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sábado, 19 de maio de 2007

Medo

É a primeira tradução e a moça está apavorada. Bom, é a lei da selva: matou, tem que comer. Queria ser tradutora, agora é.

Não é uma situação fácil. O ideal seria ter um mentor, ao seu lado e começar a traduzir com a ajuda de alguém mais experiente, ou fazendo "as partes mais simples", como se faz em tantas profissões. Mas, na tradução, não tem jeito. Seria antieconômico. Seria impossível, por exemplo, para mim, ficar olhando um novato traduzir, orientar, elogiar, criticr, dar palpite e quetais. Também seria difícil separar os trechos mais simples de uma tradução, mandar para um novato e, como faziam os pintores, ficar eu com "o drapejado". Você tem que sentar e traduzir tudinho, de cabo a rabo.

Talvez, se você tiver sorte, seu serviço vai passar por um revisor inteligente (alguns são, outros não são). Se você tiver mais sorte ainda, vão tem mostrar as alterações do revisor, para que você tome ciência delas e não caia em pecado de novo. Dificilmente alguém vai te explicar por que o revisor alterou. No máximo, vão te dizer que "desse jeito fica melhor", muitas vezes com aquele olharzinho de superioridade que dá uma vontade enorme de encher o revisor de bofetada. Muitas vezes, o revisor não diz por que alterou, porque nem ele sabe. É tudo muito empírico, embora não precise ser: tradução não é ciência exata, mas tem lá suas formulazinhas.

O teu companheiro mais constante é o medo, não o revisor nem as minhas fórmulas. O medo, em si, não é problema. Durante muitos anos, fui fã da frase famosa de Franklin D. Roosevelt: você nada tem a temer salvo o próprio temor. Entretanto, um dia um analista jungiano me disse que o que importa não são as emoções, mas sim o que você faz delas. Se você está com medo e consegue transformar esse medo em cuidado, naquilo que minha mãe chamava "capricho no trabalho", está no lucro.

Eu, até hoje, sinto o bendito friozinho na barriga. Sei lá, tem tanta coisa que não sei! Já fiz tanta besteira! Mas esse medinho me faz mais cuidadoso. O pior inimigo do veterano é o excesso de autoconfiança: já traduziu mais de 50.000 laudas na vida, é só mais uma, entra em piloto automático e vai sapecando uma frase atrás da outra, cheio de confiança na sua experiência e continua dizendo as mesmas bobagens que dizia há vinte anos. Perdeu o medo, perdeu a autocrítica.

Quer dizer, se isso te consola, minha amiga, pior que o medo é a falta de medo.

Volte amanhã, que tem mais. Se gostou deste blog, divulgue. Se não gostou, escreva dizendo o que achou errado, que paulada também é cultura. Aproveite para dar uma olhada nos cursos a distância via Aulavox. Sábado que vem, tem Trados. Não deixe para a última hora. Só pdoemos receber inscrições até quinta-feira, por motivos operacionais.





Um comentário:

Renata disse...

É verdade, pior que ter medo é não ter medo algum. Isso me consolou sim, Danilo!
Acho que em profissão nenhuma se trabalha sempre nas condições ideais, né?