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domingo, 6 de setembro de 2009

Nota da Martin Claret?

Está circulando pela Internet um texto curioso. Já recebi cópias enviadas por mais de um colega. Não sei se é autêntico. Estava pensando em deixar este comentário para quarta, para ter tempo de conferir se é espúrio ou não. Entretanto, o interesse do texto é o mesmo, quer tenha sido enviado pela Editora Martin Claret, quer seja uma contrafação. Vamos a ele.

Prezados amigos,

Tendo em vista matéria publicada recentemente em jornal desta capital, com denúncias de plágio envolvendo a Martin Claret e outras editoras, vimos esclarecer que, no passado, tivemos a infelicidade de contratar alguns profissionais da área de tradução que não se mostraram à altura do trabalho. A esse fato, acresce o interesse de parte da concorrência em nos alijar do mercado editorial, divulgando notícias desmedidas e distorcidas, sem jamais falar também das medidas corretivas já tomadas por esta editora. Estamos processando judicialmente os responsáveis por essa campanha contra a Martin Claret.

De resto, garantimos que estamos dirigindo todos os nossos esforços para corrigir eventuais erros cometidos no passado, bem como para garantir aos nossos leitores livros de qualidade, no mesmo nível das melhores editoras do país.

Atenciosamente,

"Um líder só cumpre sua função quando compartilha. Os sucessos são sempre do grupo"

Uriel Fernandes
Vamos, primeiro, presumir que a nota seja autêntica, quer dizer, que tenha, de fato, sido escrita e publicada pela Martin Claret.

É fato que a Martin Claret tem sido muito citada, pela imprensa e pelo blogue da Denise Bottmann, por acusações de plágio, acusações que chegaram até à Wikipedia, onde, hoje, dia 6 de setembro de 2009, está escrito:
Acusação de Plágio: Há anos a editora vem sofrendo diversas acusações de plágio provenientes de diversas traduções. Em 2000, ela respondeu a uma intimação judicial da Companhia das Letras, reconhecendo posteriormente ter usado uma parte das traduções de Modesto Carone para três novelas de Franz Kafka (1883-1924): "A Metamorfose", "Um Artista da Fome" e "Carta ao Pai". Já em 2007, por sua vez, a obra A República, de Platão, tinha a tradução assinada por Pietro Nassetti, mas na verdade o texto é uma adaptação com pequenas mudanças da tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, uma das maiores especialistas portuguesas em Grécia Antiga. O editor Martin Claret, dono da Editora Martin Claret, admitiu que "sua" edição de A República, de Platão, é plágio da edição da Fundação Calouste Gulbenkian. Há ainda a suspeita de que muitos outros livros da editora usem traduções plagiadas, já que poucos e desconhecidos nomes, como por exemplo o de Alex Marins e Jean Melville, assinam variados títulos publicados por ela. Pietro Nassetti teria traduzido Shakespeare, Maquiavel,Descartes, Rousseau, Voltaire, Schopenhauer, Balzac, Poe e outros.
A Wikipedia é dinâmica e, se você clicar no link, pode encontrar outro texto. Mas o que está acima é o que eu encontrei.

Voltando à nota, não entendi o "esclarecimento". O que querem dizer com "a infelicidade de contratar alguns profissionais da área de tradução que não se mostraram à altura do trabalho"? Que pagaram tradutor para fazer o serviço e ele copiou de outrem e apresentou o serviço como seu? Se essa interpretação está correta, a editora foi lograda e tem todo o direito de espernear. Devem ter o nome, endereço e CPF de Pietro Nassetti creditado por traduções de Marx, Descartes, Rousseau, Nietzsche, Weber, Shakespeare, Kafka, Platão, Maupassant, Dostoyevsky, Goethe e Sun-Tzu e devem pegar no pé dele, com gosto, como devem pegar no pé de todos os outros que agiram dessa forma.

Também deveriam pegar no pé do pessoal interno que não se deu conta de que era muita banana por um tostão o mesmo sujeito traduzir tanta coisa de tanta gente - talvez até em tão pouco tempo. Esse tal de Pietro Nasseti, como outros de quem a Claret aparentemente alega, na nota, ter sido vítima, é uma vergonha para a profissão e, como tradutor, gostaria de ver seu nome como réu de algum processo, sei lá por que alegação, que não sou advogado. Mas que dá raiva, dá, o sujeito cobrar por ter apresentado ao cliente uma tradução furtada a alguém mais.

Não sei quem estaria interessado em alijar a MC do mercado. Digo que eu não estou. O catálogo deles está cheio de coisas interessantes, como a Ilíada na tradução extraordinária de Odorico Mendes (não que tenha sido atribuída a ele, mas é disso mesmo que a nota fala e que eles estão procurando corrigir) e seria uma pena vê-la fora do mercado.

Por fim, uma queixa amarga, da falta de menção das medidas corretivas já tomadas. Sim, isso é mau. Quem divulgou o erro tem que divulgar a correção. E eu teria imenso prazer em divulgar as medidas corretivas tomadas pela MC aqui e em qualquer outro lugar onde eu possa escrever, desde que soubesse quais são. A nota, lamentavelmente, cala tanto sobre essas medidas quanto calam os concorrentes de que se queixa.

Seria também interessante que a MC divulgasse os nomes das pessoas a quem está processando. Espero que sejam os cachorros grandes, a parte da concorrência interessada em alijar a editora do mercado editorial, e não só os tradutores e jornalistas que divulgaram os casos de plágio que a própria MC agora indiretamente reconhece. Esses deveriam receber da MC uma nota de agradecimento, porque todo aquele que avisa que eu fui logrado (como a MC afirma que foi) é meu amigo e merece meu agradecimento. Aliás, ainda que mal pergunte, a MC está processando os tradutores que a lograram? Quer dizer, a gente processa o criminoso, não o que grita "pega ladrão!" Ou estou enganado?

Mas custa acreditar que a nota seja verdadeira. Algo, aqui nas mais profundas e obscuras brenhas do meu bestunto, me diz que é uma falsificação. Que a MC foi, mais uma vez, vítima de gente "do mal". Nesse caso, hipoteco a eles toda a minha solidariedade. Publicar plágios é errado, mas falsificar declarações é igualmente errado e erradíssimo está quem queira combater um erro com outro.

Na hora em que descobrir o que eles estão fazendo para resolver o problema, publico aqui tudo direitinho.

_________________

Este artigo já tinha sido publicado quando um bom amigo me ensinou que este link sempre levará ao texto que copiei, mesmo que a Wiki seja modificada. Não estou nem de longe sugerindo que a Martin Claret vá fazer a safadeza de apagar a crítica que está lá há muito tempo. Mas sabe-se lá, é chato citar um troço, depois vai alguém lá e diz "está diferente, o Danilo mentiu".


6 comentários:

denise disse...

amazing! concordo com vc, custa a crer que a editora tenha escrito uma nota dessas.
mas, se for mesmo da martin claret, também fico curiosa em saber se ela está acionando esses profissionais inescrupulosos que fizeram barbaridades em suas pretensas traduções.

sei de 3 novas traduções que a editora lançou para substituir as edições anteriores que eram plagiadas; na época saudei devidamente as boas novas no nãogostodeplágio, mas aí parece que parou... que história!

aliás, esse "uriel fernandes" da nota é aquele jogador do corinthians? a frase entre aspas é dele, e ninguém assina o "atenciosamente"?

ah, danilo, sem dúvida isso aí é invenção de algum engraçadinho!

denise

Anônimo disse...

Só acompanho esta discussão sem competência para palpitar, mas sempre tive um certo pendor para detetive! :-) Cortado e colado direto do site da Martin Claret:
Uriel Fernandes da Silva
Diretor Comercial - uriel@martinclaret.com.br
Bom feriado com mais dois dias pela frente em Curitiba onde escolheram a padroeira da cidade a dedo: 8 de setembro!
Raquel Schaitza

Danilo Nogueira disse...

Pois é, Raquel. A Kelli e eu já nos divertimos muito com essa história. Acontece que houve um Uriel Fernandes (http://tinyurl.com/lf6ybh)foi jogador do Corinthians.

Fico sem saber de quem é a frase, do Uriel jogador ou do Uriel gerente comercial. Se alguém souber, que me conte e eu conto aqui, para os leitores.

Anônimo disse...

D.

Eu ignorava solenemente a existência do tal Uriel Fernandes goleador até ler o comentário da Denise, mas dei uma googlada para diminuir a ignorância. Mas acho um cara nascido em 1912 meio antiguinho para estar falando em tom de "gerente de projeto" moderno, não?

Em http://www.netfrases.com/frases-de-sabedoria-v-parte.html a frase aparece atribuída a J.Paul Schmitt, pelo jeito um misterioso poço de frases feitas.

My guess: Uriel Fernandes existe, é da Martin Claret (se escreveu a carta, não sei), esqueceu de citar a fonte e o pai era corintiano roxo.

Raquel

Anônimo disse...

Danilo,

Não conheço o caso da MC ou do tradutor PN em detalhes. Li algumas reportagens a respeito, mas só isso. Como tradutor e professor, entretanto, posso dizer que o plágio é um problema generalizado no Brasil. A cada semestre, aviso a meus alunos que não tolero plágio. Explico que é errado, que qualquer pessoa que trabalha com a linguagem perceberá as mudanças de tom, escolha lexical e estrutura de um texto composto à base do CTRL-V. Explico que eles serão pegos e punidos. Mas de nada adianta: a cada semestre, tenho que reprovar alguns que recorrem à prática.

Infelizmente, acho que se pode dizer que há no Brasil uma verdadeira cultura do plágio, na qual a integridade acadêmica nada significa. Para se ter uma idéia à bizarrice à qual o problema pode chegar, tenho um conhecido que organizou uma pós-graduação latu sensu em uma importante universidade brasileira. Na hora dos trabalhos finais, descobriu que vários haviam sido plagiados e reprovou os alunos. Foi então que baixou Kafka: os alunos entraram com um Mandado de Segurança para garantir aquilo que definiam como um “direito líquido e certo” – o de apresentar trabalhos plagiados, pois haviam pago a pós.

No final das contas, perderam. Mas isso serve para demonstrar o que ponto chega a inversão de valores no que diz respeito ao plágio. Ou seja, os PNs da vida são legião.

ASDS

Danilo Nogueira disse...

Ah, ASDS, boa lembrança, a sua. Mas não é só aqui, não. Plágio é uma praga mundial. Para falar dos EUA, com cuja situação estou mais familiarizado, o alarma lá é geral e, pasme se você ainda conseguir, tem gente que acha que deve ser permitido, mais ou menos como tem gente aqui que acha que reprovar aluno é errado, porque desestimula.

E tem um bocado de empresas que, mediante remuneração, produz trabalhos escolares, dissertações e até teses de doutorado sobre o que você quiser. Evidentemente, não há de ser algum trabalho original.