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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Edição extra: O Renato, a Época e o tradutor

Nosso colega Renato Motta notou que a revista Época tinha deixado de publicar o nome de quem traduziu um determinado livro. Achou injusto - como achamos todos nós - e achou que algo precisava ser feito. Tendo chegado a essa conclusão, decidiu que caberia a ele agir. Quer dizer, não caiu naquela esparrela de começar a esbravejar que "alguém tem que fazer alguma coisa".

Pensou lá com seus botões e concluiu que a melhor coisa a fazer era escrever à revista. Outros teriam começado uma campanha absolutamente inócua do tipo "Não compre a Época: ela não dá valor ao tradutor". O Renato achou que a primeira coisa a fazer era escreve uma mensagem — e escreveu o que você pode ler aqui abaixo.
Na edição de 30 de novembro de 2009, a revista Época apresentou uma interessante reportagem sobre o livro Nossa Escolha, escrito pelo ex-presidente norte-americano Al Gore. A matéria é um trecho muito bem traduzido de um livro que será lançado em dezembro, mas o editor se esqueceu de informar o nome da pessoa que fez a tradução da obra.
Curiosamente, o fotógrafo cuja imagem ilustra o artigo, Jeff Riedel, foi devidamente creditado. O editor da matéria sabe que uma foto não surge do nada. Uma foto sempre tem um profissional por trás dela; um profissional que enquadrou o objeto de interesse da lente, ajustou o foco, preparou a iluminação e editou o material antes de ele ser publicado.
Infelizmente, esse mesmo editor não percebeu que a tradução de um texto também não surge do nada. Toda tradução sempre tem um profissional dedicado por trás dela; um profissional que fez a transcrição das palavras originais - do inglês ou de outra língua - para a nossa; um profissional que re-escreveu o texto em nosso lindo idioma para que ele pudesse ser saboreado pelos leitores da revista Época, e também ajustou as frases, preparou a iluminação, revisou tudo e editou o material antes de ele ser publicado.
Peço à direção da revista Época que alerte os seus editores para o fato de que as traduções devem SEMPRE ser creditadas, pois é isso que merece o profissional que a realizou, o mesmo merece o leitor da publicação e assim determinam as leis éticas da nossa sociedade.
Obrigado.
Renato Motta
É uma mensagem educada, nada daquela oratória altíssona, grandíloqua e sesquipedal, carregada de ironias e generalizações acusatórias, do tipo "a autoproclamada grande imprensa que se diz democrática…", nada de insultos. Aponta uma falha, demonstra que é uma falha pela comparação com o caso do fotógrafo, creditado pelo seu trabalho, e pede uma correção, sem criar confrontações.

Achando bom pedir um pouco de pressão por parte dos colegas, postou a mensagem aqui , onde deve ter sido lida por várias centenas de colegas, vários  dos quais escreveram à revista. No fim da tarde, a Época já estava se desculpando e dizendo que vai publicar uma errata.

Vitória para nossa categoria? Por certo! De parabéns o Renato pela ação e a revista Época pela reação. Mas é bom lembrar que foi também uma vitória da civilização. Porque o Renato, antes de agir como tradutor, agiu como homem civilizado e a Época, ao reconhecer o erro, retratar-se e prometer solução, também agiu civilizadamente.

Agora, olho vivo para ver se não recaem em tentação - e fica o exemplo. Se você for membro da comunidade do Orkut, deixe lá o seu abraço ao Renato. Se não for, deixe um abraço no perfil dele - ele de certo merece nossa gratidão.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O exemplo vem de onde?

Minha amiga Ana Luiza Iaria irritada por ter visto "facilidades de recreação" no prospecto de um hotel, redigido originalmente em português. Mas, pense bem, se nas listas dos tradutores um diz que pegou "um job" e o outro diz que fez um "freela", quem somos nós para reclamar, ainda que mal pergunte?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Você decide – traduzir ou não traduzir?

Apareceu na imprensa uma história de que, em uma reunião de que participava um estrangeiro, o Presidente Lula contou que tentara estuprar um companheiro de cela. Quem narrou a história participou da discussão e, entre outras coisas, funcionou como intérprete ad hoc, mas se negou a traduzir a história da tentativa de estupro.

Outras pessoas que estavam na reunião confirmaram a história, mas disseram que não levaram a sério a afirmação, porque, para qualquer pessoa que conhecesse Lula, era óbvio que era mais uma das histórias malucas que ele costumava inventar para divertir a plateia e irritar um que outro e que ninguém acreditou que tivesse havido uma tentativa de estupro.

Se Lula tentou ou não estuprar alguém, é coisa que não interessa a este blogue. Este é um ciberponto de encontro para a discussão sobre questões de tradução e o que nos interessa aqui é o que deve fazer o intérprete/tradutor numa situação dessas. Então, reformulemos a história de modo mais seco, para podermos conversar, como profissionais da tradução. Imagine as situações abaixo:
1. Você é intérprete em uma reunião, da qual participa uma pessoa de projeção (político, artista, membro da comunidade de negócios, intelectual…). Essa pessoa de projeção, em dado momento, faz uma declaração que, se divulgada pela imprensa, pode causar grandes constrangimentos e prejuízos (tentei estuprar, estuprei, roubei, matei, destruí, prejudiquei…). O que você faz?
(a) Traduzo exatamente o que foi dito. O orador é responsável pelo que diz. Tradutor não é censor. Se eu não traduzir o que ele disse, estarei atraiçoando a audiência. Deixo à audiência decidir se a história é verdadeira ou mera brincadeira.
(b) Omito ou abrando as declarações, porque é minha responsabilidade evitar um incidente desnecessário.
(c) Depende de quem está me pagando. Se for o orador, omito ou abrando, porque minha função é evitar problemas para ele. Se for a audiência, faço uma tradução tão fiel quanto puder, porque, ao aceitar o serviço, aceitei a incumbência de manter a audiência bem informada.
(d) Se for um político do meu partido, omito ou abrando; se for um político de outro partido, deixo que ele se arrebente.
2. Se estivesse na audiência:
(a) Preferiria que o intérprete traduzisse tudo o que foi dito. Cabe a mim decidir se foi brincadeira ou se foi a sério.
(b) Preferiria que o intérprete traduzisse tudo o que foi dito, mas explicasse que evidentemente se tratava de uma brincadeira, se fosse o caso.
(c) Omitisse as observações mais cruas, para evitar um escândalo e salvaguardar a honra do orador.
(3) Se fosse o orador:
(a) Preferiria que o intérprete traduzisse tudo. Eu assumo responsabilidade pelo que digo.
(b) Ficaria grato se o intérprete omitisse ou abrandasse qualquer coisa que me pudesse causar problemas posteriores.
As três perguntas acima e as respostas sugeridas são meros guias para os seus comentários. Mas esqueça, ou ao menos faça por esquecer, que estamos nos referindo a uma determinada pessoa, da qual você pode gostar muito ou detestar. Faça de conta que é um exercício puramente acadêmico sobre um personagem fictício.

Comente à vontade, mas lembre que os comentários a este blogue estão sujeitos a aprovação. Não serão aprovados comentários que contenham mensagens políticas implícitas ou explícitas. Há mil lugares onde se pode discutir política; aqui, falamos sobre tradução.


Na semana que vem, comentamos.




Esclarecimento postado no dia 1/12: Agradecemos aos diversos comentaristas, que, inclusive, tiveram o bom senso de se ater ao assunto, sem se desviar para o lado político da questão.


Segundo tudo o que lemos sobre o assunto, não há dúvida de que o Lula contou a história e que a história era a descrição de uma tentativa de estupro, inclusive com uma descrição da reação da quase-vítima. O interessante é que parte das pessoas viu como uma brincadeira (de bom ou mau gosto) e outra parte viu como a descrição de um fato real. Por outro lado, as expansões do tema feitas por alguns dos comentaristas só enriquecem a discussão. Obrigado por agora e continuem comentando.


Os comentários já postados mostram que as respostas podem ser diferentes conforme se trate de simultânea ou consecutiva — e, mais ainda, se for tradução escrita, para legendagem ou dublagem. Se alguém quiser explorar essas facetas, considero uma contribuição positiva.
















domingo, 29 de novembro de 2009

Você decide: O Repasse

Vários dos comentaristas demonstraram revolta com o fato de que Beta estava retendo 2/3 do preço pago pelo cliente Gama e que Alfa, que "estava fazendo o serviço", ia ficar somente com 1/2.
Essa questão sempre aparece e, na minha opinião, é sempre irrelevante. Mas antes de dar a minha opinião, quero contar um caso real. Colega me escreve dizendo que de vez em quando tinha excessos de serviço e gostaria de repartir (gente fina não repassa: quem repassa é agência; gente fina "reparte" ou "divide"]. Perguntou se eu achava aceitável uma divisão a 2:1, quer dizer, o tradutor encarregado ficava com 2/3 e ela com 1/3. Nunca descobri se ela estava me oferecendo serviço de um modo indireto, mas essa não é a questão. A questão, para mim, é "2/3 de quanto?" Se ela me dissesse "2/3 de R$ 0,09 por palavra", a resposta era negativa, porque isso significaria R$ 0,06 por palavra no meu bolso, o que é menos que o meu mínimo. Se fossem 2/3 de R$ 0,90 por palavra, aceitaria com prazer, porque daria R$0,60 por palavra, o que é mais do que estou conseguindo cobrar. Quer dizer, não quero saber quanto a intermediária retém, eu quero saber quanto me paga.
Essa minha postura tem um outro lado: não dou o famoso "desconto de mau negócio". Não me venha com a história do "estou cobrando pouco do cliente". Se alguém pegou um serviço a dois reau a baciada isso é problema dele, ele que se dane e não venha descarregar o prejuízo nas minhas costas.  Quer dizer, a intermediária tem lá seus problemas e eu tenho os meus. Eu não pago as contas dela, ela não paga as minhas. Mas disso, falo no próximo capítulo desta novela.
Terça-feira volto à esta discussão. Amanhã, temos outro "Você decide", mais uma vez com uma semana para comentários. Enquanto vocês postam comentários, eu volto a este assunto. Parece que os "você decide" vieram para ficar. É muito divertido.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Você decide – O Repasse


Semana complicada, discussão interrompida. Aqui, terminei dizendo que tradutor detesta recusar serviço. Muitos tradutores sofrem de insegurança crônica. Acham que, se recusarem um serviço ou se recomendarem um colega, vão perder o cliente. Então, pegam tudo o que oferecerem, mesmo que não possam fazer. Não podendo fazer, repassam.

Mas o repasse é muito mal visto e, portanto, quem repassa, muitas vezes faz cabriolas intelectuais para se justificar. Está "ajudando um cliente", é "para não cair na mão de agência", essas coisas. O fato é que se o tradutor disser, "não posso fazer, fala com fulano", ou "vou pedir que um colega meu entre em contato com vocês" resolve o problema da mesma forma — mas é raro o tradutor que tem peito para fazer isso: o medo de perder o cliente — quando não o desejo de fazer uns trocados — impede.
Aqui chegamos, agora, a uma questão fundamental: é ético repassar serviço? Beta estava certa ao pegar o serviço e oferecer a Alfa?

O combinado está sempre certo. Filosofia de boteco, sem dúvida. Se você quer em termos mais bonitos, diga assim "Vale a convenção entre as partes", que é como os advogados dizem. Se Beta se apresentou ao cliente final como uma agência, nada vejo de errado no repasse. Porém, se, para pegar o serviço, ela se apresentou como a tradutora que ia se encarregar do trabalho, mostrando seu CV e sua experiência profissionais como meios de conseguir a encomenda, é errado repassar a outra pessoa, por competente que essa pessoa seja. Transparência, honestidade, são características essenciais de qualquer negócio.

Está certo pagar ao tradutor só um terço do que vai receber do cliente? É esta a pergunta que vou responder durante o fim de semana. Espero que você goste da resposta.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Edição Extra: Desaforo!

Gente, é demais. Aconteceu de novo. Todo santo dia acontece, não tem exceção. Não falha um!

"Estudo inglês a 10 anos" 

Ótimo, mas, não teve dez minutos, nesses dez anos, para aprender a escrever português? Para aprender que é "há dez anos"? E quer se dedicar à tradução! De vez em quando, me ferve o molho de tomate que me corre nas veias e dá vontade de responder como se respondia no Brás, na minha infância. Mas não adianta. Primeiro que a destinatária da correção ainda responde com mimimi, 'tadinha. Segundo, que vem a turminha do "ah, temos que fazer críticas positivas" passar a mão na cabecinha de bagre. Farei, então uma crítica altamente positiva: quer ser tradutor? Ótimo. Gaste cada minuto livre de sua vida estudando a sua segunda língua (provavelmente o inglês) e para cada minuto que estudar a segunda língua, estude ao menos dois de português. Agora, escreva 100 vezes:

Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
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Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
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Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
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Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
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Estudo inglês há dez anos.
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Estudo inglês há dez anos.
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Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.
Estudo inglês há dez anos.

O enlace para este artigo é http://www.tradutorprofissional.com/2009/11/edicao-extra-desaforo.html. Quando aparecer pela sua frente um "a 10 anos", ou, pior "a 09 anos", responda com o link.

Embolou o Meio de Campo - para Lucya Hellena e Luciana

Estou respondendo aqui às mensagens destas duas colegas, porque parece que têm a mesma origem (terão elas feito o mesmo curso? Serão conhecidas uma da outra?) e porque creio que haverá mais gente neste bonde.

Estamos (este artigo está passando pelo crivo da Kelli, que já me fez re-escrever tudo duas vezes e disse que ainda não está do jeito dela, mas que dá para postar) surpresos com a reação de vocês duas. Parece que vocês entendem essa tradução via Google Translate como a pedra de toque do Wordfast Classic, a sua característica mais importante. Não concordamos. Sabemos usar a tradução automática e até usamos em um que outro caso. Mas sua utilidade é restrita e, em muitos casos, o uso é desaconselhável, porque dá mais trabalho revisar o Google do que fazer tudo do zero, com o material da memória e glossários.

Wordfast Classic é uma poderosíssima ferramenta para o tradutor profissional. Seus principais recursos são o uso avançado de glossários, as cabriolas que ele pode fazer com os comandos da Pandora's Box, o sistema eficientíssimo de pesquisa de frases na memória, os sistemas avançados de controle de qualidade, enfim, uma série enorme de recursos que mesmo programas mais caros não oferecem. Mais refinado que o Wordfast Classic, atualmente, só o MemoQ — que não tem essa coisa de tradução automática via Google. Aliás, o Trados antigo tinha, não deu muito certo. O Trados novo, apesar de algumas informações divulgadas por aí, ainda está muito cru. Sugiro ficar longe.

Perante tudo o que foi dito acima, a tradução automática, via Google Translate, signfica pouquíssimo.
Para usar o Google Translate, o Wordfast Classic usava uma "porta" que o Google tinha deixado aberta. A porta foi fechada pelo Google (direito deles) e agora o Wordfast Classic não pode mais entrar. Não há absolutamente nada que o atendimento do Wordfast Classic possa fazer. A porta foi fechada "por dentro" e não adianta bater, porque só o Google tem a chave e vai abrir quando quiser. Encerraram o serviço, nada podemos fazer. A equipe do Wordfast Classic está procurando uma outra porta. Ela existe, está sendo testada, mas ainda não foi a nova versão que usa essa porta não foi liberada porque não se tem certeza de que vá funcionar direito. Terminados os testes, se for aprovada, será liberada. Eu aviso aqui, vocês atualizam o Wordfast Classic (grátis, durante três anos) e ficam felizes.

Não achamos o Wordfast caro. Tirante o OmegaT e mais um que outro programa grátis, todos eles muito limitados, o Wordfast Classic é o programa de tradução assistida por computador mais barato que existe e ajuda tanto que a gente costuma recuperar o preço em menos de uma semana de trabalho. Se vocês querem ser profissionais de sucesso, preparem-se para investir e investir alto. Eu devo muito do que consegui aos meus altos investimentos em equipamento e programas e a Kelli está seguindo meu caminho e se tornando uma profissional supre equipada. Sem investimento, não há lucro. Nós não investiríamos dinheiro na compra do Systran. Não achamos que valha a pena. Mais vale a pena procurar aprender a usar melhor os recursos do Wordfast, mediante cursos ou com o manual.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Você decide: O Repasse

Como prometido, vou comentar os comentários sobre a história contada aqui. Vai precisar de mais de um artigo, porque os 28 comentários recebidos — e os mais que ainda espero receber — vão dar muito pano para mangas e quero fazer uma análise bem detalhada.

Entre uma ínfima minoria de tradutores que jamais repassou um serviço e um outro grupo que repassa todos os serviços que pega, fica a maioria, a grande maioria, que repassa parte dos serviços que aceita.

Detesto repassar serviço. Outro dia, um cliente americano me mandou um pacote de serviço do inglês e dois arquivos em francês. Deve ter havido algum mal-entendido, porque ele cria que eu traduzisse do francês, o que não é verdade. Avisei, e ele disse "Onde é que eu vou arranjar agora quem faça francês para o português? Te vira aí, você, por favor." Note que esse cliente está na Califórnia e não fala português. Para ele, arranjar alguém confiável que fizesse duas mil palavras do francês para o português de um dia para o outro ia ser terrível. Ia ter que postar no ProZ ou coisa pior ainda — e era material confidencial. Para mim, custou um telefonema a uma amiga de um quarto de século. Mas mandei para um os dados do outro, para que, no futuro, se entendessem sem a minha interferência.

Mas muita gente repassa e repassa bastante. Repasses sempre ocorreram na tradução e Paulo Rónai nos conta uma história divertidíssima de um escritor húngaro que vivia de vender a editoras traduções de terceiros que eram publicadas com o "peso" da sua assinatura. Quer dizer, não é coisa nem de hoje, nem do Brasil.

O repasse de trabalhos é muito mal visto entre os tradutores, tratado como se fosse um roubo. Por outro lado, tradutor detesta recusar serviço. Conciliar essas duas posições antitéticas não é fácil, mas é algo de que vou falar amanhã, quarta-feira, porque por hoje é só.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

E a transparência?

Logo que o Danilo lançou a enquete, eu fiquei com vontade de comentar, mas resolvi esperar e ler o que as outras pessoas tinham a dizer antes. Foi uma boa decisão. Mas uma coisa estava me martelando e continua, porque não vi ninguém tocar no assunto. Tradutor A pegou um serviço da empresa B e repassou para o tradutor C, era isso, não?

A mim, pouco importa o preço do repasse. Creio que cada um aceita aquilo que acha que merece ou consegue e, uma vez aceitos o serviço e o valor, essa é uma reclamação estéril e até, conforme o caso, antiética. Acho a questão da transparência com a empresa que solicitou o serviço muito mais importante.

Se ela foi avisada e concordou, não vejo problemas. Mas e se não foi avisada? Como fica a confidencialidade do documento? Eu já peguei uma meia dúzia de textos para traduzir que só vieram ao conhecimento público bem depois da tradução. Imagina se eu repasso e isso cai na boca de quem não deve, como eu fico perante o meu cliente?

Sei não, acho que arrumar cliente hoje é tão difícil, manter também, com tanta oferta de mão de obra... que eu é que não vou me arriscar a perder um numa bobeada dessas.

Embolou o Meio de Campo — Parte 2

Este texto é continuação deste aqui. Melhor ler o outro e os comentários, antes de prosseguir. Um texto breve, que tenho pouco tempo hoje.
Yves Champollion está tratando de resolver o problema de não se poder usar mais o Google Translate como auxiliar do Wordfast. Quando tiver alguma novidade, aviso.
Entretanto, cabe aqui alertar que o Wordfast NÃO envia nossas traduções para o Google Translate. Não tem como. Já achava que não, mas, antes de dizer alguma coisa aqui, perguntei na lista do WF e o próprio Yves me deu a resposta, além do Dominique Pivard, que é outro cara que sabe muito bem das coisas.
De onde é que o Google Translate pega material? Dos alinhamentos que eles fazem de documentos que encontram na Internet. Devem ter um alinhador monstro.
A outra ferramenta de tradução do Google, o Translator Toolkit é outra conversa — e sobre ela falamos outra hora.

domingo, 22 de novembro de 2009

Causo Relampo - Você já Parou para Pensar?

Logo antes do curso sobre títulos de crédito, a turma estava falando da dificuldade que encontravam em distinguir fatura de nota promissória de nota fiscal de duplicata, essas coisas.

Logo no início da aula eu disse "uma nota promissória é só isso: uma nota promissória, uma nota, um bilhete, um escrito, em que se promete alguma coisa, neste caso pagar um determinado valor". Uma das participantes, comentou irritada: "Eu sou uma anta! Conheço o termo há muitos anos e nunca tinha pensado nisso. Preciso aprender a ler com mais cuidado".

O comentário, creio, serve para todos nós. Leia com cuidado, calmamente, que o texto começa a fazer mais sentido.

Obrigado pela vista e volte amanhã.

sábado, 21 de novembro de 2009

Antigamente, os Políticos Sabiam Ler

Você ouviu falar em Bartolomé Mitre? Claro, há uma rua com esse nome em Buenos Aires. Mas o que mais você sabe de don Bartolomé? Eu sabia muito pouco, até ontem, quando, por recomendação de @matthewbennett, no Twitter, fui ler um texto do homem e, depois, fascinado, fui procurar a biografia dele na Wikipedia.

O fato é que ele foi presidente da República Argentina, comandante militar no tempo da Guerra do Paraguai e fundador do La Nación, segundo maior jornal argentino, ainda em mãos de seus descendentes. Morou em cinco países, sempre ativo na política e no jornalismo. Nas horas vagas, foi historiador e — claro! — tradutor. Nosso colega argentino não era pouco ambicioso e atacou de Divina Comédia. Não entendo nem italiano antigo nem espanhol o suficiente para analisar a tradução de Mitre, mas o prefácio, intitulado "Teoría del Traductor"  é muito interessante, mesmo que você não concorde totalmente com a posição do autor.

O texto, como eu o li e de acordo com o encaminhamento do Matthew Bennett, está no blogue do Clube de Traductores Literarios de Buenos Aires. O título do artigo é uma triste verdade: Antes, los políticos sabiam leer, escribir e incluso traducían a los clássicos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Posta-restante: Perguntas que exigem respostas breves



 Aproveito para responder algumas perguntas que me fizeram.

Anônima pergunta: Faço faculdade de Letras e minha área é a tradução. Entretanto estou confusa sobre como me tornar de fato uma profissional de tradução. Explico: gostaria de saber se depois de formar, ou até mesmo durante o curso, é necessário fazer algum curso extra e como faço para ter uma carteira profissional de tradutor, se é que existe. 

A profissão não é regulamentada e, portanto, qualquer um pode ser tradutor ("qualquer um" inclui até a mim próprio, que não tenho curso de nada e, de título, só tenho o de eleitor). Faça a faculdade para aprender, não para ganhar diploma e, com o tempo, você vai ver que uma faculdade bem feita é uma grande vantagem — ao passo que um diploma bonito pode servir como decoração para sua sala de visitas, mas, profissionalmente, não vale grande coisa.

Carteira de tradutor não existe e, se existisse, não teria muita utilidade. Por outro lado, se você conseguir um emprego de tradutora em uma empresa (como eu já tive), na sua Carteira Profissional vai constar "tradutora". Mas, realmente, pouco adianta. O que adianta é o que você traz dentro da cabeça.

Então, vai aí o conselho que eu sempre dou: Aproveite cada minuto livre de sua vida para estudar a língua estrangeira à qual você vai se dedicar (inglês, espanhol, o que seja). Leia feito uma doida. Tudo! Desde os grandes autores até bula de remédio. Tudo importa para o tradutor. E, para cada minuto que dedicar à língua estrangeira, dedique ao menos dois ao português. A maioria dos aprendizes de tradutor tem um português lamentável e, como profissional, você vai precisar fazer cabriolas incríveis com seu português.

Magda pergunta: Sou formada em letras (licenciatura), estava procurando um curso só para tradutor e encontrei seu blog e você disse que existem cursos livres de tradução, gostaria que você me indicasse algum, pois não consigo encontrar nenhum em São Paulo, apenas universidades com o curso completo de letras e tradução.

O Curso da Associação Alumni está lá bem vivo, Magda. E, ao que dizem, a Ângela Levy ainda mostrando a classe.

Paula pergunta: Devido a essa iniciativa do governo, criei minha pequena empresa. Agora a dúvida é como fazer a nota fiscal, pois o modelo estabelecido pede endereço e como a minha empresa é na minha própria residência, eu não tenho como colocar o endereço daqui.

O endereço da minha empresa também é o da minha residência. Isso não é problema algum. Na minha nota fiscal consta como endereço da firma o endereço da firma, que, coincidentemente, é o endereço da minha residência.

Mariana escreve: Eu estava pesquisando sobre a profissão de tradutor no Google e encontrei o blog de vocês, que me chamou bastante atenção pelas valiosas informações dadas. Primeiramente, gostaria de me apresentar; chamo-me Mariana e estou cursando Direito, encontro-me na metade do curso e não gosto da minha área. Por outro lado, sou apaixonada por línguas - estudei inglês por sete anos, estou aprendendo francês e mais à frente pretendo iniciar o alemão! Foi então lendo um livro da Jane Austen da coleção Penguim Classics, há mais ou menos um mês atrás, que me veio a ideia de ser tradutora. Parece ser o tipo de profissão que junta tudo o que mais amo: leitura, escrita e línguas. No entanto, eu não entendo nada do mercado da tradução e sequer sei por onde começar. Ouço muito falar em pessoas que traduzem artigos avulsos, etc. Mas como se faz para trabalhar na tradução de livros, quais os caminhos a seguir, quais as opções que a profissão oferece? É possível viver bem da atividade de tradução? Talvez sejam perguntas demais, mas peço encarecidamente que respondam.

Mariana, desculpe, mas você está pedindo que eu re-escreva para você, de novo, 50% do que está no blogue e isso eu não posso fazer. Clique aí do lado onde diz "principiantes" e "iniciantes" que aparecem as respostas a todas às suas perguntas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Edição Extra - Dia da Consciência Negra para Tradutores

Ulisses Wehby de Carvalho nos brinda com uma tradução do mais arrasador e brutal grito contra o preconceito racial que eu conheço. Clique aqui, leia, ouça e, se dentro de você ainda existe algum resquício de preconceito racial, que o choque te limpe a alma.




quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Embolou o meio de campo!

Não dá mais para usar Google Translate com Wordfast. Ai, ai, ai!

Mas o Yves Champollion já disse que vai tomar uma providência.

A ver quem ganha. Aposto nos gauleses.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Você decide: O Repasse




Gostaria de abrir uma discussão, com base em uma história que apareceu outro dia na Web. Vou mascarar nomes (e espero que os comentaristas que conheçam a história não mencionem os nomes), porque gostaria de ver não uma crítica a este ou aquele portal ou tradutor(a), mas sim uma discussão da questão em si. Resumidamente:

  • Existem na Internet vários portais onde se oferecem serviços para tradutores.
  • Nossa colega Alfa entrou no Portal 1 e encontrou uma oferta de serviço, postada por Beta. Candidatou-se e conquistou o serviço.
  • Em seguida, entrou no Portal 2 e descobriu que Beta tinha conquistado o serviço lá, nesse Portal 2, onde tinha sido postado por Gama e que estava recebendo, por ele, aproximadamente três vezes o que estava pagando a Alfa.
  • Tendo tomado conhecimento da situação, Alfa escreveu a Beta e rejeitou o serviço.


Comente à vontade. Principalmente, gostaria de saber se, na sua opinião:

  • Beta tinha direito de repassar o serviço?
  • O fato de que Beta tinha repassado por um terço do que recebia é relevante?
  • Alfa tinha alguma obrigação de rejeitar o serviço?
  • Gama foi lesada?


Terça-feira da semana que vem, comento os comentários. Espero que sejam muitos.


domingo, 15 de novembro de 2009

Ainda a revogação da regulamentção dos TPICs no RJ

Posto, aqui, com algumas alterações, longa mensagem postada na lista trad-prt.
A DELIBERAÇÃO JUCERJA N.º 32 / 2009 DE 06 DE NOVEMBRO DE 2009,diz, no Art. 1º - Revogar a Deliberação JUCERJA n.º 106, de 29 de outubro de 1998, que trata da regulamentação do ofício de Tradutor Público e Intérprete Comercial.
Evidentemente, uma deliberação de Junta Comercial, seja de que UF for, não pode revogar o decreto federal que regula a profissão de tradutor desde os tempos do Getúlio Vargas. Então, o que essa Deliberação revoga? Algumas disposições específicas ao Estado do Rio de Janeiro, tais como número de ofícios e quejandos. Quem era TPIC, continua sendo; quem não era, continua não sendo. A atuação dos TPICs nas outras UFs continua inalterada, já que a JUCERJA tem jurisdição exclusiva sobre o Estado do Rio de Janeiro.
Conferi o site da JUCERJA, as duas resoluções estão lá. A pergunta, é, então, em que isso altera a vida dos TPICs do RJ e dos que prestaram concurso, tenham sido aprovados ou não. É essa a pergunta que gostaria de ver respondida. A resolução revogada, por exemplo, dispõe sobre o número de ofícios para cada língua. Por exemplo, diz que haverá, para o inglês, 120 ofícios. Tendo sido revogada e, ao que eu tenha visto, não tendo sido substituída por outra, pergunta-se, então, quantos ofícios há, agora, para o inglês (e quem diz inglês, diz francês e as outras línguas)? Todos os aprovados serão nomeados? Vão mudar o quantitativo e nomear menos tradutores do que o necessário para chegar a 120? Antes da nomeação, vão escoimar do rol de TPICs os "suspensos" que já morreram? Coisas assim. Há outras perguntas, mas não quero me estender aqui.
Reitero que não sou TPIC e nunca prestei concurso, o que significa que nada ganho nada perco com a situação. Além disso, não faço traduções para serem juramentadas por terceiros. Nossa colega Tamara Barile, há anos, me lembrou que quando a tradução sai do meu computador, eu não sei o que vão fazer dela. Rigorosamente certa está a Tamara. Mas também é rigorosamente certo que, dada a natureza do que faço há anos e o que ganho pelo meu serviço, é de se duvidar que alguém queira juramentar o que traduzi.
Espero ter dirimido as eventuais dúvidas.

Concurso para Tradutor Público ("juramentado) no RJ - desregulamentaram a profissão?

Recebi este comentário durante a noite:
Caros colegas, acabei de descobrir na página da Jucerja que a mesma revogou, com a Deliberação 32/2009 de 6 de novembro (coincidentemente logo após a divulgação dos resultados da prova escrita do concurso) a Deliberação JUCERJA n.º 106, de 29 de outubro de 1998, que trata da regulamentação do ofício de Tradutor Público e Intérprete Comercial. Como interpretam isso? Não se trata de uma nova regulamentação revogando a velha. A regulamentação em si é que foi revogada.

Fui conferir e, e fato, a 32/2009, que se encontra aqui, revoga esta aqui  — sem substituir por nada. Uma coisa muito esquisita, de fato.

Alguém, por favor, me explica como é isso?

Agradeço ao comentarista anônimo e, realmente, do fundo do coração, espero que ele e eu estejamos enganados. Porque, no meu entendimento, desde 29 de outubro de 2009 e até que se publique nova regulamentação, não há regulamentação alguma sobre a profissão de Tradutor Público e Intérprete Comercial no Estado do Rio de Janeiro.

Agradeço muito a quem puder comentar ou agregar alguma informação. É de bons comentários que se faz um blogue útil à coletividade.

sábado, 14 de novembro de 2009

Cliente estrangeiro precisa de nota fiscal ou RPA?

Escreve a M.:

Meu nome é M., 32, e também sou tradutora. Li no seu site as informações sobre as formas de pagamento para quem traduz para o exterior e tenho uma dúvida: eu não emito nota, eu não tenho firma aberta. Caso seja possível trabalhar assim para uma agência no exterior, qual seria a melhor forma de receber o pagamento? Tenho tido dificuldades para encontrar informações, você poderia me ajudar?

Nota fisca e RPA só têm valor e sentido dentro do território Brasileiro. Jamais se enviam essas coisas para empresas estrangeiras. As empresas estrangeiras querem faturas como descrito aqui, embora cada uma delas tenha lá suas exigências e você deve estar preparada para que recusem a sua fatura e peçam uma emendada de acordo com o que eles precisam. Para elas, você é uma pessoa física e acabou. Podem, conforme o caso, pedir que você mande uma cópia de sua Declaração de IR, ou um documento da Receita Federal, declarando que você é contribuinte no Brasil.

Maravilha? De certo modo, sim. Mas trabalhar para agências estrangeiras ou quaisquer clientes no exterior tem três desvantagens:

1. Dada a taxa de câmbio atual, as taxas lá fora andam muito baixas. Há uns três anos, ganhar USD 0,15 por palavra era um sonho. Hoje, é bom, mas também não é essas maravilhas.

2. O risco de calote é muito maior. É muito difícil e caro acionar a lei para ir atrás de uma agência no exterior.

3. Você precisa trazer o dinheiro para cá, o que pode sair caro e demorar. Nem pense em pedir para mandar um cheque para descontar no doleiro da esquina.

E, finalmente, se você pensa que, com isso, se livra dos impostos, está muito enganada.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Reu Zulu

Estava falando mal da vida dos outros com minha amiga Ana Iaria, que mora na Inglaterra. Falávamos, entre outras coisas, de contaminação linguística, a apropriação indébita de termos e estruturas de uma língua estrangeira. Coisas como "aplicar para uma bolsa de estudos" e quejandos.  Vai além, muito além, dos tais falsos cognatos, para abarcar problemas de sintaxe, como a moça que disse "eu fui oferecida uma tradução" — porque achou que, se "I was offered a translation" era correto, "eu fui oferecida uma tradução" havia de ser também. Ou, ao menos, chique, demonstrando a todos que ela tinha feito intercâmbio, tendo morado em Podunk e tal.

Isso acontece muito em tradução, porque a língua estrangeira está lá presente o tempo todo e muito da formação do tradutor está em aprender a eliminar a contaminação.

Também acontece muito com o pessoal que vive lá fora, como a própria Ana Iaria, que tem que se policiar constantemente, para não trocar o português por anglunhês, como tantos fazem. Ainda outro dia, uma colega que mora nos EUA defendia um anglicismo bobo sob a alegação de que todos os brasileiros residentes lá usam. Achei melhor nem responder.

O curioso é, entretanto, as pessoas que usam essas coisas propositadamente, porque acham chique. É chique, por exemplo, em certas áreas do submundo acadêmico, usar anglicismos para lembrar à patuleia que o autor/locutor participa dos mais altos círculos profissionais, onde a língua é inglês, sendo que português é sabidamente língua de bugres.  A Ana me passou "tamanho dependente", que na verdade seria "dependente do tamanho". Porém a construção à moda inglesa cai de chiqueireza e esfrega no focinho dos que não são "insiders", que o autor ou estudou lá fora ou, ao menos, conhece alguém que estudou ou leu alguma coisa escrita em inglês, coisa assim. Quer dizer, o cara não é pouca porcaria, não! Está pensando o quê?

Se você reclamar, ele vai dizer que é a linguagem habitual da academia — arrastando o teu focinho na areia ainda mais um pouco, para ver se sangra.

A maioria dos caras que escrevem desse jeito sabe pouco inglês e, se soltos no meio dos gringos, faz feio. Outros, até que se viram bem. Mas jamais vão poder ocultar o fato de que são botocudos como nós outros. Lembram um pouco umas caricaturas em que os ingleses ridicularizavam o Rei dos Zulus, no século XIX, onde o potentado africano sempre aparecia descalço, vestindo um calção e depois casaca, gravata e cartola, mas sem camisa. Por mais que se paramentasse com um ou outro adorno europeu, jamais deixava de ser zulu. Não sei se as caricaturas retratavam a realidade, mas devem servir de exemplo para todos nós.