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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Lado Feminino da Tradução

Antes de voltar aos calotes — assunto sempre fértil, aqui — deixa fazer uma observação sobre as mulheres. Gente, como tem mulher tradutora! Nos encontros de tradutores, geralmente temos 90% de mulheres. Uma barbaridade.

Houve uma fase em que três membros da diretoria do sindicato (que tem quatro membros ao todo) eram mulheres. Um dia, ou o Sintra ou a Abrates vão ter de criar um "departamento masculino" para acomodar os membros do sexo barbado.

Sempre houve muitas mulheres traduzindo. Como as oportunidades de trabalho para as mulheres eram muito poucas, principalmente para as mulheres mais instruídas, que não iam se sujeitar a trabalhar em tecelagam ou como domésticas, quem não se sentia bem como professora, tendia a traduzir.

Houve uma época em que uma mulher de família, se casada, adminsitrava a casa da melhor maneira possível, mas não se envolvia em ganhar dinheiro. Entre as boas famílias, saber quanto ganhava o marido era considerado algo indecente para uma mulher. As solteiras, limitavam-se a esperar marido ou fazer algo na igreja. Era isso, ou ser professora — ou tradutora.

Como em todo lugar, a competência dessas tradutoras variava de altíssima a quase nula, mas, nisso, estavam par a par com os homens. O problema era que muitas das mulheres eram esposas ou filhas de homens bem-ganhantes e não faziam a menor questão de lutar por uma remuneração melhor. Peguei o fim dessa era e cheguei a conversar com uma mulher que dizia "Graças a Deus, meu marido ganha muito bem e, graças a Deus, eu não preciso ganhar dinheiro e, graças a Deus, posso aceitar qualquer serviço e, graças a Deus, não me falta o que fazer". Dizia isso com uma arrogância única, como se fosse superior a todos nós, ali, que tínhamos de dar um duro danado para sobreviver. Não se dava conta de que ela estava subsidiando o setor editorial com o salário do marido e prejudicando a todos nós com uma concorrência desleal e, além de tudo, dificultando a criação de uma profissão de traduzir, porque não se cria uma profissão enquanto houver a turma que trabalha por qualquer preço.

Ainda bem que esse tipo de pessoa praticamente desapaeceu. O lado feminino da profissão se profissionalizou inteiramente e exige remuneração igual à dos homens, no que estão muito certas. E mesmo aquelas que fizerm um bom casamento (ou um bom divórcio), fazem questão de cobrar o mais que puderem. Há anos não ouço uma que diga "Graças a Deus, não preciso disso e trabalho por qualquer preço".

Graças a Deus, digo eu, embora seja agnóstico.

10 comentários:

Lorena Leandro disse...

Ninguém no mundo, em qualquer que seja a profissão, merece ganhar um salário de miséria, principalmente se ele for resultado de concorrências como a dessa senhora! É por isso que, ainda hoje, ouvimos que qualquer um pode traduzir! Quando decidi que queria fazer Tradução como curso superior, muitas pessoas me disseram: "Nossa, pra que um diploma de tradução se todo mundo/qualquer um fala inglês"? É triste ter que lidar com esses comentários e com um mercado que aceita o "todo mundo" e o "qualquer um"...

Petê Rissatti disse...

Concordo com a Lorena quanto à ignorância das pessoas no que diz respeito à nossa profissão. Porém, isso não deve ser uma grande preocupação, pois o mercado tem provado que quem é bom e competente fica, quem acha que "todo mundo" fala inglês e traduz e eu vou nessa, sai.

denise disse...

interessante. de fato eu tinha notado o alto percentual feminino-tradutório, aliás bem maior nas últimas décadas do que na primeira metade do século XX. mas sem dúvida o fato de se poder fazer tradução em casa facilitava bastante a dupla jornada feminina, a casa e o trabalho.

denise disse...

interessante.
de fato eu tinha notado o alto percentual feminino-tradutório, aliás bem maior nas últimas décadas do que na primeira metade do século XX. mas, sem dúvida, o fato de se poder fazer tradução em casa deve ter facilitado a vida da mulher com dupla jornada de trabalho, o doméstico e o profissional.

Danilo Nogueira disse...

Ah, Denise, nós nunca vamos saber quantas mulheres trabalhavam como tradutoras mas tinham seu serviço apresentado como feito por um homem.

Lorena Leandro disse...

Petê, é verdade. Não dá mesmo para ficar se preocupando... Às vezes eu tenho uns momentos de revolta com isso, mas acho que é porque gosto tanto e dou tanto valor para a tradução que acabo sofrendo em ver certas coisas!
Danilo, você acha que na nossa área isso acontecia com muita frequência (homens dizendo que fizeram trabalho de uma mulher)?

denise disse...

e ainda mais essa! mulher sofre!

Gemma Nadal disse...

Tem muita razão, Danilo, mas eu também conheci --e conheço-- homens que não são profissionais da tradução (professores, funcionários públicos, etc.) que aceitam tarifas ridículas (e até fazem de graça) pela vaidade de dizer que já traduziram algum livro. Não é um problema exclusivamente feminino.

Danilo Nogueira disse...

Acho que não me fiz claro, Gemma. O que você disse é bem verdade, mas o problema a que eu me referia era outro. Como em outras eras, era "feio" para uma senhora se preocupar em "ganhar dinheiro", porque isso era "coisa de homem" e, além disso, as mulheres fossem consideradas "seres inferiores, incapazes de trabalho intelectual sério" é bem possível que tradutoras se fizessem passar por homem para poder sobreviver.

Não era uma crítica, mas sim um lamento pela imbecilidade de nosso mundo.

Daniel Estill disse...

Na verdade verdadeira, qualquer um pode traduzir, assim como qualquer um pode cozinhar. Não viram o filme Ratatouille? Também qualquer um pode jogar futebol e assim por diante.

Já, profissionalizar-se em qualquer uma dessas atividades é outra conversa.