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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Você decide – traduzir ou não traduzir?

Apareceu na imprensa uma história de que, em uma reunião de que participava um estrangeiro, o Presidente Lula contou que tentara estuprar um companheiro de cela. Quem narrou a história participou da discussão e, entre outras coisas, funcionou como intérprete ad hoc, mas se negou a traduzir a história da tentativa de estupro.

Outras pessoas que estavam na reunião confirmaram a história, mas disseram que não levaram a sério a afirmação, porque, para qualquer pessoa que conhecesse Lula, era óbvio que era mais uma das histórias malucas que ele costumava inventar para divertir a plateia e irritar um que outro e que ninguém acreditou que tivesse havido uma tentativa de estupro.

Se Lula tentou ou não estuprar alguém, é coisa que não interessa a este blogue. Este é um ciberponto de encontro para a discussão sobre questões de tradução e o que nos interessa aqui é o que deve fazer o intérprete/tradutor numa situação dessas. Então, reformulemos a história de modo mais seco, para podermos conversar, como profissionais da tradução. Imagine as situações abaixo:
1. Você é intérprete em uma reunião, da qual participa uma pessoa de projeção (político, artista, membro da comunidade de negócios, intelectual…). Essa pessoa de projeção, em dado momento, faz uma declaração que, se divulgada pela imprensa, pode causar grandes constrangimentos e prejuízos (tentei estuprar, estuprei, roubei, matei, destruí, prejudiquei…). O que você faz?
(a) Traduzo exatamente o que foi dito. O orador é responsável pelo que diz. Tradutor não é censor. Se eu não traduzir o que ele disse, estarei atraiçoando a audiência. Deixo à audiência decidir se a história é verdadeira ou mera brincadeira.
(b) Omito ou abrando as declarações, porque é minha responsabilidade evitar um incidente desnecessário.
(c) Depende de quem está me pagando. Se for o orador, omito ou abrando, porque minha função é evitar problemas para ele. Se for a audiência, faço uma tradução tão fiel quanto puder, porque, ao aceitar o serviço, aceitei a incumbência de manter a audiência bem informada.
(d) Se for um político do meu partido, omito ou abrando; se for um político de outro partido, deixo que ele se arrebente.
2. Se estivesse na audiência:
(a) Preferiria que o intérprete traduzisse tudo o que foi dito. Cabe a mim decidir se foi brincadeira ou se foi a sério.
(b) Preferiria que o intérprete traduzisse tudo o que foi dito, mas explicasse que evidentemente se tratava de uma brincadeira, se fosse o caso.
(c) Omitisse as observações mais cruas, para evitar um escândalo e salvaguardar a honra do orador.
(3) Se fosse o orador:
(a) Preferiria que o intérprete traduzisse tudo. Eu assumo responsabilidade pelo que digo.
(b) Ficaria grato se o intérprete omitisse ou abrandasse qualquer coisa que me pudesse causar problemas posteriores.
As três perguntas acima e as respostas sugeridas são meros guias para os seus comentários. Mas esqueça, ou ao menos faça por esquecer, que estamos nos referindo a uma determinada pessoa, da qual você pode gostar muito ou detestar. Faça de conta que é um exercício puramente acadêmico sobre um personagem fictício.

Comente à vontade, mas lembre que os comentários a este blogue estão sujeitos a aprovação. Não serão aprovados comentários que contenham mensagens políticas implícitas ou explícitas. Há mil lugares onde se pode discutir política; aqui, falamos sobre tradução.


Na semana que vem, comentamos.




Esclarecimento postado no dia 1/12: Agradecemos aos diversos comentaristas, que, inclusive, tiveram o bom senso de se ater ao assunto, sem se desviar para o lado político da questão.


Segundo tudo o que lemos sobre o assunto, não há dúvida de que o Lula contou a história e que a história era a descrição de uma tentativa de estupro, inclusive com uma descrição da reação da quase-vítima. O interessante é que parte das pessoas viu como uma brincadeira (de bom ou mau gosto) e outra parte viu como a descrição de um fato real. Por outro lado, as expansões do tema feitas por alguns dos comentaristas só enriquecem a discussão. Obrigado por agora e continuem comentando.


Os comentários já postados mostram que as respostas podem ser diferentes conforme se trate de simultânea ou consecutiva — e, mais ainda, se for tradução escrita, para legendagem ou dublagem. Se alguém quiser explorar essas facetas, considero uma contribuição positiva.
















19 comentários:

Celina disse...

Danilo,

Alternativa "a" para todas as questões. Se a pessoa não quer suas palavras traduzidas, ela deve tomar cuidado com o que fala. O tradutor está ali para fazer seu trabalho, que é tradução, não censura.

Butterfly disse...

Sem sombra de dúvida alternativa [a] em todas as questões. Somos tradutores e somos pagos para intermediar e repassar informações e não omití-las.
Abraços

LuBarb disse...

Como eu me conheço bem, faria uma de duas coisas: se fosse tradução de cabine, eu traduziria na hora, mesmo porque nem teria tempo pra pensar muito.
Agora, se fosse consecutiva e eu tivesse essa oportunidade, confirmaria o fato com o orador antes de dar a tradução, mesmo para verificar se não tinha ouvido mal.

Manu disse...

Opção "a", mas fico com o que LuBarb disse: se desse para confirmar com o orador o que foi dito, ou se estivesse evidente o tom de brincadeira, deixaria isso claro para a platéia.

Mas "censurar" ou omitir, jamais!

Norma disse...

Olá, Danilo,

Antes de tudo, congratulo-o pelo senso de oportunidade para uma discussão importante!

Idealmente, eu traduziria tudo e, na plateia, gostaria de ouvir tudo. Assim, A para todas as perguntas. No entanto, digo "idealmente" porque, sendo a tradutora, talvez eu ficasse chocada ou desnorteada demais com o que ouvi, no mínimo abordando o palestrante para confirmar. Por mais que nosso objetivo seja o máximo profissionalismo, há o lado pessoal que devemos levar em conta nessas horas.

Abraços!

Felipe disse...

Concordo com os comentários acima, minha opinião também é A) para todas as questões, numa situação hipotética, ideal. Isso porque, caso minha tradução deixasse dúvidas sobre o conteúdo, seria um escândalo para o orador e um fim de carreira para mim, o que me levaria a pensar duas vezes antes de querer traduzir tudo, a não ser que tivesse o respaldo incondicional do orador.

camilamendes2008 disse...

Danilo,
A minha opção é A em todos os itens. Um tradutor não está ai para julgar, corregir, editar o texto que traduz, ainda mais que nem dá tempo. Como faço interpretação sincronizada (não de cabine)não dá tempo de perguntar ao orador se cometeu um erro. Além do que, o orador é responsável pelas suas palavras, como saber se o outro entende o idioma ou não? Pois muitos fazem de conta exatamente para verificar se o intérprete está traduzindo fielmente.
Abraços,
Irina

Anônimo disse...

Adoraria saber o que o mestre Ulisses nos diria nesse caso...

Danilo Nogueira disse...

O Ulisses de vez em quando nos honra com uma visita. Quem sabe nos honra também com um comentário.

Anônimo disse...

Trabalho só com simultânea, teria que traduzir na bucha, fazendo uma análise relâmpago de contexto, finalidade da mensagem, mil fatores.

Só estando lá para saber se "tentei estuprar" significava isso mesmo ou foi uma maneira mais rude de dizer "se eu pudesse esganava fulano" ou algo parecido. Qual era a expressão facial? O que veio antes nessa discussão? E o intérprete tem certeza a-b-s-o-l-u-t-a que ouviu isso mesmo? E o "concabino" confirmou com um olhar, um gesto ou anotando rapidinho num papel "sim, é isso, prega chumbo"?

Eu já passei uma saia justíssima com, digamos, um "Lula estadual" dizendo barbaridades para uma autoridade estrangeira de uma grossura vergonhosa. Tive que traduzir, mesmo porque ia ser um caos se a "otoridade local" dissesse uma coisa dessas, eu pulasse ou maquiasse, e o estrangeiro, ingenuamente, respondesse "oh que lindo dia de sol" diante de uma platéia atônita.

Na minha modesta opinião, no mundo real, pode ser tudo "a" ou "quase qualquer das opções acima" ou "n.d.a.".

Ah e é sempre bom lembrar que, hoje em dia, só no caso de um idioma muito exótico o intérprete seria a ponte entre o orador e 100% dos ouvintes. Portanto, é muito provável que uma barbaridade chegue à imprensa e manche a imagem do orador via canal direto, alguém que nem ouviu a tradução. E aquela análise relâmpago que eu mencionei leva em conta esta variável.

Raquel Schaitza

Anônimo disse...

Trabalho só com simultânea, teria que traduzir na bucha, fazendo uma análise relâmpago de contexto, finalidade da mensagem, mil fatores.

Só estando lá para saber se "tentei estuprar" significava isso mesmo ou foi uma maneira mais rude de dizer "se eu pudesse esganava fulano" ou algo parecido. Qual era a expressão facial? O que veio antes nessa discussão? E o intérprete tem certeza a-b-s-o-l-u-t-a que ouviu isso mesmo? E o "concabino" confirmou com um olhar, um gesto ou anotando rapidinho num papel "sim, é isso, prega chumbo"?

Eu já passei uma saia justíssima com, digamos, um "Lula estadual" dizendo barbaridades para uma autoridade estrangeira de uma grossura vergonhosa. Tive que traduzir, mesmo porque ia ser um caos se a "otoridade local" dissesse uma coisa dessas, eu pulasse ou maquiasse, e o estrangeiro, ingenuamente, respondesse "oh que lindo dia de sol" diante de uma platéia atônita.

Na minha modesta opinião, no mundo real, pode ser tudo "a" ou "quase qualquer das opções acima" ou "n.d.a.".

Ah e é sempre bom lembrar que, hoje em dia, só no caso de um idioma muito exótico o intérprete seria a ponte entre o orador e 100% dos ouvintes. Portanto, é muito provável que uma barbaridade chegue à imprensa e manche a imagem do orador via canal direto, alguém que nem ouviu a tradução. E aquela análise relâmpago que eu mencionei leva em conta esta variável.

Raquel Schaitza

Julia disse...

Concordo com a Raquel, acima. As variáveis são muitas. Mas a princípio, minha resposta para a primeira pergunta é "a" e para a segunda é "b" se eu realmente julgasse que era piada, porque nem sempre isso fica claro na interpretação simultânea. Por melhor ator que seja o intérprete, não dá tempo de escolher muito as palavras, sem contar as possíveis incompatibilidades culturais para piadas.

FMT disse...

Por uma questão de princípio, (A) para todas as alternativas. Até porque o orador em questão ficaria também meio desnorteado se dissesse uma coisa para chocar a plateia e o público continuasse olhando para ele sem esboçar nenhuma reação.

Mas naturalmente que é preciso ter certeza do que se ouviu e de que vai se passar a mensagem adequadamente.

Como por exemplo quando o presidente do Palmeiras disse "Vamo matar os bambi" (sic), que veio à tona semana passada. Diz ele, em sua defesa, que quis dizer no sentido de demolir, passar por cima, golear. E aí? Na hora, vai um "knock out" ou um "kill" mesmo? E como traduzir bambi, assim, na lata? (Não sou intérprete, sou tradutor; mas ainda assim acho que teria bastantes problemas.)

Renato Motta disse...

Imaginem a cena: Todo mundo lá, o orador diz alguma coisa que diverte as pessoas da sala(ou escandaliza ou choca, não importa). O estrangeiro espera ansiosamente pelo intérprete, porque ele também quer rir (ou se escandalizar, ou se chocar). Ele confia no profissional. Mas o intérprete "pula" essa informação fundamental, não a traduz, não a interpreta.

Pronto! Acabou-se a confiança. Uma das piores coisas que podem acontecer em nossa profissão é o cliente de um intérprete ou o leitor de um livro se sentir enganado e perder a confiança no que lê ou ouve.

Nós criamos vínculos, construímos pontes. Se esse vínculo se rompe, se a ponte desaba, é um apagão profissional.

Minha resposta é (A) para todas as questões.

Anônimo disse...

Acho que o blog tá se enchendo da "parpiteira militante". Estão acontecendo umas coisas misteriosas quando eu comento, dá erro, empaca tudo...

Bem, eu estava alheia a essa história, mas com o adendo à postagem original, se não havia dúvida alguma, é traduzir e pronto!

Como diz minha sócia Eliana Stabile, que o Danilo bem conhece, "a que cargas vou criar um problema para mim tentando resolver o problema do outro (Lula, no caso)?"

E, como salientou o Renato, confiança é (quase) tudo em interpretação. Já vi crítica a intérprete correto que transmite insegurança, hesita, se corrige, demora para articular a frase. E já vi elogio a mau intérprete que diz besteira com segurança e firmeza invejáveis.

Raquel Schaitza

Danilo Nogueira disse...

Não seja bobona, Raquel. A Kelli é tua fã número dois, porque o fã número um sou eu. Queria que houvesse mais palpiteiros constantes com o teu calibre e experiência.

Anônimo disse...

Fã,

UAU, se cada "parpite" render um elogio assim, agora vocês não vão me aguentar! :-)

Assinado: Fã

Anônimo disse...

Lamento não poder opinar. Não vejo como encarar essa questão (ou qualquer outra) sem contextualizar, nem observar os aspectos políticos.
Estabilidade do país, liberdade de imprensa, pluralidade de opiniões na imprensa são relevantes.
Se uma declaração infeliz puder levar a uma coisa grave, algo como um ato de terrorismo ou uma guerra civil, vocês todos manteriam o A?

Danilo Nogueira disse...

Bom, você já deu uma opinião. E bem interessante, aliás.