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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

E virei tradutora...

Eu costumo medir um pouco o conteúdo, mas adoro falar de mim mesma. Entrei no mundo das Letras por acaso, talvez por destino, se alguém acreditar nisso. A primeira vez em que passou pela minha cabeça ser tradutora foi aos 15 anos, quando traduzia umas músicas. A ideia passou logo, e pensei em jornalismo e arquitetura, entre muitas outras coisas. A arquitetura ganhou. Fui fazer cursinho para prestar a Fuvest e estudar na USP.

No meio daquele ano, 2001, eu estava sem um tostão furado no bolso e a diretora da escola onde eu estudava inglês me chamou para dar aula para as crianças. Deixei de assistir muita aula de gramática no cursinho para dar essas aulas. Depois apareceram outras turmas e fui gostando, gostando, mas não me passava pela cabeça mudar a minha opção de curso universitário. Passava pela cabeça da minha mãe e da minha chefe, no entanto, e logo começou a pressão para eu prestar letras. Fiz a minha inscrição só para me poupar dos discursos. No meio do caminho, comecei a mudar de idéia e ficar indecisa. Prestei os dois vestibulares e estava rezando – naquela época eu ainda rezava – para passar em um só e não ter que decidir. Passei em Letras, fui fazer e me apaixonei. Não duvido que tivesse gostado da mesma maneira de arquitetura, mas duvido que me desse bem como me dei em letras.

Fui levando o curso e dando minhas aulas. Tinha dia de chegar mais de meia noite em casa e ter aula no dia seguinte às sete e meia, e não é nenhum segredo que eu odeio muito acordar cedo. Terminei o curso em 2006 e comecei no Yázigi em 2007, onde fiquei até setembro de 2008. Durante esses sete anos, traduzi uma coisinha aqui e outra ali, em geral artigos acadêmicos. Foi a época em que levei meu único calote, também. Se eu tivesse conhecido o pessoal da comunidade Tradutores/Intérpretes BR antes, não teria levado nenhum. E foi participando da comunidade que a minha vida mudou.

Muita gente acha que Orkut é brincadeira, que só em um bando de adolescente IxCrEvEnDuUu aXxIm. Não é verdade. Na comunidade de tradutores, conheci muita gente, fiz minha rede de contatos, comecei a trabalhar mais seriamente com tradução. Não fosse por aquele espaço, eu nunca teria criado uma postura profissional como a que tenho hoje. E ainda estaria dando aula de inglês e ensinando verbo to be. Foi nessa comunidade que conheci o Danilo, e foi pelas coisas que eu escrevia lá que ele me chamou para trabalharmos juntos. Na mesma época, minha mãe ficou doente e precisei parar com as aulas para poder cuidar dela. Foi um susto para o Danilo, mas tudo acabou dando certo.

A partir daí, as coisas evoluíram muito rapidamente. Foi um salto até eu estar me sustentando e tirando o suficiente para montar a minha casa, em fevereiro. Mas foi um salto para dentro do desconhecido, também. E deu (dá) trabalho, bastante. Pegar o jeito de traduzir, lidar com CATs, com clientes, com prazos, com ter trabalho num dia e no outro não, com lazer, com estudar (pelo menos um pouco) e com família não é fácil e não foi só uma vez em que achei que não ia dar conta de tudo. E não dou mesmo. Não é todo dia que consigo ler alguma coisa, não é todo dia que consigo cozinhar ou cuidar da minha casa ou passear com a minha cachorra ou ir para a academia. De verdade? Teve dias em que nem tempo para dormir eu tive, em 2009. E que, quando finalmente eu tinha tempo para dormir, eram 7 da manhã e o vizinho estava fazendo barulho com a furadeira. Para “equilibrar”, também não foi em todo momento que eu tive serviço (e, consequentemente, dinheiro). Além disso, estou investindo grande parte do que recebo – ia dizer do que sobra, mas se tem uma coisa que nunca sobra é dinheiro – em equipamentos, softwares, livros e dicionários.

Mas tudo isso está longe de ser uma reclamação. A verdade é que, enquanto eu ainda era professora, eu não conseguia me imaginar daqui a 20 anos, por exemplo. Não me passava pela cabeça de que eu poderia viver no futuro, só sabia que não seria de dar aula. Hoje eu consigo me ver velhinha e traduzindo alguma coisa completamente escandalosa, deliciada com o choque que as pessoas sentem com uma velhinha boca suja.

12 comentários:

denise disse...

que legal, muito simpático!

denise disse...

e boas festas e um maravilhoso 2010, nessa seara tão gostosa que é traduzir.

Lorena Leandro disse...

O texto da Kelli está parecido (em estilo) com o do Danilo! (é um baita elogio, viu??). Legal, os textos da Kelli sempre são um incentivo =)

Kelli Semolini disse...

Denise, obrigada. Desejo o mesmo para você :)

Lorena: obrigada! Realmente, passando mais de um ano conversando com o Danilo o dia todo, lendo os textos e traduções, não tem como não pegar os trejeitos dele. A única coisa que eu não consigo guardar é se o C duplo é no porca ou na vaca. :)

Carolina C. Coelho disse...

Também tive a mesma impressão da Lorena! Achei que a Kelli está pegando o estilo do Danilo :) Mas isso é muito legal!
Eu também penso que um dia estarei bem velhnha e traduzindo ainda. Como é bom ter certeza de que algo que fazemos todos os dias é o que queremos fazer até o fim da vida :) Se isso não é amor ao ofício, não saberia dizer o que é.

Danilo Nogueira disse...

A capacidade da Kelli para escrever como eu tem um, pelo menos um, efeito altamente positivo: o que eu chamo do "cerzido invisível": as emendas que ela faz nos meus textos que corrigem, melhoram, sem destoar em estilo do restante do trabalho. Na última revisão que ela fez para mim, parecia que ela não tinha mexido em nada — mas uma comparação com o original mostrava que havia mil coisinhas que tinham saído da mão dela.

Por falar nisso, preciso escrever alguma coisa sobre o que se chama em inglês, "purple patch".

Anônimo disse...

E se posso ajudar, o c duplo é no vacca.

Vi auguro tante "vacche grasse" per il prossimo anno.

Tanti baci,

Risole Roselix

Kelli Semolini disse...

Roseli, o Danilo já falou para eu perguntar pra vc como é a pronúncia desse c duplo, mas sempre esqueço. Nota-se que sempre esqueço bastante coisa, né? :)

Anônimo disse...

Dona Pimenta, a pronúncia das letras duplas não é mais forte e sim mais "alongada". Tente pronunciar "vakke", tentando espichar o "k". O "a" é bem aberto e o "e" é fechado e redondinho.
Na próxima panqueca treinamos.
Buone feste!
Risole Roselix.

luciana disse...

Eu acho que nasci traduzindo. Fui afalbetizada aos 6 anos e aos 7 já estava ouvindo discos de Nat King Code e outros para tentar escrever do meu jeito e cantar... Comecei a estudar inglês nos livros de escola dos meus irmãos até ser matriculada na Cultura Inglesa, onde não me adaptei. Passando para o IBEU, foi onde fiquei até o final, tendo inclusive ensinado lá mesmo por 2 anos. Mas não nasci para ensinar. Nasci para traduzir. Contudo, durante toda minha carreira como Secretária Executiva, atuei paralelamente como intérprete e tradutora. Apenas ao aposentar-me, oficializei minha nova profissão. Fiz cursos de especialização, trabalhei meu marketing pessoal e organizei um portfólio de clientes. Amo tanto o que faço que quando vejo que é por uma boa causa (a cura do câncer, por exemplo), no final do trabalho, eu não cobro. Isso já me aconteceu 2 vezes em 10 anos. Concordo com o Tradutor Profissional: trabalhar com algo que não lhe dá prazer deve ser muito cansativo. Eu amo o que faço, por isso nunca me canso. De verdade.

Maria Paula disse...

Olá, Kelli.
Adorei seu depoimento. Identifiquei-me bastante com ele. O mais engraçado é que estou aqui descabelada traduzindo e escolhi o seu texto por acaso para me distrair um pouco. E acabei me acalmando, olha que coisa legal. Obrigada pela ajuda. :)

Kelli Semolini disse...

Maria Paula, quem agradece sou eu. Sempre achei que, ao dar aulas, o mais gostoso era o carinho que eu recebia de volta dos alunos. Ver este post com tantas respostas e tão carinhosas como a sua dá ânimo pra continuar escrevendo. Um beijo!