Mudamos para www.tradutorprofissional.com

Mostrando postagens classificadas por data para a consulta memória de tradução. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta memória de tradução. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Embolou o Meio de Campo - para Lucya Hellena e Luciana

Estou respondendo aqui às mensagens destas duas colegas, porque parece que têm a mesma origem (terão elas feito o mesmo curso? Serão conhecidas uma da outra?) e porque creio que haverá mais gente neste bonde.

Estamos (este artigo está passando pelo crivo da Kelli, que já me fez re-escrever tudo duas vezes e disse que ainda não está do jeito dela, mas que dá para postar) surpresos com a reação de vocês duas. Parece que vocês entendem essa tradução via Google Translate como a pedra de toque do Wordfast Classic, a sua característica mais importante. Não concordamos. Sabemos usar a tradução automática e até usamos em um que outro caso. Mas sua utilidade é restrita e, em muitos casos, o uso é desaconselhável, porque dá mais trabalho revisar o Google do que fazer tudo do zero, com o material da memória e glossários.

Wordfast Classic é uma poderosíssima ferramenta para o tradutor profissional. Seus principais recursos são o uso avançado de glossários, as cabriolas que ele pode fazer com os comandos da Pandora's Box, o sistema eficientíssimo de pesquisa de frases na memória, os sistemas avançados de controle de qualidade, enfim, uma série enorme de recursos que mesmo programas mais caros não oferecem. Mais refinado que o Wordfast Classic, atualmente, só o MemoQ — que não tem essa coisa de tradução automática via Google. Aliás, o Trados antigo tinha, não deu muito certo. O Trados novo, apesar de algumas informações divulgadas por aí, ainda está muito cru. Sugiro ficar longe.

Perante tudo o que foi dito acima, a tradução automática, via Google Translate, signfica pouquíssimo.
Para usar o Google Translate, o Wordfast Classic usava uma "porta" que o Google tinha deixado aberta. A porta foi fechada pelo Google (direito deles) e agora o Wordfast Classic não pode mais entrar. Não há absolutamente nada que o atendimento do Wordfast Classic possa fazer. A porta foi fechada "por dentro" e não adianta bater, porque só o Google tem a chave e vai abrir quando quiser. Encerraram o serviço, nada podemos fazer. A equipe do Wordfast Classic está procurando uma outra porta. Ela existe, está sendo testada, mas ainda não foi a nova versão que usa essa porta não foi liberada porque não se tem certeza de que vá funcionar direito. Terminados os testes, se for aprovada, será liberada. Eu aviso aqui, vocês atualizam o Wordfast Classic (grátis, durante três anos) e ficam felizes.

Não achamos o Wordfast caro. Tirante o OmegaT e mais um que outro programa grátis, todos eles muito limitados, o Wordfast Classic é o programa de tradução assistida por computador mais barato que existe e ajuda tanto que a gente costuma recuperar o preço em menos de uma semana de trabalho. Se vocês querem ser profissionais de sucesso, preparem-se para investir e investir alto. Eu devo muito do que consegui aos meus altos investimentos em equipamento e programas e a Kelli está seguindo meu caminho e se tornando uma profissional supre equipada. Sem investimento, não há lucro. Nós não investiríamos dinheiro na compra do Systran. Não achamos que valha a pena. Mais vale a pena procurar aprender a usar melhor os recursos do Wordfast, mediante cursos ou com o manual.

domingo, 8 de novembro de 2009

Você está de acordo com isto?

Você está de acordo com isto?
Denise Bottmann, agitando, como sempre, está fazendo uma proposta interessante e precisa do nosso apoio. Leia a proposta e, se, como eu, estiver de acordo, clique aqui  , para manifestar seu apoio.
LICENCIAMENTO DE OBRAS DE TRADUÇÃO ESGOTADAS

Os plágios de tradução de grandes obras da literatura e do pensamento universal constituem uma negra mancha na história do livro no Brasil. O recurso a tal prática teve um grande impulso sobretudo a partir de 1998. A principal característica comum à grande maioria de tais ilícitos é o uso fraudado de traduções antigas, geralmente esgotadas e que ainda não entraram em domínio público.

Por um lado, uma grande e necessária retificação da atual lei 9.610/98 seria a autorização para o licenciamento em curto prazo de obras esgotadas para reprodução sem fins comerciais, sob a forma de reprografia e digitalização para uso privado, para o ensino e para os acervos de bibliotecas públicas.
Por outro lado, cremos que, além desta flexibilização que atende ao premente direito social de acesso a obras esgotadas e abandonadas, seria da máxima importância prever igualmente um dispositivo legal autorizando a livre reprodução dessas obras de tradução também em formato de livro, sempre respeitados os direitos inalienáveis de seus autores e a cadeia dos direitos prévios eventualmente vigentes.
Assim, sugerimos que, decorridos 20 (vinte) anos após a última edição da obra, ela possa ser novamente disponibilizada à sociedade como livro impresso, pelos circuitos tradicionais de publicação e distribuição.
Tal proposta não fere as regras dos tratados internacionais sobre propriedade intelectual e está em consonância com as condições previstas no Anexo da Convenção de Berna, pois se trata de caso especial, que não conflita com a exploração normal e tampouco prejudica os interesses legítimos do titular.
Cremos que todos terão a ganhar: os cidadãos leitores que poderão dispor de obras até então esgotadas, seus autores assim resgatados do esquecimento, os editores que poderão publicar tais obras e os livreiros que poderão fazê-las chegar aos leitores.
Toda a sociedade poderá assim ter garantias de preservar ativamente sua memória cultural, permitindo a sobrevivência íntegra de importantes obras de tradução que compõem nossa história.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Epitáfio para um Tradutor

Sendo hoje o dia de finados, acho apropriado postar o "Epitáfio para um tradutor", escrito por nosso colega Hugh Keith (a quem agradeço a permissão para republicar), com a minha capenguíssima tradução. Quem sabe você tem uma tradução melhor?

The body of xx, translator
(Like a battered hard disk
Its contents gone forever)
Lies here
Fit only for consignment to the rubbish bin
The labour of decades
Happily erased from memory
Lest the errors and infelicities
Of over-hasty completion
Return to haunt him


O corpo de Fulano de Tal, tradutor, jaz aqui (como se fora um HD velho, seu conteúdo para sempre perdido), próprio somente para o lixo.
Os lavores de décadas afortunadamente apagados da memória, para que os erros e infelicidades de uma entrega por demais apressada não voltem para assombrá-lo.

sábado, 5 de setembro de 2009

Ferramentas e Estilo

A Simone escreve:

Estava lendo um de seus posts sobre tradução, sobre alguns tradutores que mantêm o estilo próprio, não o do autor, deixando todos os textos com a mesma "cara", e pensei nas ferramentas de tradução.Você acha que, na tradução literária, com o uso de uma memória de tradução, esse problema poderia ser intensificado?

Quem é bom fica melhor com as ferramentas de tradução (Wordfast, Trados, MemoQ etc.). Quem é ruim, fica pior ainda. Quer dizer, o uso de ferramentas de tradução vai impor o estilo exclusivamente se o tradutor já tem essa tendência maligna. Elas, sozinhas, não fazem mal a ninguém.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Onde Baixo Memórias de Wordfast?

Pergunta o Horácio

Como fiz poucas traduções até hoje, principalmente para minha monografia da faculdade, não tenho uma memória de tradução. Onde seria possível eu obter uma memória? Ou somente com o passar do tempo eu poderei construir uma?

Você não deixou claro como fez essas traduções para a sua monografia. O Wordfast é perfeitamente capaz de trabalhar SEM uma memória de tradução, mas é um desperdício. A primeira coisa que você faz após instalar um programa de memória de tradução é criar uma memória, que o programa vai alimentando automaticamente com o trabalho que você realiza. A memória faz parte de seu patrimônio intelectual

Cada memória de tradução é definida por duas características: par de línguas e direção. Quer dizer, uma memória pode ser inglês > português, por exemplo, e essa memória só pode ser usada para traduzir do inglês para o português. A memória usada para traduzir do português para o inglês tem que ser outra. Há gente que gosta de ter várias memórias para assuntos e clientes diferentes, procedimento que não aconselho. As ferramentas de tradução assistida por computador levam em conta o contexto e, por isso, a possibilidade de confusão é nula.

Continuo insistindo que todo profissional da tradução tem que aprender a usar esses instrumentos e que o Wordfast Classic ainda é o programa mais recomendável para o principiante, tanto pelo preço como pela facilidade de uso. Se, depois, tiver de usar outro, então, use. As memórias de Wordfast são exportáveis em formato TMX, que são importáveis por todos os outros programas. Isso significa que, se você tiver de usar um outro programa, nem por isso vai perder a memória construída com o Wordfast.

Ah, respondendo à sua pergunta: eu não conheço lugar algum de onde se possam baixar memórias.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Os Perigos da Terceirização

Uma colega nossa terceirizou um trabalho e se deu mal. A pessoa contratada fez metade, a colega contratante fez algumas observações sobre qualidade, a contratada devolveu a segunda metade do trabalho sem fazer, dizendo "sou tradutor, não redator, procure outra pessoa para terminar".

Não vi o trabalho nem sei quem fez, portanto, estou analisando o problema em tese, presumindo que o relato acima seja um retrato fiel do acontecido. Se não for, pouco se perde, porque não estou mencionando nem insinuando nomes. Estou só tentando tirar alguma lição de um caso que é mais frequente do que se pensa.

A primeira regra do profissionalismo é "aceitou, tem que fazer, tem que fazer direito e tem que fazer no prazo". Só se devolve um serviço em caso de força maior (doença, luto em família, computador que pega foco, coisa assim) ou quando o serviço difere do combinado (cliente disse "mil palavras para amanhã", mas são dez mil).

O problema da qualidade é mais complicado, porque qualidade de tradução tem um elemento de subjetividade e, entre outras coisas, depende em grande da postura teórica do avaliador. Mas há certos procedimentos considerados indispensáveis: passar revisor ortográfico, conferir se nomes, números e datas estão corretos e de acordo com a praxe da língua de chegada, conferir para ver se não houve saltos. Além disso, se houver memória de tradução ou glossário, é obrigação do tradutor respeitar. Se achar que a terminologia é absolutamente inaceitável, deve se entender com o contratante. Desrespeitar de motu proprio, jamais.

Quando o comprador da tradução é intermediário, cabe a ele o dever de mandar revisar o serviço. Mas isso não dá ao tradutor o direito de não aplicar os procedimentos citados no parágrafo anterior. Revisão existe para aperfeiçoar tradução boa, não para consertar tradução ruim. Tradução ruim a gente joga fora e faz de novo, que sai mais barato.

Roxa de raiva, a colega deve pagar o tradutor, por menos profissional que o serviço lhe tenha parecido. Há quem diga que, juridicamente, não tem nada a pagar. Pode ser. Mas, do ponto de vista da estratégia, é melhor pagar, para não passar por caloteira.

Claro que esse tradutor jamais vai trabalhar de novo para nossa colega. Mas vai trabalhar para outros e vai criar os mesmos problemas. Enquanto não mudar de postura, dificilmente vai fazer carreira. Vai ficar sempre com as raspas de tacho de serviço, reclamando da profissão.

Lamentavelmente, existe mais de um lugar onde se possa reclamar de um cliente (intermediário ou cliente final) que não tenha pago, mas não há um santo lugar onde se possa postar uma mensagem reclamando de um tradutor que não tenha feito sua parte.

A gente reclama, e não se razão, que trabalhar para intermediário é grande risco. Mas intermediar não é risco menor.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Mais uma que acha que não precisa de memória de tradução

Comentário ao artigo anterior:

Sei que sou aguda na hora da crítica mas eu consigo traduzir mais rápido do que passar por essa manipulações eletrônicas...WF + Google Translate + revisão + glossário...o Tempo que isso leva...já ganhei a corrida. A maioria das vezes tradução para mim é "bater" a máquina...Ja-ne...

Ah, bom, mas eles demoram muito menos para fazer tudo isso do que a maioria das pessoas pensa. 

Tenho uma amiga que passou  anos me explicando, meticulosamente, como e porque ela traduzia mais depressa direto do que usando essa tralha toda que eu usava. Até que pegou um WF, testou e hoje é usuária compulsiva. Temos também um colega que várias vezes me explicou, também com grande precisão, que essas ferramentas eram um desperdício de tempo e, depois de aprender WF (poderia ter sido outro programa) agora é um paladino das memórias de tradução. Mas isso, a rigor, não quer dizer muito. 

O que é importante é que programas de memória de tradução fazem muito mais do que simplesmente dar sugestões. Dependendo do serviço, variam de úteis a indispensáveis. 

Só para dar uns poucos exemplos, qualquer ferramenta de memória de tradução ajuda a preservar a formatação do original e me exime da necessidade de digitar números. Só por isso, para mim, já chegava. Mas esses programas são indispensáveis para lidar com esses formatos novos que estão cada vez mais comuns, como html e xml. Mas mesmo para as situações de texto corrido, sem tabelas, sem grandes problemas de formatação, a possibilidade de em um instante ver as sugestões todas já me ajudou muito em várias ocasiões. Finalmente, há as situações de pura repetição, onde a memória ajuda muitíssimo.

Muito depende, também, da capacidade de cada um. Tradução, para mim, não é só "bater a máquina". É um processo penoso de análise de opções para escolha da melhor e a minha memória de tradução enorme me dá inúmeras sugestões úteis, que têm ajudado a melhorar a qualidade de meu trabalho. Talvez eu esteja mais próximo da média dos tradutores.

Quer dizer, para mim, ao menos, o programa ajuda a traduzir mais rápido, mas - e principalmente - ajuda a traduzir melhor. É por isso que uso para todas as minhas traduções.

Mas a sua resistência é compreensível. A resistência à inovação é normal e comum. Nestes anos todos de tradução, lembro-me desde o tradutor que apresentava serviço manuscrito, porque era "tradutor, não datilógrafo", até o que não usava computador "porque era excelente datilógrafo", ao que não precisava de memória de tradução "porque tinha excelente memória". São casos que já contei mais de uma vez, mas que sempre me servem de exemplo.

Quem não se atualiza, fica restrito a nichos cada vez menores e, finalmente, é alijado do mercado. 

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Escreveu a Martha

Oi Danilo,

Participei de sua aula no dia 9 de maio e gostei muito. Queria perguntar uma coisa: trabalho principalmente com tradução de livros do inglês e do francês para o português. Estou interessada em aprender a usar as ferramentas de tradução que vc mencionou. Mas penso não ser possível, pois os livros vêm impressos, e creio que não teria como usar memória de tradução se o texto na língua original não está no computador. Haveria alguma maneira de resolver este problema? Um abraço, Martha 

Muito tradutor de livros já usa essas ferramentas, Martha, e há várias soluções para o problema do arquivo em papel.

  1. Editora pede o arquivo para o editor do original. Se vier em Word, melhor, mas pdf também resolve. Aqui, precisa ter cuidado, porque onze entre dez editores pensa que ferramentas de tradução prejudicam a qualidade. Nesse ponto, as agências estão bem mais adiantadas.

  2. Você tira xerox do livro todo (formato A4) e faz reconhecimento ótico usando um programa comercial de OCR, como, por exemplo, o Abby Fine Reader ou o Omni Page. Esses programas digitalizam tanto papel quanto arquivos pdf.

  3. Você encomenda a uma digitadora a transcrição do livro todo.

Nos primeiros dois dias, você provavelmente vai me amaldiçoar. Mas logo que pegar o jeito, vai se arrepender de não ter começado mais cedo.

 

domingo, 3 de maio de 2009

Artigo na revista Época

A revista Época 472, 4 de maio de 2009, traz na página 134, um artigo sobre tradução, com direito a palpite do meu particular amigo Renato Beninatto, fundador da lista trad-prt. Vale a pena ler.

O artigo difere do usual, porque se concentra na aplicação tecnologia, assunto que interessa a todos nós.

Começa com algumas informações genéricas, já conhecidas de todos nós. Mas na terceira coluna, aparece uma informação interessante, falando de tradução de manuais de instruções, contratos de negócios, vídeos institucionais, quer dizer, do mercado onde opera a maioria de nós, o exército oculto, cujo nome raramente aparece nos jornais. Diz lá que essa é a maior fatia do mercado (o que eu venho dizendo aqui desde que comecei esta lengalenga de blogue, quem sabe agora que saiu na revista, acreditam em mim) e que, no último trimestre, cresceu 85% em relação ao mesmo período do ano anterior. 

Entendeu? Com crise e tal, cresceu 85%! E vem o diabo da agência chorar que, com a crise, falta serviço e é necessário cortar nossa paga. A All Tasks espera vender R$ 7 milhões este ano. Deus que os ajude e não se esqueça de mim, como dizia minha mãe.

Lá pelas tantas,  Sávio Levi, diretor de operações da Lionbridge no Brasil, afirma “O principal desafio no Brasil hoje é encontrar mão de obra qualificada. Em 120 testes que fizemos no ano passado, aprovamos menos de 10% das pessoas” . Isso é uma afronta à categoria, um insulto. Perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado. Tradutor bom é o que não falta. O que falta é agência disposta a pagar bem. Paguem melhor que chove gente boa. Conheço muito tradutor bom que se recusa a trabalhar para as agências brasileiras, porque encontrou clientes diretos aqui e agências lá fora que estão dispostos a pagar mais. A isso se chama concorrência. As agências concorrem pelo nosso trabalho e fica com ele quem mais paga. Só isso.

Tem um trecho com um tanto de baguncinha intelectual quanto ao uso de ferramentas de tradução. Não sei se proposital ou o simples fruto da tentativa de comprimir o máximo de informações em um espaço insuficiente.

Fiz várias experiências, muitíssimo bem-sucedidas, combinando WF, um poderoso glossário e Google Translate. Fiz com inglês, mas deve funcionar com outras línguas. Mas funciona assim: O WF abre um segmento (quer dizer, um período), procura na memória, se não encontrar nada, pede para o Google Translate, e eu reviso o segmento, com apoio do meu super glossário. Quando está direitinho, eu aprovo o segmento e vamos em frente. Fica, realmente bom e é rápido. Se mandar para um revisor, ele jamais vai saber que eu usei o G-Translate como apoio.

Mas mandar o G-Translate traduzir a meleca toda e mandar para o revisor não dá, porque sai esta meleca. Revisar essa porcaria é impossivel: tem de fazer de novo. Por favor, não me venham de borzeguins ao leito.

O último parágrafo  me parece bobagem pura. Aliás, já temos gente boa fazendo tradução literária usando WF + Google Translate e satisfeita com o resultado. Mas vai demorar até a turma se dar conta disso.  Claro, precisa revisar — mas toda tradução automática precisa de revisão cuidadosa. 

O fato é que tradutor costuma ter pavor de tecnologia e essa é uma das maiores falhas da profissão. Não tem que ter medo, tem que aprender a usar, tem que dominar. Não dar uma de avestruz. Tem que aprender a usar e ser melhor que a ferramenta. Essa é a realidade.  Veja que, com toda a tralha que a All Tasks tem, a dona se queixa da falta de mão-de-obra. Quer dizer, ainda somos nós a chave do problema, o fator escasso. 

__________________________

Este artigo foi alterado para agregar as contribuições de dois leitores, um que me mandou um link que funcionava para a reportagem e outro que corrigiu um erro de atribuição. A ambos, nossos agradecimentos. Um blogue se faz de muita coisa, inclusive de leitores atentos e dispostos a colaborar.

domingo, 12 de abril de 2009

Demo do Trados

A Elizabeth escreveu:
Estou entrando agora para o ramo de tradução, mas não consigo baixar o TRADOS, você poderia me dar uma dica de como conseguir baixar este programa?
Boa pergunta, que muita gente anda fazendo, Elizabeth. Antigamente, a Trados tinha uns deminhos, muito restritos, mas que funcionavam. Esses deminhos sumiram. Aparentemente, eles acham que, como o Trados é líder do mercado, não faz sentido distribuir demos.

De qualquer maneira, o demo não vai resolver o seu problema. Se você quer Trados, ou compra ou pirateia. Deve haver mais de uma versão pirata do Trados por aí, não sei onde estão e, mesmo que soubesse, não divulgaria aqui. Além de ser ilegal, grande parte delas vem bichada e eu não vou recomendar alguma coisa que pode criar um problema para a turminha que lê este blogue. Ainda esta semana, uma amiga minha teve de reformatar e reinstalar tudo porque tinha baixado um arquivo com um rootkit.

A pergunta é se você realmente precisa de Trados. Eu tenho, desde o século passado, um Trados oficial, que mantenho atualizado. Mas detesto o programa. Praticamente tudo que ele faz, o Wordfast Classic faz melhor. E o Wordfast é bem mais barato.

Agora, é a hora em que muita gente diz "Estou só começando! Ainda tenho pouco serviço. Como posso gastar todo esse dinheiro". Pois é. Gostemos ou não, o tempo em que a gente "virava tradutor" de um dia para o outro, porque sabia duas línguas, está chegando ao fim. É cada vez mais difícil entrar na profissão sem fazer um investimento sério em software, abrir firma, essas coisas.

Nisso, não diferimos da maioria das outras profissões. Ou o sujeito é empregado e trabalha com o equipamento alheio, ou tem que comprar equipamento e se estabelecer. Não há grandes alternativas.

Quando eu comecei, tudo o que usava era o que se esperava que uma pessoa razoavelmente instruída tivesse em casa: escrivaninha, máquina de escrever e menos de meia dúzia de dicionários. Mas isso foi em 1970.

Se você clicar nos marcadores

Memória de tradução
Trados
Wordfast

aí do seu lado direito, vai aprender muita coisa sobre esses programas.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Tradução automática 4

Ontem, eu pulei na piscina!

Alertado pelo Daniel Argolo
Estill (e ajudado por ele na configuração) de que o recurso de tradução automática do WordFast estava funcionando direitinho (o do Trados também está, mas eu nunca usei, porque o gestor de glossários do Trados é um lixo), fui fazer um teste. Configurei o programa e comecei a trabalhar. Funciona assim: quando o WF não encontra nada na memória, recorre ao Google Translate ou ao Babelfish, à escolha do tradutor, e preenche o segmento com o que encontrar.

Dependendo de vários fatores, mais notadamente do tamanho do segmento, a tradução oferecida pelo Google
Translate variava de perfeita a inútil.

Quando era perfeita, geralmente em segmentos muito curtos, era só aceitar e tocar para a frente.


Quando era imperfeita, era ajeitar. Como eu tenho um glossário muito grande e o gestor de glossários do
WF é sensacional (e eu sei usar, o que é outra conversa), muitos dos erros do G-Translate eram corrigidos simplesmente com o uso do glossário.

Muitas vezes, entretanto, a tradução era muito ruim e dava menos trabalho apagar (
Cntrl + Alt + X, caso você não saiba) do que arrumar. O interessante é que, mesmo nesses casos, muitas vezes um que outro fragmento tinha uma sugestãozinha interessante, com a qual eu não tinha atinado.Quer dizer, no fim, traduzi mais rápido e melhor do que o normal — e ainda poupei digitação.

Como se conjumina o que eu disse nos dois parágrafos acima com a minha recusa a revisar tradução automática? A resposta fica para amanhã.



terça-feira, 3 de março de 2009

Agruras de um iniciante

Um colega me escreve falando lá de suas agruras de tradutor iniciante, que trabalha de um modo algo precário. Pergunta:
É viável trabalhar dessa maneira até alcançar um renome? É romântico acreditar que a qualidade do trabalho em si, a despeito dos outros aspectos que credibilizam o profissional, pode dragar um amador dessa condição infame?
A mensagem é um tanto dramática e a condição dele não chega a ser infame, mas, de fato, é precária: por exemplo, está trabalhando com nota fiscal de terceiros, o que não é nada bom.

A pergunta me parece mal formulada. Eu teria preferido perguntar: é possível alcançar renome trabalhando dessa maneira?

Uma lição que aprendi há tempos é que, para sermos tratados (e remunerados) como profissionais, temos de agir como profissionais.Quer dizer, o primeiro passo na trilha da profissionalização é sempre nosso e, cada vez mais, profissionalizar-se exige investimento de tempo e dinheiro.

Para o iniciante, é terrível. Você pensa que, terminando a faculdade, vai virar tradutora da noite para o dia. Depois, descobre que tem que procurar serviço, dar nota fiscal, aprender a fazer misérias com o computador, usar programas de memória de tradução, mil coisas. Mas não tem saída: se você quer ser profissional, cabe unicamente a você a tarefa de profissionalizar.


Em tempo, uma das coisas que o colega lamenta é o fazer "versões para pessoas físicas". Nada há de errado nisso. Pessoas físicas são clientes como quaisquer outros, embora mais difíceis de atender.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Professor pode fazer tradução? E grátis, ainda por cima?

Uma das listas de discussão de que faço parte congrega muitos professores de línguas. Lá pelas tantas alguém perguntou quem poderia fazer uma pequena tradução, evidentemente grátis. Foi um bafafá dos bons. Tradutores reclamando que professores não devem fazer traduções, que não se deve trabalhar de graça, alguns professores concordando, outros discordando, aquela coisas toda que você já pode prever. Pouco participo daquele grupo, mas, como a história era de tradução, resolvi meter a minha colher torta no angu de caroço. Aqui está, com algumas modificações, a minha mensagem. Veja lá o que você acha e faça seu comentário.

Desde 1970, me dedico inteiramente à tradução e é como profissional da tradução que venho meter meu bedelho aqui na conversa.


Existem bons e maus tradutores, como há bons e maus professores, cozinheiros, advogados, encanadores e solistas de sacabuxa. Quer dizer, entregar uma tradução a um tradutor, em vez de a um professor, não é assim, garantia de que o serviço vá sair com qualidade total e perfeita. E, principalmente tratando-se de um trecho pequeno, é até bem possível que um professor possa se sair bem. Como também pode se sair bem como tradutor bissexto de poesia.


Por outro lado, haverá mais que um excelente professor que dê com os burros n'água para traduzir um texto qualquer. Ensinar e traduzir são atividades diferentes e gente muito bem-sucedida numa pode ser um fracasso na outra. O mesmo se estende a profissionais como secretárias e recepcionistas bilíngües.


Muitos tradutores foram professores antes de serem tradutores e, quando empreenderam sua primeira tradução, ainda não eram tradutores, se me faço claro. Por alguma porta temos que entrar e os únicos que podem reclamar de fato são os bacharéis em tradução. Mesmo eu dei as minhas aulinhas lá pelos tempos do Castello Branco e, quando "peguei" minha primeira tradução, não tinha uma noção muito boa do que ia fazer. Quer dizer, não me acode o direito de reclamar se algum dos professores aqui se decidir a aceitar o serviço.


Nem vou me sentir prejudicado. O que prejudica a profissão não são os professores que traduzem uma dúzia de linhas para um colega, seja cobrando ou não. São os figurões do magistério e das letras que traduzem livros inteiros grátis ou a preço vil para as editoras e ainda passam por benfeitores da comunidade.


O que me distingue — enquanto tradutor profissional — dos tradutores eventuais e bissextos é a minha dedicação preferencial à tradução.


Enquanto que mais de um dos professores aqui da casa poderia traduzir vinte linhas numa tarde de domingo, para ajudar um colega, é necessário um profissional para encarar certas tipos de trabalho e prazos. Por exemplo, recentemente passei meses traduzindo documentos em xml usando Trados TagEditor em uma memória de tradução residente em um servidor que estava em Zurique. É possível que a maioria dos leitores da lista CVL nem entenda o que eu disse no período anterior.


Mas não é só isso: traduzir vinte linhas num dia é uma coisa, traduzir vinte mil palavras em uma semana é outra, bem diferente — e coisa para profissional. Traduzir aquilo de que se gosta pode ser até divertido; traduzir o que é necessário é coisa para profissional. Traduzir um artigo científico pode ser uma aventura intelectual de primeira linha. Ter prazer em traduzir 100.000 palavras de um relatório anual de um banco, porque toda tradução é um desafio e um prazer, é coisa para profissional. Traduzir uma grande obra literária pode ser uma festa, traduzir livros de auto-ajuda, porque é preciso, porque tem muita gente que lê essas coisas e se escora nelas para agüentar a vida, é coisa para profissional.


Quer dizer, eu traduzo porque, para mim, traduzir em si, qualquer coisa que seja, é uma festa. Hoje em dia, só traduzo finanças, mas isso foi o que me aconteceu, não a minha escolha. Se as voltas do mercado tivessem me encaminhado para outra área, trabalharia com o mesmo prazer.


Quanto ao trabalhar de graça, desculpe, mas eu não traduzo de graça e também não aceito que trabalhem de graça para mim. Quando quero um serviço, primeiro trato preço, depois autorizo. Ajudo muito os colegas, com artigos, palestras e mesmo com o meu blogue, mas tradução só faço a pagamento. É o que dizia a Cacilda Becker: não me peça para fazer de graça a única coisa que tenho para vender. Havia um Código de Ética do Tradutor que proibia trabalhar grátis para quem pode pagar.


Não acho nada de errado um professor traduzir vinte linhas grátis para um colega: o que ele tem par vender são aulas, não tradução. Mas eu, que sou profissional da tradução, não traduzo grátis. Posso até explicar o uso de um tempo verbal em inglês, assim, na base do passei, cinco minutos, dei a explicação. Mas se um professor começar a dar aulinhas grátis, vai formar fila porta da casa dele.


Nunca entendi, por outro lado, porque estudantes e acadêmicos querem descontos ou trabalho grátis. Quem vai fazer intercâmbio não pode pagar tradução? Ué, tem dinheiro para a passagem de avião mas não para pagar tradutor? Tese não tem objetivos econômicos? Claro que tem! Defende tese, vira Dr., ganha mais na faculdade. Está investindo no seu futuro! Então, invista o seu dinheiro, não o meu. Porque, quando trabalho grátis, estou deixando de ganhar dinheiro fazendo serviço remunerado, que não me falta. Por que raios o dinheiro sempre acaba cinco minutos antes de chegar a hora de pagar o tradutor?


Outro dia, veio aqui um vizinho com um texto de medicina, de, creio, umas boas 50.000 palavras, de que ele precisava com urgência. Ajuntou que "era para a faculdade" algo que, traduzido assim, no popular, significava "não quero pagar". Quando respondi que aquilo significava 15 dias de trabalho e que, durante esses quinze dias, ele iria ter que pagar todas as despesas da minha casa, inclusive os custos tremendos de um tratamento de saúde que minha mulher fazia na época, virou as costas e foi embora, zangado comigo. Paciência, assim é a vida.


Alguém aqui comentou "que custa fazer grátis?" Aqui, há que fazer à moda jesuíta e responder com outra pergunta: "que custa pagar?" Porque fazer grátis custa tanto para mim quanto pagar custa para o outro.


A bem dizer, quando se faz grátis a alguém algo por que se poderia cobrar (no caso, o tempo que o tradutor gastaria na tradução), estamos reduzindo nossos próprios rendimentos. Quer dizer, se eu faço uma grátis uma tradução pela qual normalmente cobraria cem reais, estou reduzindo minha renda em cem reais, dando a essa pessoa, tirando da minha família, o valor de cem reais. Por que eu devo fazer essa doação? Essa pessoa realmente precisa do meu sacrifício?


Não é tanto sacrifício assim? Bom, se é pouco dinheiro, uma miséria, um nada, que não vai fazer diferença no bolso de ninguém, porque, então, não me podem pagar?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Tradução Automática

Muita gente ainda confunde tradução automática com memória de tradução. Lamentável, porque são tecnologias totalmente diferentes. Entretanto, desse assunto falamos aqui, e não quero, mais uma vez, repetir o que já disse tantas.

O assunto de hoje é que outro dia me apareceu isto pela frente e
queria mostrar aqui. Um horror, certo? É serviço do Google Translate, caso você não tenha percebido. Agora, pouse o cursos em cima de uma frase qualquer e veja o que aparece.

Um convite para apresentarmos uma tradução melhor, certo? Quer dizer, querem que a gente faça tradução grátis para a loja de calçados, uma entidade comercial com fins lucrativos, entendeu? Nós trabalhamos grátis para eles pouparem despesas. Deu raiva? Em mim também. Confesso que aproveitei a chance e colaborei com várias sugestões escabrosas, das quais espero que eles façam bom uso. Não foi uma coisa assim, digamos, muito cristã. Mas, de vez em quando, ferve o sangue e eu faço dessas coisas.


Outro dia, postei uma mensagem em um dos diversos fóruns de que participo e, aparentemente, pelo menos um dos leitores não entendeu o que eu tinha escrito. O colega postou uma resposta dizendo que quem tem medo de tradução automática deveria mudar de profissão, porque a tradução automática jamais vai ser tão boa quanto a humana.


Se vai, se não vai, não sei. Não gosto de falar sobre o futuro. Sei que, atualmente, não é. E fico pensando em quantos tradutores estão deixaram de ganhar com essa coisa do Google Translate. Para dizer a verdade, acho muita desonestidade do Google oferecer esse tipo de serviço. O usuário, que provavelmente não distingue português de turco, não entendendo nada, crê que esteja perfeito e faz sua empresa cair no ridículo.


Ainda por cima, têm a cara-de-pau de pedir a colaboração de voluntários. Talvez você não saiba, mas a entidade que se chama ABRATES é a segunda que usa esse nome. A primeira, que depois virou sindicato, tinha um Código de Ética interessante que vedava a prestação de serviço grátis a quem pudesse pagar. Acho isso fundamental para a sobrevivência da profissão. Não encontrei o Código de Ética da ABRATES. Encontrei o do SINTRA, mas creio que não toca na questão da gratuidade dos serviços, o que me parece uma pena. De qualquer modo, não sou eu que vou "ajudar" uma empresa comercial grátis.


Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.

sábado, 22 de novembro de 2008

Trados TWB e Wordfast Classic em arquivos complicados

A graça de trabalhar com o Trados TWB (normal e erroneamente chamado "Trados") ou com o Wordfast Classic (todas as versões do programa até a 5, inclusive) é que a gente trabalha dentro do MSWord, por assim dizer. É um conforto, especialmente para quem tem algum receio de computador.


Quando o arquivo a traduzir já está em formato MSWord e não tem formatação muito complicada, de fato é uma maravilha, mas quando o arquivo está em outros formatos ou é dos complicados, cheios de cinco mil tabelas com tamanhos de célula fixos, que impedem a leitura do que se escreveu na célula de tradução, a tarefa pode se tornar impossível. Essa é uma das razões por que a Trados vai tirar o TWB do campo e o Wordfast 6 está saindo com uma nova interface.


Existem duas saídas para esse problema. A primeira funciona na maioria das vezes, a segunda funciona quase sempre.


Para começar, traduza uma cópia do arquivo usando o Trados TWB ou o WF5 normalmente. Quando chegar a uma tabela daquelas endiabradas, simplesmente use o comando do MSWord Tabela > Converter > Tabela em texto e traduza. A formatação vai ficar um horror, mas não se preocupe. Ao terminar, revise e deixe o texto tinindo de bom.


Crie uma nova memória. Limpe o texto contra essa nova memória. Assim, você fica com uma memória que só tem o material para aquele arquivo.


Faça mais uma cópia do original. Se você usar o pre-translate do Trados TWB ou o Auto translate do WF, ou se, simplesmente for apertando as teclas de tradução normais (Alt Setabaixo para o WF, Alt + para o TWB Workbench), a tradução na maioria das vezes sai perfeita.


Quando é que não sai? Algumas tabelas são tão complicadas e, muitas vezes, tão mal feitas, que, na hora do processamento, o Word engasga. Às vezes, com um pouco de prática a gente consegue desengasgar o programa, mas há momentos em que nada funciona. Então é passar para o plano B, que é usar o Trados TagEditor, ou o Wordfast 6, que encaram o que houver, sem maiores problemas. Então porque eu disse quase sempre? Porque se o arquivo MSWord estiver bichado, até o WF6 ou o TE podem travar. Nesse caso, é preciso ver onde ocorre a trava e reformatar. Mas isso é raríssimo, uma vez em um milhão.


Antes que me esqueça, esta nota não foi revista pela Kelli, que está em licença terpsicórica até segunda-feira.


O blogue ainda está na muda, mas vai acontecer muita coisa interessante, da semana que vem em diante. Espero que você goste.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Trinta e cinco livros traduzidos e jogados no lixo!

Programas de memória de tradução servem para tradução literária? Embora muita gente traduza livros, em geral, e literatura, em particular, com memória de tradução (e, pasmem!, se saem bem), há ainda muitos que relutam em usar esses programas, por achar que para eles, para o serviço que fazem, de nada servem .

O medo não se restringe ao pessoal que traduz livros, entretanto.

Tenho uma amiga, boa amiga, excelente amiga, mulher extremamente inteligente que, durante dois anos e meio, me explicou, ao menos uma vez por semana, porque esses programas não serviam para ela. Explicava com todos os pormenores e muita verve, porque inteligência não lhe falta. Demonstrava, por "a" mais "b", que o investimento não compensava. Eu sempre alegando que ela falava do que não sabia. Um dia, para me dar prova cabal da minha estultice, instalou WordFast (em demo, que é grátis) e começou a trabalhar, convicta de que se estivesse fazendo as coisas lá do jeito dela, à unha, no MSWord, tudo sairia melhor e mais rápido.

Hoje, anos depois, rimos da situação, porque hoje ela virou wordfasteira emérita.

Na verdade, a tradução literária exige menos dos programas de memória de tradução do que a técnica, porque tradutores técnicos muitas vezes lidam com problemas graves de diagramação, a que os tradutores de livros (não só os literários) estão normalmente imunes. Então, os tradutores de livros podem, em geral, se sair 100% bem sem nem saber o que é a praga do Trados TagEditor, uma maldição de satanás que aflige a muita gente que faz tradução técnica.

Um fato geralmente ignorado por quem NÃO usa memórias de tradução é que elas não obrigam o tradutor a nada. Ou calam, ou fazem sugestões baseadas no que o tradutor já agregou à memória. Neste caso, marcam as sugestões como tal e NÃO continuam a tarefa automaticamente, sem que o tradutor emende, revise e aprove a proposta. Quer dizer, a memória de tradução JAMAIS prejudica o trabalho, embora, em certas circunstâncias, possa não ajudar muito.

Outro fato pouco conhecido é que memórias de tradução trabalham com períodos, não com palavras, embora usem, também, glossários. Isto significa que o fato de que uma palavra estrangeira possa ter 12 possíveis traduções em português não prejudica em nada, porque o programa sempre trabalha com os contextos. Então, se você traduziu "the book is brown", como "o livro é marrom", ao aparecer "we will book into the hotel before lunch", o programa NÃO vai oferecer "livro" como tradução, porque o contexto é diferente. Mas vai sugerir "livro" se a frase for "the book is red", porque o contexto é semelhante.

(Observação da Kelli, compartilhada por outras pessoas: a primeira vez em que um período aparece já traduzido, quando vemos que a necessidade de modificar a tradução sugerida é pouca ou nenhuma, é emocionante e inesquecível. Só isso já compensa o valor pago pelo programa. — Comentário do Danilo à observação da Kelli: melhor ainda quado você fica com aquela lembrança de que um dia já traduziu uma certa expressãozinha de um jeito maneiro, mas não se lembra, consulta a sua memória de tradução e ela sai inteirinha de lá.)

Agora, posso dar um exemplo bem literário?

Imagine um tradutor de literatura, que traduza, digamos, duas mil palavras por dia, 22 dias por mês, onze meses por ano, o que não chega a ser um exagero. No fim de um ano de trabalho, terá traduzido 528.000 palavras, certo? Imagine que esse tradutor tenha usado memória de tradução. No fim de um ano, terá um corpus paralelo, nas duas línguas que traduz, de mais de um milhão de palavras (528.000 × 2 = 1.056.000), que pode consultar à vontade e que, evidentemente, vai aumentando dia a dia, à medida que o tradutor trabalha. Agora, pergunto eu, quem acha um corpus desse inútil? É certo que se você processar um novo livro contra a sua memória, vai aparecer muito pouco: dificilmente vão aparecer períodos iguais ou semelhantes. Mas a possibilidade de consulta a traduções antigas, a soluções dadas em momentos anteriores, é preciosa.

Uma vez, dei um curso de WF para um professor de tradução que também traduzia literatura para algumas editoras. Depois de uma hora, ele exclamou "35 livros traduzidos e jogados no lixo", porque se deu conta do valor desse corpus.

Para terminar esta lengalenga entusiasmada, cabe lembrar que os programas de memória de tradução também sofrem muito pela confusão com os de tradução automática, que são coisa bem diferente, e com a impressão de que a única coisa que fazem é criar e processar memórias de tradução. No princípio, de fato era. Mas, agora, todos eles fazem muito mais que isso.

Ah, sim, se você receber o livro em papel, vai ter que digitalizar – e tem muita gente que acha que o trabalho compensa. Mas, aos poucos, muito aos poucos, as editoras estão começando a mandar os textos em MSWord. No devido tempo, vão mandar os arquivos de Quark, InDesign e PageMaker. Aí, quero ver.

Um conselho final: eu, particularmente, acho Wordfast a melhor porta de entrada no mundo dessas ferramentas, mas tem gente que detesta. Por exemplo, temos um colega, tradutor literário de primeiríssima linha, que acha WF péssimo, mas adora MemoQ (um excelente programa de que eu também gosto muito). Outros se ajeitam melhor com DVX ou até Trados, de que não gosto. Cabe a cada um de nós fazer uma pesquisa, testar um programa e depois o outro, antes de escolher. Mas não vá dizendo assim, logo de cara, que não serve para nada. Era isso o que diziam os cocheiros quando viram o caro sem cavalos.

Esta nota se baseia em uma resposta do Danilo a uma pergunta postada em uma lista de discussão. Passou, depois, pelo crivo de Kelli Semolini.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Programas de memória de tradução

Across, OmegaT, MemoQ, Wordfast, Trados


(Clique nos links para ser levado à página do programa na Web)

O Across e o OmegaT são ferramentas de tradução grátis. O Across é uma ferramenta comercial, que a empresa distribui grátis para os interessados, esperando ganhar dinheiro de outras formas. O OmegaT é totalmente grátis e desenvolvido por voluntários e foi pensado para Linux, embora funcione com qualquer sistema operacional.

Ainda não pode testar nenhum dos dois. Como a maioria de vocês sabe, nestes últimos meses, passei uns momentos difíceis e deixei de me atualizar em várias coisas. Por isso, vou fazer uma observação muito primária, aqui, sobre os dois.

O OmegaT, para mim, tem duas limitações fundamentais: não trabalha com o formato Trados, que é padrão do mercado, e nem aceita arquivos preparados no MSOffice. Para mim, são falhas essenciais. Meus clientes me mandam arquivos pré-segmentados usando trados e exigem esse mesmo tipo de arquivo de volta. Eu processo esses arquivos no Wordfast, ou no DVX, poderia até processar no MemoQ, que ainda não tenho, mas não poderia processar no OmegaT. Além disso, os arquivos MSWord, de longe os mais comuns no nosso serviço, têm de ser abertos no Open Office e salvos como arquivos Open Office para serem traduzidos. Depois, o arquivo traduzido precisa ser aberto de novo no Open Office e exportador como Word. Por fim, o arquivo precisa ser aberto no Word para ver se tudo deu certo. Desculpe, mas é muito exporta-que-te-exporta para meu gosto.

O Across eu mal testei, mas por algum motivo, parece que não está pegando. Isso é mau, porque parece ser um programa interessante.

O que parece ter um futuro interessante é o MemoQ, que é pago, mas está se desenvolvendo com uma rapidez única. Pegou o conceito do DV3 onde o Emilio Benito deixou e está seguindo o que me parece ser o bom caminho.

O Wordfast, agora tem um Beta do Wordfast6, em Java, portanto para se livrar da servidão ao Word for Windows, o que não deixa de ser uma ótima novidade. Mas beta é beta e ainda está cheio de arestas. Mesmo que você tenha o link para baixar, resista à tentação: é coisa para quem não estremece com problemas.

O Trados, cada vez mais arrogante, nem distribui mais demos, dizem que todos já conhecem a qualidade do produto. Acho o Trados muito ruim, muito ruim mesmo. E o gestor de terminologia deles, o famigerado MultiTerm, é tão ruim que a grande maioria dos usuários de Trados abandonou. Qualquer um dos outros programas lida melhor com glossários do que o Trados. Mas o modelo de negócios deles é genial: convenceram os gerentes de projeto das grandes agências de que é o melhor da praça – e até o único existente – de modo que para muitas agências, você só existe se souber lidar com arquivos segmentados à moda do Trados. Mas muitos de nós recebem o serviço segmentado à moda do Trados e processa em outro programa. Eu, particularmente, processo em Wordfast.

Para quem ainda não sabe, esses programas não traduzem nada, mas dão uma grande ajuda ao tradutor.

sábado, 9 de agosto de 2008

ABC - Associação Brasileira dos Coitadinhos II

Uma notinha curta, hoje, para evitar mal-entendidos e porque estou com um problema de serviço;

A Meg postou um comentário assim:

Pode parecer fútil, mas boa parte dos makeover shows da tevê (realities que dão um banho de loja nas pessoas como Esquadrão da Moda e Queer Eye, nas TVs a cabo) costuma pregar isso:

Você deve parecer o que você quer ser. Você deve parecer adulto, profissional, sexy, feliz, o que você quiser.

Você é bem-sucedido se você parece bem-sucedido. Você se sente bem-sucedido e fica mais confiante, e consegue vender seu pescado a preço de bacalhau norueguês.

Pode parecer fútil, mas depois que eu comecei a fazer Letras vestida como se estivesse no Mestrado, todos os professores me dão mais voz autorizada.

O comentário é absolutamente pertinente e correto, embora talvez a Meg não tenha se dado conta de que cuidar um pouco mais da aparência pessoal também fez com que ela se sentisse mais segura, o que deve ter causado boa impressão aos professores. Pode haver quem não entenda o comentário, entretanto e, por isso, volto à questão.

Se, como eu, você trabalha em casa e jamais vai ver um cliente pessoalmente, o modo como se veste tem menos importância. Mas tem que investir na profissão: um bom computador, uma boa conexão com Internet, programas de qualidade, coisa assim. Você tem que investir na profissão antes de começar a tirar proveito dela.

De vez em quando a gente vê alguém dizendo recebi uma oferta, tive de recusar, querem uma porção de coisas, nota fiscal, memória de tradução, gente, eu não tenho nada disso! Meu computador nem agüenta essas coisas, pobrezinho! Isso é para quem tem muito serviço. Ao contrário: muito serviço é para quem tem tudo isso.

Já devo ter dito aqui, mas vale a pena repetir: uma colega uma vez disse: você tem essa máquina de escrever eletrônica porque já tem seu lugar ao sol. Ao contrário, eu conquistei um lugar mais ao sol porque abri mão de muita coisa para comprar uma máquina de escrever eletrônica, que, na época, era a última novidade.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Serviços repetitivos

Ainda trabalhando no computador Número 2, mas sem a menor vontade de deixar a peteca cair de novo.

Começou lá no Orkut uma bela discussão, em cima de um texto do Stephen Kanitz sobre casamentos duradouros, que foi falsamente atribuído ao Arnaldo Jabor e me levou a uma observação de natureza conjugal-tradutória. Aqui, vou deixar de lado o aspecto conjugal da história e me dedicar ao tradutório, que é disto que trata (ou deveria tratar) este blog.

Muita gente se queixa que tradução técnica é repetitiva, que é chato demais fazer todo dia a mesma coisa, que as áreas não-técnicas são menos chatas.

Depende um pouco da situação, claro. Porque existe muita literatura de massa que segue moldes altamente repetitivos. Durante muitos anos li Perry Mason e a quantidade de repetição é espantosa, Bianca, Sabrina e Júlia deve ser ainda mais repetitivo. Mas, de modo geral, há que concordar que os textos financeiros que traduzo há quase 40 anos guardam entre si grande semelhança. Com o tempo, a lei (textos financeiros dependem muito de legislação: muda a lei, muda o texto) e as modas, foram mudando, mas, mesmo assim, ainda encontro expressões com que topei na minha primeira semana de tradutor.

Mas, note, os textos são repetitivos, o que não significa que as traduções devam ser. Muito do que aprendi sobre técnicas de tradução vem, exatamente, do ter traduzido mil vezes as mesmas coisas.

Da mesma forma que a cada vez que você revisa uma tradução aparece uma solução melhor para o mesmo problema, a cada vez que eu traduzo, de novo, uma frase cujo esqueleto já traduzi mil vezes, tenho uma chance de apurar a forma, testar novas soluções. Um processo absolutamente contrário ao de muitos colegas que dizem ter aprendido com a variedade de textos, com o em um dia traduzir um filósofo e no outro traduzir literatura erótica.

Ensinei inglês muitos anos e, às vezes, ainda penso como professor de inglês, vendo os meus textos repetitivos como um tipo de pattern drill em que se repete, à saciedade, um padrão sintático, com o objetivo de melhorar a cada repetição. É mais ou menos assim que vejo as minhas repetições.

Em suma, a repetição pode existir no original, mas não é obrigatória na tradução. Tradução não se repete: melhora-se. Cada sugestão da memória de tradução é um desafio que me ri na cara e diz: Vai, melhora o que você fez antes! Você não diz que é tradutor? Então? E a cada vez que não consigo aperfeiçoar uma tradução antiga, me sinto um derrotado.

Quer dizer, coincidências totais, os famosos e famigerados 100% matches, existem somente na memória de tradução. Mas quem diz que memória de tradução tem cérebro? Ou coração?

quarta-feira, 26 de março de 2008

Eu e o Venuti

Escreve o colega (e eu resumi barbaramente):

…entretanto, sendo também admirador e estudioso da obra de Lawrence Venuti, fico bastante chateado, diria mesmo triste, quando leio você utilizando expressões como "isso o livrinho do Venuti não ensina".

Realmente esse autor não oferece esse tipo de orientação, mas simplesmente não é esse o objetivo do trabalho dele.

Concordo com a falta de formação para tradutores voltada realmente para a atuação profissional mas também dou muita importância à formação acadêmica em tradução, que acredito proporcionar um valioso suporte no processo tradutório, e também à pesquisa na área. Não gosto de ver a formação e a atuação profissional se apresentando como processos opostos e quase antagônicos.

A mensagem veio assinada, além de ser correta, educada e identificável. Mas o autor parece preferir o anonimato, dado um trechinho que omiti. Por isso, cito aqui, com alguns cortes, sem lhe mencionar o nome. Minha resposta, nos parágrafos que seguem.

Felizmente, não vejo diferença alguma entre sua posição e a minha. Eu digo que isto e aquilo o Venuti não ensina e você concorda. Eu jamais disse que formação acadêmica carece de importância, mesmo porque, por carecer dela, sei que valor tem, talvez mais do que os que fizeram um bom curso superior. E veja que aqui, na Aulavox e onde eu esteja, sempre digo que há vários caminhos que levam à tradução e que o melhor deles, hoje, é uma boa faculdade.

Também sei que o objetivo do livro dele não é ensinar a lidar com o mercado nem nada disso. Nem acho que ele devesse abordar esse assunto, de que provavelmente ele tem pouco ou nenhum conhecimento.

Você afirma que reconhece a importância dos assuntos de que trato aqui no blog, em alguns pontos de sua mensagem que omiti e diz que concorda que falta formação para tradutores voltada realmente para a atuação profissional, que é uma das minhas bandeiras.

Você não gosta de ver formação e a atuação profissional se apresentando como processos opostos e quase antagônicos e este é mais um ponto onde concordamos: formação acadêmica e, digamos, capacitação profissional, são complementares, duas faces do sucesso profissional.

A dificuldade está em que você aparentemente imagina que ao dizer que algo não se encontra no livro do Venuti eu estou criticando o Venuti (ou o Mounin, que era a moda há alguns anos, ou o Catford, que fio moda antes ainda ou quem quer que seja). Não, não é isso. Estou usando "Venuti" aqui como um símbolo do estudo teórico da tradução e, quando digo que "não está no livrinho do Venuti" estou ironizando não o Venuti, mas aquelas pessoas que julgam o estudo teórico da tradução suficiente e que tudo o mais cada um que aprenda como melhor puder, porque isso não é obrigação de faculdade ensinar.

Por exemplo, ainda continuo achando um absurdo num curso de graduação não se ensinar a usar ferramentas informáticas de auxílio à tradução, porque a primeira coisa que se pergunta a um candidato a tradutor, em pelo menos 50% dos casos, é se sabe usar memória de tradução. Para mim, essas ferramentas fazem tanto parte da vida do tradutor como o estetoscópio faz parte da vida do médico. E o médico aprende a auscultar o paciente na faculdade, não "na prática".

Quer dizer, nada contra o Venuti, mas é preciso ir além dele. Há muita coisa importante, indispensável mesmo, que o livrinho dele não diz.

Termino agradecendo a mensagem. É sempre bom o diálogo com os leitores. A gente escreve, escreve, esceve e são os comentários que nos fazem crer que alguém leu, que não escrevemos em vão, que não falamos no deserto.