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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Quanto ganha um tradutor

Foi a pergunta que um jovem fez na comunidade do Orkut outro dia. Está pensando em se tornar tradutor, ouviu de muita gente que tradutor ganha pouco, que não se pode viver de tradução, aquela bobajada de sempre.

Mas o rapaz ouviu e quis tirar a limpo e, por isso, fez a pergunta a quem poderia responder, quer dizer, aos profissionais da área, não aos "entendidos". A pergunta é indiscreta e a turma não gostou. Entretanto. o assunto é importante e merece uma boa análise. A bem dizer, quanto ganha um tradutor?

Geralmente, quem faz a pergunta agrega um em média para suavizar a indiscrição, como quem diz, não quero saber quanto você ganha, não sou bisbilhoteiro.

Média, dizem os estatísticos, seria a soma de tudo o que ganham os tradutores, dividida pelo número de tradutores. O fato é que não sabemos. Se você for investigar quanto ganha, digamos, um digitador, vão te dizer que numa faixa de x a y. Não é uma média, mas é uma faixa que, digamos, engloba os salários mais comuns. Acima de x é raro, abaixo de y, igualmente raro. Pronto, você está razoavelmente informado. Mas com tradução, a variação é muito grande.

Começa que tradução é um termo genérico, que engloba dúzias de profissões e especialidades diferentes. Por exemplo, tem desde o sujeito que traduz poesia por esporte e geralmente não ganha nada pelo seu trabalho, até o TPIC, conhecido vulgarmente por juramentado, que é obrigado a cobrar e obrigado a cobrar de acordo com uma tabela estabelecida pela Junta Comercial. Quem trabalha com dublagem geralmente ganha menos do que quem trabalha com legendagem, as editoras pagam menos que as agências e as agências menos que o clientes finais. As agências americanas, canadenses e européias pagam mais que as brasileiras. Tem tudo isso.

Depois, tem o fato de que alguns simplesmente produzem mais que os outros. Como na maioria dos casos, trabalhamos sem vínculo empregatício, ganhamos por produção. E, portanto, quem produz mais ganha mais. Alguns produzem mais porque ficam mais horas no computador; outros produzem mais porque trabalham mais rápido, ou por serem naturalmente mais velozes, ou porque aprenderam a usar ferramentas de trabalho mais avançadas. Tem gente muito disciplinada, que estabelece para si uma meta de produção diária ou semanal e cumpre essa meta religiosamente. Outros só realmente se empenham quando o prazo já estourou: a vida tem tanta coisa mais divertida para fazer do que ficar traduzindo!

Alguns têm facilidade para conseguir serviço. Aprendem a procurar. Aprendem a tratar os clientes. São agradáveis, educados, pontuais. Para cada problema, têm uma solução rápida e eficiente. Outros fazem questão de manter uma guerra constante com os clientes e fazem de cada serviço uma experiência traumática. São capazes de desafiar o cliente para um duelo por causa de uma palavra trocada. Reclamam amargamente de uma diferença de dez palavras numa contagem. Nasceram negativistas: são capazes de ver problemas insolúveis em qualquer serviço. Raramente entregam serviço no prazo. Outros, simplesmente, são porcos para trabalhar: entregam serviços mal revisados, com trechos por traduzir e mesmo o que está traduzido foi feito meio que no chute. A esses, por competentes que sejam, só se dá serviço em última instância.

Tem também o problema da irregularidade dos fluxos de trabalho e caixa.

Em certos meses, entra mais serviço que em outros. O que vai ser o mês gordo para você depende de sua especialidade, entre outros fatores. Por exemplo, eu trabalho com finanças e, há anos, tenho um monte de serviço entre 20 de dezembro e 20 de fevereiro. Para outros tradutores, essa é uma época de pouco ou nenhum trabalho: para eles, a vida começa após o carnaval. Também tem os "grandes eventuais": recentemente, uma alteração na regulamentação gerou uma quantidade enorme de serviço para muitos juramentados que quase deixa todos loucos. Tudo com prazo apertado. Acabou, voltou ao normal. Então, num mês você ganha mais, em outro ganha menos. É preciso aprender a usar o tempo nos meses de esbelteza bovina: estudar, pesquisar, arrumar o escritório, aprender a usar ferramentas especializadas, botar ordem nos glossários, fazer marketing. O que não pode é desesperar.

Mas muito serviço não significa muito dinheiro no bolso: há serviços de todos os tamanhos e muitas vezes só se pode faturar depois da entrega do serviço todo; além disso, cada cliente tem condições de pagamento diferentes: uns pagam em uma semana, outros demoram mais de um mês. Isso significa que, por exemplo, no mês de janeiro, durante o qual trabalhei feito um escravo, recebi quase nada. Em compensação, em março, que deve ser um mês menos ativo, vai jorrar dinheiro na minha conta. É necessário um bocado de habilidade para lidar com essas coisas.

Finalmente, não se pode confundir a receita do tradutor independente com o salário de quem trabalha com vínculo empregatício. Se você tem um emprego "de carteira assinada", no fim do mês, recebe um tanto de "salário líquido" e esse é para sua manutenção pessoal. Sim, tem INSS e IRRF, eu sei. Mas, no contracheque, vem o valor líquido, certo?

Além disso, tem provavelmente, alimentação, transporte e assistência médica subsidiados, fora FGTS, 13º e férias. Se você trabalhar como independente, como trabalho eu e a maioria de nós, do que recebe, tem que deduzir os impostos, pagar contador e comprar suprimentos para o escritório. E, claro, INSS, assistência média, férias, tudo isso por sua conta. De FGTS, nem se fala. Dá para separar as despesas do escritório das nossa despesas particulares? Não, não dá. Para fins de imposto de renda, até que é fácil. Mas, para a gente saber, não dá. Por exemplo, este computador foi comprado para o escritório, mas é nele que me comunico com uma boa amiga que atualmente mora na Suécia e que uso para mil coisas particulares. Tenho um aposento separado na minha casa para o escritório, mas ele inclui uma "sala íntima" onde minha mulher (também tradutora) e eu passamos quase todo nosso tempo de lazer, lendo, ouvindo música (via computador) e ela, muitas vezes, fazendo trabalhos de agulha (eu bem que faria – se fosse capaz). Quer dizer, separar a vida profissional da pessoal é impossível.

Quer dizer, mesmo que eu dissesse a você exatamente quanto ganhei no ano passado, nada indica que esse valor fosse típico da categoria nem que você fosse ganhar algo de semelhante. Além disso, se você quiser fazer uma conta do tipo "meu pai ganha X por mês e nós temos um padrão de vida assim e assim, o Danilo ganha Y por mês, logo ele deve ter um padrão de vida assim e assado, vai se enganar, em razão das diferenças entre receita e salário de que falei acima.

Lamento não poder dar a resposta que você quer. Espero que você tenha entendido o problema e que, principalmente, tenha aproveitado as sugestões embutidas neste texto para alcançar um padrão de vida material melhor.

Talvez possa dizer que há muita gente vivendo bastante bem de tradução no Brasil. Gente que trabalha muito, mas vive em casa própria, tem seu carro, faz suas viagens, se veste decentemente, tem seus filhos em boas escolas. E, para finalizar, a maioria de nós está bem gorducha.

16 comentários:

Cristine Martin disse...

Olá Danilo,

Muito interessante sua análise sobre receita x despesa. Uma coisa que todo analista financeiro ensina, mas muito poucos praticam, é a poupança. Nos meses de "obesidade bovina" (adorei essa!) devemos separar uma parte para os fixos mensais e anuais (IPTU, IPVA, e outros).
Com um bom planejamento do orçamento, e muita dedicação ao trabalho, creio que podemos construir uma carreira gratificante e adequadamente remunerada.

Um abraço,

Cristine Martin

Anônimo disse...

Ô Danilo, você morreu, homem? ... brincadeirinha... é que de tanto você concluir os seus posts com o célebre 'amanhã tem mais, se eu estiver vivo', a gente fica preocupado quando você passa 3 ou 4 dias sem falar nada. Bom, pelo menos você agora sabe que eu visito regularmente o seu blog. E não é só por preocupação com a sua saúde (que aliás, deve ser ótima). É porque o blog é bom mesmo. Forte abraço. Desculpe a brincadeira.
Ewandro

Danilo Nogueira disse...

Só para constar: domingo, seis de maio de dois mil e sete, estou vivo.

Vinicius disse...

Danilo,
Muito bom seu texto. obrigado. Consegui muitas respostas.

Vinicius

Ana Cristina disse...

Falou muito e não disse nada. Depois desse show de cultura, porque não responde?
Quanto paga uma editora por lauda traduzida do ingles para o portugues?
Texto corrido geral

Danilo Nogueira disse...

Ana Cristina, tem uma resposta para você aqui:
http://tradutor-profissional.blogspot.com/2008/07/quanto-paga-uma-editora.html


Danilo

deunoticiadeuaqui disse...

Grande DAnilo...
O post foi bastante enlucidador para mim.
O defecho então:
"Lamento não poder dar a resposta que você quer"

just kidding.

rsrs

Anônimo disse...

A "resposta" de quanto ganha um tradutor foi bem estruturada, entretanto, para ser completa deveria ser mencionado ao menos algum valor. Há que se entender que a maioria ganha por produção e encara verdadeiras lutas para receber pelo serviço.

No meu caso, presto serviços e recebo mensalmente, todo dia 1º, quatro mil reais líquidos. Às vezes acho que tenho muita sorte, outras, quando há muito serviço, sou tentado a fazer contas, multiplicando o número de laudas que traduzi num determinado mês. Trabalho em uma sala ampla, com todos os recursos da informática, ar-condicionado e softwares que podem até ajudar um pouco na digitação, mas que por enquanto (graças a Deus)não são capazes de "entregar" um trabalho final de qualidade.

Algumas vezes faço tradução simultânea, que gera muito estresse mental, e também algumas viagens acompanhando estrangeiros. Já conheci muitos lugares Brasil afora, com tudo pago, e ainda recebi diárias cujos valores variam de acordo com a região. Também, em várias ocasiões viajei ao exterior a serviço, e até tenho visto americano concedido para viagem a trabalho às custas do Tio Sam, onde constam os termos -- Travel sponsored by the US Government --.

Por tudo isso, além do salário líquido, preciso computar as diárias e o 13º salário. Não dá para fazer extravagâncias, mas com a cabeça ajustada, vive-se relativamente bem, com casa própria, carro, fartura e boas escolas para os filhos.

Boa sorte a todos.

Thairine Teixeira disse...

Oi Danilo. Meu nome é Thairine, tenho 17 anos e estou no terceiro ano do Ensino Médio. Tenho procurado muito nos últimos meses a respeito da profissão de tradutora/intérprete, e hoje, pesquisando mais sobre isso, acabei encontrando seu blog e achando muito interessante tudo que voce disse.
Estou num momento muito confuso por ter que escolher tão cedo o que eu quero pra minha vida profissional, e também estou ciente que todas as pessoas já passaram por isso ou ainda vão passar.
Gostaria muito que voce me ajudasse e tentasse colocar uma 'luz' no meu caminho, para eu saber se é isso mesmo que eu quero pra mim. Já pesquisei sobre varias profissoes que tinham me chamado a atenção (jornalismo, relaçoes internacionais, relaçoes publicas...), até que me deparei com Letras - com enfase em tradutor e interprete - e tenho gostado cada vez mais da área.
Gostaria de saber o que é preciso saber fazer, o que é preciso gostar pra não se 'decepcionar' com a profissão, quais são as possibilidades de mercado de trabalho, etc.
O que você puder ajudar já vai ser muito importante pra mim. Desde já agradeço. E parabéns pelo blog.

Um abraço, Thairine.

Kelli Semolini disse...

Thairine, sua resposta está aqui:

http://tradutor-profissional.blogspot.com/2009/01/thairine-em-um-comentario-num-post.html

Anônimo disse...

Resposta de político... analizaou, articulou, falou bonito mas não respondeu.

Sua resposta seria perfeita se você desse uma estimativa mesmo que baseado na sua própria experiência...ou na de "um amigo"

Não sei porque as pessoas têm este estígma de não falar o quanto ganham. Como se fossem automaticamete passar a receber menos por isso.

Danilo Nogueira disse...

Eu jamais daria o valor de "um amigo", não faço essas coisas. A resposta não é perfeita, sei disso, e sei que não estou dizendo o que você quer que eu diga, mas já expliquei isso de sobra aí na matéria. Incrível que você não tenha entendido.

O quanto eu ganho não seve de parâmetro para nada nem para ninguém. Se eu disser, além de dar uma impressão falsa, 90% dos que lerem vão me chamar de mentiroso.

É certo que algumas pessoas têm receio de contar o quanto ganham, por superstição. Não é meu caso. Curiosamente, fiquei conhecido em vários grupos pela tranqüilidade com que discuto minha tabela de preços — o que muitos consideram tabu.

Mas tem gente pior: tem gente quem tem medo até de revelar o nome – e quando revela usa um nome falso. Quer dizer, poderia ser pior.

Anônimo disse...

Caramba!
Falou,falou e não disse Nada !!
Em resumo:
-ALGUÈM SABE QUANTO GANHO UM TRADUTOR POR LAUDA ???

Danilo Nogueira disse...

Porque a pergunta era vaga, meu caro. Para perguntas vagas, respostas ainda mais vagas. Mas a sua pergunta é bem mais precisa e fácil de responder. Em vez de pensar em "laudas", que são unidades muito vagas (cada um tem a sua e acha que todas as outras são erradas), pense em "palavras do original".

As agências mais muquiranas pagam R$0,03 por palavra do original, as editoras pagam mais do que isso, variando entre R$ 0,05 e R$0,10.

Um tradutor experiente, trabalhando para clientes estrangeiros, pode cobrar US$ 0,15 (quinze centavos de dólar) por palavra do original.

Veja que entre o preço máximo e o mínimo, a proporção é mais ou menos de dez para um.

Anônimo disse...

É de facto um blog extraordinário!

E peço desculpa se este nao é o local indicado para comentar, e tambem fique sabendo que só nao sei como me apresentar aqui uma vez que percebo pouco de tecnologias, no entanto penso um dia entender melhor sobre o assunto.

Quanto ao tópico em si, estou completamente boca e aberta com o que acaba de ler, e nao fiquei por este tópico, pois como muita gente, tambem eu tenho dúvidas. E andava eu a procurar algo assim "Quanto ganha um tradutor?" quando me deparo com o " vosso" (devo dizer vosso? desculpem se nao...mas simplesmente ainda nao consegui ler o perfil do blog) blog, é simplesmente algo extraordinario, e tenho imensa pena de nao ter alguem culto como o Danilo (desculpe novamente trata-lo por tu) para me "encaminhar" como diria uma das meninas que aqui postou, que tal como ela estou em sérios problemas, porque tenho 18 anos estou no meu ultimo ano de secundário e ainda não sei o que quero...isto é vergonhoso de se dizer mas sinto-me completamente perdida.

Lamento também pelo blog se tratar somente de "Tradutor Profissional" e devo também dar os Parabéns pelo excelente trabalho, pois quem quiser seguir esta área, devo dizer que está muito bem servido e tenho mesmo muita pena por nao ser um blog que abranja toda a variedade de profissões.

Para que também não digam que invento nomes (ainda corria o risco disso, e não quero de maneira alguma ser rude, nao me interpretem mal por favor) sou de Portugal, como já repararam tenho 18 anos e chamo-me Lili (Liliana para ser mais precisa).

No entanto e perguntam-me (e vou ver se nao alongo mais isto) porquê o post se não quero nada disto?! não? Entao cá vai...ando a fazer uma pesquisa dura para um projecto do 12º ano, preciso simplesmente de saber o que quero...mas não sei...necessitava de ajuda, mas provavelmente e como tem dito, até professores me dizem, tudo depende de mim, mas como?! se nao conheço metade do que existe...E em segundo resolvi postar, porque achei que mereciam uns parabens dignos pelo blog em questao!

Um abraço
E espero resposta, embora que talvez em vão, porque, poderei eventualmente nao conseguir ajuda. Mas desde já , obrigada!
Lili*

Anônimo disse...

A todos que reclamaram porque o artigo não oferece um valor específico, só tenho um conselho: Procurem outra área para trabalhar. Nenhum tradutor freelancer sabe exatamente quanto vai ganhar todo mês e a variação da renda é parte integrante do ofício - se você não consegue lidar com um mínimo de incerteza, talvez essa não seja a profissão mais indicada.

O artigo explica exatamente o que é o dia-a-dia de um tradutor freelancer. Os valores mudam de um cliente para outro, mudam de acordo com o tipo de trabalho e até conforme o volume. Tem cliente que paga por palavra, outros, por lauda, outros, por trabalho fechado.

Além disso, o valor da lauda ou palavra não é o único fator a ser considerado para fins de cálculo de renda (nem o mais importante, a menos que seja absurdamente alto ou irrisório). Por exemplo, pode valer muito mais a pena aceitar um trabalho que pague menos, mas cujo conteúdo você domina bem, do que pegar outro que paga mais, mas vai exigir horas e horas de pesquisa.

Portanto, é impossível estabelecer um valor médio porque não existe um preço fixo para laudas ou palavras, nem uma quantidade fixa de laudas ou palavras para fazer todos os meses; a sua renda depende mais do volume de trabalho processado no mês do que de qualquer outra coisa, e esse volume pode variar muito. O cara foi sincero e explicou a realidade; não adianta ficar nervosinho porque a resposta não era a que você queria ouvir.

Quer saber exatamente quanto ganha um tradutor? Comece a trabalhar e faça as contas. O melhor que dá pra dizer com conhecimento de causa é o seguinte: Se você não for preguiçoso, cultivar seus contatos e trabalhar bem, é possível viver disso com algum conforto, sim. Mas não se iludam, porque não tem nada a ver com as fotos em propaganda de laptop, onde todo mundo trabalha largado no sofá, com o computador no joelho, fazendo cara de bobo e digitando com uma mão só. O retorno é proporcional ao seu esforço e ninguém vai ficar milionário fazendo bico nas horas vagas. Tem que trabalhar muito, ser organizado, tem que ter disposição para aprender muitas coisas novas e, acima de tudo, tem que ter disciplina, porque trabalhar em casa oferece muito mais distrações do que em um escritório ou empresa.