino é, sem dúvida nenhuma, um excelente intérprete mas se resolvesse agregar a tal "nota do intérprete", deixava de ser intérpete e passava a ser testemunha.

Se já devemos evitar as notas do tradutor, as notas do intérprete podem ser suicídio profissional...

Um tradutor tem sempre oportunidade de avaliar o que vai traduzir e decidir não o fazer por objecção de consciência. O intérprete não tem essa possibilidade porque não sabe o que vai ser dito e por vezes tem de engolir uns sapos.

Um abraço,

Mário Seita

Danilo Nogueira disse...

Mário,

Não me fiz claro e é bom que você apontou a falta de clareza.

Como o Irmão Angelino trabalha no colégio, ele pode depois voltar a falar com o direitor e dar o seu depoimento. É a isso que me referia, a uma situação totalmente atípica. Mas, numa situação normal, nem pensar.

Quer dizer, num julgamento, por exemplo, se o cara diz "meu nome é Breno Dornelles e eu nasci e sempre vivi em Alegrete", mas o intérprete, por ser brasileiro, nota um sotaque carioca que desmente a afirmação, tem que traduzir exatamente o que ouviu. Num congresso, a situação é semelhante: traduz o que ouviu e ponto final.

Quis destacara que a situação do Irmão Angelino era absolutamente atípica.