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sexta-feira, 13 de março de 2009

Tradução automática 4

Ontem, eu pulei na piscina!

Alertado pelo Daniel Argolo
Estill (e ajudado por ele na configuração) de que o recurso de tradução automática do WordFast estava funcionando direitinho (o do Trados também está, mas eu nunca usei, porque o gestor de glossários do Trados é um lixo), fui fazer um teste. Configurei o programa e comecei a trabalhar. Funciona assim: quando o WF não encontra nada na memória, recorre ao Google Translate ou ao Babelfish, à escolha do tradutor, e preenche o segmento com o que encontrar.

Dependendo de vários fatores, mais notadamente do tamanho do segmento, a tradução oferecida pelo Google
Translate variava de perfeita a inútil.

Quando era perfeita, geralmente em segmentos muito curtos, era só aceitar e tocar para a frente.


Quando era imperfeita, era ajeitar. Como eu tenho um glossário muito grande e o gestor de glossários do
WF é sensacional (e eu sei usar, o que é outra conversa), muitos dos erros do G-Translate eram corrigidos simplesmente com o uso do glossário.

Muitas vezes, entretanto, a tradução era muito ruim e dava menos trabalho apagar (
Cntrl + Alt + X, caso você não saiba) do que arrumar. O interessante é que, mesmo nesses casos, muitas vezes um que outro fragmento tinha uma sugestãozinha interessante, com a qual eu não tinha atinado.Quer dizer, no fim, traduzi mais rápido e melhor do que o normal — e ainda poupei digitação.

Como se conjumina o que eu disse nos dois parágrafos acima com a minha recusa a revisar tradução automática? A resposta fica para amanhã.



quinta-feira, 12 de março de 2009

Tradução automática (3)

Essa história de tradução automática vai dar ainda muito pano para mangas, mas não quero abandonar o assunto sem as devidas conclusões.

Em vez de rir às gargalhadas com as coisas esquisitas que a tradução automática faz, é mais sensato entender as suas limitações, para depois poder fazer bom uso do recurso. A tradução automática tem dois tipos de limitação: uma quantitativa, outra qualitativa.

Quantitativamente, o valor da tradução automática é inversamente proporcional ao tamanho do período. Quer dizer, quanto mais longo o período, pior a tradução automática. Teste, po exemplo, usando qualquer um desses sistemas grátis da Internet, a tradução de frases curtas, de até umas dez ou doze palavras e veja que a maioria das traduções variam de "correta" a "aproveitável com uma acertadinha". Depois de umas dez palavras, começa a degringolar.

Qualitativamente, o problema está em que a tradução automática é um sistema passivo. Mesmo os sistemas mais modernos, baseados em toneladas de alinhamentos de textos, são fechados. Quer dizer, o sistema só contém as informações que alguém adicionou lhe deu. Então, se ninguém informou o sistema que "garlic" quer dizer "alho", o sistema não vai pesquisar nem em dicionários nem na Internet nem perguntar a um colega. Vai simplesmente deixar no original. Esta limitação tem alguns corolários, que vamos deixar para amanhã. Por hoje, é só. Acho que subestimei este assunto. A trilogia vai dar uma pentalogia. O contrário daquela famosa história dos quatro evangelistas, que eram três: Esaó e Jacu.

Espero que você tenha gostado. Se não gostou, veja o artiguinho abaixo, mas um sobre "desaforos".

Desaforo! (2)

Onze da noite, pleno inverno, eu já com um pé entre os lençóis, toca o telefone. Atendi. Era uma agência americana. Podia ser coisa de urgência, mas era uma bobagem, que podia perfeitamente ser tratada pelo correio eletrônico, ou ficar para o dia seguinte. Respondi, mas lembrei o carinha que aqui era já muito tarde. Ele retrucou que aquela era a hora do dia que ele reservava para essas coisas. Só faltou completar "e você que se dane".

No dia seguinte, a mesma coisa. Respondi que minhas máquinas estavam desligadas (o que era verdade) e que só ia responder, via e-mail, no dia seguinte de manhã, desligando o telefone quase que em seguida.


Mas parece que o rapaz não entendeu nenhuma das duas mensagens, porque, três ou quatro dias depois, mesma hora, toca o telefone, de novo, à mesma hora. A Vera e eu ainda no escritório, mas já tínhamos encerrado o dia e estávamos tomando vinho e lendo, num cantinho aconchegante que chamávamos "a sala de estar". Levantei, fui ver quem era. O identificador de chamada mostrava que era, de novo, o chato. Voltei para minha poltrona e deixei tocar
. No outro dia, tinha uma mensagem dele na minha caixa postal, fazendo uma pergunta que, realmente poderia esperar.

Dessa vez, funcionou: nunca mais ligou.


Desaforo!

terça-feira, 10 de março de 2009

A faxineira e nós

De vez em quando, alguém, normalmente mulher, clama indignada que ganha menos que faxineira, ou que injusto tradutor ganhar X, quando faxineiras ganham Y. Não gosto desse tipo de afirmação, mesmo quando verdadeira, por vários motivos.

Ser faxineira não é uma opção, ao menos para mim. Simplesmente não teria como levar a vida que minha faxineira leva e fazer o que ela faz. Estou com uma substituta, porque a minha "efetiva", comigo há 15 anos, está de pé quebrado. A moça parece um furacão limpando o banheiro aqui do escritório, enquanto eu batuscrevo este artigo. Daqui a pouco, ela vai embora e fica a casa limpinha e cheirosa. O que ela fez em um dia, eu não faria em uma semana.


Para mim, me comparar a ela é como dizer "a pagar X por uma casa em São Bernardo do Campo, é preferível morar em Santana da Vaca Atolada". Morar em Santana da Vaca Atolada, para mim, na atualidade, não é uma opção, mesmo que custasse um décimo do que custa morar na Grande São Paulo. Além disso, mesmo que ser faxineiro fosse opção lógica, eu não tenho a mais remota intenção de deixar de ser tradutor e, por isso, emocionalmente não seria opção. Dinheiro não é tudo na vida, bolas!


Tem mais. Não existe modo algum de calcular qual deve ser a proporção entre o rendimento de uma faxineira e o de um tradutor. Se a minha faxineira ganha dez, quanto deveria ganhar eu? Não me venha com discussões metafísicas do tipo "e o nosso estudo" e tal. Quero um número e a prova de que ele foi calculado com base em dados sólidos e procedimentos científicos. Não existe, não é possivel. A gente sente lá na tripa que deveria ganhar mais, porém é impossível dizer quanto mais, essa é a verdade.


Mas, agora, só para nós três aqui (você, a Kelli e eu), que ninguém nos ouça, imagine a seguinte situação. Um grupo de especialistas, com base em métodos e dados irrefutáveis, chega à conclusão de que a relação entre o que você ganha como tradutor e o que ganham as faxineiras está errada e que, como resultado dessa distorção, você está ganhando mais do que deveria. Você estaria disposto a abrir mão de parte do que ganha para "estabelecer a justiça"?


Claro que não. Não importa como vivamos e quanto ganhemos, a maioria de nós vai sempre querer mais conforto material, o que exige uma remuneração melhor. Dinheiro não é tudo na vida, mas é bom demais.

domingo, 8 de março de 2009

Tradução automática 2

Ontem disse — e ainda está aí abaixo — que há usos legítimos para a tradução automática.

Um dos possíveis é aplicado pelo Banco Mundial, segundo me contou o gerente do setor de traduções deles. O Banco Mundial usa tradução automática para fins de triagem. Quer dizer, um dos técnicos do Banco Mundial quer fazer um estudo sobre determinado assunto e, sobre esse assunto, há muita literatura em língua que esse técnico não conhece. Então, usa-se a tradução automática para traduzir centenas de documentos em poucas horas. Esses documentos são examinados superficialmente pelo interessado, para determinar o que vale a pena fazer traduzir por um tradutor humano. À pergunta "e por que não traduzir tudo por humanos"? é respondida pelos muitos meses que mesmo uma vasta equipe precisaria para traduzir milhares de páginas, páginas que, em sua maioria, seriam inúteis. O que é importante, é entregue — na língua original — a tradutores humanos.


Outro uso muito legítimo é o do setor de meteorologia do Canadá, que é obrigado por lei a publicar as previsões de tempo em francês e inglês. Fazer previsão de tempo é coisa para cachorro grande, mas os textos das previsões variam muito pouco e os tradutores humanos foram substituídos por um tradutor automático.


Amanhã, falo do uso legítimo de tradução automática por tradutores profissionais.
Por hoje é só.

Ainda sem Kelli.

sábado, 7 de março de 2009

Tradução automática 1

Na comunidade Tradutores e Intérpretes do Orkut, estalou, há tempos, uma conversa interessante sobre tradução automática e fiquei devendo ao nosso colega Daniel Argolo Estill umas quantas observações sobre o assunto. Vão aqui, talvez como semente para uma discussão mais ampla, que o assunto merece.

Um dos membros bissextos da comunidade (não o Daniel, que de bissexto não tem nada) afirmou que quem tivesse medo de tradução automática, que mudasse de profissão, porque a tradução automática jamais seria melhor que a humana. Aí, há uma visão muito simplista da questão. Simplista, mas muito comum. Temos aqui dois problemas distintos: o "medo" e a "qualidade", ambos merecedores de atenção.


É bom lembrar que muita gente acredita que uma tradução automática é tão boa quanto a humana e, cada vez que uma dessas pessoas usa tradução automática, um de nós perdeu um serviço. Veja, por exemplo, este caso, onde o cara, inocente, inocente, está todo pimpão porque tem um site em português - e não teve que gastar nada, oh, esperteza. Tem também o cliente que usa automática e quer que a gente dê uma "olhada". Por essas e por outras, é bom ter medo da automática, sim.


Existem, entretanto, vários usos legítimos da automática e, creia-me, ela pode até ser um recurso útil para um tradutor profissional sério e competente.


Mas a continuação disto fica para amanhã. Espero que você tenha gostado do aperitivo, que deixe seu comentário aí abaixo e que volte amanhã, para ler o começo do resto.



Kelli ainda enfrentando problemas com a Internet na casa nova. A ver se na segunda-feira está aqui de novo conosco. Está fazendo falta.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Professores e tradutores 3/3

Agora, a terceira a última parte da mensagem da professora Vera Menezes à lista CVL, aqui divulgada com permissão dela.

Ha ainda uma situação pior. A pessoa na intenção de não te dar trabalho pede a um estudante ou a um parente pouco proficiente na língua para fazer a tradução e manda para a gente apenas dar apenas uma olhadinha. Podem acreditar, o capeta mora nesse tipo de texto assim como mora no tradutor automático. Dá vontade de chorar.

Conclusão: vamos valorizar o tradutor profissional e pagar pelo trabalho. Me dá duas alegrias: ajudar um amigo e me livrar de uma tarefa trabalhosa e que não me dá nenhum prazer.

Abraço a todos e bom carnaval.

Vera Menezes

O carnaval já passou, Vera, mas acho que agradecemos do mesmo jeito e esperamos que o seu também tenha sido bom.

Como dizem lá nossos irmãos gringos, o caminho dos infernos está pavimentado por boas intenções e a história do "dar uma olhadinha" é um pesadelo. Revisão existe para transformar uma boa tradução em uma tradução excelente. Tradução ruim, não se revisa, joga-se fora. E é difícil dizer que a tradução feita pelo tio Brederodes, que é tão culto e tudo, está um lixo inútil.


Tradução automática, então é outro perigo. Pode ser até útil na mão de quem sabe usar (espero falar disso nos próximos dias) — mas simplesmente "passar" no Babelfish é coisa de doido.


Então, ou você faz de novo e corre o risco de causar constrangimento ou ofender, ou deixa como está e acaba assumindo a responsabilidade por um texto errado.


No último parágrafo, além da gentileza para com os tradutores, a Vera ainda toca em um ponto que, para mim, é capital. Ela é professora, fundamentalmente, porque tem alegria em ensinar; se tivesse alegria em traduzir, seria tradutora. Para ser tradutor é necessário, antes de tudo, ter alegria em traduzir. É muito difícil fazer bem algo que não nos dá alegria, mesmo que nos pague bom dinheiro



Para concluir, volto a outro conceito que me é muito caro: nada impede que um professor seja, também, um bom tradutor e vice-versa; mas também nada nos obriga a concluir que quem é bom em uma atividade seja também na outra.



À Vera, mais uma vez, muito obrigado por permitir que eu comentasse sua mensagem aqui.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Professores e tradutores 2/3

Hoje, o segundo capítulo da mensagem da professora Vera Menezes.

Bem, eu achei uma solução maravilhosa para resolver meu problema com os resumos de amigos queridos a quem não posso dizer "não". Antigamente eu passava horas debruçada em cima dos resumos e, muitas vezes, o texto em português não era claro, o que me dava mais trabalho ainda.

É uma pena que você ache impossível dizer "não", Vera. Eu acho imprescindível aprender a dizer "não" com facilidade e um sorriso nos lábios.

O ter de passar horas em cima de resumos mal escritos é horrível e nos dá mais uma medida da dificuldade de traduzir do português para o inglês. Não é que eles escrevam tão bem assim, porém a maioria dos textos que nos vêm de lá passou pela mão de revisores profissionais, que, ao menos, tiraram o mais grosso das esquisitices, ao passo que aqui, os textos que nos mandam vêm co casca e tudo. A turma pensa que para ser tradutor de e para o inglês só precisa saber muito inglês. Precisa, mas não é o suficiente. Precisa saber ainda mais português, para escrever direito no estilo dos outros e, quando se traduz para o inglês, precisa, muitas vezes ser mágico para entender o original.


Os tradutores literários acham difícil traduzir obras de grandes autores, porque nunca tiverem que quebrar a cara decifrando os crimes contra a língua pátria cometidos pelo pessoal da indústria e comércio, pelos advogados, pelo pessoal do governo. No tempo em que eu traduzia muito para o inglês, era comum ligar para o cliente e perguntar que demônio significava uma frase, para descobrir que nem o redator entendia. A reação mais comum era "mas você só tem que traduzir, meu!". Como se fosse possível traduzir sem entender.

Sabem o que faço agora? Pago a uma amiga tradutora que mora no Rio Grande do Sul para fazer minha tarefa e assim eu não deixo os amigos tristes. O preço dela é muito bom e eu, apesar de morar em BH, faço o deposito online e resolvo o problema sem sair de casa. Os amigos nem sabem que faço isso e espero que não fiquem sabendo por esta lista. Traduzir é coisa para profissional e acho que vale a pena pagar por isso. Assim pago com prazer e presenteio os amigos que me pedem o favor sem que eles saibam que paguei por eles. Afinal alguém que termina uma tese merece esse carinho, não é mesmo? Isso tudo foi para dizer que Heloisa tem toda a razão. Mas quem pediu o favor também não merece pedras. Provavelmente não sabia como é trabalhosa essa tarefa


O prejuízo menor — entendendo-se que a Vera seja uma mulher ocupada, o que deve ser — é realmente pagar para que alguém faça. Bom saber que ela acha que vale a pena pagar um tradutor e que vale a pena oferecer o presente de uma boa tradução aos amigos. Pena que eles não saibam que é ela quem paga. Mas, enfim, como dizia meu pai, cada um cai do bonde como quer.


(Amanhã, o finzinho, não perca!)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Professores e tradutores 1/3

Na lista CVL, correu uma discussão interessante sobre professores de línguas atuando como tradutores, da qual já falei aqui. Posteriormente, apareceu uma mensagem de Vera Menezes, que, com a devida permissão, transcrevo e comento aqui. Como a mensagem é longa e meus comentários ainda mais longos, vai dar três artigos. Espero que você goste e volte amanhã para ler a continuação.

Caros colegas,

Não sou tradutora profissional, mas recebo alguns pedidos de ajuda com resumos. Confesso a vocês que apesar de ser professora de inglês, tenho enorme dificuldade em verter para o inglês. Por isso tenho optado, em alguns casos, por escrever meus próprios textos primeiro em inglês e depois traduzir para o português, quando preciso das duas versões. Para mim é imensamente mais fácil escrever direto em inglês do que fazer a versão. Não tenho problemas com a tradução do inglês para o português, mas acho o contrario muito difícil. Não é a toa que na ONU, segundo soube, o profissional só traduz para sua própria língua.

A Vera se dá conta de algo que, para mim, é indiscutível: ensinar e traduzir são atividades diferentes. Nada impede que um tradutor seja também bom professor e vice-versa, mas é igualmente comum um bom professor ser bom tradutor e vice-versa.

A idéia de a Vera, que tem o português por primeira língua, achar mais fácil produzir um texto bilíngüe começando pelo inglês também é muito interessante.

Quando eu era adolescente e a mania do pessoal era ter correspondentes em inglês — para os quais quem escrevia era sempre eu — meus colegas ficavam surpresos de ver que eu escrevia "direto em inglês", enquanto que eles achavam lógico escrever em português primeiro, para depois traduzir. Pode até ser lógico, porém é bem mais difícil. Essa observação, por si, dá mais de metro e meio de discussão.


Em resumo, a Vera sabe mais português que inglês. Isso é normal. As pessoas bilíngües coordenadas, quer dizer, que são igualmente proficientes em duas línguas, são pouquíssimas. Quando escreve inglês, escreve o inglês que sabe. Não deve ser pouco, mas é menos que seu português. Quando traduz para o português, usa todo o seu enorme conhecimento de português para dar conta do recado. Por outro lado, quando escreve português, usa recursos muito mais amplos que os de que dispõe em inglês. Por isso, sofre.


Finalmente (por hoje, quer dizer, porque amanhã tem mais), não é só na ONU que a regra é traduzir só para a própria língua. Essa é uma prescrição praticamente universal, que deve ser violada somente quando não há alternativa. O fato é que, por exemplo, entre francês e inglês, não faltam tradutores, numa direção ou na outra. Mas encontrar um tradutor competente falante nativo de inglês e que traduza bem do português (ou do albanês, entre milhares de outras línguas) é muito difícil e, por isso, quebra-se o galho como melhor se pode. Mas, creiam-me, raro é o brasileiro que escreve inglês "sem sotaque".


Diga-se de passagem, que meu inglês escrito, embora não dos piores, é todo nuançado de verde e amarelo. Até eu percebo.

terça-feira, 3 de março de 2009

Vídeo

Clique aqui para ver um vídeo sobre a vida de tradutor.

Aqui, o texto, gentileza de Alexander Kudriavtsev. O vídeo correu várias listas de tradutores.


FIVE THOUSAND WORDS
(Lyrics and music © by Sharon Neeman)

The clock showed close to quitting time; my desk was almost clear;
I thought perhaps I'd slip around the corner for a beer -
But the phone rang - and I answered - and a friendly voice said "Hi!"
It was the secretary of a legal firm nearby.

She said "Oh, please excuse me calling this late in the day,
But we have a new petition in a case that's under way;
Can you translate it tomorrow? Any time by five will do -
'Cause we wouldn't want to give the work to anyone but you:

It's: only:

Five thousand words for tomorrow at five;"
I thought "I'll do that easily; I'll scarcely have to strive,"
So I smiled and said "No problem; I'll just add it to my bill,
And you'll send a check on Friday?" And she said "You know we will."

* * *

I set to work at eight AM; I cut my lunch date short;
By five the stuff was ready to be filed before the Court;
I sent it off by email and I poured a cup of tea -
And the phone rang - and I answered - and a lawyer asked for me:

"I've just leafed through your translation, and I think it's very good,
And I'd like you to translate an affidavit, if you could;
It's the size of that petition - well, perhaps a little more -
And you know that I'd be grateful if you'd have it in by: four:

It's: only:

Six thousand words for tomorrow at four;"
I thought "I'll get up early; I've a longish day in store,"
And I shrugged and said "No problem; I'll just add it to my bill,
And you'll send a check on Friday?" And he said "You know we will."

* * *

I hit the desk at seven and I ate my lunch alone;
I never touched the Solitaire or gossiped on the phone;
At four o'clock I sent it off and shook my weary head -
And the phone rang - and I answered - and the junior partner said:

"I really have to thank you for a job superbly done,
And I'm sure you'll be delighted, 'cause we've got another one:
I've just finished my summation, and you know how glad I'd be
If your excellent translation could be on my desk by: three:

It's: only:

Eight thousand words for tomorrow at three;"
I thought, "It won't be easy: but I'll have the evening free,"
So I sighed and said "No problem; I'll just add it to my bill,
And you'll send a check on Friday?" And she said "You know we will."

* * *

I started at five-thirty, and my lunch was just a snack;
At three I typed the last few words and sent the email back;
I flexed my aching fingers and I silently rejoiced -
And the phone rang - and I answered - and the senior partner's voice

Said "You really are a wonder, and your talents are unique -
In fact, that's why we've kept you very busy all this week;
Now, I know that it's short notice, but I have to count on you -
For the Judge needs my rebuttal to be on her desk at: two:

It's: only:

Ten thousand words for tomorrow at two;"
I thought, "How can I tell him that it's just too much to do?"
But I groaned and said "No problem; I'll just add it to my bill,
And you'll send a check on Friday?" And he said "You know we will."

* * *

I staggered in at four AM; I never ate a bite;
But I got it done by two, although it was a trifle tight;
I was dizzy, I was queasy, and I thought I'd never budge -
But the phone rang - and I answered - and by God, it was the Judge!

She said, "I know you're tired, and I really hate to ask,
But there's no one in the city that can do this one last task:
For I've handed down my ruling," and she gave a modest cough,
"And at one PM tomorrow, the courier takes off:

It's: only:

Twelve thousand words for tomorrow at one;"
My mind screamed "No, Your Honor! There are things that can't be done!"
But the words came out "No problem; I'll just add: it: to: my: bill -"
And it's been four months since Friday, and the bastards owe me still!

Agruras de um iniciante

Um colega me escreve falando lá de suas agruras de tradutor iniciante, que trabalha de um modo algo precário. Pergunta:
É viável trabalhar dessa maneira até alcançar um renome? É romântico acreditar que a qualidade do trabalho em si, a despeito dos outros aspectos que credibilizam o profissional, pode dragar um amador dessa condição infame?
A mensagem é um tanto dramática e a condição dele não chega a ser infame, mas, de fato, é precária: por exemplo, está trabalhando com nota fiscal de terceiros, o que não é nada bom.

A pergunta me parece mal formulada. Eu teria preferido perguntar: é possível alcançar renome trabalhando dessa maneira?

Uma lição que aprendi há tempos é que, para sermos tratados (e remunerados) como profissionais, temos de agir como profissionais.Quer dizer, o primeiro passo na trilha da profissionalização é sempre nosso e, cada vez mais, profissionalizar-se exige investimento de tempo e dinheiro.

Para o iniciante, é terrível. Você pensa que, terminando a faculdade, vai virar tradutora da noite para o dia. Depois, descobre que tem que procurar serviço, dar nota fiscal, aprender a fazer misérias com o computador, usar programas de memória de tradução, mil coisas. Mas não tem saída: se você quer ser profissional, cabe unicamente a você a tarefa de profissionalizar.


Em tempo, uma das coisas que o colega lamenta é o fazer "versões para pessoas físicas". Nada há de errado nisso. Pessoas físicas são clientes como quaisquer outros, embora mais difíceis de atender.

Notícias e novidades

Estou devendo a vocês a série sobre ferramentas para o tradutor. Ainda vamos ter que esperar mais uns dias. A Kelli está mudando de casa, toda atrapalhada, ainda sem conexão com a Internet e não quero escrever essa série sem ela. Durante esta semana, a situação deve se regularizar e vamos trabalhar juntos de novo. A Kelli é mais organizada que eu e me fez prometer que vou retomar e concluir as séries interrompidas, o que vai ser muito bom.

O blogue continua em mutação. Agora, apareceu aí do lado o formulário para contato. Se tiver alguma pergunta ou sugestão a fazer, use o formulário, reservando os comentários, para, — como direi? — fazer comentários aos artigos publicados.


O Edgard, nosso webmaster (estamos ficando chiques), ainda tem umas cartas na manga, mas nenhuma dessas coisas é tão rápida como a gente gostaria que fosse.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Recadinho

Um recado algo críptico para o colega que me escreveu agora há pouco uma mensagem pedindo que eu guardasse segredo. Sim, guardo segredo, sem dúvida. Já tinha tomado essa decisão antes de você pedir.

Para quem não entendeu nada, um colega me escreveu um comentário contando uma situação algo cabulosa e deu seu nome. Posteriormente, deu-se conta de que a divulgação do seu nome poderia causar constrangimentos e pediu para que eu não postasse o nome dele.

Este fim de semana, devemos ter um formulário para contato, o que vai distinguir os comentários a um artigo específico de comunicações e solicitações diversas, o que vai facilitar essas coisas.

Mas o assunto levantado no texto do colega importa a todos os iniciantes e vai ser analisado aqui.

Ontem, acabamos um monstrinho de serviço e vamos poder, a partir de amanhã, dar mais atenção a muitas outras coisas, inclusive o blogue. Finalmente.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Concurso para Tradutor Público e Intérprete Comercial em Santa Catarina

Um frisson corre entre os tradutores! Concurso para TPIC, vulgo "tradutor juramentado", desta vez em Santa Catarina!

Já falei até demais em TPIC aqui e quem pesquisar TPIC na caixa aí ao seu lado direito vai saber tudo o que quer e mais algumas coisas que provavelmente preferiria não saber. Não vou me repetir aqui. O edital está aqui. Está escrito em um português algo tosco, mas tem a característica redentora de dizer:

O provimento do Ofício de Tradutor e Intérprete Comercial é exclusivo da Junta Comercial, porém a execução do trabalho é gerada pela de (sic!) demanda externa e o respectivo pagamento destes serviços será feito pelo usuário diretamente ao tradutor, obedecendo à tabela de preços fixada pela Junta Comercial por ResoluçãoJUSESC nº 001/06.

… o que, trocado em muidos, significa que a JUC provê o cargo, mas cada um que arranje serviço por si e se vire para cobrar do cliente. A explicação vale para evitar a surpresa dos incautos que pensam queTPIC é servidor público e recebe do Estado. TPIC tem que correr atrás de serviço e trabalhar como o comum dos mortais.

O número de vagas deve parecer pífio, se você quiser prestar o concurso. Entretanto, parecerá grande demais, se você for um dos TPIC em atividade em Santa Catarina no momento. Essas coisas dependem muito do lado do muro em que você está.


O TPIC, além de tradutor, quer dizer, de lidar com texto, tem de ser intérprete, quer dizer, lidar com a língua falada. Isso porque quem não fala português tem de se comunicar com as autoridades por intermédio de um TPIC . É justo. Imagine, por exemplo, a aflição de um estrangeiro, depondo em juízo e tendo que falar português! Aí, então, entra em ação oTPIC. Não que eles gostem disso, porque a paga por esse tipo de serviço é pouca, mas são ossos do ofício.


Não há, em nenhuma unidade da federação, TPICs para todas as línguas — nem poderia haver. Mas há para aquelas de maior demanda. Sempre há para inglês, espanhol, alemão, francês e, conforme o estado, mais umas quantas. É válido. Fazer concurso para TPIC de coreano em Rondônia ia custar uma fortuna, iam aparecer poucos candidatos e, quem fosse aprovado, pouco serviço teria. E fazer para mongol ou concani ia ser um absurdo.Quer dizer, tem que haver algum limite. Não havendo TPIC nomeado regularmente, pode-se nomear um ad hoc, o que não é ideal, mas pode ser a solução mais acertada.


O que nunca tinha me passado pela cabeça — e agora passa, graças aos contatos gerados pelo blogue e pela Reunião na Sala 7 — é que não existeTPIC para LIBRAS, a Língua Brasileira de Sinais, utilizada pelos surdos. Acho que estava na hora de alguém pensar nisso — ou será que estou errado? Afinal, surdos temos muitos, e em todas as unidades da federação. Não são estrangeiros, é verdade, são brasileiros, ao menos em sua maioria. Talvez por isso, mereçam até mais atenção.

Em tempo: nunca prestei o concurso para TPIC, nem em SP nem em outros estados nem trabalho para escritórios de tradução juramentada. Quer dizer, nem ganho nem perco nada com essa história toda.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

FAQ 2

Soube atraves de uma empresa que contrata servicos, que precisaria ter empresa aberta para poder pleitear uma vaguinha como tradutora de legendagem.

Mas pergunto: poderia ela ser empresa individual? ja' possui uma aberta no Parana', precisando somente alterar a natureza dela.

Como normalmente isso e' feito?

Em teoria, você também poderia prestar o serviço como autônoma, mas, nesse caso, a carga fiscal da empresa que contratar seus serviços fica tão alta, que eles fazem questão de trabalhar com profissionais que podem apresentar notas fiscais de pessoa jurídica. Essa é uma tendência geral do mercado, não uma ranhetice específica dos laboratórios de legendagem.

Normalmente, firmas individuais, como a que você diz que tem, são comerciais, não de prestação de serviço e, portanto, a nota fiscal delas não vai servir. Que eu entenda, você precisa de uma sociedade, não de uma firma individual. Mas isso é você tem que discutir com seu cliente e com seu contador.

Alguns clientes estão sugerindo que seus tradutores se juntem a "Associações Culturais", para reduzir os custos. Não me canso de dizer que essa história de cobrar como "Associação Cultural" não está lá muito de acordo com a lei e que mais dia menos dia o Leão vai dar uma rugida feia — dizem, inclusive, que já pegou uma e fez um estrago dos bons. Portanto, fuja dessa. Há um marcador "associações culturais" aí do lado. Clique nele e entenda melhor por que recomendamos fugir desse "jeitinho".

Na verdade, a história de se tratar de legendagem não altera o quadro: de acordo com a lei brasileira, se você não trabalha com vínculo empregatício ("carteira assinada") ou presta serviços como trabalhadora autônoma ou como pessoa jurídica ("firma", "empresa"). Não há outras opções.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Biblioteca Básica do Tradutor — Introdução

Uirá Catani deixou um recado, aí abaixo, onde diz:

Nunca li nada no blogue a respeito da biblioteca básica do tradutor. Parece óbvio que gramáticas e dicionários são fundamentais, mas gostaria de ler umpost sobre o tema, em todo caso. Já existe um post do tipo?

Peço desculpas por registrar meu comentário em um post sobre tema tão diferente, mas uma vez que não encontrei um marcador específico, o contrário seria impossível.


Pois é, Uirá, entre muitas outras coisas, estão faltando neste blogue um formulário para contatos mais genéricos. Estamos contatando um profissional para cuidar do lado técnico do blogue, que está ficando muito complicado, e deve resolver este e outros problemas.


Fica a parte da redação dos artigos propriamente dita, que começa normalmente na minha mão. Então eu, todo pimpão, preparei um artiguinho bonito e mandei para a revisão da Kelli. A Kelli, entretanto, mostrou que eu estava indo no caminho errado e que o artigo, embora correto em suas afirmações, não era satisfatório. Toca a refazer.


Para simplificar as coisas, todos os artigos vão levar os marcadores "biblioteca" e "ferramentas". Assim, quem clicar no marcador vai poder ler todos os artigos de uma só vez.


Mas vai ficar para terça-feira. A Kelli está com acesso muito limitado ao computador e manter uma boa discussão com ela, para fazermos um artigo que preste, vai ser impossível.


Mas a sua idéia, Uirá, é boa e nós agradecemos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Professor pode fazer tradução? E grátis, ainda por cima?

Uma das listas de discussão de que faço parte congrega muitos professores de línguas. Lá pelas tantas alguém perguntou quem poderia fazer uma pequena tradução, evidentemente grátis. Foi um bafafá dos bons. Tradutores reclamando que professores não devem fazer traduções, que não se deve trabalhar de graça, alguns professores concordando, outros discordando, aquela coisas toda que você já pode prever. Pouco participo daquele grupo, mas, como a história era de tradução, resolvi meter a minha colher torta no angu de caroço. Aqui está, com algumas modificações, a minha mensagem. Veja lá o que você acha e faça seu comentário.

Desde 1970, me dedico inteiramente à tradução e é como profissional da tradução que venho meter meu bedelho aqui na conversa.


Existem bons e maus tradutores, como há bons e maus professores, cozinheiros, advogados, encanadores e solistas de sacabuxa. Quer dizer, entregar uma tradução a um tradutor, em vez de a um professor, não é assim, garantia de que o serviço vá sair com qualidade total e perfeita. E, principalmente tratando-se de um trecho pequeno, é até bem possível que um professor possa se sair bem. Como também pode se sair bem como tradutor bissexto de poesia.


Por outro lado, haverá mais que um excelente professor que dê com os burros n'água para traduzir um texto qualquer. Ensinar e traduzir são atividades diferentes e gente muito bem-sucedida numa pode ser um fracasso na outra. O mesmo se estende a profissionais como secretárias e recepcionistas bilíngües.


Muitos tradutores foram professores antes de serem tradutores e, quando empreenderam sua primeira tradução, ainda não eram tradutores, se me faço claro. Por alguma porta temos que entrar e os únicos que podem reclamar de fato são os bacharéis em tradução. Mesmo eu dei as minhas aulinhas lá pelos tempos do Castello Branco e, quando "peguei" minha primeira tradução, não tinha uma noção muito boa do que ia fazer. Quer dizer, não me acode o direito de reclamar se algum dos professores aqui se decidir a aceitar o serviço.


Nem vou me sentir prejudicado. O que prejudica a profissão não são os professores que traduzem uma dúzia de linhas para um colega, seja cobrando ou não. São os figurões do magistério e das letras que traduzem livros inteiros grátis ou a preço vil para as editoras e ainda passam por benfeitores da comunidade.


O que me distingue — enquanto tradutor profissional — dos tradutores eventuais e bissextos é a minha dedicação preferencial à tradução.


Enquanto que mais de um dos professores aqui da casa poderia traduzir vinte linhas numa tarde de domingo, para ajudar um colega, é necessário um profissional para encarar certas tipos de trabalho e prazos. Por exemplo, recentemente passei meses traduzindo documentos em xml usando Trados TagEditor em uma memória de tradução residente em um servidor que estava em Zurique. É possível que a maioria dos leitores da lista CVL nem entenda o que eu disse no período anterior.


Mas não é só isso: traduzir vinte linhas num dia é uma coisa, traduzir vinte mil palavras em uma semana é outra, bem diferente — e coisa para profissional. Traduzir aquilo de que se gosta pode ser até divertido; traduzir o que é necessário é coisa para profissional. Traduzir um artigo científico pode ser uma aventura intelectual de primeira linha. Ter prazer em traduzir 100.000 palavras de um relatório anual de um banco, porque toda tradução é um desafio e um prazer, é coisa para profissional. Traduzir uma grande obra literária pode ser uma festa, traduzir livros de auto-ajuda, porque é preciso, porque tem muita gente que lê essas coisas e se escora nelas para agüentar a vida, é coisa para profissional.


Quer dizer, eu traduzo porque, para mim, traduzir em si, qualquer coisa que seja, é uma festa. Hoje em dia, só traduzo finanças, mas isso foi o que me aconteceu, não a minha escolha. Se as voltas do mercado tivessem me encaminhado para outra área, trabalharia com o mesmo prazer.


Quanto ao trabalhar de graça, desculpe, mas eu não traduzo de graça e também não aceito que trabalhem de graça para mim. Quando quero um serviço, primeiro trato preço, depois autorizo. Ajudo muito os colegas, com artigos, palestras e mesmo com o meu blogue, mas tradução só faço a pagamento. É o que dizia a Cacilda Becker: não me peça para fazer de graça a única coisa que tenho para vender. Havia um Código de Ética do Tradutor que proibia trabalhar grátis para quem pode pagar.


Não acho nada de errado um professor traduzir vinte linhas grátis para um colega: o que ele tem par vender são aulas, não tradução. Mas eu, que sou profissional da tradução, não traduzo grátis. Posso até explicar o uso de um tempo verbal em inglês, assim, na base do passei, cinco minutos, dei a explicação. Mas se um professor começar a dar aulinhas grátis, vai formar fila porta da casa dele.


Nunca entendi, por outro lado, porque estudantes e acadêmicos querem descontos ou trabalho grátis. Quem vai fazer intercâmbio não pode pagar tradução? Ué, tem dinheiro para a passagem de avião mas não para pagar tradutor? Tese não tem objetivos econômicos? Claro que tem! Defende tese, vira Dr., ganha mais na faculdade. Está investindo no seu futuro! Então, invista o seu dinheiro, não o meu. Porque, quando trabalho grátis, estou deixando de ganhar dinheiro fazendo serviço remunerado, que não me falta. Por que raios o dinheiro sempre acaba cinco minutos antes de chegar a hora de pagar o tradutor?


Outro dia, veio aqui um vizinho com um texto de medicina, de, creio, umas boas 50.000 palavras, de que ele precisava com urgência. Ajuntou que "era para a faculdade" algo que, traduzido assim, no popular, significava "não quero pagar". Quando respondi que aquilo significava 15 dias de trabalho e que, durante esses quinze dias, ele iria ter que pagar todas as despesas da minha casa, inclusive os custos tremendos de um tratamento de saúde que minha mulher fazia na época, virou as costas e foi embora, zangado comigo. Paciência, assim é a vida.


Alguém aqui comentou "que custa fazer grátis?" Aqui, há que fazer à moda jesuíta e responder com outra pergunta: "que custa pagar?" Porque fazer grátis custa tanto para mim quanto pagar custa para o outro.


A bem dizer, quando se faz grátis a alguém algo por que se poderia cobrar (no caso, o tempo que o tradutor gastaria na tradução), estamos reduzindo nossos próprios rendimentos. Quer dizer, se eu faço uma grátis uma tradução pela qual normalmente cobraria cem reais, estou reduzindo minha renda em cem reais, dando a essa pessoa, tirando da minha família, o valor de cem reais. Por que eu devo fazer essa doação? Essa pessoa realmente precisa do meu sacrifício?


Não é tanto sacrifício assim? Bom, se é pouco dinheiro, uma miséria, um nada, que não vai fazer diferença no bolso de ninguém, porque, então, não me podem pagar?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Eu e o Orkut

Aí embaixo, a Fátima escreveu

Danilo,

Se quiser, depois delete este comentário, já que ele não se refere ao assunto abordado por você mas a um fato occorido recentemente: sua saída do Orkut. Estamos todos sentindo sua falta e mais: excluindo seu perfil todos os tópicos e todos os posts, todos os ensinamentos, tudo que você escreveu também sumiu. Sentimos falta até das repreensões. Eu mesma levei algumas, mas aprendi com elas. Sabe, Danilo, você é uma pessoa que eu respeito muito, até comento suas opiniões aqui em casa. Fiquei triste mesmo.

Abraços


Fatima Romani



Obrigado por sua mensagem, Fátima.

Não pretendo fazer do blogue um palanque para discutir as razões que me afastaram da Comunidade Tradutores e Intérpretes BR lá no Orkut. Por isso, não vou publicar mais nenhuma mensagem sobre o assunto, independentemente do que diga ou quem escreva.

Ainda acho a Comunidade excelente e um grande lugar para todos os tradutores. Acontece que não estava me sentindo mais bem lá, por motivos absolutamente particulares e que a ninguém revelei nem pretendo revelar. Então, tive de sair. Mas acontece, Fátima, que gosto muito da comunidade, muito mesmo, demais. Se não destruísse meu perfil, ia continuar dando uma olhadinha de vez em quando, de vez em cada pouco, de vez em o tempo todo e ia acabar voltando. A minha volta não seria boa nem para mim nem muito menos para a comunidade. Então, tive de apagar o perfil. Assim, não consigo entrar no Orkut e resistir à tentação de "só dar uma olhadinha", é mais fácil.

Lamentavelmente, o Orkut agora apaga todas as mensagens postadas por quem apagou o perfil - algo de que eu não sabia quando apaguei o perfil. Antigamente, ao você apagar o perfil, ficava como "anônima", mas as mensagens ficavam. Assim, tudo o que eu escrevi, nesses anos todos, se perdeu. Foi ruim isso, por dois motivos: primeiro, que, no meio de muita abobrinha, as minhas mensagens tinham informações úteis; segundo, que parece um insulto à comunidade, mas não é, porque insultos são propositais, envolvem escolha e eu não escolhi apagar as mensagens postadas. Se eu soubesse que iam ser apagadas, ia transferir o perfil para uma pessoa de confiança, que alteraria a senha, de modo que eu perdesse acesso.

Um colega me escreveu, dizendo que estava com vontade de sair também e também teria que apagar o perfil, pelos mesmos motivos que me levaram a apagar o meu, mas que agora não tem coragem de apagar o perfil porque não quer que se percam suas mensagens. Para alguma coisa serviu minha experiência amarga.

Só posso concluir com um abraço a você e a todos na comunidade, especialmente àqueles que ficavam mais incomodados com minha presença e lembrar que, quem gostar de ler as coisas que eu escrevo, vai encontrar montes delas aqui. O tempo que eu usava na comunidade, vai virar tempo de blogue.

Mais uma vez, obrigado por sua mensagem.



terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Desaforo!

A história é antiga, mas acho que não contei aqui, ainda. Liga um possível cliente, pede cotação. Dei a cotação e, claro, ele já foi pedindo um desconto: já tinham feito a tradução uma vez, tinha ficado ruim e eles estavam refazendo e, evidentemente, não podiam pagar duas vezes pelo mesmo serviço.

Houve um tempo em que eu era bem mais irridatidiço do que ainda sou hoje e tive uma vontade quase irresistível de dizer ao cliente exatamente o que eu achava que ele devia fazer com a tradução. Mas "quase", significa que a tentação não era irresistível e eu resisti.

Hoje em dia, simplesmente diria que meu preço era aquele e acabou a história. Naquela época, ainda argumentava com cliente, era fã das "respostas merecidas". Não me lembro exatamente das palavras que usei no momento, mas foi algo mais ou menos assim: alguém na sua organização contratou um tradutor incompetente, o que, em si, é prova de incompetência. O tradutor incompetente foi pago pela tradução inútil, o incompetente que contratou o incompetente recebeu o seu salário e você ainda quer que eu pague o pato?

Meu interlocutor não gostou muito da resposta, entre outras coisas porque provavelmente tinha sido ele o incompetente que escolheu o tradutor incompetente, mas acabou me encarregando do serviço.

Uma variante dessa mesma história é a solicitação de "uma olhadinha" numa tradução que já está feita, mas alguém achou umas "coisinhas". Não existe "uma olhadinha". Existem traduções e revisões.

"Olhadinha" é mais uma daquelas tentativas desaforadas de minimizar o valor do nosso serviço para justificar uma redução no pagamento. Já me aconteceu uma vez, também, e cotei um preço para a revisão e outro, vinte por cento mais baixo, para retraduzir tudo.

Nada disso importa, entretanto. Mesmo que não tivesse dado aquelas respostas, mesmo que eu não tivesse ficado com o serviço, mesmo que as histórias tivessem sido inventadas, não faria diferença para o objetivo deste artigo. O objetivo aqui é conscientizar você de que não tem obrigação de pagar pelos erros dos outros. Pague pelos seus, e já basta.

Desaforo, isso de quererem que a gente pague pelos erros dos outros — até mesmo se a gente ganhasse muito. Você não acha?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Um Texto Mal Redigido

Uma colega que se diz iniciante escreve reclamando de um texto traduzido que ela considera de má qualidade, publicado em numa revista. Dá até um link para o texto. Mas eu prefiro dar ao assunto uma análise mais ampla.

Há traduções tão ruins, que a gente sabe que não prestam sem nem precisar ver o original. Quando você vê que a tradução diz que alguém tomou um curso e depois aplicou para um passaporte, já pode dizer, logo de cara, que a coisa está feia.


Outras vezes, entretanto, sem ver o original, não se pode dizer que o tradutor tenha falhado. É como um retrato: pode ser que o quadro mostre um rosto feio porque o modelo, coitado, também não era grande coisa. E não estou falando daquelas coisas que pintava o Picasso, estou falando de pintura acadêmica.


Em outras palavras, sem ver o original, é muito difícil dizer se há falhas de tradução.


Não é obrigação do tradutor transformar um documento de partida mal escrito em um documento de chegada brilhante. Nem sempre é possível, muitas vezes é indesejável, nunca é obrigação do tradutor.


Nem sempre é possível, porque alguns textos são tão mal escritos que não têm salvação; muitas vezes é indesejável, porque pode ser necessário preservar a ruindade do texto de partida para informação do leitor, algo que já tive de fazer. Finalmente, nunca é obrigação do tradutor, porque arrumar texto alheio é obrigação de preparador de texto, copidesque, ou quem quer que seja. Caso o tradutor seja encarregado de dar jeito no texto (e presumindo que o texto tenha jeito), são dois trabalhos, dois pagamentos, dois prazos.


Mas não gosto disso. Minha experiência é que quando a gente arruma textos alheios acaba sempre distorcendo alguma coisa que ficou dúbia ou obscura no original e acaba dizendo o que o autor não queria dizer — uma responsabilidade com a qual não quero arcar. Por isso, todo texto ajeitado deve ser submetido à aprovação prévia do autor. O problema aí é saber se o autor vai entender a tradução, certo? Então, o que deve ser ajeitado é o documento de partida, para depois o "ajeite" ser aprovado pelo autor, para depois ser traduzido.

A Crise, os Cancelamentos e os Descontos

Uma das pragas das épocas de crise são os cancelamentos. Você pega um serviço de, sei lá, 400 laudas por mês, fica toda feliz e, a laudas tantas, o cliente diz que o serviço foi cancelado, por causa da crise.

Exigir o pagamento total, exigir uma multa contratual? Mais fácil dizer do que fazer, e então você fica meio sem norte, sem orientação.

Esse é um dos motivos de meu terror aos serviços longos. Dão ao tradutor uma segurança falsa. Você se sente em segurança, pára de procurar clientes, perde clientes porque recusou mil serviços ou até disse "estou fora durante os próximos seis meses". De repente, recebe a notícia de que parou o serviço e tem que partir para a luta, de novo.

O pior é quando, por ser um serviço "grande e garantido", você concedeu um desconto "generoso".

Na hora do vamos ver, ninguém se lembra que o preço normal é X, você cobrou menos porque era um serviço enorme e, se o serviço foi cancelado, então você teria direito a um reembolso pelo desconto concedido. Melhor nem perder tempo tentando lembrar o cliente dessas coisas. Aprenda a lição e, da próxima vez, não conceda desconto por nada e nem comprometa mais do que 25% do seu tempo com esses "projetos longos que garantem trabalho por vários meses".

Foi assim que eu aprendi.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Quanto tempo sem parar?

M. escreveu toda satisfeita, porque estava encarando seu primeiro serviço grande. Mas diz que, depois de duas horas traduzindo direto, sem pausa, entra em pane. Está meio preocupada com isso e quer saber o que eu penso.

[Resposta Danilo:]

Bom, M, em primeiro lugar, bem-vinda à matilha. Espero que você se divirta.


O tradutor tem dois inimigos: a indisiciplina e a mania de bater recordes de resistência tradutória. O pior é que, muitas vezes, ambos se unem contra nós. Explico. Você tem um serviço e um prazo. A tendência é fazer isto e aquilo, dar só uma olhadinha na correspondência e no MSN ou no orkut, ler o jornal, aquele blogue interessante, falar com a madrinha e "já" começar. Como, muitas vezes, aceitamos serviço demais e prazo de menos, a coisa fica feia. Então, lá pelas tantas, são horas e horas ao computador, noites varadas à custa de muito café ou coisa pior, braços, pernas, pescoço, costas e cabeça em estado deplorável.


O curioso é que muita gente fala dessas coisas com orgulho: trabalhei 24 horas em seguida, só parando para comer e ir ao banheiro! Pois não devia. Depois de um certo tempo, a qualidade cai, por mais que você pense que não. Cai, sim. A gente entra em piloto automático e faz besteira. E, se não notar as besteiras que cometeu, é porque não tem autocrítica.


Já fiz isso, duas ou três vezes, porque tive que sanar bobagens que eu próprio tinha cometido. Sofri eu e sofreu a tradução. Não pode se tornar um hábito.


Você precisa aprender a ser disciplinada e a ouvir o próprio corpo, porque não há dois corpos que reajam da mesma forma e mesmo um mesmo corpo reage de formas diferentes conforme o dia e o tipo de serviço. Cabe a você ter o juízo de se impor alguma disciplina e, ao mesmo tempo, sentir quando é hora de dar uma parada.


Tem gente metódica nessas coisas, traduzindo 50 minutos sem tirar o olho do teclado e parando 10 para descansar. Outros são empíricos e dão uma paradinha quando ferve demais. É bom brincar com animais de estimação, dar uma voltinha, essas coisas. Uma paradinha para tomar água ou um suco.


Ah, mas, antes que você me pergunte: se eu tentar ficar no computador duas horas seguidas traduzindo sem parar, acho que desmantelo inteiro. Vamos ver o que a Kelli vai adicionar.


[Resposta Kelli:]


Eu vivo dando paradinhas estratégicas. Não trago água nem lanchinhos suficientes para várias horas para perto do computador, justamente para precisar levantar e parar o que estou fazendo, senão fico direto.


Não creio que paradinhas a cada hora, ou cada duas horas, sejam prejudiciais à sua produção. Trabalhei durante mais de sete anos como professora, e tinha dias de não ter tempo de ir ao banheiro. É horrível. Pense em um escritório: quem é que trabalha oito horas ininterruptamente? Ou mesmo as quatro horas de cada período? Pois é, ninguém.


Se você tiver prazo suficiente, acho até saudável ir dar uma olhadinha em e-mail, no orkut, trocar meia dúzia de palavras no MSN. Mas tem que ter disciplina e saber a hora de parar, senão a coisa desanda demais. Mais saudável ainda é sair de perto do computador e fazer outra coisa, esticar os músculos, descansar os olhos e a cabeça. Dez minutos longe e você volta outra.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Discussões Profissionais em Particular

Duas, três vezes por semana, alguém me escreve pedindo opinião sobre algum assunto profissional, ou propondo uma questão que merece discussão. Muitas dessas pessoas querem se comunicar comigo via Sklype, MSN, ou coisa que o valha.

Lamentavelmente, não é possivel. Se eu mantiver discussões profissionais em particular com todo os que me escrevem, não vou ter tempo para mais nada na vida, nem para escrever no blogue. Além disso, quando o assunto é ventilado aqui no blogue, beneficia a muitos e pode, inclusive receber contribuições de outros. Então, realmente, não vale a pena tentar manter discussões em particular comigo.

Escreva, sim, pedindo sugestões, dando opiniões, mas, por favor, não se zangue o assunto for aberto no blogue. É a melhor saída.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Reunião na Sala 7

Para quem não recebeu o link:

http://www.aulavox.info/salas/sala7.htm

Sábado, amanhã, dia sete de fevereiro, às 14 horas. O tema é "E essa Tal de Crise?"

Grátis. Todos são bem-vindos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Problemas com Agências


Escreve a S:

Gostaria de ter um pouco mais de tato nesse mercado de freelas de tradução, sabe. Tenho feito alguns trabalhos, mas não sei, tenho encontrado pessoas nada sensatas... não sei se seria a maneira certa de definir isso. Talvez eu seja ingênua demais. Queria algumas dicas pra conseguir levar tudo isso de uma maneira melhor e menos dolorida, sabe? (…) Pois bem, o assunto do projeto era [X]. Honestamente, não gosto de [X], não tenho conhecimento prévio e não gosto da sensação de não poder garantir que estou fazendo um trabalho bom. (…)Segurei minha vontade de dizer desaforos e respondi cordialmente, explicando que inclusive ele estava enganado quanto a eu não ter seguido a dita instrução. Sabe Danilo, fiquei inconformada. Não é a primeira vez que algum dono de agência me trata como se eu fosse idiota. Será que é porque tenho menos de 30 anos? (…) Uma amiga minha tradutora e ela me disse que eu fazia freelas pra pessoas que não conhecia, das quais não tenho referência, por isso tinha me ferrado várias vezes. Por outro lado, ela acha que eu sou corajosa, pois vou "metendo a cara", e mesmo correndo riscos, isso pode ser bom.


O texto da S é longo e fui cortando cá e lá, como indicam os (…) além de trocar o nome do assunto de que ela não gosta por [X]. A colega teve algumas más experiências, vai ter outras no futuro, isso faz parte da vida profissional e pessoal de todos nós. Quem trabalha por conta própria precisa aprender a lidar com essas coisas e, para muitos de nós, que esperávamos simplesmente enfiar o nariz no computador e trabalhar, é um sofrimento. Outro sofrimento é aprender a lidar com a pressão. O cliente, inclusive nós, quando somos clientes dos outros, pressiona por atendimento imediato, serviço rápido e barato. Nada que ver com a juventude da S. Eu, que já passei dos sessenta faz tempo, sofro as mesmas pressões e ouço as mesmas bobagens.

A diferença é que eu só aceito ordens escritas e digo^p "não" com uma enorme facilidade. Também não argumento com cliente. Se ele disser que me instruiu para fazer tal coisa e eu não fiz, simplesmente pergunto em qual dos e-mails que trocamos está a instrução. Se o cliente disser que traduz vinte mil palavras em duas horas, eu não respondo nada.

De vez em muitas vezes, me aparece serviço com prazos incompatíveis com a qualidade. É só recusar e dizer algo do tipo "só posso fazer para o dia tal" e pronto. E uma vez dito que não dá, é manter a palavra. Sempre lembre que o cliente que pede pelo amor de deus para você fazer uma tradução enorme de um dia para outro é o mesmo que vai reclamar da qualidade no dia seguinte. Já caí nessa uma vez, não vou cair a segunda.

Mas não se amofine: com o decorrer do tempo, você se livra dos clientes malucos e só trabalha com os bons.


150.000

Olha lá, minha gente, o SiteMeter diz que, desde 2 de maio de 2007, um total de 150.000 pessoas visitaram o blogue. É mais, porque o blogue já tinha seis meses quando começou a contagem.

Por outro lado, não é tão significativo quanto parece, porque muita gente cai no blogue por engano. Mesmo assim, vou comemorar. Agora, com a Kelli do meu lado, é que vai pegar fogo mesmo.

Muito obrigado a todos os que visitam, mais ainda aos que divulgam e comentam. É um grande incentivo para introduzir mais melhoras e novidades.

Reunião na Sala 7 - Grátis, a Distância

A próxima Reunião na Sala 7, grátis e a distância como sempre, vai ser agora, no dia 7 de fevereiro de 2009. O tema vai ser "Nós e a Tal da Crise".

Para quem não sabe, a Reunião na Sala 7 é um evento absolutamente informal, durante o qual eu abordo um assunto de interesse da profissão. É sempre grátis e muito interativo, porque os participantes podem dar opiniões e fazer perguntas pelo recurso de bate-papo. Para se inscrever e para saber melhor como funciona, clique aqui.


A Reunião na Sala 7 é uma cortesia Aulavox e agora conta com a participação de Kelli Semolini.

Venha você também.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Decidir aos 17...

A Thairine, em um comentário num post antigo, escreveu assim:

Oi Danilo. Meu nome é Thairine, tenho 17 anos e estou no terceiro ano do Ensino Médio. Tenho procurado muito nos últimos meses a respeito da profissão de tradutora/intérprete, e hoje, pesquisando mais sobre isso, acabei encontrando seu blog e achando muito interessante tudo que voce disse.

Estou num momento muito confuso por ter que escolher tão cedo o que eu quero pra minha vida profissional, e também estou ciente que todas as pessoas já passaram por isso ou ainda vão passar.

Gostaria muito que voce me ajudasse e tentasse colocar uma 'luz' no meu caminho, para eu saber se é isso mesmo que eu quero pra mim. Já pesquisei sobre varias profissoes que tinham me chamado a atenção (jornalismo, relaçoes internacionais, relaçoes publicas...), até que me deparei com Letras - com enfase em tradutor e interprete - e tenho gostado cada vez mais da área.

Gostaria de saber o que é preciso saber fazer, o que é preciso gostar pra não se 'decepcionar' com a profissão, quais são as possibilidades de mercado de trabalho, etc.

O que você puder ajudar já vai ser muito importante pra mim. Desde já agradeço. E parabéns pelo blog.

[Kelli] Ela perguntou para o Danilo, mas eu senti vontade de responder. Então, lá vamos nós.

Thairine, o momento de escolha da profissão é realmente muito confuso, para todo mundo. E é cruel que, num mundo com tantas opções que a gente nem conhece todas, seja necessário fazer a escolha aos 17, 18 anos, tão jovens. Eu passei por isso não faz muito tempo.

Sempre gostei muito de inglês, mas estava fazendo cursinho, aos 18 anos, para prestar arquitetura. No meio do ano, surgiu a possibilidade de dar umas aulinhas de inglês, sem muito compromisso, no começo. Mas aí viram que eu levava jeito pra coisa, e minha mãe e minha chefe se uniram, uma em cada orelha, para eu prestar letras. Para me livrar da falação, fiz minha inscrição. E aí aconteceu o que eu não esperava: comecei a ficar dividida. E acabei indo bem nos dois vestibulares e eu não saberia o que fazer até hoje, caso tivesse sido aprovada nos dois. Por sorte, passei só no de letras mesmo. Cá entre nós, eu provavelmente daria uma péssima arquiteta.

Passei alguns anos lecionando, e cada começo de semestre era uma alegria, um tal de fazer planos e aulas e isso e aquilo... até que no segundo semestre do ano passado isso não aconteceu. Comecei o semestre já bem desanimada, bem em clima de 5 de dezembro, sabe, querendo férias? Pois aí eu percebi que meus tempos de professora tinham acabado, e eu tinha voltado a dar umas aulinhas de inglês. Percebe a diferença? Eu tive sorte, pois na mesma época surgiu o Danilo com um convite para trabalhar com ele e eu, completamente insegura, mas ousada, aceitei e aqui estou hoje, aprendendo mundos sobre tradução.

Tudo isso, Thairine, para dizer o seguinte: com relação ao que você quer para si mesma, é muito difícil fazer uma escolha aos 17 anos e não se arrepender depois. Muito mesmo. Uma coisa importante para se ter em mente é que nada é para sempre e nada é irreversível, exceto a morte. Outra coisa é que, quando a gente muda de idéia, tem que ficar atento para não deixar as portas e janelas de oportunidades passarem e se fecharem.

Sobre o resto, bem... você já demonstrou ter algumas qualidades necessárias a um tradutor. Escreve bem, é curiosa. Se escreve bem, deve gostar de ler. Ser tradutor sem gostar de ler é um paradoxo, para mim. Deve estudar português sempre e cada vez mais, mais até que a língua estrangeira. Deve ler tudo o que cair na sua mão, seja lá o que for, porque quando menos se espera, aquele conhecimento basiquinho de mecânica pode ser muito útil em um texto que aparentemente não tem nada a ver com mecânica. Deve ser apaixonada por pesquisa, porque cai cada coisa nas nossas mãos, principalmente no começo... E também deve se sentir bem quando está sozinha. É uma profissão bem solitária, apesar de todo o contato que a internet permite ter com colegas.

Aqui do lado, tem uma série de marcadores. Clique em iniciantes e em principiantes, que tem muita coisa que vai te interessar. E volte sempre para conversar com a gente.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

FAQ 1

A pretendente a tradutora

Na verdade é que eu to super confusa como todo vestibulando que se preze hahaha. Você trabalha de tradutor né? mas você fez algum curso/faculdade?Eu tenho um amigo que faz tradução e interpretação na Unibero, mas por enquanto eu vou tentar a Unesp por que é pública mesmo. Eu me interessei pelo curso, por enquanto é o que eu vou fazer mas sempre vem aquelas dúvidas: será que o mercado de trabalho é amplo? será que pra essa profissão uma faculdade faz mesmo diferença? Pelo que eu entendi você trabalha em casa né? Tem algum tipo de exigência pra ser um tradutor?

O que você leu acima é a mensagem recebida da T. Já respondi esse tipo de mensagem muitas vezes, mas, como ninguém leu o blogue de ponta a ponta, lá vai de novo.

A confusão é melhor do que a certeza total, T, principalmente porque é um modo mais humilde de examinar a realidade. Um tanto de confusão é bom, principalmente quando se é jovem.

Não "trabalho de tradutor", sou tradutor profissional desde 1970, o que é bem diferente: uma questão de postura, empenho, dedicação. Desde 1970, o dinheiro que entra na casa vem da tradução.

Não fiz faculdade, por motivos que não vêm ao caso agora. Do ponto de vista jurídico, não faz diferença: o exercício da profissão é livre, no Brasil e em qualquer lugar do mundo, e, por isso, você pode viver de tradução com ou sem faculdade. Do ponto de vista comercial, a faculdade ajuda muito. Enquanto você não puder apresentar um currículo com uma boa experiência, um título de bacharel facilita muito sua vida. Depois de uns cinco ou seis anos de prática, ninguém mais vai olhar se você tem graduação ou não, mas, no início, faz uma grande diferença.

Do ponto de vista intelectual, então, nem se fale. Você pode aprender em casa, sozinha, tudo o que ensinam na faculdade e até mais, porém não é nada fácil. Uma faculdade bem feita vai ajudar você a organizar as idéias e pensar melhor. Mas o acento aqui é em "bem feita". Não adianta fazer faculdade promovendo ausências coletivas ou tomando carona em trabalhos antigos. Precisa estudar. Principalmente, precisa estudar português como uma louca.

Você diz que pretende ir para a UNESP. Rio Preto? Dizem que é bom lugar para se estudar. Faculdade no interior pode ser uma escolha excelente. Talvez a Kelli possa te dizer alguma coisa sobre isso.

A maioria dos tradutores trabalha em casa, sim e, de modo geral, precisa constituir uma firma para poder trabalhar, o que não é grande dificuldade. Existe mercado, sim, e existe muita gente vivendo de tradução. O problema é que muita gente não quer, de verdade, ser tradutora, quer ser paga para ler coisas lindas. Então, fica exasperada quando, em vez de traduzir uma bela obra literária, é encarregada de traduzir um livro de auto-ajuda, ou de ficção de massa. Sabe, como se você fosse se especializar em cirurgia plática, mas só trabalhasse com mulheres lindas. Se a postura for essa, fica complicado. Agora, se você quiser traduzir, não falta serviço.

[Kelli] Eu não posso dizer muita coisa além do que o Danilo já falou, até por não conhecer ninguém de Rio Preto. Cursei Letras na UNESP, mas em Araraquara, e cada campus é bem diferente do outro. Posso adicionar uma coisa só: muito aluno pensa que os professores universitários são semideuses, e muitos professores se sentem assim mesmo. Quanto eu era estudante, o prédio com os departamentos e salas dos professores era conhecido como Olimpo, para se ter uma idéia. E as brigas de egos que tinha por lá condiziam com o nome.

A melhor coisa que eu fiz foi nunca me sentir diminuída ou receosa por causa disso. O melhor dos cinco anos do meu curso, academicamente falando, foi ir atrás de professor, ficar no pé, conversar nos intervalos e tratá-los com igualdade. Com respeito, mas com igualdade. Afinal, são gente como a gente. Consegui muito com essa postura. Aliás, sem ela, eu não estaria escrevendo neste blog agora.[/Kelli]


O mestrado do Mackenzie

Uma colega pergunta o que eu acho do curso de mestrado do Mackenzie. A bem dizer, praticamente nada. Dos professores, a única que conheço é a Valderez Carneiro da Silva, veterana e respeitada, desde os tempos heróicos da Faculdade Ibero-Americana. Dos outros, nunca ouvi falar, o que significa que não circulam muito nos ambientes dos tradutores profissionais, embora possam ser excelentes professores.

Esse, como acho que todos os outros cursos superiores, não trata de ferramentas de tradução assistida por computador. É um empurra-empurra ridículo, isso. A turma da graduação acha que é problema da especialização, a turma da especialização acha que é coisa para graduação. A turma do mestrado acha que não é problema deles e a de doutorado acha que de jeito nenhum é coisa para eles. Mas, quando você chegar no mercado, a maioria dos clientes vai querer saber se você sabe lidar com essas coisas.

De resto, o Mackenzie é uma instituição séria e um curso de especialização vai ajudar a arrumar as tuas idéias, embora ninguém, mas ninguém mesmo, vá virar tradutor em três semestres. Quer dizer: espere um bom curso, mas não um milagre. Muito depende de quanto você já sabe e de quanto você está disposta a se dedicar. Num curso desses, não se ensinam línguas. Quer dizer, ou você é boa de português e inglês, ou não vai aproveitar o curso. Por outro lado, não me canso de repetir que você faz o curso, não é o curso que faz você. Tem que dar duro. Os professores, por bons que sejam só podem ensinar; mas é exclusivamente a você que cabe aprender.

Pequenas novidades

Bom dia!

Estamos criando, hoje, uma nova seção do blog, as FAQ. Muitas vezes, as perguntas até já foram respondidas antes, pelo Danilo, aqui, no Orkut ou nas listas, mas é bom tê-las organizadas em um só espaço. Por enquanto, conforme os posts novos forem surgindo, é possível encontrar as tais FAQ pelo marcador. Mais para a frente, quando tivermos uma série delas, então pensaremos em um lugar especial para elas.

Além disso, estou lentamente (atenção para o lentamente) colocando marcadores nos posts antigos. Eles não vão entrar para a nova seção FAQ, para não correr o risco de virar bagunça. Mas só de ter os marcadores ativos já fica muito mais fácil encontrar o que se quer. Enjoy!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Tradução Automática

Muita gente ainda confunde tradução automática com memória de tradução. Lamentável, porque são tecnologias totalmente diferentes. Entretanto, desse assunto falamos aqui, e não quero, mais uma vez, repetir o que já disse tantas.

O assunto de hoje é que outro dia me apareceu isto pela frente e
queria mostrar aqui. Um horror, certo? É serviço do Google Translate, caso você não tenha percebido. Agora, pouse o cursos em cima de uma frase qualquer e veja o que aparece.

Um convite para apresentarmos uma tradução melhor, certo? Quer dizer, querem que a gente faça tradução grátis para a loja de calçados, uma entidade comercial com fins lucrativos, entendeu? Nós trabalhamos grátis para eles pouparem despesas. Deu raiva? Em mim também. Confesso que aproveitei a chance e colaborei com várias sugestões escabrosas, das quais espero que eles façam bom uso. Não foi uma coisa assim, digamos, muito cristã. Mas, de vez em quando, ferve o sangue e eu faço dessas coisas.


Outro dia, postei uma mensagem em um dos diversos fóruns de que participo e, aparentemente, pelo menos um dos leitores não entendeu o que eu tinha escrito. O colega postou uma resposta dizendo que quem tem medo de tradução automática deveria mudar de profissão, porque a tradução automática jamais vai ser tão boa quanto a humana.


Se vai, se não vai, não sei. Não gosto de falar sobre o futuro. Sei que, atualmente, não é. E fico pensando em quantos tradutores estão deixaram de ganhar com essa coisa do Google Translate. Para dizer a verdade, acho muita desonestidade do Google oferecer esse tipo de serviço. O usuário, que provavelmente não distingue português de turco, não entendendo nada, crê que esteja perfeito e faz sua empresa cair no ridículo.


Ainda por cima, têm a cara-de-pau de pedir a colaboração de voluntários. Talvez você não saiba, mas a entidade que se chama ABRATES é a segunda que usa esse nome. A primeira, que depois virou sindicato, tinha um Código de Ética interessante que vedava a prestação de serviço grátis a quem pudesse pagar. Acho isso fundamental para a sobrevivência da profissão. Não encontrei o Código de Ética da ABRATES. Encontrei o do SINTRA, mas creio que não toca na questão da gratuidade dos serviços, o que me parece uma pena. De qualquer modo, não sou eu que vou "ajudar" uma empresa comercial grátis.


Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.

sábado, 24 de janeiro de 2009

E essa tal de crise, heim? (continuação)

O problema maior de qualquer crise não é econômico, mas sim emocional. A gente tende a se apavorar e se limitar a reduzir preços, o que é um erro. Em crises, muitas vezes é necessário aceitar serviço a preços mais baixos, até porque a demanda pelos nossos serviços cai e aumenta muito a quantidade de gente querendo traduzir. Entretanto, achar que a solução é cortar os preços é de uma ingenuidade triste.

Quando consultado sobre preços, jamais diga "Ah, bom, eu estava cobrando dez, mas sabe, a crise anda feia e tive que baixar para oito". Isso é uma demonstração clara de que as coisas andam mal para o seu lado e onze entre cada dez clientes, ao ouvir uma afirmação dessas, vão tentar chupar o teu sangue por canudinho.

Se o cliente perguntar como você anda de serviço, lembre que nada obriga você a dar essa informação. Quanto você tem de serviço, quanto trabalha, quanto ganha, são dados confidenciais. Já chega o leão, que fica futricando a nossa vida. Não se pode responder com um ressonante "não é de sua conta", lamentavelmente. Se você for do tipo gozador, pode sair com uma brincadeira qualquer, do tipo "não seja curioso", "é confidencial", "quê? Detetive, você, agora?" ou coisa que o valha. Se não for, ou se o relacionamento com o seu cliente for mais formal, cite o último serviço bom que você fez — mas não vá dizer "bom, há três meses recebi uma lauda e meia de uma agência aí, mas ainda nem conseguir receber". Enfim, você me entende.

Logo volto ao assunto, mas por hoje é só.

Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

E essa crise, heim?

Pois é, está todo mundo preocupado, não? Já passei por muitas crises, mas esta aqui parece que vai ser mais braba do que as outras. Como trabalho basicamente com finanças, estou mais bem informado que a média — e estou de cabelo em pé.

Até um agnóstico empedernido como eu sabe que o futuro a Deus pertence, mas tem uma que outra coisa que a gente pode ir esperando.

O volume de serviço deve cair verticalmente. Quem tinha muito serviço, vai ter um fluxo médio, quem tinha médio vai ter pouco. Quem já tinha pouco pode ficar sem nada.

Caindo o volume, cai o preço. Vai ficar cada vez mais difícil cobrar "Tabela do SINTRA". Até aí, tudo bem. Mas a turma que trabalha para aquelas editoras e agências que pagam entre uma miséria e quase nada por palavra e ainda atrasam o pagamento vai ter que tomar uma atitude, porque chega a um ponto em que não vale a pena mais trabalhar — se é que ainda vale trabalhar para essa gente. Mas tem um limite, sim, e conheço vários colegas que estão nesse limite, embora nem todos tenham percebido.

Quer dizer, trabalhar menos a preço mais baixo. O bicho vai comer.

Pior são os aproveitadores. A crise mal estava se iniciando e já tinha agência chorando lágrimas de crocodilo, pedindo descontos e favores absolutamente sem necessidade, jogando com o nosso medo. Vai ter muito disso, sempre tem.

As piores são as agências que vivem de subcontratar serviço no exterior. Sabe como funciona, não? A Empresa X, lá fora, precisa de uma tradução para o português. Encontram três agências que traduzem "from Afrikaans to Zulu" e leiloam a tradução entre elas. Leiloam, porque não entendem uma palavra de português e, portanto, como critério de escolha, só têm o preço. Ganha a Alpha International, que funciona no fundo do quintal de um aventureiro qualquer, mas tem um site bonito. A Alpha Internacional então leiloa o serviço entre várias agências brasileiras, porque, na verdade, nunca tiveram um tradutor de português nos seus cadastros. Como não sabem nada de português, o critério único é o preço. Ganha a Agência Beta Brasil, que, então distribui o trabalho entre seus tradutores. Quer dizer, ao pegar o serviço da Beta Brasil, você é vítima de dois leilões reversos.

O assunto é fascinante, mas tenho que ficar por aqui. Volto a ele no próximo artigo, que deve aparecer no sábado.

Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Me dá um desconto aí!

Acontece a toda hora: liga o cliente e oferece um serviço por um preço muito baixo. O cliente tem mil alegações em apoio à pretensão de desconto. Só para ilustrar, aqui vão algumas, que ouvi de agências:
  • Tivemos de dar um desconto ao cliente final;

  • Atuamos no mercado XXXX, onde os preços são mesmo menores;

  • Foi uma concorrência brutal, contra fulano e beltrano, que, sabidamente, cobram pouco e tivemos de cobrar ainda menos para ganhar;

  • O trabalho já tinha sido feito uma vez, por outro tradutor, ficou mal feito e não podemos cobrar do cliente duas traduções, estamos, inclusive, absorvendo um prejuízo;
Nada disso é relevante. Agência tem a mania de querer descarregar nos nossos ombros as besteiras que fez. Às vezes, nem fez besteira alguma, está cobrando seu preço normal, mas inventa alguma desgraça, para ver se chora um descontinho.

Aceitar ou não aceitar, eis a questão! Claro que, se você está com a corda no pescoço, qualquer cinco milréis é dinheiro e eu já fiz mais de um serviço a meia-paga.

Por outro lado, se você for aceitar, pode ter certeza de que o mesmo cliente vai voltar com outro pedido de desconto: a concessão de um desconto sempre gera mais pedidos de descontos. É quase impossível migrar de meia-paga para remuneração integral, não importa qual seja o cliente.

O cliente pode até jurar que é só esta vezinha que ele vai pedir desconto e que vai haver muito mais serviço com remuneração normal e mais mil coisas, mas não demora vem outra choradinha. Se você concedeu desconto uma vez, não importa qual seja a alegação feita pelo cliente, na próxima vez ele vai lembrar que você deu o desconto e não se esquecer de pedir outro. E lá começa o chororô de novo.

Só para evitar choradeiras futuras, já vale dizer que não. Mas, como já insisti aqui mais de uma vez, tem de ser um não firme e educado.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Feliz ano novo!


Dezembro foi um mês de muita ação e reflexão para a Kelli e para mim. Os resultados devem começar a surgir agora, em janeiro, mas vamos precisar de uns bons três meses para implantar uma parte significativa das nossas novas idéias.

  • Blogue. O blogue começou como uma brincadeira divertida, mas precisa ser levado mais a sério. A cada dia, mais de 300 pessoas vêm até aqui e a responsabilidade pesa. E fazer um blogue como se deve demanda tempo e você nem imagina quanto estudo. A gente consegue criar um blogue em cinco minutos, mas, a cada dia que passa, mais vê que está faltando muita coisa.

    A Kelli participa cada vez mais ativamente do blogue e, embora eu ainda seja o redator principal, de tanto que conversamos e discutimos (haja Skype) e que ela remexe nos textos nem eu mais sei o que é o quê. Entretanto, para pôr um pouco de ordem no caos, as intervenções digamos mais pessoais dela vêm indicadas por um [Kelli], assim entre colchetes. É até possível que apareçam uns [Danilo] para identificar algo de muito particular meu. Sabe-se lá.

    As novidades vão começar a aparecer na semana que vem. Mas as novidades no blogue são só o começo.

  • Livros eletrônicos. Agora temos o Publivox, que publica livros eletrônicos, ou e-books, caso você prefira o termo em inglês. O primeiro é esta apostila para o Wordfast. O segundo, sai depois do dia dez, quando acabarem as férias coletivas do pessoal lá da Aulavox — a ver se você gosta.

    Outros estão na fila. Vai ter um pouco de tudo e — disso você não vai gostar — alguns serão pagos. Esperamos conseguir oferecer produtos cuja utilidade compense o preço. Uma característica dos livros pagos é que as atualizações serão gratuitas.

  • Oficina de tradução. As Oficinas de Técnicas e Procedimentos de Tradução vão voltar em formato totalmente diferente e desse, tenho certeza, você você vai gostar. Estamos transformado o material em um curso que você vai poder moldar a seu gosto, seguindo o caminho que quer e que vai se apoiar, fundamentalmente, em comentários sobre as as traduções que você fizer.

  • Cursos a distância. Os cursos via Aulavox continuam. Além da tradicional introdução ao Wordfast, pretendemos ter cursos mais avançados, sobre uso de glossários, caixa de Pandora, essas coisas. Não falta o que ensinar. Por enquanto, os cursos vão ser exclusivamente sobre o "Wordfast Classic" (versão 5.x), porque o 6.0, apesar de ser o "professional" ainda está muito cru.

Mas não é só isso, não. Tem mais.

Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Que curso fazer para ser profissional da tradução

Me escreve uma jovem, interessada em ser tradutora, pedindo orientação. Perguntando que faculdade fazer, essas coisas. A pergunta é freqüente e vou responder mais uma vez por aqui, assim, pode ser útil para mais alguém.

Para ser tradutor, a rigor, você só precisa da cara e da coragem. Qualquer um, no Brasil e em qualquer país do mundo, pode pendurar uma tabuleta na porta dizendo "Fulano de Tal, tradutor". Em muitos países, há cursos de tradução, e em alguns deles os cursos são muito bons e prestigiados; em nenhum são obrigatórios. Por isso, por exemplo, na Alemanha se distingue entre Diplomübersetzer, que é o diplomado, e Übersetzer, que não tem diploma. Mas ambos podem exercer a profissão e a exercem.

Um curso superior, entretanto, ajuda muito, principalmente se for superior não só no nome, mas também na qualidade — e no empenho que você tiver nos estudos, porque fazer curso superior tomando chope com os colegas no boteco da esquina e reciclando trabalhos dos veteranos não ajuda muito.

Um bacharelado em letras é uma grande opção. Se conseguir um bacharelado em letras-tradução, melhor ainda. Se não for em letras-tradução, provavelmente vale a pena investir em um curso livre de tradução, como complemento. Ou em uma especialização em tradução. A especialização em tradução também é recomendável para quem se graduou em alguma área que não letras.

Quer dizer, se você fez direito e, depois, descobriu, como vários colegas nossos, que ama a ciência do direito, mas detesta as opções profissionais abertas ao bacharel em direito e prefere se dedicar à tradução, faça um curso de especialização em tradução ou um curso livre. Este, talvez, seja o melhor dos mundos, porque você já sai "especialista" em direito. Por outro lado, agüentar cinco anos de faculdade de direito, quando o que você quer sempre foi traduzir, pode ser um fardo insuportável.

Há muitos tradutores que não têm curso superior em letras. Entretanto, embora seja esse o caminho que eu próprio segui, não recomendo a ninguém. A norma é: quer ser tradutor, faça curso de letras.

Dois breves conselhos finais: Primeiro, não se esqueça de que é você quem faz o curso, não o curso que faz você: estude, estude e tenha certeza de que, por mais que estude, não estudou o suficiente. Segundo, para cada hora de língua estrangeira que estudar, estude duas de português. É assustador número de tradutores e candidatos a tradutor que conheço que exibem, orgulhosos, seu excelente inglês, mas traduzem para um português canalha.

Escrito por Danilo Nogueira, com revisão, muita colaboração, palpitação geral e puxões de orelhas de Kelli Semolini.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Topônimos

Pipocou uma discussão numa das listas de tradutores sobre Bombaim e Mumbai. Essas discussões sempre aparecem e nunca terminam. Fazem parte da igualmente infindável busca do que é o certo, o indiscutível, o indiscutivelmente certo. Parece algo contraditório procurar o indiscutível em uma lista de discussão e, muitas vezes, o consulente que recorre a uma lista com uma dúvida dessas sai ainda mais confuso do que entrou e ainda meio queimado com uma que outra demonstração de intolerância.

Mas tudo isso à parte, uma boa parte dessas dúvidas sobre topônimos não tem mesmo solução. A capital do Peru é Lima e espero que continue sendo por muitos anos. Pelo menos o nome só tem uma grafia, que é fácil de lembrar e pronunciar, além de ser fácil de digitar, ao contrário de Poughkeepsie, que pode ser um excelente lugar, mas o nome é um terror. Entretanto, há casos insolúveis como o de New York / Nova York / Nova Iorque, cada variante com seus ferrenhos defensores e adversários. O pior é que todos têm lá sua razão e contam com fortíssimos argumentos. O mais forte deles é aquele do maranhense que dizia não lhe importar se a cidade americana era New York ou Nova York, mas que Nova Iorque fica no Maranhão e quem lá nasce é nova-iorquense.


Quanto a Bombaim / Mumbai, os indianos argumentam que o inglês Bombay simplesmente está errado — como se eles tivessem o direito de dizer alguma coisa desse tipo. A constituição lá deles diz que a língua oficial do país é o inglês, só que daí até poder legislar sobre o idioma vai lá uma diferença. Mas, agora, quando escrevem inglês, deram de chamar a cidade de Mumbai, o que não deixa de ser direito deles. E é direito de cada um achar que isso é uma grande maravilha ou uma grande bobagem.


O problema, cá para nós, é como vamos chamar a cidade em português destes Brasis. Há quem diga que há de continuar a ser Bombaim, porque assim sempre foi. Mas o Japão já foi Cipangu e o Ceilão já foi a Taprobana e agora está virando o Sri Lanka. Essas coisas podem mudar.


Muito disso tem conotações ideológicas: referir-se àquele arquipélago perdido no Atlântico Sul como "Malvinas" ou "Falklands" reflete toda uma visão política, da mesma forma que falar em "República Democrática Alemã" ou "Alemanha Oriental" também refletiu. Nesses casos, a minha praxe é respeitar a escolha do autor. Se o original diz que "during the Malvinas war", eu digo que foi durante a guerra das Malvinas. Se original diz que "during the Falklands war", eu digo foi durante a guerra das Falklands. Para mim, essas distinções sutis fazem parte integrante do estilo e conteúdo do texto.


Quando se escreve em inglês, o usar Bombay ou Mumbai também reflete uma posição ideológica, com a qual não é meu direito intervir. Se o autor diz "Bombay", eu digo "Bombaim"; se o autor diz "Mumbai", eu digo "Mumbai" e acabou a história.


Escrito por Danilo Nogueira, com revisão, palpitação geral e puxões de orelhas a cargo de Kelli Semolini.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Apostila Wordfast e Reunião na Sala 7

Entre as novidades que estamos prometendo a vocês há tempos está a publicação de e-books.

Alguns vão ser grátis, como esta Introdução ao Wordfast Classic. Outros serão pagos. A Introdução é ainda experimental e contamos com os comentários dos usuários para aperfeiçoar o produto.

Esperamos que você goste. Tem mais na linha de produção e essa é uma das razões pelas quais o blogue anda tão paradão: é pouco dia para muito plano junto.

Vamos ter mais novidades logo. Uhm, aliás, dia 13, sábado, às 14 horas, tem Reunião na Sala 7, sempre via Aulavox, o que significa que você participa sem sair de casa. O tema vai ser Tradução: mito e realidade. Na verdade, entra tema e sai tema, um tema, outro tema, o assunto de todas as reuniões é sempre o mesmo: nossa profissão, complexa e multifaceitada. Espero por você lá. É grátis e todos são bem-vindos. Para mais informações, clique aqui.