Toda segunda-feira, nossa colega Luciana Carvalho, que também é advogada e professora, publica um breve texto sobre inglês jurídico numa seção chamada "Migalaw English", no Migalhas, um site devotado ao direito. Vale a pena ler. Ainda está começando e, creio eu, quando ela pegar engreno, vai sair até faisca. Vi a Luciana em ação no segundo congresso da ABRATES e fiquei impressionado. Clique aqui para ler um dos artigos dela.
terça-feira, 18 de março de 2008
Resposta a uma mensagem de principiante
… estava começando minha carreira… e tinha muitas frustrações por não ser considerada tradutora pela minha inexperiência. Depois… comecei a trabalhar aqui e ali…
… hoje estou mais inclinada a desistir da carreira. Pode ser que aconteça um milagre e surja uma oportunidade legal que realmente pague minhas poucas contas, mas por enquanto, se quero construir minha independência definitiva, a tradução não me dá espaço.
.… vivo adiando essa decisão de largar a carreira.… quero ter minha vida, me estabilizar o mínimo possível pra ter meu cantinho... É natural, não? E a tradução já provou que é sempre "pingada". Tem trabalho mês sim, mês não. E como as contas vêm sempre "mês sim"...
…quis desabafar algo que queria há muito falar com você. Saber o que você acha disso tudo. Se você já passou por isso, como superou... Enfim, uma ajuda para eu definir o que farei daqui pra frente.
Vamos dizer que a autora da mensagem que me chegou ontem se chame Cláudia. Não se chama, e é por isso que a estou chamando assim aqui. Há que preservar a privacidade do pessoal que escreve. Bom, Cláudia, a sua mensagem não é excepcional. Como você há muita gente.
Há uma diferença entre aprender a traduzir e viver de traduzir. Há poucos empregos de tradutor e a maioria de nós, incluindo eu, trabalha por conta própria. Trabalhar por conta própria exige umas tantas habilidades que não se aprendem na faculdade nem nos livrinhos do Venuti. Exige, por exemplo, investir muito tempo na busca de serviço. No início, esse investimento é enorme; cai, com o tempo, mas jamais chega a zero. Até hoje gasto um bom tempo trabalhando o mercado. Não falta serviço, pelo menos do meu lado, mas fico procurando coisa melhor, porque melhorar é preciso. A maioria de nós detesta esse tipo de tarefa, muitos jamais aprendem. Esse, aparentemente, é o seu ponto fraco.
Já passei por épocas terríveis, também. Era casado, aluguel atrasado, geladeira vazia, roupas precisando substituição. Muitas vezes, o único pão que havia era o que o diabo tinha amassado. Tinha muito poucas opções e resolvi insistir. Deu certo e hoje, se não vivo como um nababo, também não posso dizer que viva mal.
Lamentavelmente, não tenho uma receitinha para conseguir serviço. O sucesso profissional, como diria o Maquiavel, é feito de virtù e fortuna, ou, como talvez disséssemos atualmente, de fatores internos e externos.
Do lado virtù, você escreve bem e, creio, deve ter pelo menos a competência fundamental para se tornar uma boa profissional da tradução, o que já é um bom e largo passo dado. Mas te falta a habilidade de conseguir serviço. Esta, entretanto, está indissoluvelmente vinculada à fortuna, quer dizer, aos imprevistos da vida, Cláudia. E são tantos, que não dá para botar numa receitinha.
O que te posso dizer, a guisa de conselho? Se você tem uma opção, já está melhor que eu, que não tinha nenhuma, e isso deve te dar uma segurança maior: na pior das hipóteses, você vai ser recepcionista e refaz a carreira daí. Isso é ótimo, o ter o Plano B. Eu até digo que ter um bom Plano B é mais importante que ter um bom Plano A.
Mas o Plano A é, realmente, ser tradutora, certo? Então comece dando a você um prazo: ou me estabilizo até o mês tal, ou parto para o Plano B. O prazo, evidentemente, depende de como você consegue manejar as suas contas. Durante esse prazo, participe ativamente de todas as atividades de tradutores. Não só da comunidade do Orkut, mas também das listas do Yahoo. Acompanhe as discussões, candidate-se a todas as ofertas de serviço. Inscreva-se no translatorscafe.com, no ProZ e em tudo quanto for canto de onde possam sair ofertas de serviço. Faça as inscrições grátis. Tem gente que diz que a inscrição paga do ProZ vale a pena, mas acho bom começar pela grátis. E rale, claro; rale até os dedos sangrarem.
Raros são os serviços bons saídos dessas inscrições. Costuma ser muita carne de pescoço. Mas é por aí que se começa. Serviço bom vai para as mãos de quem já provou que sabe, porque ninguém quer arriscar uma desconhecida para traçar um filé.
Por outro lado, tem muita gente que, depois de uns anos do "Plano B" e com uma vida mais estabilizada, resolve atacar a tradução de novo e se sai bem. Nunca se sabe.
Você diz, num dos trechos de sua mensagem que apaguei, que freqüenta aqui o blog. Por isso, provavelmente não precisa da informação, mas os outros novatos que caírem de pára-quedas na mensagem talvez precisem: onde diz "pesquisar blog", lá em cima, digite "iniciantes" e veja o que eu já disse sobre o assunto. Depois, repita com "principiantes". Tem coisas a dar com pau.
Finalmente, um abraço e boa sorte. Eu sei como você se sente, porque já passei por tudo isso. Agüentei o tranco e não me arrependo.
segunda-feira, 17 de março de 2008
Seguinte: o preço da vaca é cento e vinte
Recebi um convite para participar de uma licitação do tipo menor preço. Quer dizer, convidaram umas quantas pessoas, cada uma dá sua cotação, quem cobrar menos leva.
Não vou apresentar proposta: não participo de licitações em que o único critério para decisão é o preço e acabou a história.
É mediante convite, está bem, já melhora um pouco. Dizem que só convidaram gente boa. Pode ser, mas essa coisa de menor preço, sabe, abre o envelope e diz Alfa: R$ 10,00; Beta: R$ 9,00; Gama: R$ 8.00. Gama ganha, não me desce bem.
A proposta não deve dizer nada mais que Seguinte, o preço da vaca é cento e vinte. Não vai falar nada de métodos de controle de qualidade, de tratamento das emendas ao texto de partida (que certamente vão surgir, porque é um texto dinâmico, sujeito a alterações antes de estar terminada a tradução), de como vão ser tratadas as sugestões do cliente, de preparação de glossários, de nada. Só preço: Seguinte, o preço da vaca é cento e vinte. Não fala de prazo de entrega, de forma de entrega, de apresentação, de nada que não seja Seguinte, o preço da vaca é cento e vinte. Todo o resto, a gente vê depois. Quanto você cobra?
Diz lá o convite, a folhas tantas, que o vencedor se compromete a executar o serviço e entregar o material de acordo com as especificações fornecidas pelo [CLIENTE]. Agora, ainda que mal pergunte, como raio vou cotar preço primeiro e ver as especificações depois? E se o cliente quiser algo que eu ache absurdo ou completamente em desacordo com o preço cotado?
A gente está sempre reclamando dessas coisas e há muito pouco que possamos fazer: se o cliente pensa assim, que pense, direito dele, mas eu não me meto nessa. Agradeço o convite e tal, mas não vou apresentar proposta.
Não faltará quem apresente. Não há nada que eu possa fazer quanto a isso: cada um é cada um, cada um tem seus problemas. Mas eu simplesmente me nego a participar dessas coisas. Para minha felicidade, já não preciso correr atrás de todos os serviços que me aparecem pela frente. Essa situação privilegiada me confere a obrigação, perante meus colegas, de não me candidatar a certos serviços. Há certas obrigações que é um prazer cumprir.
(Dois artigos num dia só. Estou inspirado, hoje.)Catástrofes tradutórias
Catástrofes profissionais raramente têm um só motivo. É uma porção de coisas que se junta.
Começou com o efeito conjunto de vários serviços complicados que foram comendo a folga que mantenho para desgraças em geral: meia hora aqui, uma hora lá, e a folga se foi. Estava, então apertado, justo.
Dava para fazer o serviço, se tudo desse certo, mas uma porção de coisas deu errado. Não estou me justificando: profissional tem que trabalhar direito e, quando as coisas dão errado, azar meu, não tem nada que ficar se justificando. Mas, embora nem tudo tenha uma justificativa, tudo tem uma explicação: justificativas exoneram da culpa, explicações, quando muito, indicam o caminho para evitar a repetição do erro.
Além de problemas extraprofissionais, coisas do tipo fadiga aqui e doença lá, interrupções e mais mil coisas, houve os estritamente profissionais: arquivos esquisitíssimos, digitados por gente que não conhecia MSWord e que deram um trabalhão, porque programas de memória de tradução, que meu contrato me obrigava a usar, nem sempre perdoam textos digitados por incompetentes. Arrumei o texto, mas o arquivo ficou muito pesado e nem Trados nem WF davam conta. Simplifiquei a diagramação, de modo a poder trabalhar, para depois arrumar de novo. Tudo isso leva tempo – e o tempo não dá marcha a ré.
Para finalizar, acho que eu estava num dia triplo negativo, como se dizia no tempo em que falar em biorritimo era moda, um daqueles dias em que teria sido melhor ficar na cama, quietinho e quentinho, em vez de me meter a tradutor.
Para encurtar a história: a tradução saiu uma porcaria, fato que a revisora, amiga de muitos anos, mas que nunca tinha feito uma revisão de texto meu, não deixou de me apontar, aliás, com toda a razão. Numa das mensagens, manifestou sua surpresa e decepção por ver uma tradução tão mal feita saindo da minha mão.
A bem dizer, nada de admirar: não existem bons tradutores, existem boas traduções. Qualquer um de nós, por experiente e capaz que seja, pode ter um mau momento, seja lá por que motivo for, e fazer uma meleca tradutória de terceiro grau com cobertura de patê de lacraia. Ninguém está livre disso, muito menos eu. Por isso, contratar um tradutor experiente aumenta as probabilidades de se receber uma boa tradução, mas não garante nada. Tradução é como pudim: a gente sabe se ficou bom só quando prova.
Esses maus momentos devem sempre levar a reflexão e medidas corretivas. Não adianta ficar histérico e começar a gritar – Eu tenho X anos de experiência, fiz isto, aquilo e aquele outro!Sou isto e mais aquilo! Quem é você para me criticar? – todos nós, de vez em quando, fazemos uma grande besteira, por que iria eu ser a exceção? Se começar a acontecer muito, está na hora de tirar o time de campo, claro.
E só agora, quando a fervura baixou, é que, examinando o serviço que mandei para a revisora, vi a extensão do problema. De fato, eta serviço porco, meu São Jerônimo! Mas, quando entreguei, parecia até que direitinho. Não brilhante, mas bonzinho. Quer dizer, ninguém é bom juiz de sua própria obra – pelo menos no momento em que a termina. Um tempo depois, ainda pode ser. Mas na hora que terminou, acha que está uma beleza e entrega com o peito estufado de orgulho. Por isso é sempre bom alguém examinar o documento, seja com o propósito específico de revisar, seja simplesmente para ver se está bom. Às vezes, não está.
domingo, 16 de março de 2008
Os prazos curtos, de novo
O problema dos prazos curtos é que não deixam ensancha (*) para resolver problemas. Quando tudo dá certo, ótimo; quando temos um problema, a coisa complica. E, muitas vezes, o serviço vai indo bonitinho, dentro do cronograma e, quando falta meia hora para entregar, surge uma encrenca qualquer. Pode ser problema de computador, pode ser arquivo bichado, pode ser texto enrolado, termo desconhecido, empastelamento (**), quebranto, espinhela caída, bucho virado, o diabo. Mas em meia hora não dá para resolver.
Nos tempos de editora, era mais simples, porque eu corria como doido para entregar o serviço antes do prazo e sempre sobrava uma folguinha para fazer a limpeza final. Com as coisas que faço agora, servicinhos que chegam de manhã e vão embora de tarde, é muito complicado.
Então, a gente reza, reza para as duas santas às quais temos de recorrer, porque São Jerônimo, nessa hora, não serve de muito: Nossa Senhora da Última Hora e Santa Maria do Último Dia. Costumam resolver, mas às vezes o rolo é grande demais. Então, dá meleca.
O pior é que as complicações tendem a vir
Lá pelas tantas, você faz alguma bobagem grossa. E aí, danou. Aí, o cliente que te pediu de joelhos para aceitar o serviço naquele prazo exíguo, porque só você poderia fazer, lembra, altivo, que foi você quem aceitou e, portanto, tinha obrigação de fazer direito.
O melhor, mesmo, é recusar. Ser realista, lembrar que "encaixar" mais este servicinho vai colocar você na zona de alto risco, que você já está exausto, que já não está mais distinguindo a natureza da selva da Ana Teresa da Silva, nem a testa do médico do atestado médico, e dizer não.
Lamentavelmente, de vez em quando a gente se atrapalha, principalmente quando faz muitos pequenos serviços. Se confunde e acaba aceitando alguma coisa a mais do que deveria, no momento em que já estava absolutamente superlotado. E se essa "alguma coisa" der problema, a catástrofe é certa. No próximo artigo, conto uma catástrofe que aconteceu comigo.
(*) Fala a verdade, ensancha é uma palavrinha porreta, não?
(**) Empastelado é um termo que está desaparecendo. Diz-se do texto que ficou bagunçado na composição (atualmente na editoração eletrônica) e, por isso, perdeu o sentido.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Prazos apertados
Tem aí em baixo um comentário da Camilinha dizendo que na área dela é tudo para ontem. Não duvido nem me surpreende. O que me surpreende é ela achar que o para ontem é peculiar a área dela.
Todo serviço de tradução é para ontem. Até as editoras, atualmente, têm prazos apertados, embora ninguém peça a tradução de um livro de 100.000 palavras para hoje de tarde. Ainda não chegaram a tanto.
Só duas vezes na minha vida de tradutor (e olha que já se vão 37 anos) recebi serviços que não eram urgentes. Um deles, jamais foi feito; o outro, o cliente me cobrou depois de 48 horas. Uma vez, recebi um fax dizendo precisamos desta tradução impreterivelmente até 14 horas. Mas o fax tinha sido enviado às 15 horas. Lamentavelmente, perdi essa jóia.
Traduzo notícias financeiras e o serviço é feito por uma equipe de uma meia dúzia de tradutores, que trabalham com a mesma memória de tradução. Quem pegar primeiro, faz. O texto em inglês sai num dia, a gente traduz e vai para a revisão e, depois, para a editoração eletrônica. Tenho a impressão de que é distribuído aos leitores no dia seguinte.
Por que toda tradução é urgente?
Primeiro porque todo serviço, por natureza, é urgente: a gente não leva o carro ao mecânico e diz olha, fica aí, você dá uma olhada quando tiver tempo. Nem diz para o encanador tem um entupimento aqui, quando sobrar um dia aí no teu calendário, vem ver para mim.
Segundo, que a tradução é um dos últimos elos de qualquer cadeia: primeiro você levanta os fatos, depois discute, faz isto, aquilo e, por fim, o relatório que vai ter de ser traduzido. Em cada estágio, há um atraso e, quando chega na nossa mão o serviço, espera-se que tiremos todo o atraso.
Por fim, tem o fato de que pedir urgência não custa nada. Dizer que precisa para ontem, não custa nada. Por isso a turma pede. Durante muito tempo, cobrei taxa de urgência. Quer para amanhã? Dez. Para depois de amanhã? Oito. Depois, acabei embutindo a taxa de urgência no preço. Ou dá para fazer, ou não dá – e acabou a história.
A gente precisa se acostumar a lidar com isso. Mas, de vez em quando, dá meleca. Vamos ver se consigo contar uma história de meleca amanhã.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Prazos - respondendo o recacadinho da Raquel
Não é assim que funciona, claro. Nós dormimos, comemos e temos outros compromissos. Já que tantas vezes trabalhamos nos fins de semana, coisas como supermercado e até uma volta no shopping para espairecer ficam para o meio da semana. Tem também médico, mãe doente, filho na escola, carro no mecânico e mais mil coisas. Não estamos acorrentados ao computador como dizem que certos soldados foram acorrentados às suas metralhadoras na segunda guerra mundial.
Finalmente, tem também os outros serviços, claro. O cliente te manda cinco laudas e diz, pelo amor de Deus, você não precisa de mais de duas horas para fazer isso. Mas o fato é que você, totalmente lotado, não tem duas horas de jeito nenhum. E o serviço de duas horas precisa de dois dias.
O cliente se irrita – ou faz de contra que se irrita – mas é assim mesmo. Você chama o encanador e ele diz só posso ir depois de amanhã, estou no meio de outro serviço e não posso largar vala aberta e esgoto entupido. Se ele disser isso e realmente vier depois de amanhã, ótimo. O duro é quando diz que vem depois de amanhã e desaparece para sempre na voragem dos tempos.
Ao cotar o prazo, estava, simplesmente, frisando o fato de que a gente só começa quando o cliente aprova o orçamento e pensando na pessoa cuja consulta tinha dado origem ao artigo, uma principiante com zero de serviço. Mas deveria ter sido mais específico. Do lado positivo, temos que a minha falha engendrou um recadinho da Raquel.
Mas, ainda que mal pergunte, como cotar prazos, então? Pode ser do jeito que a Raquel sugeriu, mas eu não gosto, porque meus clientes não costumam aprovar sem ter uma idéia de prazo. Quer dizer, ficamos andando em círculos.
O que eu costumo fazer é dizer algo assim: Esta cotação é válida por trinta dias. O prazo de entrega varia de acordo com a minha carga de trabalho no momento em que a aprovação for recebida. Se for recebida até o fim do expediente de hoje, o prazo será de X dias. Ai o cliente escreve dizendo preciso de três dias para aprovar. E eu respondo sem problema, mas não posso passar três dias recusando serviço enquanto vocês decidem se vão fazer o serviço comigo ou com outro. Nesses três dias pode aparecer um serviço enorme, que inviabilize esse prazo e não posso recusar. Essas coisas mudam de minuto
Também nós temos nossos meiozinhos de pressão.
terça-feira, 11 de março de 2008
Combinar, a gente combina antes
Já faz tempo que não encontro o Tércio. O Tércio tem trauma de tradução. Há muitos anos, quando nós dois andávamos desempregados, alguém pediu a ele uma tradução. Você faz para mim? Eu não sei nada de inglês. Depois você me diz quanto é.
O Tércio tinha coçado a cabeça para determinar o preço. Pesou e mediu mil fatores, até que chegou a um valor que lhe pareceu justo.
Não me lembro quanto era e nem faz diferença, porque era ainda coisa de cruzeiros e ninguém mais sabe o que isso significa. Mas ele deu lá o preço dele e o amigo respondeu, na lata: Muito caro, não quero. Virou as costas e foi embora, deixando o coitado do Tércio com a tradução na mão e se sentido um perfeito idiota.
Tinha cometido um erro fatal, que muitos iniciantes cometem. Muitos de nós, principalmente os principiantes, se sentem constrangidos quando temos de cotar preço é adiamos a hora o máximo. Quando você entrega o serviço, não tem mais como adiar: aí precisa dizer mesmo. E, por mais justo ou camarada que você considere o preço, quem pediu pode achar um absurdo, um roubo. Ou pode achar que, para ele, não compensa.
Então, a gente combina. Combinar, combina-se antes, quer dizer, antes de começar. Não se pode combinar depois de pronto. Primeiro combina, quer dizer, você diz quanto vai custar e o cliente diz que concorda em pagar, e, depois, você começa.
Jamais traduza uma linha, uma que seja, sem antes ter a aprovação do cliente para o preço. Se for pessoa física, diga que vai dar uma olhada no serviço em casa e passa a cotação via e-mail. E escreva uma mensagenzinha assim Oi, Beta, a tradução das páginas 10-17 do livro "Teeth -Brushing Techniques for Quadriplegic Hens" vai custar R$ X, que eu espero receber contra a entrega da tradução. Entrego a tradução pronta 10 dias depois de você me responder este e-mail dizendo que está de acordo com o preço. Obrigado pelo interesse pelos meus serviços e um beijo.
Quanto mais amigo, bacana, legal, gente fina, "cool", quase uma irmã for a pessoa, maior é a necessidade de sermos formais e profissionais. Se você um dia encontrar o Tércio por aí, ele vai concordar.
Como faturar um cliente no exterior
Hortelino Trocaletra [1]
Quality translations – Brazilian Portuguese
accounting, finance, taxation, corporate law [2]
Rua que Sobe e Desce, Número que não Aparece [3]
São Judas Perdeu as Botas
Mato Grosso do Oeste
13131-313
Voice: +55 99 9999 9999 [4]
Fax: +55 99 9999 9999
skype: Htrocaletra
Invoice # ACME 01/08 [5]
Customer:
Acme Translation Co.
| Job Name | Job # / | Type of Service | Language | Rate | Hour /Word | Extended | |
| Report | 499/ | Editing | Portuguese | 40.00 | 12 | 480.00 | 12/27/07 |
| Total | | | | | | 480.00 | |
Payment intructions [7]
Payee: Hortelino Trocaletra
Bank: Second Bank of Podunk
Address:
10022
Account # 182 503
Thanks for the assignments!
Notas
[2] Breve descrição dos tipos de service que você presta
[3] Seu endereço postal. Só o "
[4] Telefones à moda internacional: um sinal de +, indicando que o cara tem que digitar o que que que se digite onde ele está para fazer ligações internacionais; seguido de 55, que significa Brasil, mais o seu DDD e o número de seu telefone.
[5] Um código de identificação da fatura, dado por você, à sua moda, mas sempre dizendo INVOICE.
[6] Data, nome do cliente,
[7] Nas instruções para pagamento, os seus próprios dados. Se o banco for no Brasil, precisa do código SWIFT do banco, que só o próprio banco pode informar e que pode variar de uma agência para outra. Se for para enviar cheque, please mail check to … e complete com seu endereço postal. Se for Paypal, é só dar o nome de sua conta.
Não anexe nota fiscal nem RPA, não mande seu RG, CPF nem nada disso.
domingo, 9 de março de 2008
Meu preço é…
A voz no telefone era educada, de alguém com menos de trinta anos. Conhecia meus glossários, tinha lido meus artigos, isto e aquilo, a empresa dele tinha um serviço na minha área, queriam atender bem o cliente, sabia que eu era especialista, essas coisas. Perguntou se eu topava. São situações constrangedoras: o rapaz me cumulava de cortesias e elogios, mas eu sabia onde ia emperrar o carro: no preço. Elogio faz bem para o ego, mas não paga a conta do supermercado. Então, para adiantar assunto, na primeira oportunidade fui logo cantando a bola dos meus preços.
O rapaz levou um susto: como ele ia fazer para me pagar se o que eu cobrava era o mesmo que a empresa dele? Contou uma história, que eu sei ser bastante verdadeira: ele tinha uma empresa no Brasil (recusava-se, como a maioria, a chamar sua empresa de agência. Agência, como todos sabem, é onde trabalha a mãe de quem falou, porque as agências e tal e coisa, aquela conversa que já se sabe). Sua empresa catava serviço no exterior, geralmente de agências (os outros têm agências, ele tinha uma empresa), e repassava no Brasil. Quer dizer, recebia lá o preço que normalmente se paga aos tradutores, tirava uma fatia para pagar as despesas dele e ficar com algum no bolso, e pagava aqui um preço que era, para os meus padrões, baixo demais. Pediu para que eu entendesse a situação, entendesse que não podia pagar mais e pediu que reconsiderasse minha taxa.
Sim, entendo perfeitamente a situação. Mas o fato é que eu tenho uma linha direta com as agências lá fora e, por isso, recebo a taxa integral, sem a fatia do intermediário. Cada vez que aceitasse um serviço dele, estaria rasgando dinheiro, num valor exatamente igual à parcela que ele retinha – que não era pequena. Há quem diga que sou maluco, mas maluco de rasgar dinheiro, já é pior do que sou.
Um ponto aqui fica meio frouxo: essa postura só vale porque tenho bastante serviço. Se tivesse pouco, poderia encaixar o serviço dele na folgas, de acordo com a filosofia de que ganhar pouco é bem melhor que ganhar nada.
Por isso é que fica sempre o conselho: procure serviço sempre, intensamente. Com o tempo, você fica em posição de poder dispensar os que pagam menos. Nada tenho contra quem oferece R$ 0,03 por palavra, mas prefiro trabalhar por quem paga mais pelo meu tempo. Então, peninha, peninha, mas não dá.
O rapaz ficou chateado, comentando que, se todos fossem iguais a mim, ele não teria como manter a empresas aberta. Pois é, talvez não. Mas o fato é que meu problema não é viabilizar a empresa dele, mas sim maximizar os meus rendimentos. Não pedi que ele entendesse isso: seria demais.
Obrigado pela visita. Tomei hoje uma decisões aqui, porque precisava tirar este blog do abandono. Vamos ver se consigo.terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Notícia importante para quem escreve inglês
We are pleased to announce the initial release of the 360 million word "BYU Corpus of American English" (1990-2007), which is freely available online (http://www.americancorpus.org). New texts will be added at least two times each year from this point on (20 million new words each year; 4 million words in each of the five genres), and it will thus serve as a unique linguistic history of American English since 1990.
CONTENT
The corpus is composed of more than 360 million words in nearly 150,000 texts, including 20 million words each year from 1990-2007. For each year (and therefore overall, as well), the corpus is evenly divided between the five genres of spoken, fiction, popular magazines, newspapers, and academic journals. The texts come from a variety of sources:
Spoken: (76+ million words) Transcripts of unscripted conversation from nearly 150 different TV and radio programs (examples: All Things Considered (NPR), Newshour (PBS), Good Morning America (ABC), Today Show (NBC), 60 Minutes (CBS), Hannity and Colmes (Fox), Jerry Springer, etc).
Fiction: (70 million words) Short stories and plays from literary magazines, children's magazines, popular magazines, first chapters of first edition books 1990-present, and movie scripts.
Popular Magazines: (78+ million words) Nearly 100 different magazines, with a good mix (overall, and by year) between specific domains (news, health, home and gardening, women, financial, religion, sports, etc). A few examples are Time, Men's Health, Good Housekeeping, Cosmopolitan, Christian Century, Fortune, Sports Illustrated, etc.
Newspapers: (73+ million words) Ten newspapers from across the US, including: USA Today, New York Times, Atlanta Journal Constitution, San Francisco Chronicle, etc. There is also a good mix between different sections of the newspapers, such as local news, opinion, sports, financial, etc.
Academic Journals: (73+ million words) Nearly 100 different peer-reviewed journals. These were selected to cover the entire range of the Library of Congress classification system (e.g. a certain percentage from B (philosophy, psychology, religion), D (world history), K (education), T (technology), etc.), both overall and by number of words per year
QUERIES
-- The interface is the same as the interface for the 100 million word British National Corpus and 100 million word TIME Magazine corpus (see http://corpus.byu.edu/)
-- Queries by word, phrase, alternates, substring, part of speech, lemma, synonyms (see below), and customized lists (see below)
-- The corpus is tagged by CLAWS, the same tagger that was used for the BNC and the TIME corpus
-- Chart listings (totals for all matching forms in each genre or year, 1990-present, as well as for sub-genres) and table listings (frequency for each matching form in each genre or year)
-- Full collocates searching (up to ten words left and right of node word)
-- Comparisons between genres or time periods (e.g. collocates of 'chair' in fiction or academic, nouns with 'break the [N]' in newspapers or academic, adjectives that occur primarily in sports magazines, or verbs that are more common 2004-2007 than previously)
-- One-step comparisons of collocates of related words, to study semantic or cultural differences between words (e.g. comparison of collocates of 'small' and 'little', or 'men' and 'women', or 'rob' vs 'steal')
-- Include semantic information from a 60,000 entry thesaurus directly as part of the query syntax (e.g. frequency and distribution of synonyms of 'beautiful', synonyms of 'strong' occurring in fiction but not academic, synonyms of 'clean' + noun ('clean the floor', 'washed the dishes')
-- Create your own 'customized' word lists, and then re-use these as part of subsequent queries (e.g. lists related to a particular semantic category (clothes, foods, emotions), or a user-defined part of speech)
NOTE
Due to copyright and licensing issues, the corpus is not available in full-text form. Rather, as with our interface to the BNC and TIME, all access will be via the web interface, which allows full frequency and distributional charts, and limited KWIC displays (up to 100 words per entry)
O piloto automático
Ainda falando de fail, como o piloto automático manda traduzir fail como falhar, o fail to acaba sendo traduzido metodicamente por falhou em, o que é um absurdo.
He failed to come significa ele não veio – só isso. Ele falhou em vir existe, é bom português, mas significa outra coisa, significa que ele veio, mas isso foi uma falha. Mas, em um texto traduzido ele falhou em vir, geralmente significa que o inglês tem he failed to come.
Quem traduz no piloto automático acaba cometendo essas e outras e está correndo sério risco de, mais dia menos dia, se vir substituído por um tradutor eletrônico. Não se engane: Babelfish é uma droga, mas há coisas melhores e estão cada vez melhores.
Como conclusão, repito aqui o comentário do Fabio ao item anterior, cujo original você pode ler rolando um pouco a tela, se quiser:
O problema do "piloto automático" é uma das coisas que me impedem de achar que seja possível traduzir com qualidade quando se tem uma produção diária de, sei lá, 5.000 palavras ou mais (sem grandes repetições). Qualidade exige tempo, e quem liga o piloto automático não está a fim de gastar o tempo necessário para buscar essa qualidade.
Pois é, Fabio (sem acento mesmo?), conheço gente que acha 10.000 palavras por dia perfeitamente normal. Não duvido. Mas traduzir 10.000 palavras por dia como norma e produzir um texto de qualidade me parece tarefa para heróis.
Parece que vou começar a atualizar este blog todos os dias. Se você for do tipo religioso e gostar de ler estas coisas, reze por mim. Mas reza braba, por favor. Volte amanhã que tem mais.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
O piloto automático
O piloto automático é um dos nossos maiores inimigos. O maior é o excesso de confiança em glossários, mas isso é outra conversa.
O piloto automático é aquele mau conselheiro que faz a gente traduzir um termo sempre do mesmo jeito sem pensar bem no que ele significa em português naquele contexto – ou se significa alguma coisa. Por exemplo, você já pensou em fail/failure? O piloto automático manda traduzir como falhar/falha/falência. E, às vezes, dá certo. Mas, na maioria das vezes, não funciona. Veja estes exemplos
As a writer, he was a complete failure.
Como escritor, foi um fracasso completo.
John failed both Math and Chemistry.
John foi reprovado em matemática e química.
Mary failed in her attempt to regain the world title
Mary não conseguiu recuperar o título mundial.
Note que conseguir implica na existência de uma tentativa, portanto, a tradução para attempt fica implícita. Não conseguir, muitas vezes, é uma grande tradução. Veja
Many people tried to quit smoking and failed misarably
Muita gente tentou parar de fumar e fracassou completamente.
If all else fails…
Se nada mais funcionar…
Aqui, estou usando o processo chamado modulação, em que se troca o ponto de vista. Quer dizer, onde o inglês diz tudo fracassar, eu digo nada funcionar. Note que a expressão inglesa convencional e, por isso, cabe traduzir pela convencional correspondente no português.
Por agora, é só. Estou botando o blog nos eixos de novo e vou continuar este assunto amanhã.
Obrigado pela visita, volte sempre e torça para que eu consiga manter esta coisa toda funcionando.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Você está com excesso de serviço?
Deixa fazer uma pergunta: o que você faz quando está com falta de serviço? Aceita serviço ruim, certo? Serviço ruim quer dizer serviço a preço baixo, serviço de cliente chato, serviço de cliente que demora a pagar. Então, quando a coisa está braba, o que cai na rede é peixe.
Mas, assim como as vacas emagrecem, engordam de novo. Não engordam para todos ao mesmo tempo nem na mesma velocidade, mas nós estamos falando de você, agora. Suas vacas estão engordando? Quer dizer, você está com excesso de serviço? Muitos de nós estão. Tem gente trabalhando sete dias por semana, adoidadamente, e, mesmo assim, não sem conseguir dar conta do recado.
Trabalhar demais é um problema, porque cansa o corpo e a qualidade cai. E o cliente que pediu pelo amor de Deus para você aceitar um serviço num momento em que você estava com lotação total é exatamente aquele que reclama que o serviço foi picaretado. Então, bom, então, tem que ter um limite. Tradutor é metido a herói: traduzi um livro de duzentas páginas em uma semana! Pois não devia, pronto. Fez besteira!
Melhor, quando há excesso de serviço, começar a usar a palavra mágica. A palavra mágica, não, as frases mágicas, porque são duas.
A primeira é não. Um não educado, mas firme, sem cair na defensiva. Dez mil palavras para sexta-feira que vem? Desculpe, não posso, estou de serviço até as orelhas. Não, não dá para encaixar, já estou com todos os encaixes encaixados. Fica para a próxima. Essa se aplica aos chatos, aos que demoram mais tempo para pagar do que o justificável.
A segunda frase mágica é por esse preço, não dá. Meu mínimo é X. Você não tem que explicar porque sua taxa, que era Y, agora é X. Você trabalha por conta própria, cobra o que quer. E vai saindo da conversa. Quanto menos discussão, melhor. Não precisa falar do preço da batatinha, do colégio das crianças, do sapateiro, de quanto tempo faz que você não aumenta. Nada. Para cada explicação que você der, o cliente tem duas respostas e a conversa dura um século, sem levar a lugar nenhum. Lembre-se: VOCÊ TRABALHA POR CONTA PRÓPRIA E SÓ TEM OBRIGAÇÃO DE CUMPRIR A PALAVRA EMPENHADA. PELO SEU SERVIÇO, VOCÊ COBRA O QUE QUISER.
Ah,desculpe, mas nós aqui temos a tabela da casa, sabe, não dá para mexer. Não autorizam. Vê lá o que você pode fazer por mim. Você já fez tanto serviço para nós a esse preço! Por que não pode fazer mais um?
Vá plantar batatas, para não dizer coisas pior. A tabela da casa não é problema meu e nem eu vou comer menos para ajudar os outros. Eu tenho que fazer pela minha família, não pelos outros. Já fez serviço demais àquele preço, está na hora de ter um aumento, raios!
Mas não é isso o que você deve dizer, claro: boa educação, sempre. Não baixe o nível, mesmo que o cliente procure baixar. Você tem a tua tabela, eu tenho a minha. Você não pode subir a sua, não posso baixar a minha. Os outros clientes estão aceitando numa boa, não faz sentido reduzir. Se, em vez de trabalhar para os outros por doze, eu trabalhar para você por dez, estou pagando para trabalhar. Não dá.
Você vai ver quantas vezes o cliente vai reclamar, resmungar, mas aceitar o preço maior. Alguns não vão aceitar, claro. E isso vai reduzir o fluxo do serviço. Mas você vai ver quantos aceitam.
Aliás, contra o conselho de vários colegas, estou aumentando meus preços. Até agora, todos aceitaram numa boa. Vou ter que arrumar outro jeito para reduzir o fluxo de serviço.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Volta à Vida
Acho que, finalmente, a partir da semana que vem, este blog vai entrar em ação de novo, depois de vários tropeços, topadas e tropicões. Minha vida deu umas guinadas e tive de repensiocinar (verbo cunhado por mim, mistura de "pensar" com "raciocinar", com o prefixo re-) uma porção de coisas. A ver se dá tudo certo.
Por hoje, fica o aviso da Reunião na Sala 7
A próxima, grátis como as anteriores, será no sábado, dia 16 de fevereiro de 2008, às 14 horas, sempre via Aulavox.
O tema será "Ferramentas de Tradução Assistida por Computador". Vamos falar não só dos programas básicos, como Wordfast, Trados e semelhantes, como de utilitários grátis, que poucos conhecem, como xBench, AndoTools, PlusToyz e quetais, para certas tarefas específicas de controle de qualidade e organização de glossários.
Como é um programa à distância, via web, você pode participar de sua própria casa, independentemente de onde estiver. O evento é absolutamente grátis e ninguém vai ficar atormentando os participantes para comprar ou pagar qualquer coisa que seja.
Todos são bem-vindos.
Para participar, clique aqui.
O sistema Aulavox funciona a preceito em PCs e Windows. Não é necessário ter microfone, mas alto-falante é indispensável. As perguntas são feitas pelo bate-papo e eu respondo à medida que forem surgindo.
Por favor, divulgue para outros interessados.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Traduções amadoras, um perigo?
A revista Língua Portuguesa publicou matéria cotejando uma tradução pirata de Harry Potter com o trabalho da tradutora oficial, nossa colega e minha particular amiga, Lia Wyler, chegando à irrefutável conclusão de que, embora os amadores não fossem de todo ruins, a Lia traduz melhor. Entretanto, nem todos os tradutores profissionais são tão competentes com a Lia. Fosse outro o profissional encarregado do HP, os amadores poderia ter ganho a parada da qualidade.
Não, espera, estou me adiantando. Preciso primeiro definir o que quero dizer com tradutor profissional. Pelo menos aqui, tradutor profissional significa aquele que traduz a troco de uma remuneração compatível com a média do mercado para traduções semelhantes. Todos nós achamos que ganhamos mal e a maioria acha que quem cobra menos que eu avilta o mercado. Mas isso é outra conversa, para outro dia. O que quero dizer é que se as editoras pagam,
Estará chegando ao fim a tradução profissional? Eis a pergunta intraqüilizadora que perpassa toda a conversa surgida em vários grupos de tradutores. Vamos agora ser substituídos por bandos de adolescentes ou de aposentados?
Creio que não. Gente traduzindo por nada ou quase nada, sempre houve. E, diga-se de passagem, gente muito boa. Conheci vários daqueles tradutores e tradutoras que brilham nos cadernos literários dos nossos jornais e a grande maioria deles trabalha de graça ou por valor meramente simbólico, garantindo o rancho com outras fontes de renda. Não traduzem por dinheiro: como os adolescentes que traduzem Harry Potter, traduzem por prazer ou pela aventura, por prestígio ou até para fazer currículo.
O fato é que esses amadores e amadoras, por bons que sejam, traduzem o que bem entendem, como bem entendem, quando bem entendem. O profissional traduz o que é preciso, como necessário, dentro do prazo estabelecido, uma postura que faz uma diferença danada para quem precisa de serviços de tradução. Conheci, há anos, um psicólogo que traduzia, a preço de banana e muitas vezes gratuitamente, os trabalhos do professor com que estudara nos EUA. Mas certamente não traduziria 50 laudos preparados por algum colega ou mesmo um estudo preparado por alguém que seguisse outra linha de psicologia: coisas que não lhe interessavam, mas essas coisas precisam ser traduzidas. Aí, então, entra o profissional.
Amador traduz o que quer traduzir, profissional traduz o que precisa ser traduzido. Faz uma baita duma diferença.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Afobado queima a boca ou come cru
Diversas vezes, nos últimos tempos, apareceram casos de gente que pegou traduções sem tomar as precauções necessárias. Mas isso não é de hoje. Tem gente que pega qualquer serviço, de qualquer área, com qualquer prazo, em quaisquer condições e volta para casa todo lampeiro e pimpão, peito estufado de orgulho. Depois, vem a ressaca.
A maioria dos afoitos combina preços na doce ilusão de que, entregue o serviço, o cliente vai enfiar a mão no bolso, pegar umas quantas notas, pagar o serviço e agradecer. Quando o cliente diz manda a fatura, começa o pânico. Tem gente que nem sabe o que é fatura. Há muito tempo, uma moça postou uma mensagem indignada em uma lista, dizendo que tinha grau de tradutora, não de contadora e não era obrigação dela saber dessas coisas. Santa ingenuidade. Se quer ser tradutora profissional, tem que saber dessas coisas, sim senhora.
Outro pega um site para verter e descobre que não tem a mais remota idéia de como se faz isso. Recebe um monte de arquivos com umas coisas esquisitas, que nunca viu e vem a descobrir que é html. No livro do Venuti não falava disso e ele não sabe o que fazer.
Uma vez, me apareceu para revisar um arquivo
Tem também a turma que espera ser paga contra entrega e chama o cliente de ladrão porque, além de querer nota fiscal ou querer descontar imposto de renda do RPA, ainda quer quinze dias para quitação. E tem aquela amiga minha que pegou um serviço, fez um precinho baratinho, varou as férias do escritório onde era secretária dando duro na tradução e, por fim, descobriu que o cliente queria nota fiscal. Saiu doida atrás de alguém que lhe vendesse uma nota (o que é crime contra a ordem tributária) e descobriu, para seu horror, que o preço incluía um valor alto para os impostos, que ia engolir boa parte do valor combinado pela tradução.
Nosso mundinho está cheio desses casos, a maioria tristes. Muita gente acha que ser tradutor é uma coisa assim, meio romântica. Não, não é. Tradução profissional, quer dizer, onde há dinheiro trocando de mãos, é coisa séria. O cliente presume que você seja profissional e que tenha condições de atuar conforme a lei. Se, na hora da entrega, você demonstrar falta de profissionalismo, azar seu.
O cliente até pode ter pena e pagar pelo caixa dois, mas esse é um cliente que não vai durar muito: qualquer tradutor que emita uma notinha fiscal de pessoa jurídica maneira ganha o cliente.
O mesmo acontece com coisas do tipo arquivos html, Trados, memórias tmx, planilhas de Excel, audivisuais para dublagem e legendagem e tudo aquilo que escapa ao famoso arquivo MSWord que é só ir traduzindinho. É preciso aprender a lidar com essas coisas ou avisar o cliente antecipadamente que não tem experiência com elas.
Afobado, como você sabe, queima a boca ou come cru.
domingo, 20 de janeiro de 2008
A responsabilidade do tradutor
Você notou que o blog andou meio morto, não é? Espero que sim.
Na verdade, faltou tempo, mas, principalmente, faltou inspiração. Fico me perguntando o que seria minha vida se vivesse de escrever e, de repente, olhasse para a tela do computador e não tivesse idéia nenhuma. Poderia, talvez, fazer como muitos cronistas de jornal que, na mesma situação, escrevem uma crônica inteira sobre a falta de inspiração.
Mas, em minha salvação, veio a palestra de ontem para a Editora SBS. Fui obrigado a preparar a apresentação, porque não tinha cara de chegar lá e dizer desculpe, minha gente, faltou inspiração, não tenho o que dizer, outro dia eu falo. Então, a responsabilidade falou mais alto, Sentei na frente da tela e bolei lá uma tal de palestra. Antes da palestra, uma conversa solta com algumas colegas me deu mais algumas idéias e pretendo desenvolver tudo isto por aqui nas próximas semanas – se o tempo o permitir.
Mas veja que a responsabilidade por preparar a palestra foi criada por mim ao aceitar a incumbência: convidaram, eu aceitei, então era obrigado a fazer o melhor que pudesse. Não sou empregado da SBS e tinha todo o direito de recusar o convite.
Esse ponto é mais importante do que parece. Todos nós somos obrigados a cumprir nossos compromissos. Se você prometeu entregar a tradução na segunda-feira, pelo amor de Deus, entregue na segunda-feira, como prometido. Porém, se você, como eu e tantos outros, trabalha por conta própria, não é obrigada a assumir o compromisso de entregar na segunda-feira.
Quer dizer, liga o cliente e pede alguma coisa que você não possa fazer, ou porque o prazo é curto demais, ou porque está já com sobrecarga de trabalho, ou porque o preço é baixo demais, ou porque não é a sua área, ou seja lá porque for, não é sua obrigação aceitar e ponto final. Se puder recomendar quem faça, tanto melhor, mas isso também não é sua obrigação.
Muitos clientes usam o mas você tem que… para tentar fazer com que nós aceitemos a obrigação, obrigação de fazer, de aceitar, de arranjar quem faça, qualquer coisa. Não se deixe intimidar. Você só tem que fazer o que prometeu, mas não tem que prometer nada. Às vezes, faz promessas do tipo se você ajudar a gente agora…Jamais acredite nessas promessas. Outras vezes, apela para a chantagem, falando de nossa parceria. Parceria essa que vai durar até ele encontrar alguém que lhe pareça melhor.
Nessas horas, o cliente também quer saber por que você está se recusando. Não é direito dele saber, nem sequer fazer a pergunta. Você não é empregada nem muito menos escrava dele. Ele não tem que te dar satisfações quando encarrega outros de algum serviço, você não tem que dar satisfações quando recusa um serviço.
Na hora da recusa, cortesia é essencial: se oferecerem serviço a um preço vil, diga meu mínimo é X. Não faça uma arenga inflamada sobre os exploradores dos tradutores, por mais prazer que discursar possa dar e por mais aplausos que a ladainha posa gerar entre os seus colegas: o cliente nem vai ouvir. Ele quer o serviço, só isso.
Talvez a recusa se dê até por motivos pessoais e não muito importantes: você combinou ir à praia com as amigas neste fim de semana, está cansada demais para trabalhar, é casamento da sua irmã e você quer dar uma mão, seu filho está com dor de barriga e você quer fazer companhia, mas tudo isso é coisa sua, não é da conta de ninguém. E você tem o direito de guardar essas coisas para você e recusar o serviço com um educado, agradável, mas firme, obrigado, mas não vai dar.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Cantadas batidas, respostas criativas
Você cota o preço e lá vem uma cantada para dar um desconto. Eu tenho raiva, horror de pechincha. O cara vai ao restaurante, olha o preço na porta e, se calhar, nem isso, come, bebe, pede a conta e paga o que está escrito. O cara vai cortar o cabelo, vê o preço na entrada do salão; se achar caro, não entra; se achar o preço razoável, entra, corta o cabelo, paga, deixa gorjeta e vai embora. Tradutor cota preço, ele pede desconto. Coisa chata, parece que a gente está vendendo camelo num bazar oriental. E o pior é que as cantadas se repetem. Faz mais de trinta anos que estou ouvindo as mesmas e o cara ainda acha que está sendo original.
Ando sem paciência para essas discussões de preços. Para acabar logo, costumo dizer que é o preço que cobro de todos os meus clientes e nenhum deles acha caro. Pronto, acabou. O cliente, que esperava outra reação, perde o pé de apoio. Nem sempre funciona, mas, ao menos, é divertido. E, de qualquer forma, nenhuma estratégia funciona sempre.
Tem outra interessante. Eu coto, digamos, mil reais e, no dia seguinte, vem lá o cliente dizendo que tem quem cobre setecentos. Fico quieto. O cliente diz alô, está ouvindo? Claro que estou. Pergunta o que eu tenho a dizer. Bom, ele pediu, não é? Eu estava caladinho, no meu canto, e ele pediu minha opinião, certo? Então, não reclama:
Independentemente de quanto eu cote, sempre vai haver quem cobre menos. Você encontrou um que cobra setecentos, poderia ter encontrado por menos, bem menos. É só procurar um pouco. Cabe a você, agora, decidir se quer o serviço do colega por setecentos ou o meu por mil. Toda decisão envolve riscos, não é só esta. E é uma decisão sua, inteiramente sua, como também é sua a responsabilidade pelo resultado. Não há nada que eu possa fazer. Se você optar pelo colega de setecentos e o serviço for bem feito, você economizou trezentos para a sua empresa. Se fizer um serviço mal feito, você desperdiçou setecentos e pode perder muito mais, sei lá, quanto vale esse texto para você.
Quer dizer, jogo o problema no colo dele de novo. Mas não vou dar desconto pelo simples motivo de que ele disse que tem alguém que cobre menos. Nem que eu tivesse certeza de que era verdade. Aliás, se ele tem quem faça mais barato, porque não faz com o outro logo de uma vez?
domingo, 6 de janeiro de 2008
O mistério de Invanhoé, cada vez mais misterioso
Este blog entrou em recesso de fim de ano meio forçado: ele, que adquiriu vida própria, não queria parar e eu não queria que parasse. Mas a vida quis que parasse e parou.
Reabre hoje e reabre com chave de ouro, com uma mensagem recebida do Saulo von Randow Júnior, o homem que está levantando o maior escândalo do mundo tradutório brasileiro: o plágio de traduções por atacado, feito pelas nossas editoras. O início da história você encontra aqui, se é que ainda não conhece, está aqui.
Uma historinha sórdida. Vamos insistir e, um dia, as editoras vão ter de se manifestar – ou individualmente, ou através da Câmara Brasileira do Livro. Cabe a nós, com os meios de que dispomos, chamar a atenção de todos para o problema e obrigar os editores agir corretamente.
Esse plágio por atacado me fere profundamente, embora nada do que eu tenha feito tenha sido plagiado. Sou amante de música clássica e a maior parte do que ouço já está no domínio público há anos. Quer dizer, para tocar ou reimprimir a quinta Sinfonia de Beethoven, não é necessário pagar direitos autorais. Como Beethoven não tem sucessores com direito intelectual sobre sua obra, se um maluco mandar imprimir a partitura da uma sinfonia dele e publicar como de sua autoria, não há como me processar. Mas a grita vai ser enorme, principalmente por parte dos músicos e editores honestos. Espero que as editoras honestas se juntem também ao nosso clamor.
Se você sabe de alguma coisa que possa nos ajudar, escreva para mim. Se você pedir, seu nome será mantido em segredo, mas a informação será pesquisada e pode ajudar a dar um pouco mais de dignidade à nossa profissão. Não vou publicar informações, assinadas ou anônimas, sem pesquisar.
Danilo,
Gostaria de colocá-lo a par, bem como aos leitores do seu "blog", sobre a repercussão do artigo "O Mistério de Ivanhoé: alguns dias após a publicação da matéria no seu sítio, fui contactado pela, também tradutora, Denise Bottmann, a qual queria saber mais sobre o assunto.
Ela disse ter tomado conhecimento do caso num grupo de debates do "Yahoo" conhecido como "Litterati", onde o assunto foi levantado. Como dispunha, assim como eu, das 2 edições do livro "Ivanhoé" , ela partiu para o cotejo dos livros e ficou assombrada com o que encontrou. Como também possuía 2 edições do "Fausto" e "Werther" de Goethe, ela resolveu aprofundar as investigações e, aí também, encontrou vestígios de plágio.
A Denise, então, tentou entrar em contato umas 3 ou 4 vezes com a Nova Cultural e, ao mesmo tempo, escreveu um e-mail para a seção Folha Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, os quais se interessaram sobre o assunto e publicaram uma matéria sobre o caso.
Logo em seguida, partindo de uma matéria publicada pela Revista Veja sobre o lançamento, na época, sobre a coleção "Obras-Primas" da Editora Nova Cultural, começamos um trabalho de cotejo dessa coleção com os livros dos mesmos autores de outras editoras, principalmente os da Editora Abril Cultural.
Nesse ínterim, a repercussão dos plágios deu origem a um abaixo-assinado por parte dos tradutores, fazendo com que o mesmo ganhasse as páginas do jornal Folha de S.Paulo como matéria digna de nota. Como eu possuía alguns desses livros (Ana Karênina, Tom Jones, Crime e Castigo) de ambas as editoras e a Denise possuía outros, passamos a publicar nossos "achados" junto ao "blog" que destaca o abaixo-assinado acima referido as nossas descobertas.
Atualmente, eu e a Denise estamos trabalhando para separar o joio do trigo: com o apoio de algumas pessoas que são proprietárias de sebos, estamos trabalhando para saber quais obras foram vilipendiadas nesse processo de plágio descarado (direto) e, também, por um sistema de tradução por sinonímia, sem qualquer respeito ao trabalho do tradutor original da obra em questão.
Na ocasião, gostaria de manifestar o meu agradecimento ao Danilo por seu empenho na busca de solução para esse que começou como "O Mistério" e que, agora, já se traduz em vários "Mistérios".
Cordialmente,
Saulo von Randow Júnior
O abaixo assinado de que o Saulo fala está aqui. É só clicar.