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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Nós e a Tradução Automática

Hoje, abro espaço para dois amigos da casa. Primeiro, Renato Motta, que, há pouco tempo, era exclusivamente professor de inglês com vontade de ser tradutor literário. O original está aqui.
Para ser tradutor você precisa saber muito bem a língua de origem (inglês, por exemplo), saber melhor ainda a língua de destino (português), ser curioso, ler muito, gostar de aprender coisas novas, ler muito, adquirir cultura, ler muito, viajar sempre que possível, ler muito, estudar até o olho arder e ainda ficar com vontade de ler mais, aprender outras coisas e ir além.

Traduzir não é copiar em outro idioma. É criar, recriar, adaptar, transformar, permutar, dissociar, ressoar, reescrever, revisar e ter pique para começar tudo de novo porque o texto não ficou legal.

É ter um senso crítico apuradíssimo misturado com uma humildade infinita, por mais que tais conceitos pareçam contraditórios (e talvez sejam).

É lapidar a frase de um romance, a cláusula de um contrato ou a instrução de um manual até ficar perfeita, inequívoca, bela, claríssima e dizer: “Queria ver o tradutor do Google fazer isso”.
É saber que as palavras têm sons, têm cores, têm aromas, têm texturas, têm sabores. É aprender a misturá-las em uma receita exótica que não poderá ser duplicada. É ter a certeza de que se centenas de bons profissionais traduzirem o mesmo texto, nenhum deles será igual ao seu, e curtir a beleza dessa insegurança.

Bonito, não? Mais que bonito, de uma grande agudeza. Preste atenção em quanto há aqui, em menos de quarenta palavras: “É lapidar a frase de um romance, a cláusula de um contrato ou a instrução de um manual até ficar perfeita, inequívoca, bela, claríssima e dizer: “Queria ver o tradutor do Google fazer isso”. Bom ouvir, do Renato, que uma cláusula de contrato e a instrução de um manual merecem a mesma atenção que a frase de um romance, verdade que não penetrou até hoje em muitas cabeças de gente que se acha entendedora do que seja tradução.

Acho que o Renato jamais ouviu falar do Terence Lewis — nem o Terence do Renato, tampouco. O Terence é um tradutor inglês que, um dia, resolveu criar um software de tradução do holandês para o inglês. Ele vai aparecer aqui de novo, várias vezes, porque, gentilmente, está me ajudando a entender melhor o mundo da tradução automatizada. Aliás, viveu no Brasil e só me escreve em português corretíssimo. O Terence, outro dia, passou um tuite em que ele dizia (não era para mim, portanto, veio em inglês e a tradução aqui é minha), naquele estilo conciso e incisivo que o meio exige.

Meu software vai só até certo ponto, e talvez nem seja muito longe. Mas o tradutor que quiser sobreviver vai ter de ir muito além.

Não pude analisar o Trasy, o software criado pelo Terence, porque não sei holandês. Mas, pelo que ele me diz, deve estar quilômetros adiante to Google. Se não estivesse, não teria sido adotado pela Siemens.

Mesmo assim, nas palavras do próprio criador, vai só até certo ponto, e talvez não seja muito longe. Cabe a nós, se quisermos sobreviver, seguir o conselho do Terence e ir bem mais além do que o Google e, inclusive, bem mais longe que qualquer software de tradução automática de alta qualidade, que há muitos.

Bom, e como é que se consegue ir mais além do que alcança o software? Fácil, é só seguir o conselho do Renato.

Felizmente, este artigo conta com a colaboração da Kelli, que anda meio que sumida do blogue.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Concurso para TPIC no Rio

Parece que, desta vez, sai o concurso para TPIC no Rio. O G1 publicou esta nota, com dois links que remete à documentação. Dei uma olhada assim, muito por cima. Estou atarefado demais para comentar agora, espero comentar amanhã.

Informação postada por Ágata Sousa no Twitter, num sensacional furo de reportagem.


sexta-feira, 17 de julho de 2009

A Tradução Automática da Microsoft

O Igor Medeiros, que deixou o comentário que resultou no artigo de ontem, disse, entre outras coisas "A Microsoft está usando uma ferramenta de tradução de suas páginas de suporte para várias línguas e só me dei conta disso depois de ler uma página quase que inteira e no final notei um pequeno erro se sentido no emprego das palavras". Não sei se é questão de sorte, de meu olho de tradutor ou talvez de puro despeito, mas nunca achei uma daquelas páginas da Microsft traduzidas a máquina que não fosse ridícula. Eita servicinho mal feito!

O que me surpreende, é exatamente a má qualidade. Não porque eu esperasse que a MS, por ter um vasto plantel de programadores, fosse obrigada a ter um programa perfeito. Em informática, como em todos os outros ramos do conhecimento, existe sempre o problema da vocação. Uma empresa pode ter vocação para desenvolver programas gráficos, por exemplo, e ser péssima em processadores de texto. O problema é outro e vou tentar explicar agora.


Todo software de tradução tem suas limitações. Essas limitações muitas vezes são desconhecidas do público e mesmo escondidas dele, por motivos comerciais, mas devem ser perfeitamente conhecidas pelo desenvolvedor. Um dos modos de contornar essas limitações é usar linguagem controlada, quer dizer, um subconjunto da língua que a máquina consiga processar. Meio complicado de explicar, mas, mal comparando, podemos dizer que é semelhante àqueles livros em inglês simplificado, onde se usa inglês correto e idomático, mas as estruturas e vocabulário são limitados. Por exemplo, num livro para iniciantes, não se diz "What are they up to over there down under?", mas sim "What do they intend to do in Australia?" Perde-se no estilo, ganha-se na facilidade de compreensão.


Existem dois métodos de usar linguagem controlada: ou os autores são treinados para escrever de acordo com as limitações impostas, ou os textos são reformulados por um revisor profissional que domine o sistema. O produto da tradução automática deve lucrar muito, mas o problema é que o sistema é caro. Quer dizer, caro, em termos. No caso da MS, sairia barato, porque o mesmo texto é traduzido para muitas línguas, diluindo o custo da reformulação em linguagem controlada.


Então, de duas uma, ou eles não usam linguagem controlada, ou o programinha é ruim mesmo.


Ainda tenho muito a dizer sobre isso, mas vamos com calma. Obrigado pela visita.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Por que Somos Odiados?

Falou o Igor Medeiros, num comentário a este tópico:

O seu desemprego é inevitável. A tecnologia não para de evoluir. A Microsoft está usando uma ferramenta de tradução de suas páginas de suporte para várias línguas e só me dei conta disso depois de ler uma página quase que inteira e no final notei um pequeno erro se sentido no emprego das palavras. Pesquisei e descobri que a tradução foi feita por máquina. Fiquei impressionado. Falta pouco para traduções perfeitas. Quer uma sugestão? Faça um curso profissionalizante enquanto tem tempo.

Este foi um dos comentários menos azedos e agressivos dos muitos deixados naquele tópico. Ao menos, é educado e escrito em bom português, o que não se pode dizer de muitos dos outros, certamente postados por semianalfabetos.

Mas mal oculta um tanto do que se chama em alemão Schadenfreude, a alegria com a desgraça dos outros: você vai perder o emprego, laralalááá! Eu vou manter o meeu! E seeem vocêê! laralaláá.

Vá lá, leia os outros comentários e veja o veneno.

Por que somos tão odiados? Somos a ponte que transpõe o abismo linguístico e conduz a um conhecimento que, sem nós, seria inatingível. Ou levamos o produto (seja um serviço, ou um produto intelectual ou produto físico) a regiões que, sem nós, seriam inalcançáveis. Mas somos vistos não como a ponte que viabiliza a passagem, mas sim como a barreira que a impede.

E como se detesta pagar tradutor! Paga-se tudo: chope, cigarro, chocolate, pintor, encanador, advogado, aluguel, prestação - mas tradução a turma quer grátis. O sujeito tem um professor de inglês e paga as aulas direitinho, mas fica surpreso quando o professor quer cobrar por uma tradução.

No meu tempo de orkuteiro ativo, tinha um perfil que me identificava como tradutor e uma participação em uma comunidade de tradutores. O que eu recebia de solicitações de tradução grátis, de gente que eu nem conhecia, era uma barbaridade. Se eu fosse fazer tudo aquilo grátis, não tinha um momento para mais nada na vida. E todos os pedidos tinham uma boa justificativa: era para a escola, era só uma música, era só… Mas, ainda que mal pergunte, por que eu vou trabalhar grátis, quando posso fazer serviço remunerado, e ficar com menos dinheiro no bolso para os outros ficarem com mais dinheiro no bolso deles?

Por que, para pagar o tradutor, nunca se tem dinheiro? Comprou roupa, tomou chope, foi na balada. Para o tradutor, bom, aí… Por acaso, na loja de roupas, no boteco, na balada, eles dão desconto "porque é para a escola"?

Quanto à tradução automática de que fala o Igor, sim, melhorou muito e está melhorando constantemente e essa melhora vai provocar muitas mudanças na nossa profissão. Sobre isso, falo amanhã, porque, por hoje, é só. Obrigado pela visita.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Como se Traduz Hernando's Hideaway?

Já contei a história do Hernando's Hideaway? Talvez você devesse primeiro ouvir a música clicando aqui. É a referência a um boteco, onde o amasso era permitido. Os compositores são Richard Adler e Jerry Ross e a música faz parte de "Pajama Game", musical da Broadway, baseado em um livro e que deu origem a um filme de sucesso no final da década de 50, no século passado.

Mas este é um blogue sobre tradução e é de tradução que vamos falar.

Traduzir letra de música para o português é uma tarefa árdua. Principalmente quando a peça é descritiva e o letrista-tradutor tem que, de um modo ou de outro, encaixar a história toda dentro do leito de Procusto da melodia, ainda mantendo os acentos tônicos nos tempos fortes. Sem essa de "a tradução portuguesa é sempre mais longa e não dá para acompanhar a métrica". Não cabe? Faz caber e pronto!

Você pode gostar da música ou não, isso não vem ao caso. Mas preste atenção ao que acontece aos 50 segundos: a cantora canta o breque "Hernando's Hideaway, oh-lay!" Como se traduz isso para o português? Esconderijo do Fernando, olé? Tente cantar essa frase dentro das oito notas do breque. Sobram duas sílabas, ou faltam duas notas, como queira. Dá para mastigar duas sílabas, mas fica horrível. Além disso, a rima, coitada, morre.

Como é que faz então? Note que estou falando de uma "versão" (é assim que é costume chamar as traduções de letra de música) para ser cantada em auditório, em baile, ou no chuveiro, gravada em disco, essas coisas. Não para ser lida. O problema aqui é diferente do enfrentado pelo legendador e suas restrições quanto a número de caracteres por linha e tempo de permanência da legenda na tela. O problema, aqui, é encaixar na melodia.

O letrista brasileiro, cujo nome esqueci e não consegui encontrar na Web (se você souber, por favor, me conte), partiu do princípio que o "olé" do breque era essencial, com o que concordo. O "olé" consome duas das oito notas do breque, tantas quantas o "oh-lay" do original. Até aí, tudo bem.

Mas o nosso "olé" termina numa vogal aberta, ao passo que o "oh-lay" do original termina num ditongo fechado, da mesma forma que "hideaway". Quer dizer, mesmo que o letrista preservasse o nome do estabelecimento, sob a alegação de que é nome próprio e nome próprio não se traduz, ia perder a rima. Podia esperar que o "olé" fosse dito à espanhola, com vogal fechada, mas não ia dar certo, porque o "Hideaway" termina em ditongo, não em volgal. Além disso, o nome no original ia ser um problema para o público brasileiro, naquela época muito menos acostumado a ouvir e usar termos em inglês. Estamos falando de 1957, lembre.

Então, é necessário traduzir o nome do estabelecimento, de modo que a última sílaba rime com "olé" e, além disso, tenha o nome do proprietário no fim, a boa moda portuguesa, que manda dizer "Esconderijo do Fernando" em vez de "Fernando'do Esconderijo". Inglês é tudo de trás para diante, como já notava Obelix. Então, o letrista trocou o "Hernando" por "José", o que rima direitinho e ocupa mais duas notas, ao contrário do "Hernando's", que ocupa três. Sobram quatro notas para o "hideaway", mas "esconderijo do" tem seis. Então o letrista traduziu o "esconderijo do" por "Na Toca do", que tem quatro sílabas. Veja que, na tradução de letra de música, sobrarem notas é tão ruim quanto faltarem

Agora, exercite seus dotes canoros e cante "Na toca do José, ooooooooo-lé" junto com a Gladys Hotchkiss, ali, na hora do breque, e veja como cai bonitinho, inclusive com os acentos tônicos nos mesmos lugares que em inglês. Se entender de música, você vai perceber que tanto as tônicas do inglês como as do português coincidem com os tempos fortes da melodia.

Perfeito, não é? Agora, é disto que eu estava falando, no artigo anterior, ao falar em relevância: o relevante, no caso, não era o nome exato do boteco, porque não aparecia no disco nem no baile nem no chuveiro: qualquer nome servia, desde que transmitisse a idéia de "oculto". O fato de que Hernando não é José e que "hideaway" não é propriamente uma toca não tem tanta importância quanto o metro e o ritmo e a ideia de que era um lugar discreto que levava o nome de seu proprietário. Quer dizer, vão-se os aneis, ficam os dedos.

A tradução da legenda do filme (que eu não vi) deve ter sido bem diferente. Mas as restrições impostas pelo meio legendagem são totalmente diferentes das impostas pelo meio canção, como também são totalmente diferente daquelas impostas pela dublagem e é por isso que quando a gente pega um filme dublado e legendado, o que os atores dizem nunca é exatamente o que está nas legendas. Mas isso é papo para outro artigo. Por hoje, chega.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Você Conhece o Professor Horrendo?

Há tempos ando querendo falar aqui sobre o Professor Horrendo. O Professor Horrendo é um casca de ferida, para dizer a verdade. Incapaz de traduzir uma página de qualquer porcaria que seja, é um gênio quando se trata de meter o pau em serviço alheio. Num texto de mil páginas, encontra aquela palavra que, a bem dizer, poderia ser substituída por outra melhor e faz um carnaval de todos os diabos. Adora os cadernos literários e é adorado por eles, que sempre lhe abrem espaço.

Muitas vezes, Professor Horrendo tem razão: de fato, o tradutor fez uma escolha infeliz. Outras vezes, entretanto, está totalmente errado, porque tradução, por natureza, por definição, inclui um tanto de distorção e, para minimizar o efeito negativo dessa distorção, o tradutor faz certas escolhas, privilegiando o que acha importante em detrimento do que acha irrelevante. Vem lá o Professor Horrendo e aponta que em tal parágrafo, se o tradutor tivesse escolhido "X" em vez de "Y", teria preservado melhor um determinado elemento do original.

Teria mesmo. Por outro lado, teria prejudicado a transmissão de outro elemento, que o tradutor considerou mais importante: ou um ou outro.

Aí está um das características mais essências do bom tradutor: aprender a distinguir o essencial do acessório, privilegiando, no seu trabalho, o que é mais importante, porque tudo, tudo, tudo, não se pode traduzir. O Professor Horrendo não entende isso, ou talvez entenda e faça que não entende, sei lá.

Dizem que quem sabe faz, quem não sabe ensina, uma frase que me parece injusta para com os professores. Mas tenho por certo que quem não tem competência nem para traduzir nem para ensinar a traduzir, dedica-se a achar erro na tradução dos outros.

A existência do Professor Horrendo é uma descoberta de Sara Blackburn, divulgada por Gregory Rabassa e Clifford Landers, entre outros tradutores.

domingo, 12 de julho de 2009

O Concurso para TPIC é Inconstitucional?

Escreve o Michael, em um comentário que prefiro publicar aqui, com a omissão de um breve trecho que nada tem que ver com tradução, por me parecer de interesse mais geral. Fala aí, Michael!

É impressiona-te com todos sabem e ninguém faz nada: o concurso para TPIC é inconstitucional, afronta o direito de exercer sua profissão livremente (e para seu sustento). O "agentes auxiliares do comércio" é ultrapassado! e como é do conhecimento de todos, não são funcionários públicos, ou servidores, como queiram.

Têm que trabalhar duro, pagar impostos, levar calote, e AINDA PRESTAR UM CONCURSO que é exigido por um Resolução Normativa (infraconstitucional). Precisamos juntar forças e entrar com um Ação Direta de Inconstitucionalidade.

O CONCURSO É INCONSTITUCIONAL!!!!!

Michael, já tinha visto muitas críticas à legislação que rege o ofício de TPIC, mas nunca tinha ouvido falar que o concurso fosse inconstitucional. Não estou dizendo que não seja. Estou dizendo que nunca tinha ouvido ou lido a informação. Quer dizer, se "todos sabem" eu estou fora do "todos".

Não sou parte interessada: jamais quis ser TPIC e, não é agora, nos meus 66 anos, que vou mudar de ideia. Mas se você é parte interessada e acha que o concurso é inconstitucional, sugiro que você prepare sua argumentação e monte um blogue (custo zero, como este) e comece a arregimentar interessados para sua ADI. Se você fizer isso, divulgo sua campanha aqui e alhures, com todo o prazer, como já divulguei outras, que me pareceram igualmente merecedoras de divulgação.

Minha posição é sempre a mesma: se você acha que ninguém faz nada, vá e faça você. Não diga "precisamos juntar forças", assuma você a tarefa de começar a juntar forças. Outro dia, ainda escrevi sobre isso, ao tratar da luta da Denise Bottmann contra os plágios. Ela achou um abuso essa história de plágio e em vez de reclamar que ninguém fazia nada, resolveu ela fazer - e está dando certo, muito certo.

Este blogue mesmo é a realização desse conselho: eu achava (e acho) que alguém tinha que analisar certas questões relacionadas com nossa profissão e achava um horror que ninguém analisasse. Discuti o assunto com diretores de uma das associações representativas de nossa profissão — mas a discussão morreu no nascedouro. Em vez de reclamar que "ninguém faz nada", criei este blogue estou fazendo eu. A sensação é ótima. Nem todos concordam com minhas opiniões, mas isso é outra coisa.

sábado, 11 de julho de 2009

Artigo Longo, Antipático e Desagradável.

Mensagem simpática e agradável, de uma estudante querendo lugar como estagiária. Lamento, não tenho o que fazer com uma estagiária, seria desonesto contratar.

Mas, se estivesse procurando uma, dificilmente escolheria essa candidata, por simpática que me tenha parecido. Além do já tradicional "estudo inglês a X anos", outros erros de gramática, pontuação, essas coisas. Erros de português numa mensagem pedindo emprego de estagiária de tradução são absolutamente impensáveis. Esse tipo de mensagem deve sempre se lido, relido e requetecontrarrelido e polido até brilhar.

Procura estágio, portanto, está na faculdade - e nem é das que tenha pior fama entre nossos estabelecimentos. Como escreve tão mal? Há tempos, conversei com um professor de curso superior sobre esse assunto, e ele me explicou, não sem alguma condescendência, que não cabe à faculdade ensinar português básico aos alunos, eles têm que aprender essas coisas no curso médio. O professor de curso superior tem que partir da premissa que o aluno sabe essas coisas.

Bom, que seja. Mas o aluno não sabe e os professores sabem que não o aluno não sabe, porque hão de ler os mesmos erros nos trabalhos apresentados. Quer dizer, constroem o prédio sem que haja alicerce. Mas, então, como se permite que ingressem nos cursos superiores alunos que não tenham o alicerce necessário para construir o prédio? Como essa moça, aparentemente séria, honesta e disposta a trabalhar, é recebida num curso para o qual não está preparada? Para que serve o vestibular?

Como se podem construir os andares superiores sem o alicerce? Tudo há de balançar, com o risco de ruir. Mas a nossa academia prossegue, ereta: cumprem sua obrigação, se os outros não cumpriram a deles, não é problema da academia. Vão dormir satisfeitos, em paz com suas consciências: amanhã, tem mais.

Mas, ainda que mal pergunte, quando é que esse pessoalzinho que está na faculdade, muitos pagando bom dinheiro, acreditando que, ao sair, vai ter lugar no mercado, vai aprender a pontuar e a distinguir entre "a", "à", "á", "há" e "ah"? Que a gente diz "houve casos"? Que o certo é "vendem-se casas"? Que se diz "mal feito"? E mil outras coisas a mais, coisas que, se ignoradas, barram qualquer candidato na porta de entrada de uma editora ou agência de traduções? Quando é que esses pontos vêm a baila, se nunca são exigidos?

Tive vontade de perguntar ao meu amigo professor se ele concordaria que, além do compromisso de ensinar o que quer que ele julgasse sua obrigação de ensinar a seus alunos, a Universidade, como instituição, tem o duplo compromisso de garantir ao formado que está preparado para enfrentar ao mercado e garantir ao mercado que seus diplomados são competentes para exercer a profissão que consta em seus diplomas.

Ah, e ainda digo mais: formar profissionais da tradução sem ensinar a usar ferramentas de tradução assistida por computador é muito feio. Mas isso eu já disse mil vezes.

Se você está fazendo faculdade e quer se dedicar à tradução como profissional, pegue aqueles livros de português para concursos públicos, cheios de testes e de questões de concurso, e resolva todas as questões. Todas. Depois pegue outro e mais outro. Até conseguir responder a todas as perguntas corretamente sem pestanejar. E, se tiver alguma dúvida, procure numa boa gramática, a do Bechara, por exemplo, ou o livro dele sobre análise sintática. E estude como uma fanática. Não adianta saber falar inglês bonitinho e claudicar no português: sua vida vai muito mais escrever português do que qualquer outra coisa.

Se não vai a bem, que vá a mal.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Não tenho Tempo para Aventureiros

Há algum tempo, alguém postou uma pergunta muito boba em uma lista de discussão. Um colega nosso, muito gozador, respondeu assim "de acordo com a página tal do Collins Gem, a tradução é tal". A consulente ou não entendeu ou se fez de desentendida: agradeceu e sumiu do mapa. Mas, tem dó, postar uma pergunta numa lista sem se dar ao trabalho da abrir um dicionário antes, é abuso. Além disso, queima o filme. As listas são uma vitrina e eu posso traçar cada um dos clientes que tenho hoje à minha ativíssima participação na trad-prt, num outro momento da lista, momento que considero mais feliz do que o atual.

Aos poucos, foram me oferecendo serviços e oportunidades que foram me elevando do dez reau por baciada para patamares de remuneração mais elevados. E ninguém vai oferecer serviço para que posta na lista perguntas que poderiam ser respondidas por uma consulta a qualquer dicionário. Quer dizer, cada um forma sua própria reputação.


Postar perguntas é bom e, creiam-me, se a gente aprende muito sobre um profissional lendo as respostas que dá aos colegas, muito mais se aprende lendo as perguntas que posta. Uma pergunta bem formulada, sobre um problema complexo, conquista para o consulente a reputação de profissional interessado em fazer um bom serviço. Perguntas cretinas, por outro, conquistam para o consulente a reputação de…cretino.


Não vai faltar quem responda às perguntas bobas, claro. Alguns, por um senso de caridade que difere do meu ou às, vezes, por motivos que eu consideraria menos nobres.


Há algum tempo, soltei os cachorros em alguém que tinha postado uma série de perguntas cuja resposta se encontra em qualquer dicionário que se preze e até em alguns que não se prezam. Uma colega me repreendeu "Ah, seu Danilo, o senhor nunca foi principiante, ou já se esqueceu daquele tempo?" O "senhor" aí, não era demonstração de respeito - ninguém me chama de "senhor", exceto minhas sobrinhas - mas sim um daqueles sarcasminhos baratos tão correntios na Internet.


O fato é que censurei a consulente exatamente por me lembrar de quando era iniciante. Não havia Internet, naquele tempo, nem em sonho, mas eu já fazia perguntas - mas só quanto tivesse esgotado todos os recursos próprios. Aliás, essa é uma das características que distinguem, de um lado, o principiante, que merece todo o nosso respeito, porque todos nós um dia fomos principiantes e porque o principiante bisonho de hoje é o bom colega de amanhã, e, de outro o aventureiro, porque o aventureiro de hoje é o picareta de amanhã.

O principiante tem um compromisso com a profissão e dá um duro danado para fazer um bom serviço e se desenvolver, acumulando recursos e fazendo o melhor uso possível deles. O aventureiro, simplesmente quer entregar o serviço, de um modo ou de outro, e "pegar o dindim". À primeira palavra para a qual não lembrar imediatamente de uma tradução, posta dúvida na lista: alguém que lhe resolva os problemas, porque ele não está muito interessado em resolver nada. Não passa de um chupim, de um sanguessuga.


Desculpem, mas não tenho tempo para aventureiros.

A volta dos que não foram

Este blogue ficou fora do ar três dias por única e exclusivamente por cretinice minha. Não foi a primeira, não foi a única, não será a pior. Por outro lado, agora você pode chegar aqui simplesmente com http://www.tradutorprofissional.com/, quer dizer, estamos chiques, com domínio exclusivo e tal.


Outras idiotices eu vou cometer nos próximos dias, pelas quais peço já desculpas. Mas não vou sumir de todo, não. Quer dizer, não adianta ficar festejando.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Assim, não pode ficar!

Ninguém faz nada? Alguém precisa fazer alguma coisa! Assim, não pode ficar!

Nossa colega Denise Bottmann, irritada, para não dizer revoltada, com uns tantos plágios de tradução que ela e outros colegas descobriram, chegou à conclusão óbvia de que alguém tinha que fazer alguma coisa. Em vez de ficar clamando aos céus que "ninguém nesta terra faz nada", como é a praxe nessas horas, resolveu que "Alguém" tinha o nome civil de "Denise Bottmann" e partiu para a luta. Só pelo fato de que ela resolveu se mexer, em vez de reclamar que ninguém se mexe, já merece medalha de ouro.

Foi além: em vez no seu blogue publicar aqueles artigos tipo lança-chamas, cheios de alusões vagas e de acusações ainda mais vagas, do tipo "contra tudo e contra todos" comporta-se como atiradora de elite: faz mira contra um determinado plágio, compara edições diferentes e depois diz "o livro tal e tal publicado pela editora tal e tal como tradução de fulano de tal na verdade é uma cópia da tradução de beltrano de tal publicada pela editora qual e qual no ano tal". Quer dizer, faz mira, cuidadosamente, e dá um tiro certeiro, bem no meio da testa da criatura. Se alguém quiser prova, é só pedir.

Deu em alguma coisa? Ah, sim, deu em muita coisa.

No princípio, a turma foi tirando o corpo fora. Sabe como é, aquela conversa mole de relações públicas, diz que não, que talvez, que não é bem assim, mera coincidência, perdemos nossos arquivos, lamentavelmente, porque, sabe, então, houve um mal-entendido, a senhora está prejudicando o setor do livro e tal e coisa e loisa e nossa editora pauta-se melhor respeito e mais o diabo que os carregue a todos eles para o meio dos infernos, que é seu lugar.

Mas a Denise não desistiu e continuou disparando seus tiros certeiros.

Pelo menos uma editoria constituiu advogado e enviou à Denise uma intimação extrajudicial, uma cartinha educada onde, traduzido para o popular, se diz "cala a boca ou eu te processo". Pensaram que, com isso, acabava a história. Acabou, nada. A Denise é igual a clara de ovo: quanto mais apanha, mais cresce.

Conseguiu que uma grande editora reparasse o erro cometido e – briguenta mas honesta – publicou um artigo elogioso em seu blogue. Ela não quer acabar com as editoras, quer acabar com os plágios, no que está certíssima.

Está conseguindo, o que é muito importante, apoio em alguns outros cantos, por exemplo, no Ministério Público Estadual. Agora, está virando caso de polícia, o que, aliás, sempre foi.

Se você está se perguntando porque eu conto o milagre e não conto o santo, é para você ir lá, ler o blogue da Denise, do qual só tenho uma reclamação: o hábito de só escrever com minúsculas. Oh, troço difícil de ler. Mas o conteúdo vale o esforço.

Ah, e se você quiser entrar na campanha, a Denise aceita colaborações. Mas nada de denúncias bobas do tipo "uma amiga me disse sobe de uma conhecida que a editora tal…". Faz à moda da Denise, pega o original, pega a edição que você pensa que foi plagiada e compara. Depois, fala.

O blogue dela está aqui.



quinta-feira, 2 de julho de 2009

Um Pouco mais sobre Preços

De vez em frequentemente, alguém me pergunta quanto cobrar. Desculpe, mas essa é uma pergunta à qual não respondo. Até já disse quanto cobrava; quanto os outros devem cobrar, eu não digo. Se você está querendo saber quanto deve cobrar, dê uma olhada na tabela do SINTRA.

A tabela do SINTRA está acima da média do mercado e, por exemplo, nenhuma agência vai pagar aqueles valores. Por outro lado, as agências têm suas próprias tabelas e vão dizer a você direitinho quanto pagam. Sempre se pode tentar negociar um preço melhor, mas nem sempre se consegue alguma coisa. As melhores editoras e os clientes diretos estão chegando cada vez mais perto da tabela do SINTRA. Cabe a você decidir quanto vai cotar por seu trabalho.

O problema principal, e eu já disse isso aqui mil vezes, é cotar com firmeza. Nada de dizer Bom, sabe como é, a turma aí está cobrando 10, mas a gente procura não cobrar tanto… Isso não é coisa de profissional. Profissional diz, calma mas firmemente, eu cobro X por palavra. Se o cliente pedir desconto, a melhor resposta é é o preço que eu cobro de todos os clientes, não faria sentido cobrar menos do senhor.

Sempre deixe as coisas muito bem claras e por escrito. Muitos clientes mandam um pedido ou ordem de serviço para seus fornecedores. Se receber um destes, leia atentamente e releia mais atentamente ainda, antes de começar e peça uma emenda escrita se estiver algo errado. Não adianta o cliente dizer ah, desculpe, erro de preenchimento, a gente dá um jeito. Na hora do vamos ver, vale o que está escrito e você se ferra.

Se o cliente não mandar pedido nem ordem de serviço, mande um e-mail dizendo mais ou menos: A tradução de tal coisa vai custar tanto para ser pago no dia tal. O prazo de entrega é de tantos dias a contar do recebimento de um e-mail confirmando a aceitação desta proposta. E especifique se você vai dar nota fiscal de pessoa jurídica ou RPA, para evitar problemas posteriores.

Cuidado, muito cuidado, com o cliente que te telefona e diz que a proposta está aceita, mas que o e-mail vai só amanhã. Dá menos trabalho enviar um e-mail do que fazer um telefonema e há uma grande probabilidade de que esse cliente meramente queira fugir à aprovação por e-mail, que vale como prova em juízo.

Agora, vamos mudar de assunto um pouco, por favor. Outra hora a gente volta a falar em preços.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Linkedin, ATA e o trabalho grátis

O velho código de ética da ABRATES (que, posteriormente, deu lugar ao SINTRA e foi recriada posteriormente) proibia trabalhar grátis para quem pudesse pagar.

Acho essa disposição magnífica. O que tem de gente que pode pagar e arranja uma boa desculpa para procurar extrair tradução de graça não é pouca coisa. E, o que é pior, o que tem de tradutor inocente caindo nessas histórias também não é pouco.

Recentemente, me aparece a Linkedin, que diz que é uma rede de profissionais e o escambau, com o golpe do João sem Braço, uma "pesquisa" querendo saber quantos tradutores estavam dispostos a traduzir "por diversão" ou "em troca de um distintivo". Deu o que falar, claro. A turma botou a boca no trombone e soprou forte.

O capítulo mais recente da noveleta é um ofício assinado pelo presidente da ATA, e endereçado ao presidente da Linkedin, soltando os cachorros no homem — e não sem razão. Leia aqui, e fique de olho nessa turma que pede serviço de graça. Às vezes, é uma ONG onde todos ganham bem, mas o dinheiro acaba na hora de pagar o tradutor. Outras vezes, é coisa pior ainda.


Mais "You", para quem gostou

O artigo abaixo, sobre a tradução de "you", escrito meio por brincadeira, causou um certo impacto. Cabe, talvez, adicionar, que só conta uma história, mas não pretende esgotar o assunto.

Edson Cortiano, num comentário ao artigo, nos lembra que "you" pode ser "a contratada". Pode ser, também "a contratante", porque muitos contratos em inglês, principalmente nos EUA, são escritos usando a segunda pessoa onde nos usaríamos a terceira e diriam "… you shall deliver…" onde nos diríamos "a contratada entregará".

Também pode ser o contrário, quando o vendedor é quem redige o contrato, por isso, não vá traduzindo todos os "you" encontrados em contratos como "a contratada". O objetivo profundo deste artigo e do anterior é relembrar que piloto automático em tradução não existe.

O "you" também se traduz por "seu", em expressões como "you shit!" (seu merda!). Além disso, tem uma tradução maneira como "a gente": "you have to leave your dog outside" (a gente tem de deixar o cachorro fora), exemplo que, aliás, tirei do dicionário dos irmãos Vallandro.

Já tratei do mesmo assunto, com um pouco mais de seriedade, aqui.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Hoje não dá para escrever nada sério

Então, vai uma historinha boba. Gerente de projeto americano monoglota de pai e mãe me passa uma lista de palavras soltas. Reclamei, pediu, reclamei, insistiu, avisei que ia dar encrenca, continuou a insistir, aceitei. Muitas palavras podiam ser substantivos ou verbos e, em sendo verbos, podiam estar no infinitivo ou no imperativo. Fui traduzindo por verbos no infinitivo. O cliente final tinha uma brasileira que ocupava o elevado posto de casca de ferida residente e que trocou os infinitos por substantivos, reclamou da tradução, mas não estava lá quando eu perguntei como proceder. Ah, sim, claro, prazo curtíssimo.

O gerente de projeto, irritadíssimo, me perguntou se eu não era capaz de traduzir uma palavra simples, como "contact", sem errar. Respondi que, como eu tinha avisado (e-mail tal e tal, essas coisas) muitas daquelas palavras tinham mais de uma tradução em português. O gerente de projeto, teimoso como ele só, perguntou, sarcástico, se mesmo palavras tão simples tinham tantas traduções em português. O molho de tomate que me corre nas veias ferveu e respondi que para "you", uma palavra simples entre as palavras simples, havia ao menos as seguintes traduções: tu, vós, você, vocês, o senhor, a senhora, os senhores, as senhoras, vossa senhoria, vossas senhorias, te, ti, lhe, vos, (con)tigo, (con)vosco, todas elas corretas e encontradiças em qualqer dicionário e que, só com o "you", sem mais contexto, não havia como ter certeza de ter dado a tradução certa, ou acertar com a tradução que o cliente queria.

Nunca mais ouvi falar do coitado.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Mais preços

Escreve o Rolim

Eu cobro mais barato que qualquer um aqui na minha cidade, Belém do Pará. Tão barato que chega a ser ridículo, porque não cobro por palavras, toques, laudas... cobro por empreitada. Aliás, eu não cobro, a agência diz o que tem de dinheiro e paga. Acontece que o cliente aqui, por mais rica que seja sua empresa, não está acostumado a pagar grandes serviços de tradução e pensa que a coisa é fácil e por isso, barata. As duas agências para as quais trabalho já me ligam com o seguinte discurso: “Rolim, temos um book do Grupo Fulano de Tal, de 150 'páginas' e temos X reais pra pagar o serviço. Tu fazes em 10 dias?”. Se eu não o fizer, alguém o fará, e o fará mal feito, sem revisão, e às vezes usando a ferramenta de tradução automática online (os três juramentados que aqui residem cobram zilhões e poucos os procuram). Seriíssimo, mas acontece muito aqui em Belém nos materiais do Governo do Estado, Prefeitura, entre outros. Cruel, mas preciso pagar minhas contas. 80% dos meus serviços são por empreitada, sempre saio perdendo e muito chateado. Mas não posso abrir mão dos parcos serviços que aqui aparecem.
Forte abraço. Adoro teu blog.

Oi, Rolim, bom saber que você adora o blogue. Eu também, embora por motivos diferentes.

Tudo o que você diz de sua cidade se aplica ao mundo todo e, no mundo todo, há tradutores que acham que isso é só no cantinho deles. Numa lista britânica, estava todo mundo outro dia reclamando da mesma coisa. Mas há muito serviço mais bem pago, sem dúvida (e você mesmo diz que ninguém aí cobra menos que você, o que comprova minha assertiva). Tem que ir atrás, como vou eu e vão tantos. Ficar pensando que teu mercado é a cidade onde você mora é um dos maiores erros que você pode cometer.

Quanto ao trabalhar por empreitada, também não vejo problema. Me oferecem muito serviço assim. O sujeito diz "tenho tal coisa para traduzir e uma verba de X". Você pode aceitar ou pode fazer uma contraproposta e, se a proposta for ruim demais, simplesmente rejeitar. O jogo de proposta, contraproposta, aceitação ou rejeição faz parte do mundo dos negócios.

Se você aceitar tudo o que te oferecem, pelo preço que te oferecerem, vão ter oferecer cada vez menos para fazer cada vez mais. Quer dizer, muito depende de que tipo de reputação você cria para si próprio. Nenhum cliente vai te oferecer preços bons se souber que você aceita qualquer preço. Nem você, quando cliente, faz isso. Se você for comer num restaurante, não vai dizer "a refeição aqui é barata demais, vou pagar 20% a mais do que a conta que você apresentou".

Curioso como tradutor tem medo de recusar preços baixos. Precisa ter coragem, mas dá um lucro danado. Esse sempre foi um meu maior segredo: dizer "não" com uma enorme tranquilidade. Sem discurso, sem sarcasmo, sem ironia, sem gracinhas. Só um "não, meu preço mínimo para esse serviço é X", educado mas firme.

Ah, por fim, nunca diga que algum dos seus colegas cobra "zilhões". Isso não existe.

Perguntas que não Posso Responder

Desculpe, mas há pedidos que não tenho como atender. Em algum lugar tenho que traçar um limite.

Um me envia um texto em inglês e pergunta se está bom. Se eu disser que está bom e alguém achar uma falha, vão dizer "como o Danilo foi dizer que estava bom, será que ele não viu isso?" Se eu disser que tem erros, vou ter que explicar quais são. E começa uma discussão e mas/mais isto e mas/mais aquilo. Desculpe, não posso.

Outro me manda umas quantas perguntas sobre terminologia. Também não dá, desculpem, meu tempo tem um limite.

Mais um me pede para traduzir "só um textinho". Se eu fizer isso para um, tenho de fazer para todos e, como dizia Cacilda Becker, não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender.

Quem pede diz "puxa, mas o que custava, cinco minutos!" Mas de cinco minutos em cinco minutos, vai-se o dia.

Você sempre Passa nos Testes?

Escreve o Paulo:

Eu gostaria de saber uma coisa, você sempre passa nos testes em que compete com outros tradutores? Já aconteceu de não passar? Pergunto isso para aliviar minha frustração, pois algumas vezes eu passo nos testes outras não.

Bom, Paulo, não sei por que você não passou: não vi o teste (e, aliás, prefiro não ver). Mas não ser aprovado faz parte do jogo. Os motivos são inúmeros, desde absoluta incompetência do candidato até absoluta incompetência do avaliador e todas as outras possibilidades que você possa imaginar mais umas tantas em que você jamais pensaria.

Na minha infindável coleção de historinhas, tenho a de um cliente, uma firma de auditoria, que tinha, entre sócios e gerentes, umas trinta pessoas (naquele tempo, isso era bastante gente; hoje seria pouca). Um dos gerentes avisou a encarregada de serviços de tradução que, em qualquer caso, para ele, eu era a última escolha, porque meu texto era ruim. "Qualquer um dos outros é melhor que o Danilo".

Nunca descobri o que ele queria dizer com isso, porque nunca tive uma chance de conversar com o homem e ver a que ele objetava, o que é uma pena. Isso nos leva à conclusão lógica desta nossa conversa: o pior não é ser reprovado, o pior é não ter a mais remota idéia do motivo da reprovação.



terça-feira, 23 de junho de 2009

Mais preços

A tendência é a gente ficar furioso com os que cobram menos que nós, dizer que aviltam o mercado, que se prostituem e o que mais seja, mas se esquecer de que há também os que cobram mais que nós e que podem estar dizendo o mesmo dos nossos preços. Então, aí vai a historinha — que já contei mil vezes.

Um dia, um grupo de amigos decidiu que ia cobrar o equivalente a 1 OTN por lauda. Uma história muito velha, como você pode ver, porque a OTN desapareceu há quase vinte anos e eu ainda cobrava por lauda. Mas ainda vale.

Tempos depois, fui convidado para uma mesa redonda, onde uma colega verberou com palavras duras a turma que cobrava pouco. Ela cobrava não me lembro lá quanto e reclamava de ter perdido serviço para quem cobrava preços inferiores. Só faltou xingar a mãe de quem cobrava menos que ela. No auge da revolta contra os que aviltavam a nobre profissão de tradutor, voltou-se para mim e disparou "quanto você cobra". Foi a minha vez de me divertir: "Eu e mais fulano, beltrano e sicrano combinamos de jamais cobrar menos de uma OTN por lauda. O mercado está aceitando bem."

Saia justa total, porque o preço era bem superior ao que a colega tinha cotado. Como fica? A colega retrucou com uma série de sarcasmos, chegando a insinuar que eu mentia e justificou seu preço com não sei quantas razões, desde "não esfolar o cliente" até "o valor justo".

Não, não estava mentindo. Mas também não reagi. Seria bobagem: era a minha palavra contra a dela e cada um que acredite em quem quiser. Podia ser diferente: não duvido nada que haja quem cobre mais do que eu e poderia ser eu o cobra-pouco da mesa.

Fica a lição: quem execra os que cobram menos, tem que estar preparado para se justificar os que cobram mais.

Por hoje é só. Acho que amanhã tem mais.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Preços


Recebo várias mensagens de colegas falando sobre preços, alguns falando em aviltamento, prostituição e quejandos; outros tantos falando em preço justo. Alguns até me condenando por não falar o suficiente sobre o assunto. Mas não é verdade, porque tem até um marcado aí do lado "preço de tradução".

Parece que alguns gostariam que eu dissesse "o preço justo para uma tradução é X, pagar menos que isso é exploração, aceitar menos que isso é aviltamento".

Sinto muito, não vou dizer. Posso dizer quanto eu cobro: no Brasil, meu piso é R$ 0,30 por palavra do original; no exterior, o piso é US$ 0,15, também por palavra do original. São valores altos, cobrados por tradutores experientes. Isso significa que, no Brasil, nenhuma agência trabalha comigo e que, no exterior, só umas poucas agências e clientes diretos me contratam. Por outro lado, tenho clientes que oferecem US$ 0,17 por palavra do original.

Desde agosto do ano passado, a Kelli revisa minhas traduções e é paga do meu bolso. Por incrível que possa parecer, revisar o próprio serviço custa mais caro do que pagar uma revisora. Fazer uma revisão decente de seu próprio trabalho toma um tempo danado e eu ganho mais traduzindo. Aliás, do ponto de vista estritamente técnico, ninguém deveria revisar seu próprio serviço e, antes da Kelli, quem revisava meu trabalho era minha mulher.

Ter uma revisora também aumenta minha capacidade para lidar com serviços de urgência: mais de uma vez, entre eu terminar a minuta de uma tradução de 50.000 palavras e entregarmos o serviço completo e revisto, preciso menos de uma hora, porque vou passando o serviço para a Kelli aos pedacinhos e ela está sempre nos meus calcanhares.

Antes que me esqueça, esses são valores para serviço de tradução do inglês para o português. Nestes tempos de hoje, raramente traduzo para o inglês.

Acho que amanhã volto ao assunto. Tenho uma história divertida para contar, mas é longa demais para hoje.

domingo, 21 de junho de 2009

Laudas, páginas, etc.

Perguntou a Vanessa, num comentário a este artigo:

Danilo, você saberia me dizer quantas folhas A4 dariam, mais ou menos, 10.000 palavras? Usando as formatações atuais (quais são?).

Vanessa, não entendi. Aparentemente, você quer saber quantas folhas A4 seriam necessárias para um texto de dez mil palavras. Até aí, tudo bem. Depois você diz "usando as formatações atuais (quais são?). Fiquei totalmente embananado com essa parte do teu recado. Vou tentar responder, de uma forma ou de outra, e se a resposta não for satisfatória, faça um comentário aqui e a gente vai se achando.

Se você está querendo saber se existe uma "formatação padrão" para traduções de texto, eu digo que não há. As editoras ainda pensam em termos de laudas, mas a definição de lauda (e a quantidade de texto que cabe em cada uma) varia muito de uma editora para outra. Por outro lado, os clientes não-editoriais esperam que você acompanhe a formatação do original que recebe para traduzir, que vai variar em Arial 14 e espaço duplo a Times New Roman 10, com espaço simples, com mil e uma outras variáveis.

Espero ter iluminado um pouco o teu caminho.

sábado, 20 de junho de 2009

O Novo Trados — Vexame no Lançamento

Saiu o Translation Journal, uma publicação grátis para tradutores, tem lá um artigo meu, com a proverbial palpitação da Kelli, falando sobre o verdadeiro fiasco que foi o lançamento do Trados Studio, no começo deste mês. Uma das coisas mais espírito de porco que eu já escrevi. Clique aqui para ler.

Aliás, não se esqueça da "Sala 7", hoje. Grátis, como sempre, às 14 horas. Se você ainda não se inscreveu, clique aqui e entre pela porta dos fundos.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mercado para Legendagem fora do "Eixão"

Escreve a Bárbara:


Estou ingressando nos ofícios da tradução (faço o curso do prof. Daniel Brilhante Brito) e me interessei pelo curso de legendagem de filmes, mencionado no seu email. Você tem conhecimento se este mercado é grande fora do eixo Rio, São Paulo? Tenho interesse em fazer o curso mas moro no sul do país, geralmente os trabalhos podem ser feitos a distância?


Oi, Bárbara, essa história do mercado restrito ao eixo Rio—São Paulo é do tempo da máquina de escrever. Hoje, é tudo uma coisa só. Eu não tenho clientes em São Bernardo nem em São Paulo, a Kelli não tem clientes em São Carlos. Mas faz meia hora ligou um de Washington e tem uma turminha boa em Zurique, Londres e Nova York.


Por outro lado, a Carol Alfaro mora em Toronto e a Bianca Bold anda por aí, às vezes no Canadá, às vezes no Brasil (passou uma semana em São Carlos, com a Kelli), computador a tira-colo e legendando um filme atrás do outro. O escritório dela vai pendurado no ombro.


Hoje, qualquer lugar do mundo onde você tenha uma boa conexão com a Internet é um bom lugar para se trabalhar como tradutora. Nem pense em restringir sua clientela de traduções à cidade onde você mora, mesmo que seja uma cidade grande. Tua "praça" (no sentido em que os vendedores usam o termo) é o mundo. Temos um colega que traduz do inglês para o francês e mora na Tailândia. Está todo feliz, lá.


Aliás, minha amizade com a Bianca começou justamente porque ela disse que onde morava (Salvador, na época: a moça é meio itinerante) havia pouco serviço e eu respondi que esse troço de "na minha cidade não tem serviço" é balela.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Quem quer aprender a legendar? Italiano e Português

A gente disse que aquela sociedade entre a Carol Alfaro e a Bianca Bold ia dar bons frutos. Já está começando: cremos que seja a primeira vez neste país que alguém apresenta um curso de legendagem de filmes em italiano. Além disso, a distância. Quer dizer, está cada vez mais longe o tempo em que era necessário morar em São Paulo ou no Rio de Janeiro para fazer cursos desse tipo. Para mais informações, é só clicar aqui.

O curso, evidentemente, vai ter as mesmas características e qualidade dos que a Carol Alfaro apresenta. Aliás, tem mais um da Carol pela frente, sobre legendagem de filmes em inglês. Para saber mais sobre este curso, clique aqui.

Haroldo Netto

Então, perdemos, esta madrugada, o Haroldo Netto. Há tempos que não trocava mensagens com ele. A nova vida, com Internet, nos faz conhecer muita gente, mas não nos permite manter contato com todos. Uma pena, mas faz parte da modernidade.

O Haroldo, nascido em 1932 e tradutor desde 1959, fazia parte da velhíssima guarda tradutória e é pena que não nos tenha deixado suas memórias escritas: era um poço de experiência e boas histórias. A epítome do gentleman carioca, representante de uma sociedade culta, gentil, acolhedora e bem humorada.

Traduziu resmas de contos para revistas como "Querida", "Contos de Amor" e "Romance Moderno", período de que tinha recordações hilárias, como os contos ambientados nas "praias tropicais do Uruguai".

Militar, participou do Batalhão Suez, como tradutor, entre 1966 e 1967, já com a patente de capitão, e depois esteve em Fort Leavenworth para traduzir a "Military Review", revista militar dos EUA.

Mas foi traduzindo cada vez mais livros. Traduziu desde Anaïs Nin a Ken Follet. Muitas de suas traduções foram publicadas sob pseudônimos. Se você encontrar numa livraria uma tradução de Paulo Azevedo ou E. Arthens, saiba que foi o Haroldo quem fez.

Sempre receptivo aos mais novos, sempre pronto com um conselho, com uma palavra amiga. Uma conversa gostosa, lenta, tranquila.

Foi-se o Haroldo. Havia tempos que queria escrever para ele fazendo umas perguntas. Agora, não adianta mais.








terça-feira, 16 de junho de 2009

Reunião na Sala 7 - junho de 2009

A próxima Reunião na Sala 7 é dia 20 de junho de 2009, das 14 às 16 horas, horário de Brasília. Para quem não sabe, a Reunião na Sala 7 é um evento a distância, sobre problemas profissionais da tradução. O evento é grátis e aberto a todos os interessados. Para participar, você precisa de um PC, de uma conexão com a Internet e altofalantes. Não precisa de microfone: a participação é via chat.O tema desta reunião é "Limites do Trabalho do Tradutor". Vamos analisar não só o que podemos fazer, como também o que é nossa obrigação fazer como profissionais da tradução.


Para mais informações, clique aqui.


Agradeço a quem divulgar o evento.



Onde Baixo Memórias de Wordfast?

Pergunta o Horácio

Como fiz poucas traduções até hoje, principalmente para minha monografia da faculdade, não tenho uma memória de tradução. Onde seria possível eu obter uma memória? Ou somente com o passar do tempo eu poderei construir uma?

Você não deixou claro como fez essas traduções para a sua monografia. O Wordfast é perfeitamente capaz de trabalhar SEM uma memória de tradução, mas é um desperdício. A primeira coisa que você faz após instalar um programa de memória de tradução é criar uma memória, que o programa vai alimentando automaticamente com o trabalho que você realiza. A memória faz parte de seu patrimônio intelectual

Cada memória de tradução é definida por duas características: par de línguas e direção. Quer dizer, uma memória pode ser inglês > português, por exemplo, e essa memória só pode ser usada para traduzir do inglês para o português. A memória usada para traduzir do português para o inglês tem que ser outra. Há gente que gosta de ter várias memórias para assuntos e clientes diferentes, procedimento que não aconselho. As ferramentas de tradução assistida por computador levam em conta o contexto e, por isso, a possibilidade de confusão é nula.

Continuo insistindo que todo profissional da tradução tem que aprender a usar esses instrumentos e que o Wordfast Classic ainda é o programa mais recomendável para o principiante, tanto pelo preço como pela facilidade de uso. Se, depois, tiver de usar outro, então, use. As memórias de Wordfast são exportáveis em formato TMX, que são importáveis por todos os outros programas. Isso significa que, se você tiver de usar um outro programa, nem por isso vai perder a memória construída com o Wordfast.

Ah, respondendo à sua pergunta: eu não conheço lugar algum de onde se possam baixar memórias.

domingo, 14 de junho de 2009

Mr. Murphy não dá Trégua

Sexta, foi o computador que pifou. Ontem, foi a Telefônica que me deixou fora do ar a maior parte do dia (telefone e Speedy).

Vamos ver o que o dia de hoje me reserva. Ao menos, dormi, descanse e dei umas voltas por aí. Além disso, li toneladas de revistas sobre História em espanhol, francês e italiano.

Acho que amanhã tenho meu computador de volta e as coisas voltam ao normal. Tenho este aqui, onde estou escrevendo agora, e tenho meus backups, mas, desculpem, não é a mesma coisa.

De qualquer modo, consegui, entre sexta e hoje, postar três artigos novos no blogue. Sempre é alguma coisa. Vejam as duas respostas à Renata, uma futura tradutora cheia das dúvidas, e a nota sobre LIBRAS, abaixo.

Até amanhã.

Curso de Tradução — LIBRAS

Recebi um convite que me deixou triste. Triste, porque não vou poder ir, só por isso. Quem me conhece, sabe que ir até o RS é sempre um prazer para mim. Pena que não se possa ir de São Bernardo a Porto Alegre de metrô, no qual, dada a minha idade, nem passagem mais pago. Paciência.

O convite é para o lançamento do curso de Bacharelado em Letras: Tradução e Interpretação em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), pelo Centro Universitário Metodista (IPA). Para quem ainda não sabe, LIBRAS é a língua usada pelos deficientes auditivos brasileiros.

Segundo a mensagem da professora Elaine Indrusiak, da Coordenação de Letras:


"O curso terá duração de sete semestres e, ao menos por enquanto, teremos oferta à tarde. Isso visa atender ao grande número de intérpretes que já atuam em instituições de ensino, mas ainda não têm formação em nível superior. O curso terá várias disciplinas compartilhadas com as licenciaturas em português e inglês, permitindo trocas muito enriquecedoras entre futuros tradutores e futuros professores; outro diferencial é o fato de não nos determos apenas na Libras, mas termos muitas disciplinas de Língua Portuguesa, conferindo maior qualidade ao trabalho tradutório. A matriz curricular do curso pode ser consultada no portal do IPA (na notícia sobre os novos cursos).
"

Não sou especialista em ensino e tenho muito medo de falar sobre o que não conheço. A meu ver, entretanto, a idéia de uma carga pesada de língua portuguesa tem importância capital para qualquer curso de tradução e interpretação, não só para os de LIBRAS. Por incrível que possa parecer, vejo como o maior problema da maioria dos tradutores que conheço a falta de conhecimento de português, assunto no qual toquei mais de uma vez por aqui.


Para mais informações, entrem em contato com eles clicando aqui.


Aproveito para deixar um recado especial para a turma de LIBRAS: aqui tratamos de todos os aspectos de tradução e interpretação e a turma de LIBRAS é sempre bem-vinda, com informações ou com perguntas.


Atendendo à correção do comentário abaixo, emendei o título. O miolo do texto estava claro e acho que impediria mal-entendidos, mas o título estava dúbio, certamente.

Ainda, a resposta à Renata.

Minha experiência, é que o mercado nos mostra o caminho. Se você tiver uma formação profissional específica, por exemplo, se for médica, e quiser passar à tradução, há uma boa chance de você terminar por se especializar em tradução médica. Mas, se não for esse o caso, deixe o mercado indicar o caminho. Não dá para ter certeza de que, se você fizer um curso de tradução médica, ou jurídica ou o que seja, vá conseguir serviço nessa área. Nosso mercado é muito disperso para a gente fazer uma aposta dessas. Se começar a pintar serviço de jurídica, vá fazer o curso e atormente o professor com perguntas de toda a espécie. Foi assim que fiz eu e fez muito mais gente.


Quanto ao inglês, desde que comecei a traduzir, ouço que ele vai ser substituído como coinê. Quando veio a crise do petróleo, todos diziam que o negócio era aprender árabe. Com os milagres econômicos da Coréia e Japão, o que se dizia é que tínhamos de aprender coreano ou japonês, para não ficar para trás. Agora, é o chinês.Mas a língua internacional por excelência ainda é o inglês e, nos últimos tempos, só tem ganho terreno. A revista francesa La Recherche de Abril de 2009. (li em papel, não sei se na Internet está inteiro) tem um excelente artigo mostrando que mesmo na Europa, o inglês avança. As razões transcendem de muito os motivos econômicos e políticos a que normalmente se atribui essa preponderância e não posso me deter nelas agora.


Porém, a meu ver, a falha crucial nessas recomendações de aprender esta ou aquela língua porque seria a do futuro é desprezar o lado do prazer, interesse, satisfação: você tem interesse em cultura chinesa? Já ouviu chinês falado? Achou bonito, interessante? Já pediu para um chinês te ensinar a dizer “por favor, onde é o banheiro?”, para ver se consegue se haver com os tons e a pronúncia em geral? Porque se você acha os chineses, sua cultura e sua língua muito pouco interessantes, nem o melhor professor de mandarim deste mundo vai conseguir enfiar na tua cabeça o suficiente para uma profissional competente naquela língua e, mesmo que conseguisse, traduzir chinês ia ser uma tarefa extremamente desagradável.


Ser tradutor profissional deve ser uma festa, não uma tortura, Renata.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Problemas no blogue

Em nome meu e da Kelli peço desculpas pelos poucos artigos e pela demora em responder perguntas deixadas aqui. Recebi uma visita importante, do exterior, Mr. Murphy, e tive de dar prioridade a ele. Acho que fica aqui até a semana que vem.

Pensei que ia embora hoje, mas adiou a volta uns dias e não há muito que eu possa fazer.

Mr. Murphy não é realmente um mau sujeito, mas é meio desastrado. Hoje, por exemplo, provocou um curto circuito em meu computador principal. Ainda bem que tenho um regra três, mas regra três, como você sabe, é regra três.

Escreve a Renata.

Mensagem da Renata, com umas dúvidas que vão interessar a mais de um leitor.

Danilo, parabéns pelo seu blog. É uma iniciativa admirável manter um blog com tantas informações úteis que certamente ajuda a vida de muita gente. Eu sou estudante de Filosofia da UFRJ mas vou trancar minha matrícula neste semestre. Pretendo cursar Letras na Puc. Entrei num curso de tradução (DBB) há um mês e estou muito feliz por perceber que realmente levo jeito pra coisa. Acho o trabalho de tradução muito interessante e quero me dedicar somente a ele. Entendi pelo seu blog que inglês é a língua mais significativa no mercado, seguida de espanhol e francês, e que tradução literária e legendagem são muito procurados mas não correspondem à maior parcela do mercado e pelo jeito não são o melhor caminho para escolher como uma boa fonte de renda exclusiva. Certo? Me parece que manuais e documentos da área jurídica são a maior fatia do bolo. Você sugeriria alguma área como mais garantida para se investir? Eu poderia fazer um curso de tradução jurídica por exemplo, mas não sei até que ponto isso é o ideal considerando que eu não sei nada de Direito. Outra dúvida: o inglês é hoje a língua mais importante no mundo, por motivos econômicos e políticos, certo? Será que pode ser interessante aprender mandarim, prevendo uma mudança nesse aspecto, já que a China está crescendo e segundo alguns entendidos do assunto (eu não sou) está prestes a tomar o lugar dos EUA?

Renata, obrigado pela mensagem e descuple pelo tanto que demorou para responder. Vamos ver se me faço mais claro.

A maior parte do movimento, talvez mais de 50%, é de inglês. Por outro lado, há uma quantidade enorme de tradutores de inglês, o que significa que as chances de quem traduz inglês não são realmente maiores do que as chances de quem traduz francês ou espanhol. Existe muita gente trabalhando e vivendo e ganhando com francês, italiano, espanhol e outras línguas. O único mercado que parece ter minguado é o de alemão e vários colegas meus que traduziam praticamente só alemão, hoje estão vivendo mais do inglês do que do alemão. Mas esta é uma afirmação empírica, não tenho realmente dados que a alicercem.

Quanto ao curso de tradução jurídica, você tem toda a razão. Não se pode traduzir algo que não se entende e não é em umas poucas aulas que você ou qualquer pessoa vai aprender a destrinchar tradução jurídica. Eu pego assim, as bordas da jurídica que fazem contato com a financeira e posso dizer que é uma barra pesadíssima. Jamais teria a coragem de dizer que sou tradutor jurídico. Aliás, conheço muito poucos tradutores jurídicos realmente bons. Não quer dizer que você precise fazer um curso de direito para fazer tradução jurídica, mas precisa aprender como funcionam as engrenagens do nosso ordenamento jurídico e o ordenamento jurídico do país ou países onde se fala a língua de que você está traduzindo. Isso se pode fazer lendo, lendo furiosamente e pesquisando adoidada.

Quer dizer, para traduzir um documento jurídico do inglês para o português, você precisa entender como funcionam as coisas aqui e lá. E “lá” pode ser Inglaterra, Escócia, Estados Unidos, Canadá e Deus sabe mais o quê, porque pode te cair no colo um documento escrito em inglês, traduzido do japonês, sobre a legislação japonesa sobre as cooperativas.

Existem, aí, uns modelitos, umas formulinhas e tal, mas é o que na indústria de confecções se chama “serviço de carregação”.

Isso se aplica a todo e qualquer tipo de trabalho tradutório, inclusive o literário. Você tem que entender o original muitíssimo bem para conseguir traduzir.

Mas o fato é que o mercado te conduz, Renata. Quando peguei minha primeira tradução na área financeira, não sabia a diferença entre “ativo” e “passivo”. Tive de estudar como um doido para entender essas e outras coisas.

Quanto a línguas, respondo amanhã, que este artigo já está longo demais.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Os Perigos da Terceirização

Uma colega nossa terceirizou um trabalho e se deu mal. A pessoa contratada fez metade, a colega contratante fez algumas observações sobre qualidade, a contratada devolveu a segunda metade do trabalho sem fazer, dizendo "sou tradutor, não redator, procure outra pessoa para terminar".

Não vi o trabalho nem sei quem fez, portanto, estou analisando o problema em tese, presumindo que o relato acima seja um retrato fiel do acontecido. Se não for, pouco se perde, porque não estou mencionando nem insinuando nomes. Estou só tentando tirar alguma lição de um caso que é mais frequente do que se pensa.

A primeira regra do profissionalismo é "aceitou, tem que fazer, tem que fazer direito e tem que fazer no prazo". Só se devolve um serviço em caso de força maior (doença, luto em família, computador que pega foco, coisa assim) ou quando o serviço difere do combinado (cliente disse "mil palavras para amanhã", mas são dez mil).

O problema da qualidade é mais complicado, porque qualidade de tradução tem um elemento de subjetividade e, entre outras coisas, depende em grande da postura teórica do avaliador. Mas há certos procedimentos considerados indispensáveis: passar revisor ortográfico, conferir se nomes, números e datas estão corretos e de acordo com a praxe da língua de chegada, conferir para ver se não houve saltos. Além disso, se houver memória de tradução ou glossário, é obrigação do tradutor respeitar. Se achar que a terminologia é absolutamente inaceitável, deve se entender com o contratante. Desrespeitar de motu proprio, jamais.

Quando o comprador da tradução é intermediário, cabe a ele o dever de mandar revisar o serviço. Mas isso não dá ao tradutor o direito de não aplicar os procedimentos citados no parágrafo anterior. Revisão existe para aperfeiçoar tradução boa, não para consertar tradução ruim. Tradução ruim a gente joga fora e faz de novo, que sai mais barato.

Roxa de raiva, a colega deve pagar o tradutor, por menos profissional que o serviço lhe tenha parecido. Há quem diga que, juridicamente, não tem nada a pagar. Pode ser. Mas, do ponto de vista da estratégia, é melhor pagar, para não passar por caloteira.

Claro que esse tradutor jamais vai trabalhar de novo para nossa colega. Mas vai trabalhar para outros e vai criar os mesmos problemas. Enquanto não mudar de postura, dificilmente vai fazer carreira. Vai ficar sempre com as raspas de tacho de serviço, reclamando da profissão.

Lamentavelmente, existe mais de um lugar onde se possa reclamar de um cliente (intermediário ou cliente final) que não tenha pago, mas não há um santo lugar onde se possa postar uma mensagem reclamando de um tradutor que não tenha feito sua parte.

A gente reclama, e não se razão, que trabalhar para intermediário é grande risco. Mas intermediar não é risco menor.

Edição Extra - Socidade nova na Praça

Acabamos de ser informados que nossa colega Carol Alfaro, a musa dos legendadores, agora tem como sócia a Bianca Bold, um dos nomes mais promissores da nova geração de tradutores, de quem já falei aqui.

Quem está razoavelmente bem informado sabe que a sinergia das duas vai gerar muita coisa importante para a profissão. Esperem, que lá vem chumbo grosso.

Sucesso a ambas, que elas merecem.




domingo, 7 de junho de 2009

O Novo Trados — Vexame no Lançamento

Saiu o novo Trados. As instruções para instalação estavam erradas. Muita gente, inclusive eu, acompanhou as instruções e se deu mal. Um diretor da SDL, que produz o Trados, andou se explicando no Proz, mas não resolveu muito — pelo menos o meu problema. Alteraram o site deles às pressas, com avisos em vermelho e tudo o mais, mas a encrenca está feita.

Além disso, parece que o sistema de licenças vai dar muito o que falar. E, aviso aos navegantes, o TWB não costa do novo pacote. Quem atualizou, tem o direito de usar o TWB anda um ano. Depois, babau. Quem quiser continuar com o TWB, em vez de atualizar, tem que comprar uma licença integral do Studio.

Enfim, uma meleca de todos os demônios. Um vexame sem igual. Vai dar muito pano para mangas e (por que não dizer?) mais de um artigo aqui para o blog.

Os Principiantes

Não importa que a gente tenha um marcador "principiantes" e outro "iniciantes" aqui, levando a uma porção de artigos interssantes para quem ainda está no início: toda semana, ao menos três pessoas me escrevem perguntando como deve proceder o principiante.


De Volta

Gente, desculpem os leitores costumeiros, mas tivemos vários furacões e o blogue ficou paradão. Hoje, aprovei e respondi a vários comentários e já estou fazendo um artiguinho. Amanhã, creio, voltamos ao normal.


terça-feira, 2 de junho de 2009

Wordfast Classic e Vista e Office 2007

Para quem ainda tem alguma dúvida, WF Classic funciona perfeitamente bem com qualquer MSWord de 2000 para cima (tem gente usando dom 98) e com qualquer Windows. 

A apostila oferecida no Site da Aulavox também funciona perfeitamente com o Vista. 

Nos Word mais novos, é só clicar em 'suplementos" que a barra do Wordfast Classic aparece direitinho e o programa funciona magnificamente bem.

Nada tendes a temer.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Avisinho

Problemas de serviço vão me impedir de escrever no blogue mais uns dois ou três dias. Você nem imagina o tempo que demora para escrever um artiguinho bobo destes.  

Mas eu volto! Ah, se volto!

domingo, 24 de maio de 2009

A Denise e a Metempsicose Tradutória

Um artiguinho rápido, que tenho quatro dias terríveis pela frente. Nossa colega Denise Bottman está, há tempos, criando um caso de todos os diabos em torno de certas traduções que, anos depois de publicadas, reaparecem no mercado. Até aí, nada de mais. O problema é que, quando re-encarnam, são misteriosamente atribuídas a um tradutor diferente do responsável pela primeira edição. Por exemplo, quando a tradução de Ivanhoé feita originalmente por Brenno Silveira, tradutor conhecido e respeitado, reapareceu, foi atribuída a um senhor chamado Roberto Nunes Whitaker de quem nada se sabe. E a tradução é exatamente igual à do Brenno, um verdadeiro milagre. O caso foi até analisado aqui neste blogue. Um entre muitos casos da epidemia de metempsicose tradutória que atualmente ocorrem no Brasil.

Mas quem empunhou a bandeira foi a Denise, mesmo. Pimenta braba a moça. Depois de criar um caso atrás do outro em seu blogue e ter incomodado mais de uma editora, recebeu da Martin Claret uma notificação extrajudicial. Para quem não sabe, notificação extrajudicial é uma espécie de carta que se manda via cartório, dizendo, em linguagem formal e educada "Moça, a senhora está nos causando prejuízos com essas coisas que anda fazendo. Ou para, ou nós ingressamos em juízo contra a senhora e vai ser o diabo". 

A Denise não divulgou o conteúdo da notificação, mas é sempre mais ou menos isso. Direito deles, claro. O problema é que o tiro pode sair pela culatra. Tenho certeza de que a Denise estava esperando e aposto que até está se divertindo. A moça, como eu disse, é pimenta braba. Já tem o advogado dela para encarar a briga, que promete ser das boas.

Como eu disse acima, a Martin Claret, e qualquer outra editora que se julgue prejudicada, tem todo o direito de fazer uso de notificações extrajudiciais e outros meios legais. Mas fariam melhor se explicassem as coisas direitinho. A Denise é briguenta, mas é, além de tudo, uma mulher educada e inteligente e tenho absolutamente certeza de que, se em vez de ameaças, a Martin Claret tivesse enviado a ela uma explicação bonitinha, demonstrando que está agindo direito e que a Denise pisou no tomate, ela própria ia publicar essa explicação no seu blogue, com um pedido de desculpas. 

Ainda está em tempo. 

Agora, que você já chegou até aqui, vá dar uma olhadinha no blogue da Denise. Deixe um recadinho lá, educado, bem escrito, sem baixaria. E ajude no que puder. O blogue dela mora aqui.