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quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Por que os tradutores fracassam? (1)

Uma estudante de tradução me escreveu, dizendo que é voz corrente que não se pode viver de tradução. Ela não disse, mas a frase corrente é “No Brasil, não é possível viver de tradução”, com ênfase em "no Brasil”. Como se viver de tradução no exterior fosse um mar de rosas e aqui fosse o inferno dos infernos, entende? Tenho uma ojeriza particular por esse “no Brasil”, porque, na maioria das vezes, é dito por quem não faz a mais remota idéia de como são as coisas fora daqui. Também tenho ojeriza do “de uns tempos para cá" dito por gente que não sabe como as coisas eram antigamente, mas isso é outra coisa. O fato é que, entretanto, aqui e alhures muita gente tenta viver de tradução e não consegue. Por quê?

Um dos motivos é saturação de mercado. Tradução é e sempre foi a tábua de salvação de muitos que não deram certo em outras áreas e, como sabiam alguma coisa de uma língua estrangeira, geralmente o inglês, “pegaram umas traduções para fazer”. Mesmo entre os estudantes dos cursos de tradução tem muita gente que “gosta de inglês mas não tem saco para ser professor”, fora a turma do “sei lá”: “Ia fazer propaganda, sabe, mas, sei lá, resolvi fazer tradução!”.

Entretanto, o mercado é cada vez mais exigente conosco e a vida dos para-quedistas, dos biqueiros e da turma do “sei lá” está cada vez mais difícil. Tradução, cada vez mais, exige dedicação plena e um grande investimento de tempo e dinheiro. Quando comecei, em 1970, tinha uma máquina de escrever semiportátil, menos de meia-dúzia de dicionários e nem sequer telefone. Meu equipamento cabia no tampo da minha escrivaninha. Tudo o que eu fazia era datilografar traduções, o que já não é pouco, mas é bem menos do que se exige hoje. Muitos traduziam exclusivamente depois do expediente ou nos fins de semana, para fazer um dinheirinho extra.

Hoje, mesmo as editoras, tradicionalmente as mais tolerantes com prazo, exigem traduções a toque de caixa, impossíveis de encarar por quem “tem um emprego”: ou você é profissional da tradução ou não é. Nem pense em ser tradutor se não pode manter uma média de pelo menos 3000 palavras por dia.

Além disso, até mesmo as editoras estão começando a exigir que o tradutor seja estabelecido como pessoa jurídica. (Se você não sabe o que é isso, clique aqui). Não vale a pena ter uma firma de traduções para traduzir somente “depois do expediente”.

Em vez de “bater” a tradução em folhas de papel ofício, você tem que digitar num computador e, em vez de ir simplesmente escrevendo o texto, tem que saber lidar com coisas tais como html, trados, PowerPoint, pdf e mil e um outros formatos. Não me diga, por favor, que você quer ser tradutor literário. A tradução literária tem um volume ínfimo em relação aos outros ramos da tradução. E não me diga que “no Brasil…”, porque nos Estados Unidos e na Inglaterra a participação da literatura no bolo total é infinitamente menor que no Brasil. E mesmo os tradutores literários estão sob pressão cada vez maior de prazo e informatização. Já tem muita gente fazendo tradução literária com Wordfast. E não se esqueça que legendagem também está cada vez mais informatizada. Por enquanto, sobra, que eu me lembre, a dublagem, como área que não foi informatizada.

Quer dizer, o mercado e as suas exigências estão transformando o traduzir em profissão. Pretendo voltar ao assunto. Espero que seja interessante para você. Seus comentários são bem-vindos e, antes que me esqueça, muito obrigado pela visita.

4 comentários:

Vinicius disse...

Oi, Danilo.

Gostei muito do seu blog, pena que não tenho tanto tempo para lê-lo, pois sou tradutor e sempre "estou atrasado" com o serviço.

Uma coisa que me chamou atenção foi que para-quedista ficou sem acento (pára-quedista).

Abraços.

disse...

Olá!
Também sou tradutora, de português europeu, e resido em Portugal.
De momento tenho um trabalho a tempo inteiro e sou também tradutora independente, devidamente legalizada. Tirei um curso superior para exercer a tradução.
Comentando o que disse, considero que o mercado está saturado por tradutores sem formação que querem ganhar uns "trocos" nesta área. Há uns anos atrás, uma pessoa que soubesse uma língua que não a materna, sabia-a correctamente. Hoje em dia, qualquer pessoa que saiba falar umas "coisitas" já se julga capaz de fazer traduções. E depois, claro, os tradutores formados ficam para trás. Mas também noto uma coisa: uma empresa que se valorize procura tradutores com formação, e se for bom, mantém-se fiél a ele e ao seu trabalho.
Concordo consigo sobre os prazos, cada vez mais apertados. Muitas vezes vejo-me obrigada a rejeitar traduções por falta de tempo.
Até breve.

José Carlos G. Ribeiro disse...

Danilo.
Interessante ... começamos a traduzir no mesmo ano!
Mas bem antes disso, muito antes de imaginar que poderia, um dia, fazer da tradução minha profissão, li livros de um autor, no original, inglês, e também traduzidos para o português.
O que me impressionou é que, após algum tempo, não conseguia lembrar qual tinha lido no original e qual na tradução!
Depois de abraçar a tradução e lembrando disso, cunhei uma frase para um amigo que perguntou sobre tradução: "Um tradutor é um autor sem assunto".
O tradutor tem que escrever como se autor fosse, mas o assunto já vem pronto, no original.
Experiência de vida também conta. Entender a cultura original e transpor a mensagem para a própria exige maturidade e conhecimento.
Não desprezar a técnica, tanto linguística como de "produção" e administrativa. Sem satisfazer o cliente e ser bem pago não dá para ser bem sucedido em nenhum tipo de negócio.
Um abraço, e até o próximo PowWow!

Danilo Nogueira disse...

"Um autor sem assunto" é muito bom.