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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

E qual é o Plano B?

Fazendo uma pausa nos assuntos especificamente tradutórios, deixa falar um momento sobre o apagão. As explicações variam, inclusive movidas por fatores ideológicos. O governo afirma que foi um problema atmosférico, aquelas coisas que se chamam em inglês "acts of God", enquanto a oposição fala em "falha administrativa". Não vou discutir isso aqui, porque não é o lugar e não sou autoridade no assunto. Mas vou falar de algo que creio interessante para nós.

No meu entender, o problema não foi a falha do sistema de distribuição em si, mas sim a falha do Plano B. Quer dizer, o que a gente faz se falhar o sistema? O Plano B, se é que havia, ficou só no papel. Se existisse e funcionasse, a luz ia dar uma piscada e, no outro dia, o governo ia dizer, de peito cheio "deu pane na linha de distribuição, mas o sistema se re-estabeleceu em menos de um minuto". Não foi o que aconteceu.

Essas coisas sempre me fazem lembrar dois episódios terríveis na minha vida em que sofri muito pelo simples motivo de que não tinha um bom Plano B. Não estou aqui, agora, falando do governo, mas sim de nós tradutores. A pergunta é: qual é seu Plano B? Quer dizer, se isso que você está planejando não der certo, o que você vai fazer?

A maioria de nós devota todo seu tempo a polir o Plano A e nada ou quase nada ao Plano B. Ficamos empolgados, animadíssimos e esquecemos que pode dar certo o plano, como pode dar errado.

Se alguém nos alertar para a possibilidade de fracasso, imediatamente os venenos da superstição e do "pensamento positivo" se juntam para afastar a ideia nefasta: "Oh, cara, fica secando aí meus planos, vira essa boca para lá!", "Tem uma turma que só desanima", "Que é isso! Pensamento positivo! Deus vai ajudar que tudo vai dar certo!". Mas o fato é que, por mais confiança que tenhamos no Plano A, não podemos descuidar do Plano B e o Plano B, embora dê menos vantagens que o Plano A, é a nossa segurança.
Não podemos esperar o pior, mas temos que contar com a possibilidade de que o pior aconteça e estar preparados para ela. Que o exemplo sirva a todos nós. Quando estivermos empolgados com algum plano, lembrem-se do apagão e se perguntem "e qual é o Plano B?"

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Concurso para Tradutor Público ("juramentado) no Rio de Janeiro

Só uma breve atualização. Tem uma turma se mexendo, como seria de esperar. Essa turma discute muito e, para minha grande satisfação, as cabeças esfriam e a conversa se torna mais lógica. Não interessa a ninguém — nem sequer à JUCERJA, que poderia ser a maior beneficiária de uma grande confusão — que os reprovados se percam em oratória cabeça quente. É mais interessante para todos que se movimentem organizadamente, usando os recursos apropriados.

Por lealdade aos colegas, estou calando sobre certas informações que me foram dadas em confidência. Acho mais honesto ficar calado do que dar informações sobre os planos deles.

Mais uma vez, entretanto, recomendo: não hostilize os aprovados. Pode ter havido fraude, podem ter ocorrido mil coisas, mas isso não quer dizer que alguém mereça nossa hostilidade exclusivamente por ter sido aprovado no exame. Vamos aguardar. Minha impressão é que as possíveis injustiças vão ser sanadas.

Causo: O Dia em que Escapei de Boa

Houve uma época em que os bichos falavam, as galinhas tinham dentes e eu fazia tradução intermitente, na área de negócios, acredite se quiser. Mas, início de carreira, a gente faz de tudo e se acha o maioral.
Um dia, fui chamado para discutir uma participação num encontro. A promotora era uma pequena firma de auditoria, com mais pretensões do que fundos. Chegando lá, não demorou para perceber que não ia dar certo. Logo na recepção, havia um quadro com uma lista completa das outras firmas que faziam a glória do grupo no mundo todo e uma delas ficava na "Ilha do Homem". Apavorei. O dono sofria de logorreia desenfreada e falava sem parar. Além disso, sendo um tanto surdo, falava aos berros. Tinha convidado um amigo para me testar e o amigo sabia menos inglês do que eu, se é que sabia alguma coisa. Era brabo.
Depois das amenidades consuetudinárias, uma introdução de meia hora sobre a glória do grupo e da conferência de que eu ia ter a felicidade única de participar, fui informado que haveria, além dos americanos e ingleses, uns tantos hispanófonos.
A presença de três línguas exige simultânea pura, que eu não faço. Expliquei isso e expliquei que poderia recomendar colegas que fizessem. Como, para piorar, era uma reunião de dia inteiro (ao contrário do que me tinham informado) eram quatro profissionais por cabine, oito ao todo, mais o aluguel do equipamento. Fora de propósito, claro, porque o grupo estava em uma fase transitória de alguma contenção nas despesas, mas isso não é problema meu.
O cara insistiu que eu devia fazer uma tradução inglês-portunhol. Recusei. Para tudo há um limite. Acabou ali a conversa. Ele disse que ele próprio faria a interpretação. Consegui ficar com a boca fechada. Agradeci, me despedi, saí, tomei um café num bar próximo, para estabilizar o estômago e voltei para a casa. Começo de carreira, pouco serviço, um serviço perdido era algo de muito importante. Paciência.
Depois, soube do resultado, por conhecidos comuns.
A reunião se deu na própria firma. Como o dono sofria de logorreia desenfreada e, além de tudo, se viu na posição de participante e intérprete, teve uma apoteose mental pirotécnica e, nas raras ocasiões em que deixava alguém falar, na hora de traduzir, comentava, analisava, agregava,  retrucava. No meio da reunião, alguém cometeu o erro de protestar, o que agravou ainda mais a situação, porque a resposta dele foi altíssona, grandíloqua e sesquipedal e a tradução foi pior ainda. Para coroar, o inglês do cara era uma miséria do cão.
Em suma, escapei de boa.
Obrigado pela visita e até amanhã, quando posto coisas sérias de novo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O concurso da JUCERJA e outros para TPIC III

Embora pareça que muita gente capacitada tenha sido reprovada, nem em particular nem em público vi alguém alegando que os aprovados no RJ eram incapazes (mas surgiu uma acusação desse tipo em outro estado — a ver se consigo apurar alguma coisa fundamentada, para postar aqui). Portanto, salvo melhor juízo, continua válida a recomendação de não hostilizar os aprovados. Se houvesse um caso de suborno envolvido, teriam sido aprovados alguns incapazes também. Pouco posso dizer sobre a capacidade dos candidatos, porque, embora conheça vários deles pessoalmente, nunca vi o trabalho deles.
Mas é interessante, muito interessante, a quantidade bárbara de reprovações e um resultado que, do ponto de vista estatístico, é totalmente anômalo, ponto abordado pelo nosso colega Erik Borten em uma mensagem brilhante à trad-prt. Já escrevi a ele pedindo permissão para usar aqui, mas ainda não obtive resposta.
Por outro lado, tenho a satisfação de reproduzir, com a devida permissão, uma mensagem da nossa colega Sheyla Barretto de Carvalho, que me pareceu equilibrada e inteligente.
Prezados colegas,
Apesar de inconformada com as notas que me foram atribuídas na prova para tradutor público, desejo esclarecer que credito o resultado do concurso a erro no formato adotado para a correção das provas, não necessariamente à fraude.
Posso parecer ingênua ao afirmar isso, porém, conheço há anos alguns dos profissionais aprovados (como Adriana Rieche, Fernanda Mathias, colegas minhas na PUC-RJ, Patricia Tate e Adriana Schwartz no idioma inglês; Annie Cambe no idioma francês) e sei que são todos merecedores da aprovação recebida.
Acredito que o professor César Cardoso é competente o bastante para receber aprovação, independentemente de ser colega de membro da banca examinadora.
Conheço também Leonardo Morais e sei que há muito tempo atua na área de tradução, portanto, prefiro acreditar que tenha sido aprovado por merecimento.
A impressão que tenho é que distribuíram as provas do concurso para diferentes avaliadores e a maioria deles não soube aplicar as regras de correção recomendáveis para provas de tradução/versão.
Não está autorizado o uso do meu nome em emails como aquele divulgado recentemente por uma "Comissão": acusatório, sem assinatura e cuja opinião é divergente da minha.
Tenho plena confiança na minha capacidade como profissional da área de tradução/interpretação, construída ao longo de uma carreira bem-sucedida de quase 20 anos de muito trabalho e dedicação e da qual muito me orgulho, mas desejo me solidarizar com aqueles cuja confiança possa ter sido abalada pelo resultado do concurso.
As aprovações podem ter sido justas, no entanto, as reprovações, em grande parte, certamente não o foram.
Atenciosamente,
Sheyla Barretto de Carvalho
Tradutora-Intérprete
Sócia-Fundadora do Brasillis
membro da Abrates, da ATA, do Sintra
membro da OAB-RJ
membro do CRA-RJ

domingo, 8 de novembro de 2009

O concurso da JUCERJA e outros para TPIC

Estou recebendo, além dos comentários que você vê aí abaixo, umas quantas mensagens particulares de amigos que prestaram o concurso e que me mandam informações interessantes, mas pedindo que eu as divulgue mascaradas, de modo a lhes proteger a identidade.
Uma delas vem de uma pessoa que afirma ter prestado o concurso de boa-fé, não ter subornado ninguém, não saber de antemão o que ia cair, tendo recebido a aprovação com base exclusivamente em seu trabalho. Queixa-se de estar sofrendo hostilidade por parte de colegas reprovados. Conhecendo o remetente, acredito que tenha agido de boa-fé no concurso, conhecendo o mundo, sei o que quer dizer com "hostilizado", porque eu próprio sou alvo de muita hostilidade, às vezes aberta, às vezes encoberta — e olha que não fui aprovado em concurso algum. Pode ser muito irritante ou muito divertido, conforme o estado de ânimo do momento. Mas o colega que me escreveu, que queria comemorar a vitória, ficou frustradíssimo com as alfinetadas recebidas. Não será o único. O hábito do perdedor hostilizar o vencedor é tão velho quanto desprezível.
Longe de mim dizer que o tal do concurso foi bem conduzido: quanto mais sei sobre ele, mais sei que foi uma vergonha. Vou voltar ao assunto várias vezes, até que, de um modo ou de outro, se esgote. Entretanto, a conclusão de que todos os aprovados conseguiram passar por ter agido de maneira criminosa, via subornos, apadrinhamentos ou coisa pior ainda, me parece um erro. Não vamos agora, sem prova alguma, por mera suspeita, acusar de desonesto o colega que antes tínhamos por amigo e honesto. Há que investigar e a grita é forte, o que deve forçar a uma investigação. Talvez, inclusive, incluindo uns casos estranhos havidos em pelo menos mais um concurso para TPIC e mais umas coisinhas. Lamentavelmente, esta foi uma semana corrida demais e não pude agitar as coisas; a semana que vem, espero, será melhor.
De uma coisa, creio, podemos ter certeza: na raiz do problema está um ponto levantado pelo nosso colega José Henrique Lammensdorf, que é TPIC em SP e que não prestou o concurso no RJ. Ele lembra que os TPICs são um peso morto para as Juntas Comerciais. TPIC recolhe ISS ao município, ao passo que as JUCs são estaduais. Em todos os Estados, o interesse da JUC pelo que quer que aconteça com a Tradução Pública é extremamente limitado. Fazem o que não podem evitar fazer.
Mas sobre isso, volto a falar amanhã.

Você está de acordo com isto?

Você está de acordo com isto?
Denise Bottmann, agitando, como sempre, está fazendo uma proposta interessante e precisa do nosso apoio. Leia a proposta e, se, como eu, estiver de acordo, clique aqui  , para manifestar seu apoio.
LICENCIAMENTO DE OBRAS DE TRADUÇÃO ESGOTADAS

Os plágios de tradução de grandes obras da literatura e do pensamento universal constituem uma negra mancha na história do livro no Brasil. O recurso a tal prática teve um grande impulso sobretudo a partir de 1998. A principal característica comum à grande maioria de tais ilícitos é o uso fraudado de traduções antigas, geralmente esgotadas e que ainda não entraram em domínio público.

Por um lado, uma grande e necessária retificação da atual lei 9.610/98 seria a autorização para o licenciamento em curto prazo de obras esgotadas para reprodução sem fins comerciais, sob a forma de reprografia e digitalização para uso privado, para o ensino e para os acervos de bibliotecas públicas.
Por outro lado, cremos que, além desta flexibilização que atende ao premente direito social de acesso a obras esgotadas e abandonadas, seria da máxima importância prever igualmente um dispositivo legal autorizando a livre reprodução dessas obras de tradução também em formato de livro, sempre respeitados os direitos inalienáveis de seus autores e a cadeia dos direitos prévios eventualmente vigentes.
Assim, sugerimos que, decorridos 20 (vinte) anos após a última edição da obra, ela possa ser novamente disponibilizada à sociedade como livro impresso, pelos circuitos tradicionais de publicação e distribuição.
Tal proposta não fere as regras dos tratados internacionais sobre propriedade intelectual e está em consonância com as condições previstas no Anexo da Convenção de Berna, pois se trata de caso especial, que não conflita com a exploração normal e tampouco prejudica os interesses legítimos do titular.
Cremos que todos terão a ganhar: os cidadãos leitores que poderão dispor de obras até então esgotadas, seus autores assim resgatados do esquecimento, os editores que poderão publicar tais obras e os livreiros que poderão fazê-las chegar aos leitores.
Toda a sociedade poderá assim ter garantias de preservar ativamente sua memória cultural, permitindo a sobrevivência íntegra de importantes obras de tradução que compõem nossa história.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Concurso para Tradutor Público ("juramentado) no Rio de Janeiro

Estão girando pela Web mensagens iradas sobre os concursos para TPIC recentemente promovidos no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina. Para dizer a verdade, eu já esperava. É sempre assim: quem passa, elogia o concurso; quem não passa sempre encontra um advogado pronto a jurar que um mandado de segurança garante a nomeação e é "causa ganha". Isso faz parte da vida e da própria cultura brasileira. Tapetão está aí para ser puxado, como todos sabem.

Mas parece que, desta vez, a coisa foi feia. Vou me deter aqui somente em um ponto do concurso do Rio: segundo se diz — e eu ainda não tive como apurar a origem da denúncia — foi usado um gabarito de correção. Ou seja, para cada texto, haveria uma "tradução padrão" e os desvios dessa tradução teriam sido punidos com descontos de pontos. Se isso aconteceu, foi um crime. Não sei como a lei tipificaria esse desatino, mas foi um crime hediondo que vai deixar uma mancha, uma grande nódoa na reputação de quem o cometeu.

Só cabe gabarito em teste de múltipla escolha e os exames da JUCERJA não foram testes de múltipla escolha nem cabe esse tipo de avaliação em exame de tradução. Só isso desqualifica completamente o concurso, aos meus olhos.

Sei de uma pessoa que foi aprovada e sei que é profissional séria e competente. Conheço muitos dos reprovados e fico me perguntando o que terão feito para merecerem a reprovação, porque são gente conceituadíssima. Em qualquer concurso, sempre há uns tantos "conceituados reprovados", ou porque estavam em mau dia, ou porque gozavam de conceito imerecido. Parece, entretanto, que o número de reprovações de gente conhecida e respeitada na primeira fase do teste excede o que se poderia esperar.

Quer dizer, há algo errado, muito errado. As informações estão pipocando de cá e lá e ainda é cedo para termos certeza de alguma coisa. Mas, ao menos, essa história do gabarito precisa ser tirada muito a limpo. Por primorosa que seja a tradução do gabarito, o sistema é absurdo.

Ainda devo voltar ao assunto muitas vezes, talvez menos do que ele mereça.

Post scriptum: mal tinha publicado este artigo, me escreveu um colega que diz que as coisas não são bem assim. Não pode dar detalhes agora e pede que eu nome seja mantido em segredo. Diz que vai escrever mais  tarde e, sendo quem é, tenho certeza de que não vai faltar. Vamos ver o que acontece. Estou adicionando este PS para deixar as coisas tão claras quanto possível.  



A ideia é publicar mesmo os comentários anônimos, desde que estejam dentro do que eu próprio considerar os limites da seriedade. 




segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Epitáfio para um Tradutor

Sendo hoje o dia de finados, acho apropriado postar o "Epitáfio para um tradutor", escrito por nosso colega Hugh Keith (a quem agradeço a permissão para republicar), com a minha capenguíssima tradução. Quem sabe você tem uma tradução melhor?

The body of xx, translator
(Like a battered hard disk
Its contents gone forever)
Lies here
Fit only for consignment to the rubbish bin
The labour of decades
Happily erased from memory
Lest the errors and infelicities
Of over-hasty completion
Return to haunt him


O corpo de Fulano de Tal, tradutor, jaz aqui (como se fora um HD velho, seu conteúdo para sempre perdido), próprio somente para o lixo.
Os lavores de décadas afortunadamente apagados da memória, para que os erros e infelicidades de uma entrega por demais apressada não voltem para assombrá-lo.

domingo, 1 de novembro de 2009

Principiantes e aventureiros.

É preciso aprender a distinguir principiantes de aventureiros. O principiante se esforça e pede ajuda quanto não tem mais onde procurar. O aventureiro é um vagabundo folgado que posta na Internet todos os termos cuja tradução não lhe vem à cabeça imediatamente, para ver se algum palmípide responde, poupando-lhe o trabalho de abrir um dicionário.

Quem ajuda um principiante está ajudando à profissão como um todo: o principiante de hoje é o colega de amanhã, alguém que vai contribuir para a melhora geral de nossa vida, que nos vai ajudar a resolver um problema.

O aventureiro, ao contrário, jamais vai deixar de ser um peso morto.

Não entendo, nunca entendi, talvez nunca venha a entender, como certos colegas passam a mãozinha na cabeça desses chupins.

Desculpe o desabafo. Mas tem dias que ferve o sangue. Um dos motivos por que me afastei de tantos grupos de tradutores. Porque nessa hora me dá uma vontade, de dizer "oh, meu, escuta, por que você não vai se roçar nas ostras?" como dizia a turma do Pasquin. E, muitas vezes, eu não conseguia resistir. Aí, vinham as acusações de falta de coleguismo, falta de apoio aos principiantes, arrogância de veterano e mais o escambau.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As Mulheres, de Novo

Ontem disse que não sabemos ao certo quantas mulheres traduziram e tiveram seu trabalho assinado por homens. A rigor, não é possível saber quem fez uma tradução, sabe-se, se tanto, quem disse que fez. Por isso que essa historiada toda de regulamentação da profissão é balela. Vai-se saber que a tradução leva a assinatura de Alfa Beta da Gama, CRT 176-671, mas se foi a Alfa mesmo que traduziu ou se foi a Zeta Omega, que nunca se registrou para nada, é quase impossível determinar.

Mas eu queria falar das mulheres, de novo, para encerrar este assunto, enquanto é tempo.
Para falar delas, vou citar o exemplo de Fanny Cäcilie Hensel, mais conhecida pelo seu nome de solteira Fanny Cäcilie Mendelssohn, irmã do compositor Felix Mendelssohn Bartholdy. Fanny era brilhante musicista e deixou mais de 400 composições, nenhuma das quais publicada em seu nome durante sua vida, porque não ficava bem para uma moça de família ser compositora. Isso de compor era coisa de homem.

Contra os desejos da família, seu irmão Felix chegou a publicar algumas das obras dela. Mas não teve coragem de publicar sob o nome da irmã: publicou sob o seu próprio. Restou à pobre Fanny o gostinho de saber que, quando o irmão foi tocar numa audição particular para a rainha Vitória, sua majestade, sem saber da história, escolheu exatamente as composições de Fanny, dizendo que eram as mais belas de quanto Felix tinha escrito.

Quantas vezes aconteceram coisas semelhantes com tradução, jamais vamos saber. Quantas mulheres terão traduzido desde livros até cartas comerciais e visto seu trabalho apresentado como de seus maridos, será sempre um segredo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Lado Feminino da Tradução

Antes de voltar aos calotes — assunto sempre fértil, aqui — deixa fazer uma observação sobre as mulheres. Gente, como tem mulher tradutora! Nos encontros de tradutores, geralmente temos 90% de mulheres. Uma barbaridade.

Houve uma fase em que três membros da diretoria do sindicato (que tem quatro membros ao todo) eram mulheres. Um dia, ou o Sintra ou a Abrates vão ter de criar um "departamento masculino" para acomodar os membros do sexo barbado.

Sempre houve muitas mulheres traduzindo. Como as oportunidades de trabalho para as mulheres eram muito poucas, principalmente para as mulheres mais instruídas, que não iam se sujeitar a trabalhar em tecelagam ou como domésticas, quem não se sentia bem como professora, tendia a traduzir.

Houve uma época em que uma mulher de família, se casada, adminsitrava a casa da melhor maneira possível, mas não se envolvia em ganhar dinheiro. Entre as boas famílias, saber quanto ganhava o marido era considerado algo indecente para uma mulher. As solteiras, limitavam-se a esperar marido ou fazer algo na igreja. Era isso, ou ser professora — ou tradutora.

Como em todo lugar, a competência dessas tradutoras variava de altíssima a quase nula, mas, nisso, estavam par a par com os homens. O problema era que muitas das mulheres eram esposas ou filhas de homens bem-ganhantes e não faziam a menor questão de lutar por uma remuneração melhor. Peguei o fim dessa era e cheguei a conversar com uma mulher que dizia "Graças a Deus, meu marido ganha muito bem e, graças a Deus, eu não preciso ganhar dinheiro e, graças a Deus, posso aceitar qualquer serviço e, graças a Deus, não me falta o que fazer". Dizia isso com uma arrogância única, como se fosse superior a todos nós, ali, que tínhamos de dar um duro danado para sobreviver. Não se dava conta de que ela estava subsidiando o setor editorial com o salário do marido e prejudicando a todos nós com uma concorrência desleal e, além de tudo, dificultando a criação de uma profissão de traduzir, porque não se cria uma profissão enquanto houver a turma que trabalha por qualquer preço.

Ainda bem que esse tipo de pessoa praticamente desapaeceu. O lado feminino da profissão se profissionalizou inteiramente e exige remuneração igual à dos homens, no que estão muito certas. E mesmo aquelas que fizerm um bom casamento (ou um bom divórcio), fazem questão de cobrar o mais que puderem. Há anos não ouço uma que diga "Graças a Deus, não preciso disso e trabalho por qualquer preço".

Graças a Deus, digo eu, embora seja agnóstico.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Recado para Mayra

Você deveria escrever para a Denise. Ela sabe dessas coisas melhor que eu. Aqui, repico as descobertas dela, para ajudar na divulgação.

Calote - as causas

Um cliente — seja pessoa física ou jurídica, um estudante ou uma grande empresa, pode atrasar pagamentos por vários motivos: acidente, falta de organização, falta de ética, falta de dinheiro.

Acidentes que impeçam pagamento hoje são raros: há anos, incendiou-se o prédio onde funcionava um cliente meu e eles demoraram um tempinho para conseguir pagar os fornecedores, porque os arquivos se tinham queimado e eles ficaram perdidos nas contas. Hoje, os arquivos "estão no sistema" e o sistema tem que ter planos de emergência. Em caso de um incêndio destruir o prédio, o plano de emergência tem de prever até em que lugar físico o pessoal tem de se apresentar ao trabalho no dia seguinte.
Então, sobram as três faltas: organização, ética e dinheiro.

Falta de organização é comum em pessoas físicas. O sujeito simplesmente não te estrutura formalizada de contas a pagar e pagamentos e se atrapalha todo. Todas as vezes que você presta serviços a uma pessoa física, seja ela o cliente final, seja um colega servindo de intermediário, está sujeita aos efeitos maléficos da bagunça administrativa do vivente. Em pessoas jurídicas, é indesculpável.

Falta de ética é outra coisa. É o cara ter o dinheiro, saber que deve, ter tempo e condições de pagar, está tudo em ordenzinho, mas ele não paga. Temos um caso, muito discutido nas listas, de uma senhorita que usou todo o dinheiro "da firma" para financiar suas bodas e mais uma viagem e achou, tendo dito isso claramente, que não podia pagar tradutores quando tinha que gastar uma fortuna no seu casamento e quem já tinha passado por isso, sabia o que era. Curioso que houve quem a defendesse — inclusive afirmando que ela tinha acabado por pagar todos e continuava mandando serviço. Uma pessoa que age assim, que acha que seus fornecedores têm a obrigação de financiar suas festas particulares, é totalmente desprovida de ética; de um egoísmo total.

Falta de dinheiro é resultado da falta de organização ou da falta de ética. O sujeito pode ter feito como a donzela aí acima e resolvido financiar sua vida particular com o dinheiro dos fornecedores, o que é falta de ética. Do lado da falta de organização, cabe aqui lembrar um outro lado do problema: o do cliente que está sem dinheiro para nos pagar porque é tão desorganizado que não faturou os clientes finais dele.
Mas o fato é que, no nosso bolso, a dor é a mesma, não importa a causa do atraso. E, aí, fica a questão do que fazer, que abordo amanhã.

Obrigado pela visita. Volte sempre.

sábado, 24 de outubro de 2009

Edição Extra: Quanto mais Mexe, mais Fede

Acho impossível que você não conheça a Denise, que mantém um blogue chamado Não Gosto de Plágio, que está deixando algumas editoras botocudas à beira de um ataque de histeria. O passatempo — ou talvez compulsão — da Denise é descobrir plágios tradutórios. Para entender melhor a coisa, visite o blogue dela, uma inacreditável coleção de informações corretíssimas e incríveis.

Vou falar aqui só da última que ela aprontou, porque tenho uma participação secundária na encrenca e porque me fez rir muito.

A Denise tuitou que a Madras tinha republicado uma tradução de A Origem das Espécies de Charles Darwin. A tradução era atribuída a Caroline Kazue Ramos Furukawa e que ela, (a Denise, não a Caroline Furukawa, que talvez nem exista), descobriu que o texto era copiado de uma publicação da Lello, datada de 1913 e assinada por Joaquim Dá Mesquita Paul, que pode ter existido ou não, sabe-se lá. O mesmo texto tinha já sido publicado pela Hemus e pela Ediouro em várias ocasiões. As "traduções" brasileiras trazem algumas alterações, para descaracterizar, mas o texto é obviamente o mesmo.

Como é que podemos dizer que duas traduções diferentes podem ser plagiadas uma da outra? Existem dois meios clássicos, o primeiro deles sendo a comparação da estrutura dos períodos. É fácil notar que alguém pegou a tradução feita em Portugal e foi trocando uma palavra cá e outra lá por um sinônimo:

Joaquim Dá Mesquita Paul (1913):
O exame rápido de alguns casos observados nos animais domésticos permitir-nos-á estabelecer a possibilidade ou mesmo a probabilidade de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado de natureza.

Caroline Kazue Ramos Furukawa (2009):
O exame rápido de alguns casos constatados nos animais domésticos nos permitirá estabelecer a possibilidade, ou mesmo a probabilidade, de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado natural.

Veja que "observados" foi trocado por "constatados" e mais umas coisinhas aqui ou lá. Talvez até coisa que o próprio tradutor pudesse ter feito — se lhe tivesse sido dada a possibilidade de reler seu texto. Mas, se você pegar o original e der a dois tradutores, pode apostar que nunca sairiam duas traduções assim.

Mas o segundo meio de detectar o plágio é bem mais eficaz: pelos erros comuns. Se duas traduções repetem os mesmos erros, uma é plágio da outra. Não é a coincidência de uma falha ou duas, mas sim de várias e as duas traduções andam de mãos dadas nos índices de falta de qualidade.

A Denise, que, como eu, acredita que só se pode aquilatar a qualidade de uma tradução mediante comparação, foi procurar o que dizia Darwin e notou, admirada, que "duck" sempre saia como "canário", fato que aponta no blogue dela.

Quando li, logo suspeitei que a tradução da Lello tivesse sido feita do francês. Em francês, "pato" de diz "cannard". Recapitulando, fica mais ou menos assim: Darwin escreveu "duck", o tradutor francês botou lá "cannard", que é corretíssimo, mas o tradutor da Lello pensava que "cannard" significava "canário" e mandou ver. E a Hemus, Ediouro e Madras ajudaram a propagar a besteira.

Mais tarde, apareceu no blogue a Ivone Benedetti e apontou mais uns indícios de que a tradução inicial tinha sido feita de um texto francês. A Denise deu uma sherlockada a mais e encontrou o texto francês de que o português foi traduzido.

Quer dizer, quanto mais mexe, mais fede.

Espero que você tenha se divertido tanto quanto eu.

Uma regra que pode ter escapado

Conheço mais de um tradutor que não sabe a diferença entre hífen e travessão, mas são entidades distintas, tanto para as regras de ortografia, como para nosso computador. Aliás, o computador tem ao menos dois tipos de travessão, de meio ou um quadratim (Alt 0150 e Alt 0151, respectivamente). Pouca gente se importa com esses detalhes, mas, como você sabe, o diabo mora nos detalhes.

Veja, agora, o que diz a antiga ortografia:

52 Travessão – Emprega-se o travessão, e não o hífen, para ligar palavras ou grupos de palavras que formam, pelo assim dizer, uma cadeia na frase: trajeto Mauá – Cascadura; a estrada de ferro Rio – Petrópolis; a linha aérea Brasil – Argentina; o percurso Barcas – Tijuca; etc.

… e o que diz a nova:

XV-7º Emprega-se o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando, não propriamente vocábulos, mas encadeamentos vocabulares (tipo: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade, a ponte Rio-Niterói, o percurso Lisboa-Coimbra-Porto, a ligação Angola-Moçambique, bem assim nas combinações históricas ou ocasionais de topônimos (tipo Áustria-Hungria, Alsácia-Lorena, Angola-Brasil, Tóquio-Rio de Janeiro, etc.)

Áustria-Hungria sempre foi com hífen, por ser visto como substantivo composto, mas agora, a ponte que liga o Rio de Janeiro a Niterói deixa de ser Rio–Niterói, por analogia com "estrada de ferro Rio – Petrópolis", para ser Rio-Niterói. Neste caso, de cambulhada, acaba a briga sobre se é Rio–Niterói ou Rio – Niterói, com espaços dos dois lados do travessão, porque hífen não leva espaço ao lado.

Aliás, ao que eu tenha notado, o Acordo Ortográfico nada diz sobre o travessão. Mas sobre isso falo outro dia, que preciso voltar aos nossos calotes.

Obrigado pela visita e volte amanhã.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

De volta aos calotes

Parece que certas conversas pipocam sempre em vários lugares ao mesmo tempo. Em diversos ciberpontos de encontro de tradutores de que participo, seja ativamente, seja como observador, esta semana apareceram discussões sobre calote.

Calotes há, sim, na nossa profissão como em todas as outras. O que me surpreende, entretanto, é que algumas das mensagens fazem parecer que o mundo em que vivemos não tem lei nem ordem e que nossos clientes não passam de um bando de canalhas que só nos pagam na marra. Talvez um pouco do que eu chamo de "coitadinização profissional", aquele hábito para mim intragável de choramingar que nossa profissão é horrível e que melhor seria ser faxineira que tradutora, que somos todos uns coitadinhos, pobrezinhos de nós.

Na verdade, a grande maioria dos clientes paga em dia. Alguns pagam com pequenos atrasos e muito poucos pagam com grandes atrasos ou nos passam calotes. Lamentavelmente, é o atrasado que aparece mais, o que dá a falsa impressão de que temos de andar eternamente com a faca entre os dentes, uma pistola em cada mão e uma espada na outra, em perpétua guerra contra as forças do mal, personificadas por nossos clientes.

O assunto é longo e volto a ele amanhã.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Tradução não é futebol

Volto, depois de um breve intervalo para desabafo, ao meu Arquimedes e a história dos glossários.

Por que essa turma pega um glossário e pensa que, com ele, dá conta do recado? Basicamente em razão de um preconceito contra a tradução técnica. A turma acha que tradução técnica é mera substituição de palavras ou, no máximo expressões. Santa ignorância! Polissemia e ambiguidade, metáforas, anáforas, catáforas e todos esses monstrengos que atemorizam o tradutor literário atormentam o tradutor técnico também, embora nem sempre quem "pega" uma tradução técnica para fazer repare nessas coisas e, como sempre, é aí que mora o perigo.

Manda a boa técnica que o tradutor procure, antes de escrever uma palavra do texto de chegada (ia escrever "por uma palavra no papel", mas ninguém mais faz isso), entenda o que o autor disse (ou quis dizer, o que nem sempre é a mesma coisa). Traduzir sem entender é candidatar-se a ser substituído por um computador, que também traduz tudo sem entender nada — além de trabalhar mais depressa e mais barato que o tradutor humano.

A melhor ferramenta para entender um texto ainda é o dicionário unilíngue. Uma vez decifrado o texto, entendido o sentido dos termos menos conhecidos do tradutor, é que vale a pena ver um glossário bilíngue O glossário pode não tiver a palavra, mas, se você entendeu o texto, tem mais chance de achar uma solução. Dependendo da situação, pode ser necessário conferir tudo com um dicionário unilíngue, para ver exatamente o que é o quê. Às vezes, muitas vezes, nada do que o glossário oferece corresponde a qualquer possível significado do termo no original e a pesquisa tem de se estender por outros campos.

O que não pode é ficar trocando palavrinha de uma língua por palavrinha do outro e, depois, quando questionado, dizer "bom estava num glossário que me deram". Isso não é traduzir, é chutar e tradução não é futebol. Juro!

Até amanhã e obrigado pela visita.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Terceirization é a @#@%$¡!¿†‡!!!!!!!

Intervalo para um desabafo.

Você provavelmente conhece o Ulisses Wehby de Carvalho. Se não conhecer, saiba que, entre outras mil coisas, ele mantém o blogue TeclaSAP, com montes de informações úteis sobre a língua inglesa. No Twitter, ele aparece como @teclasap e periodicamente, tuita alguma coisa interessante do seu blogue.

Como ele e eu somos dois bem-humorados, muitas vezes retuito o que ele escreveu, adicionando alguma brincadeira. Outro dia, ele falou em terceirização, que corretamente traduziu para "outsourcing".

Para retuitar a informação, fui procurar "terceirization" na Internet, para ver se conseguia gerar uma brincadeira. E não é que achei? E foram 82 resultados! Pensei que ia achar somente em lugares, digamos "pouco cultos", lembrando do dia em que encontrei "twisted", no sentido de "torcida de clube de futebol", na página de um bocó de mola semianalfaburro que cismou de cantar loas à sua cidade natal em mau português e inglês ainda pior. Mas fiquei de boca aberta ao encontrar "terceirization" no Lattes, Unicamp, USP (também em francês, ainda por cima) Ufba, Ufpg…

Meu São Jerônimo! Será que essa turma não toma um golinho de Simancol de vez em quando? Errar, todos nós erramos, mas escrever "terceirization" em um trabalho desses me parece uma quebra de decoro acadêmico. Sera que ninguém vê? Ninguém lê? Ninguém se importa? Quer dizer, se mete a escrever inglês, tem que escrever direito! Ou será que este pessoal aprendeu inglês aqui?

Também é uma irresponsabilidade, porque propaga a burrice. Vai lá a azêmola tradutora que traduz por obra e graça São Gúgol, sonha que "terceirization" existe, vai consultar o Google e, encontrando a aberração nas páginas de nossas mais respeitadas instituições de ensino, sai, todo pachola, dizendo "encontrei em vários saites de universidades" e usa. Quer dizer, é a anticultura.

Com que direito se fala mal de Joel Santana, quando as páginas de nossas instituições de ensino superior e do respeitadíssimo Lattes seviciam a língua inglesa desse jeito? Ele, ao menos, tem a desculpa de ser um homem inculto, cujos fundilhos nunca foram honrados pelos bancos de nossas melhores instituições de ensino.


sábado, 17 de outubro de 2009

O Tradutor e Arquimedes

Arquimedes teria dito "deem-me uma alavanca e movimentarei o mundo". A maioria dessas frases foi inventada por um escritor sem nada de melhor que fazer: Cambronne provavelmente nunca disse "a velha guarda morre, mas não se rende", nem muito menos aquilo que muita gente pensa que ele disse, porque ao que tudo indica foi preso pelos ingleses antes do fim da batalha. O homem vai, a frase fica, mesmo que nunca tenha sido dita. Nem comecei, já estou me desviando do assunto. O tema hoje é o "tradutor e Arquimedes" e eu não falei nada de tradução, ainda.

Para encurtar a conversa, este mundo está cheio de tradutores arquimedistas. A frase deles é "deem-me um glossário e traduzirei o mundo". A primeira coisa que fazem ao "pegar um trabalho" é postar na Internet o pedido de um "bom glossário" e vão firmes, valentes, corajosos, substituindo os termos do original pelas sugestões do glossário, uma a uma, até o fim. Quando o glossário oferece duas traduções, usam avançados processos de seleção, tais como "minha mãe mandou bater neste daqui". Entregam o trabalho, regozijando-se em sua glória.

Difícil explicar minha ira e amargor com esse tipo específico de pseudo tradutor, que não sabe que a tradução começa quando fechamos os glossários e dicionários, que só se traduz bem o que se entendeu bem e que ninguém consegue entender bem um texto em língua estrangeira a força de glossários.

Estou vendo que vou ter de voltar ao assunto amanhã ou segunda-feira, porque não tenho como dizer tudo o que quero hoje. Mas vou voltar, sim, porque o assunto merece. Mas não posso encerrar por hoje sem uma advertência: aquele monstro, aquela gárgula, aquela teratologia glossográfica que vaga pela Internet feito alma penada e é dada como o glossário de dois famosos escritórios de tradução de São Paulo e de uma firma de auditoria é uma grosseiríssima falsificação. Não passa de anotações feitas às pressas por mil tradutores e tradutoras, muitos deles bisonhos metafrastes que anotavam aquelas coisas sem nem antes se benzerem para pedir ajuda divina e distribuíram sem grande senso de responsabilidade. Não acredite naquele glossário, por favor. Não faça isso. A maior parte do que está lá é bobagem.

Até amanhã, ou, na pior das hipóteses, segunda. Obrigado pela visita.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ofertas de serviço nas listas

Então, aparece numa lista de tradutores uma oferta de serviço. Diz assim: "Tenho X palavras para traduzir até dia tal, de um texto sobre ao assunto Y. Os interessados devem escrever para zzzzzz@zzzzz.com.br, mencionando taxas e experiência."

Logo em seguida, começa a chuva de perguntas na lista. De que língua para que língua? Quanto você paga? Seguida pelas mensagens se oferecendo para fazer o serviço, cotando preços, dizendo que tinha anexado currículo. Muitas vezes, todas as perguntas ficam sem resposta, para indignação de quem perguntou.

Vamos lá, devagarinho:

A mensagem dizia "os interessados devem escrever para zzzzzz@zzzzz.com.br." Então, por favor, não escreva para a lista, porque a autora da oferta pediu que se escrevesse diretamente para ela. Responder via lista mostra desatenção e incapacidade para cumprir instruções, dois defeitos graves para um tradutor ou revisor e, provavelmente, não vai adiantar nada, — entre outras razões porque a autora da oferta provavelmente jamais lê as mensagens da lista, que só usa como veículo para eventuais ofertas de serviço.

Pior ainda, é a história dos CVs enviados como anexo. Quando você se inscreve em qualquer lista, recebe uma mensagem com as regras e as regras, 90% das vezes, dizem que a lista não aceita anexos. Se mandar anexos para a lista, está dando uma demonstração de que age sem atenção a regras, o que também é muito mau para um tradutor ou revisor.

Isso, claro, sem esquecer dos que começam "estudo Inglês a 07 anos" (a frase anterior tem três erros, não 03).

O pior é que quando alguém adverte que o sujeito fez bobagem, o infeliz dá uma daquelas respostas agressivas e choramingantes, dizendo que foi "crucificado", reclamando da incompreensão dos veteranos e dizendo mais um monte de bobagens. Tadinho dele! Tivesse feito as coisas direito, ninguém reclamava.

Notou que eu ando muito ranzinza de uns tempos para cá? Volte amanhã, quem sabe estou de melhor humor.