Essas coisas sempre me fazem lembrar dois episódios terríveis na minha vida em que sofri muito pelo simples motivo de que não tinha um bom Plano B. Não estou aqui, agora, falando do governo, mas sim de nós tradutores. A pergunta é: qual é seu Plano B? Quer dizer, se isso que você está planejando não der certo, o que você vai fazer?
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
E qual é o Plano B?
Essas coisas sempre me fazem lembrar dois episódios terríveis na minha vida em que sofri muito pelo simples motivo de que não tinha um bom Plano B. Não estou aqui, agora, falando do governo, mas sim de nós tradutores. A pergunta é: qual é seu Plano B? Quer dizer, se isso que você está planejando não der certo, o que você vai fazer?
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Concurso para Tradutor Público ("juramentado) no Rio de Janeiro
Por lealdade aos colegas, estou calando sobre certas informações que me foram dadas em confidência. Acho mais honesto ficar calado do que dar informações sobre os planos deles.
Mais uma vez, entretanto, recomendo: não hostilize os aprovados. Pode ter havido fraude, podem ter ocorrido mil coisas, mas isso não quer dizer que alguém mereça nossa hostilidade exclusivamente por ter sido aprovado no exame. Vamos aguardar. Minha impressão é que as possíveis injustiças vão ser sanadas.
Causo: O Dia em que Escapei de Boa
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O concurso da JUCERJA e outros para TPIC III
Sheyla Barretto de Carvalho
Tradutora-Intérprete
Sócia-Fundadora do Brasillis
membro da Abrates, da ATA, do Sintra
membro da OAB-RJ
membro do CRA-RJ
domingo, 8 de novembro de 2009
O concurso da JUCERJA e outros para TPIC
Você está de acordo com isto?
LICENCIAMENTO DE OBRAS DE TRADUÇÃO ESGOTADAS
Os plágios de tradução de grandes obras da literatura e do pensamento universal constituem uma negra mancha na história do livro no Brasil. O recurso a tal prática teve um grande impulso sobretudo a partir de 1998. A principal característica comum à grande maioria de tais ilícitos é o uso fraudado de traduções antigas, geralmente esgotadas e que ainda não entraram em domínio público.
Por um lado, uma grande e necessária retificação da atual lei 9.610/98 seria a autorização para o licenciamento em curto prazo de obras esgotadas para reprodução sem fins comerciais, sob a forma de reprografia e digitalização para uso privado, para o ensino e para os acervos de bibliotecas públicas.
Por outro lado, cremos que, além desta flexibilização que atende ao premente direito social de acesso a obras esgotadas e abandonadas, seria da máxima importância prever igualmente um dispositivo legal autorizando a livre reprodução dessas obras de tradução também em formato de livro, sempre respeitados os direitos inalienáveis de seus autores e a cadeia dos direitos prévios eventualmente vigentes.
Assim, sugerimos que, decorridos 20 (vinte) anos após a última edição da obra, ela possa ser novamente disponibilizada à sociedade como livro impresso, pelos circuitos tradicionais de publicação e distribuição.
Tal proposta não fere as regras dos tratados internacionais sobre propriedade intelectual e está em consonância com as condições previstas no Anexo da Convenção de Berna, pois se trata de caso especial, que não conflita com a exploração normal e tampouco prejudica os interesses legítimos do titular.
Cremos que todos terão a ganhar: os cidadãos leitores que poderão dispor de obras até então esgotadas, seus autores assim resgatados do esquecimento, os editores que poderão publicar tais obras e os livreiros que poderão fazê-las chegar aos leitores.
Toda a sociedade poderá assim ter garantias de preservar ativamente sua memória cultural, permitindo a sobrevivência íntegra de importantes obras de tradução que compõem nossa história.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Concurso para Tradutor Público ("juramentado) no Rio de Janeiro
Quer dizer, há algo errado, muito errado. As informações estão pipocando de cá e lá e ainda é cedo para termos certeza de alguma coisa. Mas, ao menos, essa história do gabarito precisa ser tirada muito a limpo. Por primorosa que seja a tradução do gabarito, o sistema é absurdo.
Post scriptum: mal tinha publicado este artigo, me escreveu um colega que diz que as coisas não são bem assim. Não pode dar detalhes agora e pede que eu nome seja mantido em segredo. Diz que vai escrever mais tarde e, sendo quem é, tenho certeza de que não vai faltar. Vamos ver o que acontece. Estou adicionando este PS para deixar as coisas tão claras quanto possível.
A ideia é publicar mesmo os comentários anônimos, desde que estejam dentro do que eu próprio considerar os limites da seriedade.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Epitáfio para um Tradutor
The body of xx, translator
(Like a battered hard disk
Its contents gone forever)
Lies here
Fit only for consignment to the rubbish bin
The labour of decades
Happily erased from memory
Lest the errors and infelicities
Of over-hasty completion
Return to haunt him
O corpo de Fulano de Tal, tradutor, jaz aqui (como se fora um HD velho, seu conteúdo para sempre perdido), próprio somente para o lixo.
Os lavores de décadas afortunadamente apagados da memória, para que os erros e infelicidades de uma entrega por demais apressada não voltem para assombrá-lo.
domingo, 1 de novembro de 2009
Principiantes e aventureiros.
Quem ajuda um principiante está ajudando à profissão como um todo: o principiante de hoje é o colega de amanhã, alguém que vai contribuir para a melhora geral de nossa vida, que nos vai ajudar a resolver um problema.
O aventureiro, ao contrário, jamais vai deixar de ser um peso morto.
Não entendo, nunca entendi, talvez nunca venha a entender, como certos colegas passam a mãozinha na cabeça desses chupins.
Desculpe o desabafo. Mas tem dias que ferve o sangue. Um dos motivos por que me afastei de tantos grupos de tradutores. Porque nessa hora me dá uma vontade, de dizer "oh, meu, escuta, por que você não vai se roçar nas ostras?" como dizia a turma do Pasquin. E, muitas vezes, eu não conseguia resistir. Aí, vinham as acusações de falta de coleguismo, falta de apoio aos principiantes, arrogância de veterano e mais o escambau.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
As Mulheres, de Novo
Mas eu queria falar das mulheres, de novo, para encerrar este assunto, enquanto é tempo.
Para falar delas, vou citar o exemplo de Fanny Cäcilie Hensel, mais conhecida pelo seu nome de solteira Fanny Cäcilie Mendelssohn, irmã do compositor Felix Mendelssohn Bartholdy. Fanny era brilhante musicista e deixou mais de 400 composições, nenhuma das quais publicada em seu nome durante sua vida, porque não ficava bem para uma moça de família ser compositora. Isso de compor era coisa de homem.
Contra os desejos da família, seu irmão Felix chegou a publicar algumas das obras dela. Mas não teve coragem de publicar sob o nome da irmã: publicou sob o seu próprio. Restou à pobre Fanny o gostinho de saber que, quando o irmão foi tocar numa audição particular para a rainha Vitória, sua majestade, sem saber da história, escolheu exatamente as composições de Fanny, dizendo que eram as mais belas de quanto Felix tinha escrito.
Quantas vezes aconteceram coisas semelhantes com tradução, jamais vamos saber. Quantas mulheres terão traduzido desde livros até cartas comerciais e visto seu trabalho apresentado como de seus maridos, será sempre um segredo.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
O Lado Feminino da Tradução
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Recado para Mayra
Calote - as causas
sábado, 24 de outubro de 2009
Edição Extra: Quanto mais Mexe, mais Fede
Acho impossível que você não conheça a Denise, que mantém um blogue chamado Não Gosto de Plágio, que está deixando algumas editoras botocudas à beira de um ataque de histeria. O passatempo — ou talvez compulsão — da Denise é descobrir plágios tradutórios. Para entender melhor a coisa, visite o blogue dela, uma inacreditável coleção de informações corretíssimas e incríveis.
Vou falar aqui só da última que ela aprontou, porque tenho uma participação secundária na encrenca e porque me fez rir muito.
A Denise tuitou que a Madras tinha republicado uma tradução de A Origem das Espécies de Charles Darwin. A tradução era atribuída a Caroline Kazue Ramos Furukawa e que ela, (a Denise, não a Caroline Furukawa, que talvez nem exista), descobriu que o texto era copiado de uma publicação da Lello, datada de 1913 e assinada por Joaquim Dá Mesquita Paul, que pode ter existido ou não, sabe-se lá. O mesmo texto tinha já sido publicado pela Hemus e pela Ediouro em várias ocasiões. As "traduções" brasileiras trazem algumas alterações, para descaracterizar, mas o texto é obviamente o mesmo.
Como é que podemos dizer que duas traduções diferentes podem ser plagiadas uma da outra? Existem dois meios clássicos, o primeiro deles sendo a comparação da estrutura dos períodos. É fácil notar que alguém pegou a tradução feita em Portugal e foi trocando uma palavra cá e outra lá por um sinônimo:
Joaquim Dá Mesquita Paul (1913):
O exame rápido de alguns casos observados nos animais domésticos permitir-nos-á estabelecer a possibilidade ou mesmo a probabilidade de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado de natureza.Caroline Kazue Ramos Furukawa (2009):
O exame rápido de alguns casos constatados nos animais domésticos nos permitirá estabelecer a possibilidade, ou mesmo a probabilidade, de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado natural.
Veja que "observados" foi trocado por "constatados" e mais umas coisinhas aqui ou lá. Talvez até coisa que o próprio tradutor pudesse ter feito — se lhe tivesse sido dada a possibilidade de reler seu texto. Mas, se você pegar o original e der a dois tradutores, pode apostar que nunca sairiam duas traduções assim.
Mas o segundo meio de detectar o plágio é bem mais eficaz: pelos erros comuns. Se duas traduções repetem os mesmos erros, uma é plágio da outra. Não é a coincidência de uma falha ou duas, mas sim de várias e as duas traduções andam de mãos dadas nos índices de falta de qualidade.
A Denise, que, como eu, acredita que só se pode aquilatar a qualidade de uma tradução mediante comparação, foi procurar o que dizia Darwin e notou, admirada, que "duck" sempre saia como "canário", fato que aponta no blogue dela.
Quando li, logo suspeitei que a tradução da Lello tivesse sido feita do francês. Em francês, "pato" de diz "cannard". Recapitulando, fica mais ou menos assim: Darwin escreveu "duck", o tradutor francês botou lá "cannard", que é corretíssimo, mas o tradutor da Lello pensava que "cannard" significava "canário" e mandou ver. E a Hemus, Ediouro e Madras ajudaram a propagar a besteira.
Mais tarde, apareceu no blogue a Ivone Benedetti e apontou mais uns indícios de que a tradução inicial tinha sido feita de um texto francês. A Denise deu uma sherlockada a mais e encontrou o texto francês de que o português foi traduzido.
Quer dizer, quanto mais mexe, mais fede.
Espero que você tenha se divertido tanto quanto eu.
Uma regra que pode ter escapado
Conheço mais de um tradutor que não sabe a diferença entre hífen e travessão, mas são entidades distintas, tanto para as regras de ortografia, como para nosso computador. Aliás, o computador tem ao menos dois tipos de travessão, de meio ou um quadratim (Alt 0150 e Alt 0151, respectivamente). Pouca gente se importa com esses detalhes, mas, como você sabe, o diabo mora nos detalhes.
Veja, agora, o que diz a antiga ortografia:
52 Travessão – Emprega-se o travessão, e não o hífen, para ligar palavras ou grupos de palavras que formam, pelo assim dizer, uma cadeia na frase: trajeto Mauá – Cascadura; a estrada de ferro Rio – Petrópolis; a linha aérea Brasil – Argentina; o percurso Barcas – Tijuca; etc.
… e o que diz a nova:
XV-7º Emprega-se o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando, não propriamente vocábulos, mas encadeamentos vocabulares (tipo: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade, a ponte Rio-Niterói, o percurso Lisboa-Coimbra-Porto, a ligação Angola-Moçambique, bem assim nas combinações históricas ou ocasionais de topônimos (tipo Áustria-Hungria, Alsácia-Lorena, Angola-Brasil, Tóquio-Rio de Janeiro, etc.)
Áustria-Hungria sempre foi com hífen, por ser visto como substantivo composto, mas agora, a ponte que liga o Rio de Janeiro a Niterói deixa de ser Rio–Niterói, por analogia com "estrada de ferro Rio – Petrópolis", para ser Rio-Niterói. Neste caso, de cambulhada, acaba a briga sobre se é Rio–Niterói ou Rio – Niterói, com espaços dos dois lados do travessão, porque hífen não leva espaço ao lado.
Aliás, ao que eu tenha notado, o Acordo Ortográfico nada diz sobre o travessão. Mas sobre isso falo outro dia, que preciso voltar aos nossos calotes.
Obrigado pela visita e volte amanhã.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
De volta aos calotes
Parece que certas conversas pipocam sempre em vários lugares ao mesmo tempo. Em diversos ciberpontos de encontro de tradutores de que participo, seja ativamente, seja como observador, esta semana apareceram discussões sobre calote.
Calotes há, sim, na nossa profissão como em todas as outras. O que me surpreende, entretanto, é que algumas das mensagens fazem parecer que o mundo em que vivemos não tem lei nem ordem e que nossos clientes não passam de um bando de canalhas que só nos pagam na marra. Talvez um pouco do que eu chamo de "coitadinização profissional", aquele hábito para mim intragável de choramingar que nossa profissão é horrível e que melhor seria ser faxineira que tradutora, que somos todos uns coitadinhos, pobrezinhos de nós.
Na verdade, a grande maioria dos clientes paga em dia. Alguns pagam com pequenos atrasos e muito poucos pagam com grandes atrasos ou nos passam calotes. Lamentavelmente, é o atrasado que aparece mais, o que dá a falsa impressão de que temos de andar eternamente com a faca entre os dentes, uma pistola em cada mão e uma espada na outra, em perpétua guerra contra as forças do mal, personificadas por nossos clientes.
O assunto é longo e volto a ele amanhã.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Tradução não é futebol
Volto, depois de um breve intervalo para desabafo, ao meu Arquimedes e a história dos glossários.
Por que essa turma pega um glossário e pensa que, com ele, dá conta do recado? Basicamente em razão de um preconceito contra a tradução técnica. A turma acha que tradução técnica é mera substituição de palavras ou, no máximo expressões. Santa ignorância! Polissemia e ambiguidade, metáforas, anáforas, catáforas e todos esses monstrengos que atemorizam o tradutor literário atormentam o tradutor técnico também, embora nem sempre quem "pega" uma tradução técnica para fazer repare nessas coisas e, como sempre, é aí que mora o perigo.
Manda a boa técnica que o tradutor procure, antes de escrever uma palavra do texto de chegada (ia escrever "por uma palavra no papel", mas ninguém mais faz isso), entenda o que o autor disse (ou quis dizer, o que nem sempre é a mesma coisa). Traduzir sem entender é candidatar-se a ser substituído por um computador, que também traduz tudo sem entender nada — além de trabalhar mais depressa e mais barato que o tradutor humano.
A melhor ferramenta para entender um texto ainda é o dicionário unilíngue. Uma vez decifrado o texto, entendido o sentido dos termos menos conhecidos do tradutor, é que vale a pena ver um glossário bilíngue O glossário pode não tiver a palavra, mas, se você entendeu o texto, tem mais chance de achar uma solução. Dependendo da situação, pode ser necessário conferir tudo com um dicionário unilíngue, para ver exatamente o que é o quê. Às vezes, muitas vezes, nada do que o glossário oferece corresponde a qualquer possível significado do termo no original e a pesquisa tem de se estender por outros campos.
O que não pode é ficar trocando palavrinha de uma língua por palavrinha do outro e, depois, quando questionado, dizer "bom estava num glossário que me deram". Isso não é traduzir, é chutar e tradução não é futebol. Juro!
Até amanhã e obrigado pela visita.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Terceirization é a @#@%$¡!¿†‡!!!!!!!
Intervalo para um desabafo.
Você provavelmente conhece o Ulisses Wehby de Carvalho. Se não conhecer, saiba que, entre outras mil coisas, ele mantém o blogue TeclaSAP, com montes de informações úteis sobre a língua inglesa. No Twitter, ele aparece como @teclasap e periodicamente, tuita alguma coisa interessante do seu blogue.
Como ele e eu somos dois bem-humorados, muitas vezes retuito o que ele escreveu, adicionando alguma brincadeira. Outro dia, ele falou em terceirização, que corretamente traduziu para "outsourcing".
Para retuitar a informação, fui procurar "terceirization" na Internet, para ver se conseguia gerar uma brincadeira. E não é que achei? E foram 82 resultados! Pensei que ia achar somente em lugares, digamos "pouco cultos", lembrando do dia em que encontrei "twisted", no sentido de "torcida de clube de futebol", na página de um bocó de mola semianalfaburro que cismou de cantar loas à sua cidade natal em mau português e inglês ainda pior. Mas fiquei de boca aberta ao encontrar "terceirization" no Lattes, Unicamp, USP (também em francês, ainda por cima) Ufba, Ufpg…
Meu São Jerônimo! Será que essa turma não toma um golinho de Simancol de vez em quando? Errar, todos nós erramos, mas escrever "terceirization" em um trabalho desses me parece uma quebra de decoro acadêmico. Sera que ninguém vê? Ninguém lê? Ninguém se importa? Quer dizer, se mete a escrever inglês, tem que escrever direito! Ou será que este pessoal aprendeu inglês aqui?
Também é uma irresponsabilidade, porque propaga a burrice. Vai lá a azêmola tradutora que traduz por obra e graça São Gúgol, sonha que "terceirization" existe, vai consultar o Google e, encontrando a aberração nas páginas de nossas mais respeitadas instituições de ensino, sai, todo pachola, dizendo "encontrei em vários saites de universidades" e usa. Quer dizer, é a anticultura.
Com que direito se fala mal de Joel Santana, quando as páginas de nossas instituições de ensino superior e do respeitadíssimo Lattes seviciam a língua inglesa desse jeito? Ele, ao menos, tem a desculpa de ser um homem inculto, cujos fundilhos nunca foram honrados pelos bancos de nossas melhores instituições de ensino.
sábado, 17 de outubro de 2009
O Tradutor e Arquimedes
Arquimedes teria dito "deem-me uma alavanca e movimentarei o mundo". A maioria dessas frases foi inventada por um escritor sem nada de melhor que fazer: Cambronne provavelmente nunca disse "a velha guarda morre, mas não se rende", nem muito menos aquilo que muita gente pensa que ele disse, porque ao que tudo indica foi preso pelos ingleses antes do fim da batalha. O homem vai, a frase fica, mesmo que nunca tenha sido dita. Nem comecei, já estou me desviando do assunto. O tema hoje é o "tradutor e Arquimedes" e eu não falei nada de tradução, ainda.
Para encurtar a conversa, este mundo está cheio de tradutores arquimedistas. A frase deles é "deem-me um glossário e traduzirei o mundo". A primeira coisa que fazem ao "pegar um trabalho" é postar na Internet o pedido de um "bom glossário" e vão firmes, valentes, corajosos, substituindo os termos do original pelas sugestões do glossário, uma a uma, até o fim. Quando o glossário oferece duas traduções, usam avançados processos de seleção, tais como "minha mãe mandou bater neste daqui". Entregam o trabalho, regozijando-se em sua glória.
Difícil explicar minha ira e amargor com esse tipo específico de pseudo tradutor, que não sabe que a tradução começa quando fechamos os glossários e dicionários, que só se traduz bem o que se entendeu bem e que ninguém consegue entender bem um texto em língua estrangeira a força de glossários.
Estou vendo que vou ter de voltar ao assunto amanhã ou segunda-feira, porque não tenho como dizer tudo o que quero hoje. Mas vou voltar, sim, porque o assunto merece. Mas não posso encerrar por hoje sem uma advertência: aquele monstro, aquela gárgula, aquela teratologia glossográfica que vaga pela Internet feito alma penada e é dada como o glossário de dois famosos escritórios de tradução de São Paulo e de uma firma de auditoria é uma grosseiríssima falsificação. Não passa de anotações feitas às pressas por mil tradutores e tradutoras, muitos deles bisonhos metafrastes que anotavam aquelas coisas sem nem antes se benzerem para pedir ajuda divina e distribuíram sem grande senso de responsabilidade. Não acredite naquele glossário, por favor. Não faça isso. A maior parte do que está lá é bobagem.
Até amanhã, ou, na pior das hipóteses, segunda. Obrigado pela visita.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Ofertas de serviço nas listas
Então, aparece numa lista de tradutores uma oferta de serviço. Diz assim: "Tenho X palavras para traduzir até dia tal, de um texto sobre ao assunto Y. Os interessados devem escrever para zzzzzz@zzzzz.com.br, mencionando taxas e experiência."
Logo em seguida, começa a chuva de perguntas na lista. De que língua para que língua? Quanto você paga? Seguida pelas mensagens se oferecendo para fazer o serviço, cotando preços, dizendo que tinha anexado currículo. Muitas vezes, todas as perguntas ficam sem resposta, para indignação de quem perguntou.
Vamos lá, devagarinho:
A mensagem dizia "os interessados devem escrever para zzzzzz@zzzzz.com.br." Então, por favor, não escreva para a lista, porque a autora da oferta pediu que se escrevesse diretamente para ela. Responder via lista mostra desatenção e incapacidade para cumprir instruções, dois defeitos graves para um tradutor ou revisor e, provavelmente, não vai adiantar nada, — entre outras razões porque a autora da oferta provavelmente jamais lê as mensagens da lista, que só usa como veículo para eventuais ofertas de serviço.
Pior ainda, é a história dos CVs enviados como anexo. Quando você se inscreve em qualquer lista, recebe uma mensagem com as regras e as regras, 90% das vezes, dizem que a lista não aceita anexos. Se mandar anexos para a lista, está dando uma demonstração de que age sem atenção a regras, o que também é muito mau para um tradutor ou revisor.
Isso, claro, sem esquecer dos que começam "estudo Inglês a 07 anos" (a frase anterior tem três erros, não 03).
O pior é que quando alguém adverte que o sujeito fez bobagem, o infeliz dá uma daquelas respostas agressivas e choramingantes, dizendo que foi "crucificado", reclamando da incompreensão dos veteranos e dizendo mais um monte de bobagens. Tadinho dele! Tivesse feito as coisas direito, ninguém reclamava.
Notou que eu ando muito ranzinza de uns tempos para cá? Volte amanhã, quem sabe estou de melhor humor.