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quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Está na hora de "reajustar"?

Um dos eufemismos mais divertidos do português é reajustar. Os outros aumentam os preços; eu reajusto. Mas, que seja, tanto faz. Quando é hora de passar do meu preço atual para um preço maior? Os preços, em qualquer lugar do mundo, são determinados pela lei da oferta e da procura. Quando a procura pelos meus serviços é tão grande que já não posso mais dar conta das encomendas, está na hora de cobrar mais, só isso. Não tem nada que ver com os custos, o preço do colégio das crianças, o ter passado no exame disto ou daquilo, o que o mecânico cobrou para trocar o cabo da embreagem. Tem que ver com a relação entre o serviço que me oferecem e a produção que eu posso dar, só isso.

Quer dizer, se você está com pouco serviço, nem pense em preços maiores, por mais justo que possa parecer o tal do reajuste. Por outro lado, trabalhar adoidado para dar conta do excesso de serviço é bobagem: a qualidade cai e, cada vez mais, só vão procurar você para os apaga-fogo. Tipo a tradução dela não é boa, mas é a única pessoa que aceitaria fazer duzentas laudas no fim de semana. Quer dizer, você cava a sua própria sepultura.

Na maioria das vezes, não vale a pena dividir o trabalho com colegas, salvo quando o preço for suficientemente alto para pagar um extra satisfatório para quem fica com o encargo de coordenar o serviço, cobrar do cliente, pagar os impostos, receber o pagamento e repassar a cada um a sua parte. São atividades que tomam tempo e, por isso, exigem remuneração. E você pode ter certeza que, se for coordenar, qualquer taxa de gerenciamento que valha a pena para você vai ser considerada exagerada pelos colegas que fizeram a tradução propriamente dita.

Também não se esqueça de que o que você ganha não depende exclusivamente do preço cobrado. Por exemplo, imagine duas editoras que pagam exatamente o mesmo valor por lauda e definam a lauda exatamente do mesmo modo. Mas a Editora A paga quase que em seguida a entrega e não cria caso com nada. A Editora B demora um tempão para pagar e telefona duzentas vezes para fazer perguntas idiotas ou implicar com picuinhas. Embora o valor por lauda seja o mesmo e a lauda seja a mesma, podemos dizer tranqüilamente que a Editora A paga bem mais que a Editora B. Essa consideração se torna mais importante quando você atinge o teto que um determinado segmento paga. Por exemplo, trabalho muito com agências americanas e meu preço está mais ou menos no máximo que elas pagam. Procurar aumentar o preço agora, seria perder o cliente e não ter como repor. Como estou com bastante serviço, estou simplesmente recusando atendimento aos chatos, para me concentrar nos bons.

Moral da história: a alma do negócio é insistir na busca de clientes. O aumento nos preços e a possibilidade de dispensar os chatos é conseqüência natural do aumento na demanda pelos seus serviços. Espero que você tenha gostado deste artigo. Deixe sua opinião nos comentários e volte amanhã, que tem mais

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Por que os tradutores fracassam? (1)

Uma estudante de tradução me escreveu, dizendo que é voz corrente que não se pode viver de tradução. Ela não disse, mas a frase corrente é “No Brasil, não é possível viver de tradução”, com ênfase em "no Brasil”. Como se viver de tradução no exterior fosse um mar de rosas e aqui fosse o inferno dos infernos, entende? Tenho uma ojeriza particular por esse “no Brasil”, porque, na maioria das vezes, é dito por quem não faz a mais remota idéia de como são as coisas fora daqui. Também tenho ojeriza do “de uns tempos para cá" dito por gente que não sabe como as coisas eram antigamente, mas isso é outra coisa. O fato é que, entretanto, aqui e alhures muita gente tenta viver de tradução e não consegue. Por quê?

Um dos motivos é saturação de mercado. Tradução é e sempre foi a tábua de salvação de muitos que não deram certo em outras áreas e, como sabiam alguma coisa de uma língua estrangeira, geralmente o inglês, “pegaram umas traduções para fazer”. Mesmo entre os estudantes dos cursos de tradução tem muita gente que “gosta de inglês mas não tem saco para ser professor”, fora a turma do “sei lá”: “Ia fazer propaganda, sabe, mas, sei lá, resolvi fazer tradução!”.

Entretanto, o mercado é cada vez mais exigente conosco e a vida dos para-quedistas, dos biqueiros e da turma do “sei lá” está cada vez mais difícil. Tradução, cada vez mais, exige dedicação plena e um grande investimento de tempo e dinheiro. Quando comecei, em 1970, tinha uma máquina de escrever semiportátil, menos de meia-dúzia de dicionários e nem sequer telefone. Meu equipamento cabia no tampo da minha escrivaninha. Tudo o que eu fazia era datilografar traduções, o que já não é pouco, mas é bem menos do que se exige hoje. Muitos traduziam exclusivamente depois do expediente ou nos fins de semana, para fazer um dinheirinho extra.

Hoje, mesmo as editoras, tradicionalmente as mais tolerantes com prazo, exigem traduções a toque de caixa, impossíveis de encarar por quem “tem um emprego”: ou você é profissional da tradução ou não é. Nem pense em ser tradutor se não pode manter uma média de pelo menos 3000 palavras por dia.

Além disso, até mesmo as editoras estão começando a exigir que o tradutor seja estabelecido como pessoa jurídica. (Se você não sabe o que é isso, clique aqui). Não vale a pena ter uma firma de traduções para traduzir somente “depois do expediente”.

Em vez de “bater” a tradução em folhas de papel ofício, você tem que digitar num computador e, em vez de ir simplesmente escrevendo o texto, tem que saber lidar com coisas tais como html, trados, PowerPoint, pdf e mil e um outros formatos. Não me diga, por favor, que você quer ser tradutor literário. A tradução literária tem um volume ínfimo em relação aos outros ramos da tradução. E não me diga que “no Brasil…”, porque nos Estados Unidos e na Inglaterra a participação da literatura no bolo total é infinitamente menor que no Brasil. E mesmo os tradutores literários estão sob pressão cada vez maior de prazo e informatização. Já tem muita gente fazendo tradução literária com Wordfast. E não se esqueça que legendagem também está cada vez mais informatizada. Por enquanto, sobra, que eu me lembre, a dublagem, como área que não foi informatizada.

Quer dizer, o mercado e as suas exigências estão transformando o traduzir em profissão. Pretendo voltar ao assunto. Espero que seja interessante para você. Seus comentários são bem-vindos e, antes que me esqueça, muito obrigado pela visita.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Tradução de autor brasileiro para o inglês

Antes da palestra que ia fazer para os alunos de uma faculdade, estava fazendo conversa social com os professores. Uma me contou, orgulhosa, que estava fazendo mestrado ou doutorado, não me lembro, em literatura, e seu tema era um determinado autor brasileiro. No seu entusiasmo pelo assunto, contou que inclusive tinha encarregado seus alunos de traduzir alguns trechos desse autor para o inglês, como trabalho do semestre.

Acho que ocultei bem minha surpresa perante a absoluta inutilidade de fazer alunos de bacharelado em tradução numa faculdade brasileira traduzirem literatura brasileira para o inglês. A chance de algum tradutor brasileiro ser convocado para uma tarefa dessas é próxima de zero. A pouca literatura brasileira que se traduz para línguas estrangeiras é sempre traduzida por falantes nativos da língua de chegada. Essas traduções são sempre publicadas por editoras estrangeiras e, no exterior, tem-se como norma que cada um traduz exclusivamente para a sua própria língua. Conheço raríssimas exceções a essa regra.

Tradução técnica, comercial e jurídica para o inglês, faz-se muito, aqui no Brasil mesmo, por falta de falantes nativos que se encarreguem do serviço, mas isso não parecia importante para os professores. A literatura, para eles, era a mais elevada manifestação do espírito humano e, portanto, era dela que a faculdade tinha de se ocupar.

A tradução literária para uma língua estrangeira num estabelecimento de ensino brasileiro somente vale se for feita como exercício para procurar construir uma sintaxe contrastiva, a ser usada para melhor traduzir do inglês para o português. Mas não era isso o que estava acontecendo. Os alunos estavam sendo conduzidos a imaginar que algum dia eles iriam estar alegremente traduzindo os clássicos da nossa literatura para o inglês. Durante a palestra, confirmei minha suspeita de que o inglês da turma deixava a desejar, o que tornava o exercício ainda mais inútil: tanta coisa a aprender, e eles ficavam lutando com o estilo complicado de um autor regionalista, com seus dialetalismos todos.

Mas, antes de começar a palestra, perguntei se havia algum treinamento em uso de programas de memória de tradução, que, afinal de contas, são ferramentas cada vez mais essenciais para os tradutores. Olharam-me como se eu tivesse dito algo de impróprio e deixaram claro que, para eles, essas coisas eram irrelevantes, de certo modo indignas de um estabelecimento de ensino superior dos sérios, como aquele. Se não fossem tão educados e formais, teriam me mandado lavar a boca.

Podia ser pior: em outra faculdade, na mesma época, usavam PowerTranslator e diziam que era ferramenta de memória de tradução.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Nós e a imprensa

Cada vez que leio um artigo sobre tradução na imprensa, diminui minha fé nela, na imprensa, quero dizer – não na tradução.

O que vende jornal é a reclamação, a esculhambação, evidentemente. Imprensa é oposição, como já disse o Millôr, há muitos anos. Por isso, a maioria dos artigos sobre tradução na imprensa se resume a divulgar erros, principalmente os cômicos. Isso não me preocupa, desde que o que apontem como errado esteja errado mesmo. Não façam como a Veja, que, há anos, meteu o pau de rijo no colega que tinha traduzido "The Physician" por "O Físico", sem saber que os médicos antigamente eram chamados "físicos" em português e que quem fez a tradução usou o termo antigo propositadamente. Acho que quem escreveu a diatribe jamais tinha lido o "Auto dos físicos" de Gil Vicente. Mas mesmo isso é de relevar.

O que me preocupa e irrita, de fato, é a confusão geral que a imprensa faz, entrevistando somente as pessoas que fazem tradução literária ou de filmes e dando as opiniões delas como se referindo à tradução como um todo.

Na verdade, o mercado de tradução literária e de filmes, embora apareça muito nos cadernos de cultura dos nossos jornais de domingo e tenha uma grande importância para nossa vida intelectual, responde por uma pequena parcela do mercado como um todo. Por exemplo, eu, que vivo de tradução desde 1970, jamais traduzi um filme e não traduzo um livro há mais de 30 anos. E, aliás, jamais traduzi literatura.

Além disso, geralmente a imprensa entrevista quem é tradutor amador, gente que não quis ou não conseguiu transformar tradução no seu ganha-pão. Muitos são extremamente competentes como tradutores, mas não são profissionais. Se você pretende ser profissional, decididamente não é a sua turma. Você pode até admirar as traduções deles, muitas vezes excelentes, mas não os utilize como modelos enquanto profissionais, porque, a rigor, profissionais é que não são.

Por isso, quando ler alguma daquelas jeremiadas lamuriosas sobre a impossibilidade de se viver de tradução, sobre gente que trabalha com máquina de escrever porque não tem dinheiro para computador, gente que traduz de noite e trabalha de dia em alguma outra coisa para não morrer de fome, saiba que muito provavelmente não vai ser essa a sua vida.

Aliás, há vários tradutores de editora vivendo decentemente. Ganham menos do que os outros, mas conseguem viver de sua tradução, estão felizes com o que fazem e não trocariam de profissão por nada deste mundo.

Taxa de urgência

Existem duas concepções de “taxa de urgência”: a primeira é a remuneração extra por um esforço extra, necessário para entregar o serviço no prazo desejado pelo cliente; a segunda, uma taxa cobrada para fazer o serviço de um cliente antes do serviço dos demais. Nenhuma das duas é fácil de aplicar.

Se você está de serviço até os olhos, 1000 palavras para daqui a dez dias podem significar ter de trabalhar até de madrugada mais um dia em uma semana enlouquecida. Se você está sem o que fazer, 4000 palavras para amanhã podem não significar nada.

Tem também a questão dos feriados religiosos: se você for católica praticante, trabalhar na sexta-feira santa pode ser impensável e uma tradução para depois da semana santa pode exigir virar a noite do domingo de páscoa. Se você não for católica, pode não fazer a menor diferença.

“Tirar o serviço do cliente da fila”, por outro lado, pode não significar nada quando você está com pouco serviço, mas pode ser altamente antiético quando fosse resultar em atraso na entrega de outros serviços para outros clientes.

Por isso, taxa de urgência é algo muito flexível, que se cobra quando se acha que o cliente vai pagar.

A taxa de urgência também tem um valor dissuasório-probatório: se o cliente liga ás seis da tarde e diz que quer o serviço para as nove da manhã do dia seguinte e você não é do tipo coruja, diga que trabalho à noite custa o dobro, assim você fica sabendo se o serviço é urgente mesmo. Se for, o cliente paga. Mas minha experiência indica que, geralmente, nesses casos, o cliente depois de algumas interjeições mais ou menos delicadas opta por aceitar um prazo de 48 horas para o serviço e você vai dormir em paz com sua consciência.

Então, na verdade, cobra-se taxa de urgência quando se acha que pode, o que inclui um elemento de risco, porque você pode exigir taxa de urgência e o cliente enviar o serviço para outro.

Quanto cobrar de taxa de urgência é outro problema. Não me venha, por favor com “o justo”. Isso não existe. Você cobra o que quer, o cliente aceita se quiser.

Quem não arrisca, não petisca; mas também não vira petisco.

domingo, 5 de novembro de 2006

Tradutor juramentado

Primeiro, saiba que o nome correto é Tradutor Público e Intérprete Comercial (TPIC). Embora "juramentado" seja comum, mesmo entre os TPICs, juramentada é a tradução, não o tradutor.

O TPIC é o único que pode fazer uma tradução juramentada e a tradução juramentada é a única que conta com “fé pública”. Gozar de “fé pública” significa que as autoridades são obrigadas a aceitar a tradução como correta, salvo prova em contrário. Em verdade, as autoridades somente podem aceitar documentos em português. Se o documento estiver em outra língua, tem de ser apresentado juntamente com uma tradução feita por TPIC, mesmo que a autoridade que o receber tenha condições intelectuais para entender o original perfeitamente bem.

Ocorre situação homóloga com as declarações e depoimentos verbais. O estrangeiro tem todo o direito de depor em sua língua e o juiz, por mais que entenda a língua do depoente, é obrigado a decidir com base na tradução feita por TPIC.

O TPIC não é servidor público e, portanto, nada recebe dos cofres públicos. Também, ao contrário do que muita gente pensa, não é obrigado a prestar serviços grátis a nenhum órgão público. O TPIC tem que ir atrás do trabalho, como todos os outros tradutores, tarefa em que uns são mais bem-sucedidos do que outros.

Para conquistar o título de TPIC, é necessário passar em um concurso promovido pela Junta Comercial do estado em que o tradutor reside. Acontece que as Juntas Comerciais raramente promovem esses concursos. Em São Paulo, onde são relativamente freqüentes, o intervalo médio entre um concurso e outro está em torno de 25 anos. À medida que os TPICs se aposentam, o quadro fica desfalcado e as diversas Juntas Comerciais se valem de diversos artifícios para manter quem atenda às necessidades de seus respectivos estados.

O concurso, pelo menos em São Paulo, costuma ser rigoroso e não são todos os que são aprovados. Além disso, são honestos. Se houve alguma desonestidade, alguma proteção, em algum concurso, pode ter sido em alguma daquelas línguas em que só havia um examinador e um candidato e o examinador sabia, de antemão, que não poderia haver outro. Nas línguas de grande e média demanda, não há chance de desonestidade.

Por outro lado, o tradutor juramentado não é um supertradutor. É simplesmente um tradutor competente. Se você precisar de uma boa tradução de algum documento que não vá ser entregue a uma autoridade e resolver contratar um juramentado porque entende que, tendo sido aprovado em concurso, há de ter competência, está usando um critério de seleção válido. Por outro lado, grande parte de nossos melhores tradutores jamais prestou concurso e é errado partir do princípio de que um TPIC é sempre mais competente que os outros tradutores.

É segredo de polichinelo que muitos TPICs têm muito mais serviço do que podem fazer pessoalmente e terceirizam o excesso, mantendo equipes numerosas de subcontratados, procedimento firmemente contestado por outros. A discussão levanta alguns problemas extremamente interessantes, que não vão ser discutidos aqui.

Uma coisa é certa: tornar-se TPIC não é fácil nem garantia de sucesso financeiro. O TPIC é obrigado a cobrar de acordo com uma Tabela de Emolumentos baixada pela Junta Comercial do seu estado. Para o leigo, a tabela parece ser uma verdadeira cornucópia. Quem é do ramo sabe que não é bem assim e que manter um escritório de tradução juramentada lucrativo não é tarefa simples.

Por fim, é bom lembrar que na maioria dos países, não existe o ofício de Tradutor Público e Intérprete Comercial e enviar “traduções juramentadas” para esses países não faz muito sentido. Por outro lado, de tanto lidar com as peculiaridades de cada país estrangeiro, muitas vezes é o TPIC o mais indicado para preparar uma documentação para uso no exterior.

Em tempo, e antes que me entendam mal: não sou TPIC, nunca prestei o concurso nem trabalho como subcontratado de TPIC nenhum. Quer dizer, se alguém pensa que estou defendendo meu terreno e minhas regalias, engana-se.

Entidades de classe dos tradutores

Há duas entidades de classe para os tradutores: SINTRA e ABRATES. Ambas são alvo das mesmas críticas, as quais discuto abaixo.

São entidades puramente cariocas


O fato de que ambas têm sede no Rio de Janeiro tem motivos históricos e não me incomoda em nada. Em algum lugar têm de ter sede, pode ser no Rio ou em Boca do Acre. Já que estão no Rio, que no Rio fiquem. O fato de que a estrutura de ambas as entidades é tal que torna impossível a participação de tradutores dos outros estados pari passu com quem mora no Rio, me incomoda muito e já levantei o problema várias vezes.

Não me parece que alguma diretoria de qualquer das entidades tenha se preocupado com a questão. Todas quererem organizar uma "seção" ou "delegacia" paulista forte, mas nenhuma quer segregar os assuntos nacionais dos ligados especificamente ao Rio de Janeiro.

Quer dizer, a solução começa com a separação entre a "nacional" e a "carioca". Parece o famoso "departamento feminino" que há, ou havia, em alguns clubes e grêmios. Conta-se que um dia convidaram uma mulher consciente de sua igualdade com os homens para que dirigisse o "departamento feminino" de uma agremiação e ela respondeu que, antes de aceitar a honra, queria saber quem ia cuidar do departamento masculino. Nem SP nem nenhum outro lugar deve aceitar ser o "Departamento Feminino" das nossas agremiações. Quer dizer, sou frontalmente contrário à criação de uma "delegacia paulista" ou "seção paulista" enquanto não for criada a "delegacia carioca". Ou o Rio de Janeiro não é um estado? E tem que haver um modo de fazer com que quem mora fora do Rio possa participar ativamente das discussões e decisões. Ou será que alguém espera que todos compareçamos às reuniões no Rio de Janeiro?

Enquanto viger a situação atual, ou você está no Rio, ou é sócio de segunda classe. O statu quo parece convir.

Não fazem nada pela classe

Fazer, fazem, mas pouco, muito pouco, quase nada. Não fazem mais porque não têm recursos. A ATA faz mais porque tem mais recursos. Americanos são "born joiners": entram para a sociedade, pagam, comparecem à assembléia, montam chapa, elegem diretores, pagam anuidade, fazem a entidade crescer e partem para a briga. No Brasil, a turma quer que primeiro a entidade faça alguma coisa para depois se associar, paga a anuidade com atraso, não vai à assembléia, se nega a participar de chapa e depois fica reclamando que "eles não fazem nada". Não existem "eles", existimos "nós".

A turma parece crer que entidade profissional é como convênio de assistência médica. No convênio, um grupo de capitalistas junta recursos para oferecer serviços a um público pagante, na expectativa de que a receita exceda a despesa e os donos possam auferir lucro. Na entidade profissional, os profissionais se juntam e juntam seus recursos para criar uma associação que os represente e defenda.

Quando acontece algo errado, a turma reclama "e o que faz o SINTRA?". Nada. O SINTRA, não faz praticamente nada e a ABRATES faz, mas pouco e devagar. Não tem poder de resposta rápida. Mal-e-mal as entidades conseguem se manter vivas e ainda por muito favor.

Uma associação profissional é como o que os americanos chamam "bucket brigade", aquela turma que fazia uma fila para ir passando balde de água de mão em mão e apagar um incêndio. Todo mundo comparece e dá uma mãozinha. Ficar de fora e reclamar que a "bucket brigade" não funciona, pega mal.

São entidades fechadas em si próprias

Acho absolutamente ridículo o fato de que nenhuma das duas entidades faz das listas de tradutores em o Orkut um veículo de comunicação com a classe. Participo de pelo menos cinco listas brasileiras de tradutores (isto se não participar de mais) e ainda de um grupo de tradutores ativíssimo no Orkut. Rolam conversas importantes, discussões interessantes mas não aparece nenhuma das duas entidades para participar nem para dizer "juntem-se a nós". Quer dizer, as entidades se fecham em si mesmas, só se comunicam com a categoria para se defender e para reclamar que ninguém colabora. Não há uma, uma só, uma única iniciativa organizada de comunicação com a categoria. É de se perguntar se realmente querem ampliar a representatividade da entidade ou preferem manter o stato quo, embora publicamente lamentem a pouquidão dos associados.

Aliás, também não há uma lista de discussão de assuntos profissionais patrocinada por uma ou ambas as entidades. O isolamento é total. Saem boletins esporádicos, vez que outra uma mensagem eletrônica circular, convocando para uma assembléia. Mas nenhum, nenhum mesmo, esforço de comunicação com a classe, exceto os dois congressos da ABRATES.

Os congressos


A iniciativa de maior impacto das entidades foram os congressos da ABRATES. O primeiro foi um sucesso; o segundo foi muito criticado. O fato é que, bem ou mal, fizeram. Antes pouco que nada. Espero que alguém, que tenha talento organizador, promova o terceiro.

Participar ou não?

Sou associado de ambas as entidades. Quem me convenceu foi o Paulo Wengorski. Convenceu-me de que não me assistia o direito de reclamar sem participar. A ABRATES me fez três pedidos: um artigo e duas participações em congressos. Atendi os três. Quando começou a história do credenciamento, participei dos prolegômenos, mas me afastei porque achei que iria surgir um conflito de interesses, dado o fato de que, na época, eu era ativíssimo como instrutor na Via Rápida. Não me arrependo. Não ia faltar quem alegasse que estava participando da equipe em proveito próprio. O SINTRA não me pediu nada nem tinha razão para pedir. Se pedisse, teria procurado ajudar, dentro de minhas limitações.

Gostaria de participar das discussões e assembléias das duas, mas não tenho condições de ir ao Rio de Janeiro para isso. Só poderia participar via Internet.

Participar da diretoria ia ser mais difícil ainda, dado que sou mau administrador nem moro no Rio. Minha colaboração há de limitar-se ao que eu sei fazer, para não fazer besteira. Cada um tem sus limitações e problemas, mas me parece extraordinário que a esmagadora maioria de nós não possa contribuir com nada, nada, absolutamente nada para com a profissão, salvo reclamar que "ninguém faz nada".

O que é uma lauda

Antigamente, as traduções eram entregues em folhas de papel formato ofício (22 cm X 32 cm), datilografadas em espaço duplo e com umas margens generosas. Tinha lá sua razão de ser, em virtude do modo como os livros eram compostos na época, à força de linotipo, uma máquina que ganhou esse nome em português porque era chamada Linotype em inglês. Agora, que a traquitana foi aposentada e que todos nós usamos computador, lauda é coisa que não faz mais sentido.

Entretanto, alguns setores do mercado se apegaram tanto ao nome lauda que ainda mantêm a unidade de cobrança, embora não se tenha jamais chegado a um acordo quanto ao que seja uma lauda feita no computador e as definições variem de algo como 1000 a até 2500 caracteres – com ou sem espaços. Então, é necessário fazer uma contagem, geralmente com a ferramenta de contagem de palavras do próprio Word e depois converter em laudas. Como se não fosse mais simples cotar por milhar de caracteres de uma vez. Mas a tradição demora a morrer.


As laudas são contadas, tradicionalmente, com base no texto traduzido, algo que os clientes aceitavam antigamente, mas cada vez os irrita mais. O cliente quer saber o preço total antes de aprovar o pedido e, por isso, prefere cobranças baseadas no texto de partida, quer dizer, no original e não são poucas as vezes em que o cliente se surpreende, ou pelo menos se declara surpreso, com a quantidade de laudas que deu “aquela meia dúzia de pagininhas de texto” e pede uma “reconsideração da contagem” porque está “acima do orçado”.


Para evitar esse problema, alguns tradutores estão começando a cotar um número de “laudas garantidas”. Quer dizer, contam os caracteres do original, multiplicam por 1,3, presumindo que a tradução seja 30% mais longa que o original, dividem pelo número de caracteres que constitui a sua “verdadeira lauda” e, assim chegam um número de laudas. O curioso é que esses profissionais acham o meu modo de cotar complicadíssimo: coto um preço por palavra do original. Fiz os outros cálculos antecipadamente e determinei um preço por palavra do original que me pareceu aceitável.


Aprendi a cotar assim trabalhando para o mercado americano e inglês, onde esse é o padrão. Parece que essa tendência está se espalhando, como tantas coisas que se tornaram padrão nos Estados Unidos. Hoje, até o SINTRA anda falando em cotação por palavra.

Profissão: Tradutor

Cada vez que me perguntam minha profissão e eu respondo que sou tradutor, vêm logo a mesma surpresa e perguntas:
  • Todas as línguas?
  • Por que as traduções dos filmes são tão ruins?
  • Livros, assim?
  • Minha filha está estudando inglês, o senhor não podia dar umas traduções para ela fazer?
  • O senhor dá aulas?
Mesmo entre estudantes e iniciantes a desinformação reina. Antigamente, quase todo estudante de tradução pensava que ia traduzir poesia e investia um tempo enorme para aprender uma técnica que nunca ia usar na vida. Hoje, a grande maioria espera viver de traduzir filmes, sem se dar conta de que o mercado de dublagem e legendagem, embora importante e de alta visibilidade, responde por uma parte ínfima do mercado total de tradução e, portanto, acolhe um número muito pequeno de tradutores.

Foi para apresentar minhas opiniões sobre a profissão de traduzir que criei este blog. Muito do que vai aparecer por aqui é mera reformulação de opiniões que já venho expressando há anos em palestras que fiz em faculdades ou congressos, ou em algum dos ciberpontos de encontro mencionados na área de links. Aqui vão ficar todos juntos. Espero que sejam úteis.

sábado, 4 de novembro de 2006

Contato

Quem somos?

Nós somos Danilo Nogueira e Kelli Semolini. A criação da dupla é idéia minha e desse mérito não abro mão. A Kelli jura que não esperava o convite.

Kelli Semolini nasceu em São Carlos, em 1983, e desde muito nova se interessa por inglês, que começou a ensinar antes de entrar na UNESP, em Araraquara, em 2002. Na faculdade, além de se aprofundar no inglês e no português, aprendeu a jogar truco. Ao se formar, continuou com as aulas de inglês, mas começou a procurar serviços de tradução e revisão.

Danilo Nogueira nasceu em São Paulo, em 1942 e, também desde muito jovem se interessa por línguas, porém nunca fez faculdade. Teve uma vida confusa e atribulada demais para ser narrada aqui. Em 1970, aproveitando uma oportunidade promissora, resolveu se dedicar inteiramente à tradução, especializando-se em contabilidade, finanças, tributação e direito societário. Um dos pioneiros da informatização da tradução, usa programas de tradução assistida por computador desde cerca de 1995.

Nosso encontro se deu em uma comunidade do Orkut. A parceria, até porque as personalidades, formações e experiências são bem distintas e complementares, parece que vai dar mais certo do que nós esperávamos.