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sábado, 24 de outubro de 2009

Edição Extra: Quanto mais Mexe, mais Fede

Acho impossível que você não conheça a Denise, que mantém um blogue chamado Não Gosto de Plágio, que está deixando algumas editoras botocudas à beira de um ataque de histeria. O passatempo — ou talvez compulsão — da Denise é descobrir plágios tradutórios. Para entender melhor a coisa, visite o blogue dela, uma inacreditável coleção de informações corretíssimas e incríveis.

Vou falar aqui só da última que ela aprontou, porque tenho uma participação secundária na encrenca e porque me fez rir muito.

A Denise tuitou que a Madras tinha republicado uma tradução de A Origem das Espécies de Charles Darwin. A tradução era atribuída a Caroline Kazue Ramos Furukawa e que ela, (a Denise, não a Caroline Furukawa, que talvez nem exista), descobriu que o texto era copiado de uma publicação da Lello, datada de 1913 e assinada por Joaquim Dá Mesquita Paul, que pode ter existido ou não, sabe-se lá. O mesmo texto tinha já sido publicado pela Hemus e pela Ediouro em várias ocasiões. As "traduções" brasileiras trazem algumas alterações, para descaracterizar, mas o texto é obviamente o mesmo.

Como é que podemos dizer que duas traduções diferentes podem ser plagiadas uma da outra? Existem dois meios clássicos, o primeiro deles sendo a comparação da estrutura dos períodos. É fácil notar que alguém pegou a tradução feita em Portugal e foi trocando uma palavra cá e outra lá por um sinônimo:

Joaquim Dá Mesquita Paul (1913):
O exame rápido de alguns casos observados nos animais domésticos permitir-nos-á estabelecer a possibilidade ou mesmo a probabilidade de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado de natureza.

Caroline Kazue Ramos Furukawa (2009):
O exame rápido de alguns casos constatados nos animais domésticos nos permitirá estabelecer a possibilidade, ou mesmo a probabilidade, de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado natural.

Veja que "observados" foi trocado por "constatados" e mais umas coisinhas aqui ou lá. Talvez até coisa que o próprio tradutor pudesse ter feito — se lhe tivesse sido dada a possibilidade de reler seu texto. Mas, se você pegar o original e der a dois tradutores, pode apostar que nunca sairiam duas traduções assim.

Mas o segundo meio de detectar o plágio é bem mais eficaz: pelos erros comuns. Se duas traduções repetem os mesmos erros, uma é plágio da outra. Não é a coincidência de uma falha ou duas, mas sim de várias e as duas traduções andam de mãos dadas nos índices de falta de qualidade.

A Denise, que, como eu, acredita que só se pode aquilatar a qualidade de uma tradução mediante comparação, foi procurar o que dizia Darwin e notou, admirada, que "duck" sempre saia como "canário", fato que aponta no blogue dela.

Quando li, logo suspeitei que a tradução da Lello tivesse sido feita do francês. Em francês, "pato" de diz "cannard". Recapitulando, fica mais ou menos assim: Darwin escreveu "duck", o tradutor francês botou lá "cannard", que é corretíssimo, mas o tradutor da Lello pensava que "cannard" significava "canário" e mandou ver. E a Hemus, Ediouro e Madras ajudaram a propagar a besteira.

Mais tarde, apareceu no blogue a Ivone Benedetti e apontou mais uns indícios de que a tradução inicial tinha sido feita de um texto francês. A Denise deu uma sherlockada a mais e encontrou o texto francês de que o português foi traduzido.

Quer dizer, quanto mais mexe, mais fede.

Espero que você tenha se divertido tanto quanto eu.

6 comentários:

denise disse...

que bom que vc explica a questão das estruturas de frase! os raríssimos casos de plágio que vi em que o maquiador tentou mexer na estrutura resultaram em coisas hilariamente ininteligíveis.

o dá mesquita paul era médico e professor, há alguns artigos dele na "revista de guimarães", desde o final do século XIX.
http://www.archive.org/stream/revistadeguimar11soci/revistadeguimar11soci_djvu.txt

Petê Rissatti disse...

A Denise e seus belos achados são uma contribuição deliciosa e pertinente para a nossa classe.

Anônimo disse...

Eu não tenho nada a dizer sobre o plágio, mas sim sobre o livro, tenho planos de ler este um dia, quem sabe. Sou bióloga, e já li muito sobre o Darwin, mas não os seus livros...

Danilo Nogueira disse...

Então, não leia essa tradução. Se o cara confunde pato com canário, imagina as outras coisas esquisitas que há lá.

Rafael de Tasso Almada Picardi disse...

Olá Danilo, um prazer ler vocês comentarem sobre o absurdo dessa tradução do Origem que é muito difundida no Brasil e sempre me indignou.
Por exemplo, olhem o que eles fizeram com o último parágrafo do livro, considerado por muitos uma das mais belas sentenças da literatura:
"There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved."
Foi traduzido por:"Não há uma
verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes
diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de
formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à
lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de
belas e admiráveis formas, saídas de um começo tão simples, não têm cessado
de se desenvolver e desenvolvem-se ainda!"

É mole ou que mais?!?!
abraços.

Youssef disse...

Acabei de começar a ler esta edição traduzida da Madras. O título do prefácio me chamou atenção: "NOTÍCIA histórica". Fiquei na dúvida, e não sei se estou certo, mas em inglês seria "Historical sketch (esboço)". Logo em seguida, na página 12, li que o Prf. Grant em 1826 (OITOCENTOS) declarou uma opinião a respeito da origem das espécies e que esta mesma opinião foi publicada na The Lancet em 1934 (NOVECENTOS), ou seja, cento e oito anos depois. Resolvi procurar o nome da tradutora no google depois de ler na página 13: "...e, na minha opinião, prestou serviços despertando a atenção para o assunto, combatendo os PREJUÍZOS e...". Imagino que o certo seria PRECONCEITOS. Posso estar enganado, mas não ser se vale a pena continuar a leitura...