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sábado, 24 de novembro de 2007

O que é tradução técnica?

Outro dia, me convidaram para ir à USP falar sobre tradução técnica. Para falar sobre tradução literária, havia a Lenita Esteves, que eu não conhecia pessoalmente, e que teve a gentileza de me dar uma carona até o metrô, o que nos deu uma bela chance para conversas tradutórias em geral. Para quem não sabe, não tenho carro nem sei dirigir.

Aceitei o convite da USP, até para me dar ao trabalho de me perguntar o que raio possa ser a tal tradução técnica, de que tanto se fala. Houve um tempo em que eu tinha certeza de que havia dois tipos de tradução, literária e técnica e também tinha certeza de saber as diferenças entre as duas. Hoje, só sei que nada sei e, mesmo sobre isso, tenho lá minhas (crescentes) dúvidas.

Vamos começar pelo princípio. Se você perguntasse à Lenita, antes de nosso encontro na USP, ela provavelmente diria que eu sou tradutor técnico. Não sei se hoje diria a mesma coisa.

Um tradutor especializado na área de engenharia, entretanto, diria que eu não sou tradutor técnico: sou tradutor financeiro. A turma que faz medicina, por outro lado, talvez até diga que eu sou técnico, mas vai relutar em aceitar ser chamada de tradutores técnicos: são tradutores de medicina, outra conversa, outro departamento. Os especializados em direito, evidentemente, se entendem por tradutores jurídicos – se alguém disser que é tradutor legal, tome cuidado: não há de ser um tradutor legal.

Depois, tem a turma que traduz ciências humanas, coisas como história, filosofia, sociologia. Ou religião. Conheço poucas áreas mais técnicas que filosofia e religião. E a turma do dubla-e-legenda. E a turma dos jornais. Deus sabe mais o quê. Não é fácil fazer uma taxonomia da tradução.

Mas, concordo, há uma diferença entre traduzir as coisas que eu traduzo e O senhor dos anéis. Não, erro: não uma, mas muitas. Entretanto, as diferenças são mais sutis do que parecem, são todas de grau e afetam cada área da tradução dita técnica em grau diferente.

Em outras palavras, não conheço processo, cuidado ou problema que seja exclusivo da tradução literária ou do que quer que seja tradução técnica. Conheço aspectos que são mais relevantes em um ou outro tipo. O tradutor literário tem mais problemas de estilo que a maioria dos tradutores técnicos, mas também é verdade que todo tradutor técnico consciente do que faz enfrenta problemas de estilo. E, muitas vezes, me pergunto o que é mais difícil: encarar um James Joyce, num de seus piores dias, ou um documento em inglês montado por um grupo de japoneses com pedacinhos de textos achados cá e lá, incluindo coisas escritas por finlandeses e eslobóvios. Ou mesmo um documento que eu traduzi, há muitos anos, escrito por um alemão, que, como tantos outros de seu povo, achava que a sintaxe inglesa precisava de uma melhorada. O documento começava assim: When the by you examined balance sheet by us received is…

Ainda volto a este assunto. Por hoje é só.

7 comentários:

Pablo disse...

Será que um dia perderei também a certeza de que há uma incompatível diferença entre a revisão e a revisão técnica. Espero que não.

Abraço,

Pablo
http://cadeorevisor.wordpress.com

Anônimo disse...

Afinal textos religiosos são técnos ou não?

Abraço Rita

Danilo Nogueira disse...

Rita, na minha opinião, são técnicos. A terminologia usada é precisa e complexa. Mesmo que você não seja religiosa (eu sou agnóstico), se for se enfronhar no assunto, vai concordar comigo.

Além de técnicos, têm uma carga de ideologia que os transforma em um dos maiores desafios que o tradutor pode ter de enfrentar.

Anônimo disse...

Boa noite! Achei super interessante esta carta escrita por este tradutor. Pretendo utilizá-la, com permissão de seu autor, na introdução a minha oficina de tradução em língua francesa, a ser realizada no dia 7 de julho de 2009, na Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia. Um abração. Professora Cristina Cardôso (Letras - UESC)e tradutora técnica (não-literária)rsrrsrs.

Danilo Nogueira disse...

Cristina,

Que carta? Não sei do que você está falando. Não achei carta nenhuma.

Anônimo disse...

Carta? Nossa! Essa foi boa! rsrsrs

Roberto disse...

??? Carta? Que carta? Não sei do que você está falando! Não vi carta nenhuma...
O problema é que o tema aqui é traduções técnicas. Se fosse versões poéticas talvez eles soubessem a que carta ela se referiu.
Bolas, alguém sabe a tradução de "patrulhar" em sânscrito ou "catar coquinho" em mandarim, tanto faz?